Janeiro 19 2012

 

 

Viver não é um prazer. É isto que digo hoje. Incluídos os momentos de prazer que tenho o prazer de viver. Como toda a gente. Imagino. Estava aqui a ver se fazia isto funcionar como um espelho. Isto de escrever. De vez em quando resulta. Quando se fazem declarações pró deprimentes é melhor arranjar um método de repor a dimensão mental da realidade.

 

Agora devia começar para aqui a desvelar as minhas causas e motivações. Mas não me apetece nada. Portanto, o artifício do espelho não vai resultar.

 

Talvez deve começar a construir embirrações. Assim como quem dá socos para descarregar. Podia começar a enumerar coisas erradas. Dos outros, claro. Claro porque se fosse para me auto criticar era melhor estar quietinha. Pois se estou de saco cheio comigo.

 

Começo a detestar esta minha confusão de identidade pessoal. Sempre a confundir-me com um barco muito pequeno. Daqueles que as crianças levam impropriamente para as piscinas que não são das suas casas mas onde não está indevidamente escrito “Reservado o direito de admissão”. Porque devia. Uma piscina de hotel é só aparentemente pública. Não percebo como podem as crianças meter os seus barquinhos lá dentro. De qualquer modo, nunca vi nada disso num hotel decente. Estava apenas a conceber uma possibilidade para uma situação verdadeiramente irritante.

 

Siga. Ou melhor, voltando um bocadinho atrás. De facto comporto-me como esses barquinhos de que estava a falar. Ando assim um bocadinho ao sabor do que acontece por baixo, por cima e à volta. Detesto a ideia de ser transportada pelas mãos de uma criança e ser atirada para cima de um charco muito azul. E detesto ainda mais que me saltem para cima. É por isto que viver não é um prazer. Uma pessoa não pode andar na vida a ver-se sob esta forma. Simplesmente o organismo não aguenta. Talvez exista até o risco de vir a padecer de alzheimer quando for idosa. Tenho ponderado esta hipótese. Até faço testes à memória. Reparei que me esqueço dos nomes das pessoas esquecíveis. No mesmo minuto que os ouço.

 

Ainda hoje me apresentaram uma pessoa. Esqueceram-se de dizer o nome. Nem me dei ao trabalho de perguntar. Estava certa de que me esqueceria. De qualquer modo, fiz um esforço para decorar a cara. É que vou encontra-la algumas vezes certamente. É isso. Uma chatice.

 

Hoje vinha a sair quando começou a manifestação de protesto contra as reformas da saúde. Achei que os manifestantes tinham má voz. Notava-se na voz uma grande falta de energia. Quem não se sente com energia não faz uma manifestação. Adia para um dia mais propício. Tudo aquilo parecia uma coisa para não levar a sério. De tal forma que só vi chegar muito lentamente um carro da polícia. De facto não era preciso mais. Apesar da dimensão, no que ao número de pessoas respeita, tratava-se de uma manifestação ordeira, semi silenciosa, desnutrida. Logo, sem esperanças. Tal e qual o António José Seguro. Mas não o tipo da UGT. Este parece mais um leitão preguiçoso, sendo, claro está, uma pessoa que merece todo o respeito por isso. Por ser pessoa.

 

Noto que cada vez me sinto mais de esquerda. O que é dramático. Porque a esquerda não existe, não é?

 

Agora tenho que parar. Vou ter de ir jantar fora. Tenho gente à espera.

 

publicado por Cat2007 às 20:58
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Janeiro 14 2012

 

 

É fácil deixar a marca do açúcar queimado numa travessa de leite-creme. Vi muitas vezes a minha tia Irene fazer isso com um ferro que aquecia previamente na lareira. Tinha os olhos azuis-claros da cor do céu. Quase transparentes. E como tinha um pedaço de sol dentro de si, havia um brilho próprio que lhe iluminava o rosto permanentemente. É por isso que eu sentia que lá fora todos os dias eram quentes e cheios de luz natural. E aquela enorme cozinha de móveis rústicos de madeira escura era sentidamente ainda mais ampla e respirável.

 

Esforcei-me sempre para não perder aquilo que se transformou no meu ritual de prazer infantil. Ver a tia Irene queimar o açúcar do leite-creme. Mais ninguém podia fazer aquilo. Porque não conhecia outra pessoa que tivesse assim um pedaço de sol lá dentro. Só ela podia usar um ferro em brasa para criar um efeito de caramelo e um sabor a sol doce. A tia Irene já morreu há algum tempo. Assim, não como leite-creme. Creio que este doce deveria sair da lista de sobremesas dos restaurantes onde eu vá.

 

Aquilo que se considera “uma má experiencia de vida” é sempre uma ponderação totalmente subjetiva. Ao afirmar isto estou ao mesmo tempo a aceitar que muitas das minhas más experiências não o são para muitos dos demais. A dor é pessoal e a resposta á dor é individual e única malgrado as características universais de todo o ser humano. A dor molda o comportamento.

 

Embora muitas vezes o processo doloroso nos possa reproduzir inegavelmente mais inteiros ou preenchidos, o sofrimento fica na memória para sempre. E pouco importa que já nem nos lembremos das suas origens. As marcas perdurarão. Muitas vezes sinto-me uma travessa de leite-creme onde por cima alguém queimou açúcar e não era a tia Irene.

 

publicado por Cat2007 às 18:33
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Janeiro 05 2012

 

 

A Teresa Guilherme está anafada e estranha. Não sei se sempre foi estranha. Anafada é que não era. Embora nunca deixasse de ser incompreensivelmente baixa desde que deixou de crescer depois de ultrapassar a idade até à qual isso pode suceder às pessoas. Está anafada e estranha pois. Também está notoriamente mais velha.

 

Em síntese: Teresa Guilherme está anafada, mais velha e estranha, sendo certo que sempre foi muito baixa.

 

Nunca vi a Casa dos Segredos. Nada. Na troca dos canais passei por lá um ou dois minutos. Talvez tenha parado um pouco mais de uma vez em que achei que devia perceber de que falavam aquelas pessoas que ali estavam. Afinal não falavam de nada. Adeus.

 

Entretanto a TVI repetiu o seu programa de Fim de Ano e eu vi a Teresa Guilherme anafada em traje de gala. Deixei-a dizer duas frases. Eram estranhas. No conteúdo e na forma de expressão. Fiquei convencida a estar ali um bocado com ela.

 

Há a energia própria de uma “velha tia gaiteira”. É uma energia que pode não ter a mínima correspondência com a realidade. Mas solta-se pelo ar, entra pelas câmaras dentro e assenta no nosso tele colo como se houvesse ali um certo cansaço nas pernas. Assim como se a alma fosse infinitamente mais leve do que o corpo.

 

Por outro lado, existe uma alegria jovial cheia de sede no fim. Um espírito de alta competição para os cem metro nos campeonatos do mundo de atletismo. Uma necessidade de tomar um Isostar a seguir a cada prova intensa. Teresa Guilherme adora a paixão e as paixões jovens dos jovens que lhe chamam “Teresinha”.

 

Para além de se entregar de corpo e alma na apresentação e condução do seu programa e da credibilidade que exibe quando lê os texto que lhe estão destinados, a verdade é que Teresa Guilherme parece adorar realmente tudo aquilo. E tudo aquilo é o programa. Em primeiro lugar, um ponto para encontro com pós adolescentes que, de plena consciência, se prestam, antes de mais nada, a ser objecto de voyerismo na versão mais cretina que se conhece. Em segundo lugar, um produto integrado por textos profundamente tinhosos e de cariz altamente bisbilhoteiro, escritos à base de trocadilhos usados com se fossem parábolas biblicas e ditos no ritmo das quadras populares.

 

publicado por Cat2007 às 23:43

Dezembro 20 2011

 


 

Estou para aqui na cama com o computador em cima das pernas. Dói-me um bocadinho o pescoço porque a posição é má. Queria publicar uma fotografia que tirei da minha namorada. Não consigo fazer copy & paste. Também não estou para ir procurar outros processos que tornem a coisa viável. Mudei o perfil dela no facebook, colocando lá essa fotografia. Acho que está bem.

 

Andámos a fazer obras em casa durante quase três meses. Agora estou com sintomas de envenenamento por causa das tintas e vernizes. Se não piorar pouco importa porque valeu imenso a pena. É nossa. A casa. Penso que agora por causa disso talvez me case. Por causa disso não quer dizer diretamente por causa disso. Mas que isso faz lembrar a coisa. O amor também, e essencialmente.

 

Estivemos a ver a peça dela sobre a morte da Cesária Évora. Disse-me que foi feita no desespero da falta de tempo. Não se notou nada. Gostei muito. Tenho muito orgulho do jornalismo da menina. Agora está a dar o "Trio de Ataque" na RTP IN. O mais interessante do programa é mesmo ver o Júlio Machado Vaz a expandir-se em todo o seu benfiquismo. Inesperado. Para mim pelo menos. De qualquer forma, já vou mudar de canal. Porém, queria ainda mencionar a Maria João Silveira quando "lançou", a partir do estúdio da mesma RTP IN, o último Benfica-Sporting. Informou na altura que estávamos a poucos minutos do inicio do "derby da segunda circular". Como se sabe, esta espécie de "boca foleira" é coisa que os não- benfiquistas e os não-sportinguistas costumam apregoar. Ou seja, maioritariamente os portistas. Concretamente e em especial Alberto João Porto da Costa. Um conhecido adepto portista convicto. Depois do espanto face ao desplante pensei que isto não podia ser coisa dela. Palpita-me que não sabe assim tanto de futebol. Portanto o pivot só pode ter sido escrito por um jornalista do desporto. Como Maria João Silveira é casada com Rui Loura, presumo que este não tem nada a ver com isso. Como parece evidente, um marido jamais usaria a mulher para dizer as coisas que o próprio não tem coragem de declarar. Quanto mais um homem do norte. Claro.

 

Agora levantei os olhos para a televisão ali pendurada na parede. Ainda não peguei no comando. Vi um tal Miguel Guedes do FC Porto. Nada contra ele, não fosse absolutamente entediante. De corpo e espírito. Segundo parece, alguém está preocupado com o Manchester City. Não tenho nada a ver com isso.  

 

Ainda não mudei o canal porque continuo a escrever e preciso de pensar onde quero ficar na televisão. Deve ser na SIC Notícias, desde que não esteja o Mário Crespo. O que não sucederá a esta hora. Posso assim ficar descansada. Já devia ter mudado. Mas como não, ouço agora que vão analisar os lances do Benfica-Rio Ave. Parece que devia ter sido mostrado a alguém um cartão amarelo quer "seria o segundo". É melhor desligar  a cabeça. Parecem uns miudos a falar. Credo!

 

Começei por escrever sobre a mulher com quem partilho a minha vida e sigo diretamente para o futebol. Não é cool.  Só pode ser o meu inconsciente a funcionar. Ela detesta futebol. Claro que quanto mais esta aversão se manifesta, mais eu penso no jogo. É obvio. Se nos falam das coisas acordam-nos para as questões. De resto, não sou nada aquele género de adepto da bola que merece uma sova diária por estar sempre a sentir e a dizer coisas estúpidas. Gosto de futebol porque o Benfica existe e ponto. Gosto do Benfica mesmo quando perde. Mais nada. Sou muito lúcida sobre o tema.

 

Sobre o envenenamento, pensei que estava a ficar atrasada mental. Nem me ocorreu que eram as substâncias tóxicas que me estavam a deixar com um pungente cansaço e uma confusão mental de doidos. No mais, Júlio Machado Vaz acabou de dizer que "o Benfica não justificou o 5-1".

 

Agora vou tentar de novo a fotografia. Se conseguir, aparece lá em cima. Caso contrário, logo se vê.

 

... Olha consegui! Pois sou eu quem segura, sim. Foi assim que a tirei. 

 

Claro que sou girissima e feminina. Era o que faltava!

publicado por Cat2007 às 23:01
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Dezembro 02 2011

O fado é património imaterial da humanidade. Porquê? Não estou a referir-me aos fundamentos da atribuição. Falo das razões que nos fazem dizer que sim, sem dúvida. 

 

Numa entrevista Amália esclarecu as origens do fado. Foram os marinheiros que saiam nas caravelas pelo mundo que o sentiram, inventaram e  cantaram por todos os seus cantos. Do mundo. José Regio escreveu o poema e Amália deu-lhe a sua voz. O "Fado Português" Ei-lo:

 

 

 

 

Depois a Mariza nasceu como "The Best World Singer" com a "Gente da Minha Terra" que Amália um dia ecreveu mas nunca cantou e como que lho deixou guardado sem saber. Foi o destino, talvez. O fado. Abaixo:

 

 

 
 E, por fim, Lisboa.
 
 
 

 

 
 

 

publicado por Cat2007 às 15:30
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Novembro 25 2011

 

Se eu amasse alguém, hoje diria isso. Amo-te. Se eu amasse alguém talvez a pessoa que eu amasse tivesse que me bater por desespero, uma vez que poderia parecer que eu não mudo. Talvez me risse depois de uma agressão tão infantil. Olhos nos olhos. Talvez ela chorasse e tapasse a cara com as mãos e perguntasse ao abstrato: “Porque é que tenho que ser sempre eu a mudar?”. Talvez as lágrimas me caíssem ao mesmo tempo que o riso dado o toque que concerteza levaria na alma. E a abraçasse até lhe fazer doer sem conseguir. Talvez...

 
 

 

 

publicado por Cat2007 às 17:11
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Novembro 24 2011

 


 

O meu terapeuta esclareceu-me que, em pouco tempo, as putas têm a vida emocional destroçada de uma forma irreversível. Uma mulher que vende o corpo nestes termos nunca mais recupera das emoções. Talvez por isso, ou mesmo por isso, a menina quisesse à viva força “transar” comigo. Deve ter reparado no meu olhar uma forma de olhar para ela de que já não se lembrava. Olhou para o meu corpo com desejo porque não tinha os contornos masculinos próprios dos corpos que desde há algum tempo a vinham ferindo. Tive pena. Mas  e também por isso “não”.

 

Tenho impressão que o interesse dos portugueses em putas e ginásios, designadamente no Holmes Place, subiu em flecha. Não. Na verdade, não é só uma impressão. Vi no Sitemeter aqui do blog. Tenho portanto a minha estatística pessoal. Os posts (de longe) mais lidos são: HOLMES PLACE - Quem não foi ao engano... (http://ogatogaga.blogs.sapo.pt/59602.html) e PORQUE É QUE AS PUTAS NÃO BEIJAM E OS CLIENTES NÃO SE IMPORTAM (http://ogatogaga.blogs.sapo.pt/67752.html), sendo certo que, de há umas semanas para cá,  as putas estão com o triplo dos visitantes do Holmes. Bom, é uma estatística que vale o que vale. Para mim vale mais um motivo para pensar escrevendo. Pronto. Já agora, alguém se lembra que um dos maiores ícones do cinema porno se chamava John Holmes? Não falo nisto por nada. Só para partilhar um pouco de cultura geral. E porque me veio assim à cabeça.

 

Creio que é da crise. O pessoal tem de acabar com despesas fixas injustificadas. Pagar um ginásio sem lá ir. Tem de ser um dos casos. Sai dinheiro e não se vê beleza física nem a calma das endorfinas. O problema é que o HP não facilita nisto das despedidas dos sócios. Por isso o pessoal procura e procura a forma, o meio de se livrar da “cena”. Não será fácil, digo eu que já expliquei no post acima indicado o que me aconteceu por lá.

 

Por outro lado, tenho muita pena, mas não sei muito sobre os preços das putas. Penso que no “Elefante Branco” anda à volta dos 200 € por sessão. Mas não sei ao certo porque não sou puta nem nunca fui às putas. Porém, fui ao “trombinhas” algumas vezes. E, é verdade, também visitei o “Gellary” ou “Gallery”, já não sei. No entanto, acho que este último encerrou, tendo as funcionárias mudado para o primeiro.

 

Fui com a curiosidade sociológica dos arrogantes e o espirito de visitante do zoo. Pus-me logo a falar com uma menina para saber “coisas da vida”. Mas não perguntei o preço. Ou se perguntei não me lembro. Não me interessava. De qualquer forma, houve ali uma insistência. “Você não quer transar?”. E eu: “Não. Não, muito obrigada”. Acho que ela queria mesmo “transar”, independentemente de estar a tratar de “business”. A ver se juntava as duas coisas. Eu é que não queria. Sou uma moralista, ora essa! Sou uma moralista e tenho nojo, com todo o respeito.

 

Entretanto, uma das minhas amigas foi-se embora irritada porque achava aquilo tudo indecente. “O que é indecente, está tonta?”, consegui perguntar antes dela arrancar desabrida. “Estão a faltar ao respeito a estas pessoas. Isto é vir aqui para rir dos outros e tal…”.

 

Talvez tivesse razão. Mas deixei-me ficar a ouvir a puta. Como poderia eu ter um blog deste género sem ter alguma coisa para contar? No mais, eu interesso-me pelas pessoas, caramba! Sem ironias. Afinal de contas, talvez a minha amiga estivesse apenas a ser histérica. Sim é isso. Não tinha muita razão não. Até porque o espirito parolo com que entrei desvaneceu-se imediatamente no confronto com a realidade. Vi a humanidade mascarada pela make up a passear-se de minissaia e “tacones”. Vi a humanidade nas gravatas sentadas em sofás de imbecilidade. Vi os copos transparentes a tilintar, brilhando demais sob a impressão das luzes psicadélicas. E tudo me impressionou. Uma parte da vida que não faz parte da minha vida mas que é a vida de tantas pessoas. Na verdade, ser puta e cliente é uma condição da vida de pessoas. Quando deixamos de poder ignorar isto porque, por exemplo, fomos ao “Elefante” compreendemos finalmente que a vida também é isto e que por isso também nos diz respeito. A vida transcende largamente o “mundinho” que, iludidos, pensamos que construímos só para nós. Mais nada.

 

O meu terapeuta esclareceu-me que, em pouco tempo, as putas têm a vida emocional destroçada de uma forma irreversível. Uma mulher que vende o corpo nestes termos nunca mais recupera das emoções. Talvez por isso, ou mesmo por isso, a menina quisesse à viva força “transar” comigo. Deve ter reparado no meu olhar uma forma de olhar para ela de que já não se lembrava. Olhou para o meu corpo com desejo porque não tinha os contornos masculinos próprios dos corpos que desde há algum tempo a vinham ferindo. Tive pena. Mas e também por isso “não”.

 

Talvez as putas de rua estejam a prestar serviço a um preço acessível. Mas aqui é que eu já não tenho estórias para contar. Nunca me aproximei. Talvez por medo. Como abordar uma puta de rua se não se está a fazer um trabalho académico ou jornalístico? Mentir a dizer que é isso? Não sou capaz. Não quero ser capaz. É detestável mentir. É ainda mais detestável mentir a uma pessoa que tem de viver de mentiras. Não sei nada sobre as putas de rua. Apenas que a maioria se droga.

 

Parece de facto ilógico querer acabar com uma despesa num serviço supérfluo para ir fazer outra, talvez maior, noutro serviço supérfluo. Sabe-se que quando um fumador pensa em deixar de fumar o desejo de acender um cigarro é imediato. Porque uma sensação de angústia se alivia com uma impressão de prazer. A nicotina liberta endorfinas. Substâncias químicas de bem-estar. O exercício físico também. Liberta. Mas é doloroso no processo. O sexo igualmente. Mas dá prazer no processo. Na angustia da crise, as pessoas estão a precisar urgentemente de químicos. É assim o organismo humano. Dependente.

 

Penso que o “Fado falado” fala de putas. É dito por João Villaret. A “Emilia Cigarreira” não pode ser outra coisa, senão uma puta de Alfama. As meninas católicas decentes  dos meados do século XX em Portugal não iam para a cama com marinheiros nem lhes espetavam a navalha. É uma puta que ama e tem ciúmes. Poucas coisas existem que me emocionem mais do que esta peça escrita como foi e dita como está. Deixo aqui.  

 

 

 

publicado por Cat2007 às 20:57
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Novembro 22 2011

 

 

As pessoas não são apenas obesas mórbidas ou do slim type, conforme se requer na publicidade ou na moda - onde também se aceita, especialmente para os homens, o tipo musculado ou dito bem definido.

 

Em geral, e com excepção do que se passa nos Estados Unidos, designadamente no estado do Texas, onde larga percentagem da população tem as dimensões de um tanque de guerra, o tipo da generalidade das pessoas é average.

 

Os average podem dividir-se em subgrupos. Há uns average em forma. Outros um tanto moles de músculos. Mais uns quantos a caírem para o lado slim. E ainda alguns com meia dúzia de quilos a mais. São todos average. Estão também dentro desta categoria aqueles que são do género leitãozinho terno sempre em movimento e com a energia do cão lá de casa. O meu o pai, desde que aos cinquenta anos deixou de fumar 4 maços de cigarros por dia, ficou assim. 

 

Porém, sobre o ponto de referência average, e nunca sobre o slim, há gente com excesso de peso. Quero dizer há gente com mais de 10 kg a mais. Ou seja, pessoas que  sobre o average com  mais uns quilitos têm a distinta lata de se apresentarem aos outros com cerca de 15 sobre essa marca. Ora, se não há doença isto parece-me inadmissível! Quer dizer, a que propósito uma pessoa pára, come e estaciona nos +10+15 = 35 kg a mais? 

 

Do meu ponto de vista, isto é gente insuportável. Percebe-se perfeitamente a causa das coisas. Em primiro lugar, sempre a movimentarem-se pelos mínimos. Braços, pernas, dedos. Até o raio do pescoço! Só se apressam quando é para sair e ir comer qualquer coisinha rápido. No mais, olha-se para esta gente, e parece que estão na vida em permanente refastelanço.

 

Quando o contexto é o local de trabalho o princípio guia é: os outros que se "lixem" ou se adaptem. Pois então! Deus nos livre de precisar da colaboração destas criaturas do anti. E se não precisarmos, estar diariamente a olhar para isto é uma perfeita tortura. Olhar para e ouvir uma criatura que, se puder e as circunstâncias lho permitirem (o que quase sempre sucede), limita-se a mexer os olhos. Faz actividade física? Faz, sim. Passa o dia a mexer os olhos. E também  todos os músculos envolvidos na própria actividade de comer. Nada dos ombros para baixo.

 

Comer um pastelinho. Este pessoal adora estar sempre a comer um pastelinho. De 20 em 20 minutos se for possível venha um pastelinho! Vejo-os mexerem-se. Os músculos abaixo do pescoço, quero dizer. Há um estímulo, claro. Para ir o mais rápido possível e entrar no elevador. Descer um andar, comprar o pastelinho. Voltar as costas ao balcão dos pastelinhos em jeito de  quem está a fazer caixinha, envolvendo emocionalmente o pastelinho. Abrir a boca e devorá-lo pela metade. Entrar no elevador para subir um andar. Abrir a porta do elevador de mão vazias, olhos semi-esbugalhados, os últimos movimentos dos maxilares. Um respirar fundo à laia de suspiro.

 

De volta à cadeira. Trabalho para fazer. Muita desenvoltura mental. Para arranjar desculpas pelo trabalho que não está feito porque não apetece realmente fazer. São desculpas de cima para baixo. A culpa não é nunca do paquiderme é sempre de outra coisa qualquer. Não há recursos e aqui nós somos só um. Diz o animal de grande porte. Nós somos só um? Interrogo-me eu por breves instantes. Depois vejo que é verdade. A área ocupada corresponde à que utilizariam duas pessoas slim. Está correcto. Vivem dentro do bicho dois slims sufocados. É por isso que não se conseguem mexer.

 

Não sei porquê, mas acho que a culpa é do elevador.  Digo isto porque odeio andar de elevador. Tenho medo que pare quando eu estou lá dentro.

 

publicado por Cat2007 às 14:15
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Novembro 21 2011

 

 

 

 

Um homem que mudou de sexo obrigado na base da violência. Um rapaz todo excitadinho com as meninas que parecia ter grande apreço pelo membro mobilizador dos seus instintos mais primários - logo e depois da fome e da sede extremas, claro. Bom, ficou uma miúda giríssima tem de se dizer.

 

Entre outras coisas que aprecio nele, Pedro Almodovar é o rei do insólito. Um conjunto de freiras “agarradas” à heroína, o que seria? Um enfermeiro que engravida no hospital uma doente em coma, o que seria? Um homem marcadamente heterossexual assume a identidade do irmão transexual e farta-se de apanhar no “traseiro” para “subir na vida artística", o que seria? São os inabituais e inesperados passados de Almodovar de que me estou a lembrar agora. Mas creio que em qualquer um aqui não mencionado se verifica a existência do insólito.

 

Por outro lado, o toque de brilhantismo de Pedro vem também do facto de não ser um fazedor de filmes de ficção científica, de terror ou de outro qualquer género do fantástico ou da fantasia balofa que me convence em definitivo a não ir ao cinema.

 

E, para não fugir à regra, em “A pele que habito”, o realizador espanhol trouxe mais do mesmo do que a gente gosta, admitindo-se que haja quem não goste. Um homem que mudou de sexo obrigado na base da violência. Um rapaz todo excitadinho com as meninas que parecia ter grande apreço pelo membro mobilizador dos seus instintos mais primários - logo e depois da fome e da sede extremas, claro.

 

Bom, ficou uma miúda giríssima tem de se dizer.

 

Antes de sair para o rapto que havia de originar a mudança radicalíssima da sua vida, insistiu, creio que pela milésima vez, na possibilidade de “saltar para cima” da lésbica que trabalhava com ele na loja da mãe - dele. Não deu. Apanhou a “tampa” número “n” e lá foi convencido que um dia ainda havia de conseguir.

 

E com efeito… Regressado seis anos depois – porque não pôde fugir antes - provocou finalmente aquele “flash” na “gaja”. Os olhos dela brilhavam intensamente sobre os de… Norma. Que porém tratou logo de explicar quem era. Deu detalhes que só ele, a Norma, podia saber. A mãe e a outra não puderam contornar a verdade. Norma era ele. Pensavam que estava morto. A mãe ficou atordoada. A lésbica, talvez estúpida,  pareceu-me com cara de boas expectativas.

 

Bom, mas o sumário do insólito. Um homem perfeitamente confortável no âmbito da sua biologia e satisfeito com a sua orientação heterossexual é transformado em mulher – numa mulher muito bonita ainda por cima -, o que seria?

 

Seria aparentemente uma tipa a quem a maior parte dos homens gostaria de “saltar para cima” – assim como, por exemplo, ele outrora com a lésbica. Assim, a vida amorosa deste homem deverá concretizar-se em avanços com lésbicas ou les-curiosas e fugas e recuos relativamente aos homens atraídos.

 

De facto, não é mesmo a forma que demarca o conteúdo. Mas a essência. Como se tivesse nascido com o sexo errado, este tipo tem de operar. A ideia da necessidade de reverter o processo não chocará ninguém e parece ser o caminho mais certo. Presumo que não haverá muito quem discorde de mim. E quero crer que todos percebem onde quer Almodovar chegar com isto.  
 

Por outro lado, a Norma de Bellini, com libretto de Romani, também é uma obra sobre o insólito. Trata basicamente da dor de cotovelo e das coisas que as pessoas são capazes de fazer por causa disso. A trágica heroína começa por ameaçar matar os seus próprios filhos. Depois desiste mas lá acaba por conseguir um estratagema para morrer queimada com o seu amor. E em síntese, a outra ficou, embora não literalmente, “a arder”.

 

Acredito que Almodovar se ande a inspirar nestas coisas. Basta atender ao mais que o filme nos diz. Uma neura aqui, um homicídio ali, um processo de loucura acolá… É a Norma de Bellini num puzzle muito difícil de montar. Sobretudo porque também lá está a genuína Norma de Almodovar. Bravo! Bravo! (de pé).

 

publicado por Cat2007 às 16:20
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Novembro 15 2011

 

 

Ninguém é insubstituível. Que mentira! Informo que tentei substituir um cão, comprando outro da mesma raça e cor. E ficou provado que há cães insubstituíveis. Não tem nada a ver. Um cão com o outro. E o espaço por preencher que me alterou por dentro lá está para ficar. Talvez este ganhe o seu próprio espaço. Será então a partir desse momento que também ele se tornará insubstituível. E eu mudarei mais um bocado se o perder.

 

Pode-se chamar humanistas às pessoas que defendem a ideia estúpida dos seres poderem ser como que fungíveis - comparáveis as um pastel de bacalhau ou a uma torta de Azeitão? Desaparece um e há logo outro igual ali mesmo ao lado?

 

Ou chamemos-lhe apenas estúpidas e está bem assim? Para os estúpidos importa a humanidade como um todo e nunca o ser humano individual característico e único. Creio que assim é mais fácil viver e lidar com os problemas e as merdas que se vão fazendo. Sempre a pensar na humanidade. Nunca a pensar no indivíduo.

 

Claro que um desaparecimento não afecta as coisas. A Terra gira, os mercados agitam-se, os governantes projectam-se (em principio mal), os lugares de estacionamento não aumentam. É daqui que vem a frase. A tal. “Ninguém é insubstituível”. Certo. Aproveitemos então para cometer pecados e pecadilhos de frente e nas costas dos humanos individualmente considerados com quem nos vamos cruzando aqui e ali.

 

No auge do seu cinismo Staline dizia: “A morte de um homem é uma tragédia. A morte de mil é estatística”. Lá está. Um humanista. Não parece mas é. Na verdade, não é possível que numa guerra morra apenas um homem. Pelo menos numa guerra a sério. Staline queria justificar a guerra e não falava com a voz dos sentimentos que não tinha. Antes rezava de acordo com o que sabia do que ia vendo da vida das pessoas que via. A morte de um homem é uma tragédia para quem o ama. Mas, mais importante para o russo, a morte de um homem não podia suceder sem um motivo de Estado porque de outro modo é um atentado á ordem do Estado. Ora, Estado e bem comum são sinónimos neste contexto. Bem comum quer dizer o que é bom para todos e pode ser menos bom para um ou dois ou três, desde que sejam poucos de cada vez. E é como eu disse, Staline afinal era um humanista. Estava preocupado com todos.

 

Enfim, se pensarmos assim, no todo de todos que nos abate individualmente, podemos afirmar com propriedade que “ninguém é insubstituível”.

 

publicado por Cat2007 às 17:53
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