CAFÉ EXPRESSO

Março 24 2017
 

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Era uma vez eu sozinha na esplanada da Brasileira do Chiado. Quando me apercebi, já tinha dado mais de cinco euros em esmolas. E apercebi-me quando o mesmo pedinte se apresentou pela segunda vez. Até então estava muito distraída a distribuir moedas. Depois pensei que não podia ser assim. Que é materialmente impossível “dar qualquer coisinha” a cada um que nos pede. Ou seja, a todos. Assim sendo, a solução mais justa é não dar nada a ninguém. Foi o que conclui e coloquei em prática a partir dessa altura. Não obstante, fico triste quando me pedem. Além de que, pese embora a decisão tomada, sinto-me culpada por não dar. É por isso que baixo a cabeça, evitando cruzar o meu olhar com o deles.

 

Os padres dizem: “façam o que eu digo. Não façam o que eu faço”. Não sei se dizem realmente. Mas o meu pai disse que sim quando eu, em miúda, lhe perguntei se os padres pecavam. Seja como for, a frase significa que há duas formas distintas de agir. A nossa forma real de agir e aquela que não se concretiza e que tem a ver com o modo como pensamos que seria melhor atuar.

 

Num teste de inteligência emocional, que fiz há algum tempo, vinha uma pergunta sobre o tema dos pedintes. E uma das hipóteses de resposta coincidia precisamente com a minha atitude atrás indicada. Baixar os olhos. A questão é que eu não dei esta resposta. Por isso fiquei sem saber o significado da mesma.

 

De resto, fui mal avaliada nesse teste. Ou melhor, fui bem avaliada. Não tive boa nota. Porque estive sempre a responder com o que me parecia mais apropriado. Creio que em nenhuma questão respondi em consonância com os termos em que fazia as coisas. O que está mal. E daí o referido mau resultado.

 

publicado por Cat2007 às 17:15
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Março 23 2017

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O ego e a personalidade privada, embora sejam realidades distintas, confundem-se. O ego é refletido pelo conjunto de necessidades emocionais do ser, a maior parte das quais não é voluntariamente revelada a terceiros por que o ego é um gordo disforme. A personalidade privada é, genericamente, representada pelas características emocionais e mentais próprias do individuo. A personalidade é privada porque a maioria dos seus detalhes não aparece para a generalidade das pessoas, uma vez que existe o medo de “dar o flanco”.

 

Assentes as duas noções dadas, é preciso acrescentar que as características essenciais da personalidade se esbatem em prol das necessidades emocionais. Isto em face da grotesca obesidade dos egos, claro.

 

Como disse, não é suposto revelar o ego aos outros em virtude do excesso de peso. Mas é mesmo por causa deste excesso de peso que ocorre a violação de fronteiras. O que é de dentro passa a ser exibido por fora. Ainda que inadvertidamente. Assim, os egos das pessoas andam a “marrar” uns com os outros. Na verdade, a vida corriqueira é um campo de guerra, sendo que cada batalha é quase sempre vencida pelos mesmos. Os que estão por cima. Como sabemos, a estória de David e Golias não é mais do que uma lenda contada no Velho Testamento da Bíblia.

 

O que eu quero dizer com o que antecede é que não é fácil viver no mundo dos adultos. Sempre tentei distanciar-me da compreensão do sistema. Porque sempre intui que não era coisa boa, uma vez que as respetivas regras não eram as mais transparentes nem as mais justas. No sistema não se aplica o sistema do mérito e o amor inexiste. Seja como for, tive que crescer e inteirar-me. Confesso que agora sofro mais um bocado.

 

publicado por Cat2007 às 17:02
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Março 17 2017

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Este fim-de-semana não estou cá. Vou até Vieira. Parto hoje. A expectativa do verde das folhas e das águas, bem como do oxigénio pesado começou a fazer o seu efeito. O pescoço principia a distender-se. É que sinto aproximar-se a sensação da incontornável leveza do corpo, que sucede quando uma pessoa se vai instalar designadamente no vale da Serra da Cabreira.

 

A casa fica dentro da vila num plano mais alto do que as outras e pode dizer-se que está só em relação à demais. A densidade da vegetação que a envolve é premente. De manhã vê-se o sol a bater no perfil dos montes a partir das janelas dos quartos.

 

Esta casa era dos meus avós. Depois passou para a minha mãe e para o meu pai (que eram casados no regime da comunhão geral de bens). E agora é do meu pai e um pouco nossa. Claro que nós dizemos e sentimos que é toda nossa. Porque, de facto, é (juridicamente a expressão de facto quer significar uma situação que se verifica materialmente).

 

Dou-me assim conta do nível de cansaço que me entabua.

 

publicado por Cat2007 às 16:13
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Março 16 2017

Foto de Catarina Veiga Miranda.

 

São 8h da manhã e já cheguei. É que hoje tenho que me ir embora mais cedo. É dia de terapia. É dia de terapia, e eu não faço a mínima ideia do que irei para lá dizer.

 

A verdade é que aquilo já não é a mesma coisa. Ou seja, os pressupostos mudaram. O processo de destruição/reconstrução, que é o core de qualquer psicoterapia, chegou ao fim há muito tempo. E, desde essa altura, a coisa corre no sentido de aprender a lidar com as limitações e as forças que existem e se revelaram no âmbito daquele processo.

 

Assim, é preciso que ocorram coisas que me ponham à prova. Depois eu conto-as lá e fico a perceber como me posiciono perante as mesmas para depois agir ou ficar sossegada. A questão do posicionamento é interior e, por isso, nada tem a ver com a inteligência ou com outras habilidades. Antes, está ligada a assuntos relacionados com o meu património emocional real que foi descoberto.

 

Dependendo das minhas emoções, eu sou capaz de lidar melhor ou pior com determinado problema. Sucede que, cada vez menos me surgem problemas. Porque tenho as emoções alinhadas. Ou seja, restam-me os problemas reais. E, com efeito, estes não são assim tantos. É por isso que às vezes não sei o que irei para lá dizer, como referi.

 

Diria que o que atrás foi dito se resume numa frase, e que é a seguinte: se as questões não estão relacionadas com a luta pela obtenção dos recursos mínimos necessários a uma subsistência condigna, com a saúde ou com a morte, a maior parte dos nossos problemas é inventada. Quando comecei a terapia só tinha problemas.

 

publicado por Cat2007 às 09:01
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Março 15 2017

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A vida consubstancia-se em factos que ocorrem com o correr dos dias e que fazem efeito sobre a nossa estrutura emocional/mental. Há dias em que aparentemente não acontece nada de incomum. E há dias cheios de novidades boas e más. Mas, mesmo nos dias em que parece que nada acontece porque se verificou apenas a repetição de factos de outros dias iguais, sucede a acumulação de mais um pouco de cansaço, de um acréscimo de rotina, enfim, de mais experiência ou idade. É, na verdade, mais um dia que passa sobre nós e sai da nossa vida material, enchendo-nos, porém, de um certo estar que se acumula e incide sobre o nosso espirito, aplicando-lhe transformações a curto prazo imperceptíveis, as quais se farão notar com o tempo. Com efeito, a experiência não é mais do que a vivência dos dias acumulados que passaram. A maior parte deles aparentemente inócuos, como disse. Não me faz, portanto, sentido pensar a vida como um processo que se passa lá fora.

 

Uma pessoa conhecida fez-me um discurso de desespero. “A minha vida está uma porcaria. Sinto que não presto”.

 

É assim. De facto existem pessoas que acham que a vida deve consistir num processo progressivo de mudança em que, em cada etapa, se está melhor do que na anterior - isto no que diz respeito à profissão e aos bens materiais. E estas pessoas, mesmo quando lhes é demonstrado em carne viva que as coisas não se passam assim, não percebem e viram-se contra si próprias.

 

Um falhado só o é se acredita que tem alguma coisa a ganhar e, no entanto, perde.

 

publicado por Cat2007 às 17:20
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Março 13 2017
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Estava a pensar no sentido da vida. E, claro, ocorreu-me o filme: The meaning of life dos Monty Python. Basicamente este filme diz-nos que não existe um sentido para a vida. O que existe são objetivos de vida. E que são dois: procriar e ganhar.

 

Não existe Deus. Só o Big Bang. As pessoas nascem e morrem sem pedir. Assim, pelo meio, têm de viver. Viver é, portanto, uma imposição. Deste modo, não se concebe que as pessoas comecem por gostar de viver. Assim seria de pensar que, logo que ganhassem uma consciência, as pessoas poderiam suicidar-se em massa. Sucede que cada um nasce com aquilo que é designado por instinto de sobrevivência, pelo que estão impedidas de fazer uma coisa destas. E é também o mesmo instinto que lhes ordena que procriem. Procriar é um processo que tem como fim último eternizar os genes.

 

As pessoas sabem que, salvo qualquer incidente inusitado, têm que estar por aqui por muitos e bons anos, pois. E aqui não é um lugar fácil de estar. Porque existem outras pessoas e os recursos são escassos. Portanto, a vida concretiza-se no travar de num conjunto de batalhas sucessivas em busca das coisas que os outros também querem. Daí dizer-se que a vida é uma luta. Morrer e nascer custa a todos. Mas viver ainda é o pior e muito mais difícil para quem tem menos recursos. Porque está sempre metido em lutas desiguais e com os acessos cortados.

 

Enfim, lembrei-me deste filme porque estava para alugar no videoclube da televisão.

 

publicado por Cat2007 às 17:23
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Março 09 2017

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É capaz de ser verdade que a primavera veio para ficar. Com este sol, ando cheia de energia. Num contentamento libertário que me faz abstrair das obrigações profissionais e desejar fugir para a praia do Casablanca para jantar acompanhada ainda de dia. Por isso mesmo, procrastinei. Mas hoje, como já não era possível persistir, deitei mão à obra e fiz um parecer de 16 páginas (60 pontos e 13 conclusões). Acredito que está ótimo. Pronto.

 

Quando era pequena achava, como é do senso coletivo, que um dia haveria de me casar. Porém, cresci e pus de parte tal ideia. E com essa ideia de parte fui atravessando várias relações. Algumas que hoje representariam divórcios se os respetivos casamentos se tivessem dado. Falo de relações duradouras em que o casal viveu em economia comum. Se a expressão divorciada não significasse a separação entre duas pessoas que se casaram, eu diria que já me divorciei três vezes. Portanto, sintetizando, eu, tendo vivido em condições análogas às dos cônjuges, nunca me casei.

 

E atualmente acontece-me o mesmo. Vivo em condições análogas às dos cônjuges. Porém, não sou casada. O que, não obstante, pode vir, desta vez, a suceder.

 

Posto o que fica escrito, quem ler pode achar que eu tenho tendência para estar em relações duradouras. E pensa bem. No entanto, devo dizer, esclarecendo, que as relações longas podem não ser estáveis. A minha primeira relação de viver, por exemplo, era muito instável porque a pessoa bebia e estava sempre a arranjar problemas com toda a gente. As relações instáveis, se duram, são extremamente perniciosas para o nosso bem-estar emocional. Isto pelas razões óbvias, as quais me escuso de estar aqui a enumerar por precisamente serem óbvias. Já a minha relação atual já dura há algum tempo e é estável. O que muda muita coisa em mim.

 

publicado por Cat2007 às 17:51
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Março 08 2017

Foto de Catarina Cabral.

 

Nos países anglo-saxónicos, os doutores são apenas os médicos. Já no Brasil, por exemplo, doutor é qualquer um que tenha muito dinheiro, licenciado ou não. Em Portugal, doutor é qualquer pessoa que tenha uma licenciatura.

 

Mas a verdade é que, quando uma pessoa termina a sua licenciatura, basicamente sabe muito sobre aquilo que estudou (pelo menos é o que se espera) e muito pouco sobre a vida. Relativamente ao curso de Direito, o que não se sabe, desde logo, é trazer o direito para a vida. Ou seja, não se sabe fazer nada, não estando sequer pronto para ir para uma caixa de supermercado.

 

Logo que terminei a licenciatura, entrei para uma sociedade de advogados antes dos prazos estabelecidos na Ordem para início do Estágio. Assim, estive a aprender com antecedência um bocado sobre como se articulavam as coisas. Os livros com a vida e a vida com os tribunais.Com efeito, os tribunais também não são a vida, devo dizer.

 

Nos tribunais não se aplica o direito à vida. Aplica-se o direito às provas. E é por isso que só por acaso é que se faz justiça em tribunal. Isto foi-me logo ensinado. “Em tribunal, ganha quem tiver as melhores armas, e não quem tem razão. As armas são as provas. E as provas não demonstram a realidade dos factos, como vem escrito no Código Civil, antes revelam os factos que é possível demonstrar na precisa forma em que a demonstração é feita”.

 

Porque as pessoas temem sempre a injustiça que se faz nos tribunais, bem como a demora dos processos, tentam sempre chegar a um acordo. Ontem foi feito um acordo extrajudicial que beneficiou mais uma das partes. E este acordo foi conseguido porque se chamou insistentemente senhor doutor a uma pessoa que não tinha uma licenciatura. É também certo que se utilizou a expressão “o abraço do urso”. Ora, o abraço do urso “se aperta esmaga”. Quem acabou por ser convencido que podia ser esmagado, cedeu. Quem cedeu foi o “senhor doutor”.

 

publicado por Cat2007 às 12:22
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Março 03 2017

Foto de Catarina Veiga Miranda.

 

O meu pai está a morrer de amor. Por causa da minha mãe. A minha mãe deixou-o há quatro anos. Morreu. E ele nunca soube viver sem ela. Nos últimos tempos tinham fugido os dois para um refúgio onde eram felizes só os dois. O meu pai nunca traiu a minha mãe. Sempre soube respeitá-la. Até ao último momento. A minha mãe também nunca traiu o meu pai. Amavam-se. Amaram-se a vida toda. No início foi difícil porque era uma grande paixão. Discutiam imenso. E diziam um ao outro que se queriam deixar. E que, se não o faziam, era porque “tinham os miúdos pequenos”. A verdade é que ficaram juntos até ao fim. E depois, entretanto, descobriram formas de não discutirem tanto. Embora, no entanto, continuassem a discutir. Há amores assim. Que são para toda a vida.

 

Todos temos a mania de olhar para as pessoas de outra geração como se as pessoas de outra geração não soubessem amar. Como se fossem materialistas e comodistas, bem como escravas das conveniências. Como se as relações amorosas dessas pessoas estivessem destinadas exclusivamente à função da procriação e à acumulação conjunta de bens.

 

Mas as coisas não são assim. O amor não respeita a gerações. O amor também não se abate com a idade. O amor respeita a pessoas. Mas não a todas.

 

publicado por Cat2007 às 16:29
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Março 01 2017

 

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“Não tenho nada para te dar” é um texto que escrevi há algum tempo. E, porque me apareceu nas Memórias do Facebook, estive a relê-lo. Fala de amor. Não importa, porém, dizer aqui o que escrevi lá. De outro modo, estaria a repetir-me.

 

Enfim, não era aparentemente necessário este introito para falar do que ora me interessa, que é o ciúme. Só que o texto se referia a uma pessoa ciumenta e por isso lembrei-me.

 

Enfim, ando a empreender silenciosamente no facto de não ter ciúmes. Nunca tive. Aqueles ciúmes que ocorrem recorrentemente no âmbito de uma relação que não está para acabar (por causa de outra pessoa). Não tenho, como disse.

 

De facto, não me entretenho a procurar pistas ou a inventar cenários. Não me preocupa saber que vai sair com as amigas e quantas são. Não quero saber se trabalha no meio de figuras públicas e demais gente conhecida. Não me interessa com quem almoça ou se esteve a conversar longamente com alguém bonito e bem-disposto.

 

Depois, noutro texto (já que agora não tenho tempo), explicarei melhor a razão pela qual me parece que os ciúmes são tiros no próprio pé, bem como é certo que os mesmos não provam nada em relação ao amor do ciumento.

 

publicado por Cat2007 às 17:18
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