CAFÉ EXPRESSO

Setembro 28 2016

Quando Teresa chegou a casa, Clara já lá estava. Como sempre. Esperava por ela estendida no sofá. Via televisão. Como se não tivesse estado a tarde inteira com Joana. Teresa passara a noite com Madalena. Agora estava em casa para jantar com a filha e passarem o serão juntas.

Teresa: Olá, meu amor.

Clara: Olá mãe. Vem cedo para o que é costume.

Teresa: Queria estar contigo. Tenho saudades tuas.

Clara: Pois. Eu também. Mas a mãe agora resolveu passar as noites fora.

Teresa: Eu não passo as noites fora, Clara. Fico algumas noites fora.

Clara: Nunca a mãe passou tantas noites fora. Além disso, acho-a diferente.

Teresa alarmou-se

Teresa: Como assim, menina?

Clara: Anda diferente. Dá a impressão que está um bocado distraída.

Teresa. É curioso que digas isso. Porque diferente estás tu. Pareces um bocado apática. Além disso, deixaste de usar pijama.

Clara: Estou apática porque estou em época de frequências. Mato-me a estudar. E não deixei de usar pijama.

Teresa: Não? Então explica-me esses calções curtíssimos e essa camisola de alças. Estamos em pleno inverno.

Clara: A mãe sabe perfeitamente que não faz frio aqui em casa. Temos o ar condicionado.

Teresa: Mas porque deixaste de usar pijama? Desde pequenina que tu adoras vestir o teu pijaminha.

Clara: Está bem, mãe. Deixei de usar pijama. Porque já não sou pequenina. Aliás, sinto-me bastante mais crescida.

Teresa: Sim? E o que te fez crescer assim tão de repente?

Clara: A idade, mãe. As coisas acontecem com a idade.

Teresa: Não estejas a brincar comigo, menina.

Clara: Sabe bem que eu tenho demasiado respeito por si. Jamais brincaria consigo. Além disso, a mãe mudou de assunto. Quem começou por dizer que estava diferente fui eu. Até parece que disse alguma coisa grave.

Teresa: Deixa-te de imaginar coisas. Eu não estou nada diferente. Eu sou uma pessoa equilibrada e constante, tu sabes.

Clara: Sei. Mas creio que desta vez, como em vez nenhuma do passado, a mãe está seriamente apaixonada.

Teresa: O que sabes tu de paixões, garota? Que eu saiba, nunca te apaixonaste na vida. Só estudos e desporto…

Clara: A mãe não tem que me explicar nada. Eu compreendo que tenha um namorado. E fico contente por estar apaixonada. No mais, não quero saber quem é. Não é preciso. A menos que a mãe esteja tentada a fazer o inédito: assumir uma relação.

Teresa: Muito bem, é verdade. Estou apaixonada. Mas não me passa pela cabeça assumir nada. Por isso não vale a pena contar-te seja o que for.

Clara: Tenho alguma curiosidade, confesso. Mas respeito-a.

Teresa: E tu, quando arranjas um namorado? Está mais do que na altura.

Clara: Ora, a altura certa é quando acontece, como sabe.

Teresa: E nada acontece?

Clara: Só posso dizer-lhe que sou alheia ao que sucede.

Teresa pensou que Clara lhe dizia que ainda estava à espera de se apaixonar.

 

publicado por Cat2007 às 23:22
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Setembro 28 2016

Almoçavam em casa de Joana.

Joana: O que te perturba é que ainda não compreendeste devidamente o teu comportamento.

Clara: O meu comportamento?

Joana: Sim. Ainda não percebeste bem como te aconteceu isto. Isto de estares apaixonada por mim. Portanto, ainda não aceitaste.

Clara ficou indignada.

Clara: Não aceitei?

Joana: Não. Mas deixa lá, também eu ainda não aceitei muito bem. Mas, no meu caso, é a qualidade do sentimento.

Clara: Não me venhas outra vez com a estória de que isto pode ser muito e não ser nada. Porque, desta vez, eu não te perdoo.

Joana: Não. Ando a pensar nesta coisa de assumir. Como deves imaginar, todas as experiências que tive antes de ti, e com exceção da Madalena, passaram-se no Porto. Ora, no Porto não se assumem coisas destas. Pelo menos no sítio de onde eu venho. A minha família sabe porque eu contei. Mas fingimos todos que nada se passa. Dai que eles acharam uma boa ideia esta de eu vir estudar para Lisboa.

Clara: Sim. Eu já sei dessas coisas. Mas dizias que andas a pensar sobre assumir…

Joana: Pois. E peguei num dicionário para ver qual é o significado de lésbica.

Clara riu-se.

Clara: Que dicionário?

Joana: Uma porcaria qualquer que tenho aqui em casa.

Clara: E o que dizia?

Joana: lésbica: mulher homossexual.

Clara encolheu os ombros.

Joana: Daí que fui ver o significado de homossexual. Que quer dizer: atração e/ou comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo.

Clara: Portanto, não é preciso gostar de ti. Basta andar metida na cama contigo.

Joana: Acho que sim. Se não quisermos complicar muito as coisas.

Clara riu-se.

Clara: Querida, ora complica lá as coisas.

Joana tirou um pequeno dicionário debaixo do sofá.

Joana: Heterossexual: relativo à atração ou ao comportamento sexual entre duas pessoas de sexo diferente.

Clara: Noto que os heterossexuais são pessoas e que os homossexuais são indivíduos. E que mais?

Joana: Conclui-se que, se o ato e/ou a atração bastam para definir e diferenciar, é muito complicado ser alguma coisa.

Clara: Porque falta à noção pelo menos o conceito de permanência ou de regularidade e, principalmente, um razoável de sentimento.

Joana: Sim. É pelo que fazemos recorrentemente e, acima de tudo, pelo que sentimos que somos lésbicas.

Clara: Vendo as coisas assim, então, admito facilmente que sou lésbica. E terei mesmo orgulho em sê-lo. Orgulho em ti. Naquilo que tu és e me faz amar-te. E também por tu, que eu vejo tão especial, gostares de mim como gostas. Em suma, tenho orgulho em nós e no nosso amor.

Joana: Eu também tenho orgulho em nós.

Joana beijou-a devagar.

Joana; E mais, amor?

Clara: E mais? E mais a palavra lésbica… Detesto-a. Tenho de confessar.

Joana: Talvez seja pela conotação que socialmente lhe é dada. Que é maior, muito maior do que o seu significado.

Clara: Ou talvez porque, sendo um rótulo, choca. Choca que se rotulem as pessoas por causa daquilo que elas sentem. Eu, na verdade, não sei se gosto de mulheres. Porque te adoro. Não seria capaz de gostar de outra. De estar com outra.

Joana: Creio que uma pessoa, quando se apaixona a sério, deixa de ter orientação sexual.

publicado por Cat2007 às 22:19
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Setembro 27 2016

Teresa: Como podes estar tão certa disso? Eu vou para a cama contigo praticamente todos os dias. Sei coisas de ti. Coisas que tu sentes. Que tu não fazes questão nenhuma em esconder quando fazemos amor. Tu não estás comigo só pelo prazer.

Madalena: Claro que não. Estou contigo porque te desejo imenso. Olha para ti. És a mulher mais bonita que eu alguma vez conheci na vida.

Teresa: Ora, Madalena. Há muitas mulheres bonitas.

Madalena: Mas nenhuma tão bonita como tu.

Teresa: A beleza de alguém não é tanto o que se vê mas o que se sente. Eu acredito em ti. Achas que eu sou a mulher mais bonita que conheces mas…

Madalena: És a mulher mais bonita que eu já alguma vez vi.

Teresa: Ou isso. Mas, como ia a dizer, a beleza que dizes que eu tenho é sentida por ti.

Madalena: Pois é. E então?

Teresa: Então, estás apaixonada por mim.

Madalena: Ah! Isso é diferente. Claro que estou apaixonada por ti. Mas já não te amo.

Teresa: Mas eu amo-te.

Madalena: Mas eu não te amo porque tu, há vinte anos atrás, me deixaste partida. Nunca mais amei ninguém tão profundamente. Porque eu, apesar de só estar contigo há dois anos, amava-te profundamente. Por causa da entrega que foi total e sem reservas.

Teresa: Amavas-me como eu te amava. Mas era um amor que não tinha sido testado.

Madalena: E quando foi, tu deixaste-me. Já falámos sobre isso.

Teresa: Por causa dessa entrega eu, que te sufoquei dentro de mim, durante todo este tempo, libertei-te, libertei-me e percebo que continuo a amar-te.

Madalena: Mas eu, por causa do que me fizeste, deixei de te amar. Porque deixei de acreditar em ti e passei a duvidar de mim.

Teresa: Então como permitiste que eu me aproximasse tanto outra vez?

Madalena. Eu não queria. Mas tinha que acontecer. Só tu me fazes sentir assim. Era impossível dizer que não à vida.

Teresa: Faço-te sentir assim como?

Madalena: Tu disseste que sabes como me fazes sentir.

Teresa: Eu explico-te o que te faço sentir, dizendo o que tu me fazes sentir.

Madalena: Sim, bem sei que é a mesma coisa. E o que é que eu te faço sentir?

Teresa: Madalena, tu fazes-me sentir viva e feliz.

Madalena: Teresa, tu fazes-me sentir arrepios na espinha e tremores nas mãos. Tu desorientas-me os sentidos porque os sons, as imagens, a textura da tua pele, o teu cheiro e o teu sabor se misturam todos ao mesmo tempo. Então eu já não sei se o que vejo é o mesmo que toco. Se o teu gosto é igual ao teu cheiro… Contigo eu viajo para fora deste mundo e regresso como se nunca tivesse voltado. Ando na vida a sentir-me muito mais viva. Porém, isto não me faz feliz. Quero que passe.

Teresa: Porém, estás com medo. Diz antes assim, querida

Madalena: Agora és tu que me chamas querida no fim da frase?

Teresa: Sim. Porque me deixaste com tesão. Compreendes, querida?

Madalena: Mais tesão, querida?

Teresa: Com certeza, meu amor. Percebo que seria mais fácil para ti se eu não te chamasse, meu amor. Era melhor estar só apaixonada como tu estás. Acontece que eu sinto as duas coisas ao mesmo tempo. Amor e uma paixão desenfreada como a tua.

Madalena: Seria mais fácil porque eu quero que isto acabe.

Teresa: Tens medo de que essa paixão te leve ao amor outra vez.

Madalena: Teresa, francamente, Tu falas de amor mas estou certa de que não te ocorre partilhar a tua vida comigo. A tua homofobia é que me garante que esta minha paixão não vai resultar em amor nenhum.

Teresa: Já não me apetece ir a Sintra. Estamos em Cascais. Porque não fazemos um lanche ajantarado ao pé do mar?

Madalena: Está bem. Gosto de ver o mar enquanto olho para os teus olhos. Parece a mesma coisa. Vamos.

Teresa: Não penses que tentei evitar o assunto da minha homofobia, que é real. Apenas não me apetece falar disso agora. Porque estou confusa nessa matéria. Por outro lado, quero encetar uma manobra de engate sobre ti, querida.

Madalena: Estás a aprender comigo, querida.

publicado por Cat2007 às 19:53
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Setembro 27 2016

 

Estou a empreender sobre o amor. É verdade que o amor só vem depois da paixão? É necessário tempo para o amor surgir? Penso sobre as relações que acabam depois de a paixão terminar. E naquelas que se mantêm e onde parece que a paixão não termina (não me refiro, neste ponto, ao estado de paixão do tipo: “estamos a dar voltas seguidas na montanha russa”. Mas ao estado de apaixonado do tipo “continuo encantada”).

 

No entanto, a maior parte das relações começam na referida montanha russa (bem sei que nem todas. Porém, importa para o presente discurso partir do princípio de que são todas). E se a maior parte das relações começam na montanha russa, sempre há um momento em que a coisa há-de parar. É um facto. Depois deste facto, e simplificando, as relações acabam ou continuam. Parece que, a crer na vox pop, o amor começa aqui. No momento em que a relação faz a viragem do tipo “estamos a dar um passeio de barco no rio de margens lindíssimas”.

 

Posto o que fica dito, a questão que coloco agora é sobre o tempo. Quanto tempo é preciso andar na montanha russa? Há barcos disponíveis para passear no rio a partir de que época? Em suma, quanto tempo é preciso correr até que surja o amor? Não sei a resposta. Mas sei que há amores que surgem muito depressa e que se instalam nos espíritos das pessoas envolvidas para o resto da vida.

 

Então e o que fazer quando um amor deste género “para o resto da vida” é interrompido? Ou seja, quando as pessoas se afastam por coisas da vida. Ou melhor, quando a vida afasta as pessoas. Concretizando com exemplos, quando uma das pessoas se quer ir embora porque não tem força para sustentar esse tipo de amor. Nestes casos, é possível retomar a relação mais tarde? E muito mais tarde? E será que este tipo de amor morre ou não morre, aconteça o que acontecer. Para já, ficam as questões.

 

publicado por Cat2007 às 16:12
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Setembro 26 2016

Madalena: Não me apetece sair daqui. És tão quente. E lá fora faz tanto frio.

Teresa: Não temos que ir já. Mas temos mesmo que ir.

Madalena: E tem mesmo que ser a Sintra? É longe, querida.

Teresa: No meio daquela serra sente-se uma energia única. Positiva. Uma pessoa sente-se bem lá. Acalma os nervos.

Madalena: Por acaso, é verdade. Mas não me apetecia nada ir. Ficávamos aqui na cama e…

Teresa: Nem pensar. Levanta-te.

Teresa saltou da cama.

Madalena ficou irritada

Madalena: Olha lá, não vais aparecer o dia todo à tua filha? Passaste cá a noite. Não achas que ela vai estranhar, por acaso?

Teresa: Não vai estranhar porque pensa que arranjei um dos meus namorados do costume, já te expliquei isso.

Madalena: Um dos teus namorados do costume. Que horror!

Teresa: Seria um horror depois de estar contigo outra vez.

Madalena olhava pelo vidro para a rua relativamente calma. Distraída foi perguntando a Teresa o que queria ela, afinal.

Teresa: Quero dizer que te amo profundamente. Em contas certas, há vinte e dois anos que te amo. É disto e de tudo o que tem a ver com isto que te quero falar.

Madalena: E era preciso irmos para Sintra para me dizeres essas coisas? Querida, tu dizes-me todos os dias que me amas.

Teresa: Para que te estás a armar-te em insensível?

Madalena: Não sou insensível. Apenas não me comovo com as tuas declarações de amor.

Teresa: Eu sei que não és insensível. Todos os dias me dás provas do contrário. No entanto, é espantoso que nunca tenhas dito que me amas. Nem nos momentos mais loucos da nossa paixão, quando está nos meus braços e te perdes de ti… nem aí tu dizes “amo-te Teresa”. O que tu gostas é de dizer “querida”. Como se estivesses numa manobra de engate permanente.

Madalena: Porque tu és a minha querida. E sim, contigo estou numa manobra de engate permanente. Dá-me tesão. Compreendes?

Teresa: Estás a tentar enervar-me.

Madalena: Deixa lá. Vais acalmar quando estivermos envolvidas pela boa energia de Sintra.

Teresa: Agora merecias uma bofetada.

Madalena: Desculpa. Sei que estou a ser imbecil. Mas venho contrariada. O que queres?

Teresa: Quero que fales comigo como uma adulta.

Madalena: Eu sei bem o que tu queres. Queres ligar-nos à terra. Mas eu não quero. Estou bem como estou. Trabalho na tese durante o dia, estou contigo ao fim da tarde e muitas vezes passamos a noite juntas também. De permeio dou as minhas aulas. Não desejo mais nada. Está tudo perfeito.

Teresa: E ligar-nos à terra significa o quê, para ti?

Madalena: Significa que tu queres alterar as coisas. Não sei muito bem em que sentido. Mas queres.

Teresa: É preciso clarificar os sentimentos. Ninguém vive assim pra sempre.

Madalena: E quem te disse que eu te queria para sempre?

Teresa: Acaba já com esse teatro! Eu sei que me amas. Sei muito bem que me amas.

Madalena: Não, Teresa. Não te amo. Há vinte anos que não te amo.

 

publicado por Cat2007 às 20:26
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Setembro 26 2016

Passou o Natal e chegou janeiro. Joana regressou do Porto e Madalena de Bragança. Teresa e Clara emergiam também do recolhimento familiar em que tinham estado toda a semana passada e onde foram felizes como sempre na Alameda. Porque estavam sem elas e uma com a outra. Como outrora. A paixão e a mentira colaboram. Por vezes colaboram. E quando assim é as almas andam pesadas, os espíritos confundidos e os corpos ficam demasiado doridos e indolentes. Em janeiro é costume ter esperança de que alguma coisa vá acontecer. De que algo vá mudar para melhor. É sempre assim no começo de um novo ano. Joana compreendia bem que não poderiam viver assim. A fazer amor às tardes e a viver apenas de angústias antes e depois. Teresa reconhecia que não poderiam continuar só a fazer amor. Clara desejava que a mãe a compreendesse e aceitasse. Madalena ansiava pelo dia em que lhe fosse permitido desligar-se de Teresa.

Os reencontros sucederam como o que se aguardava. Embora mais furiosos ainda. Por causa dos afastamentos. As peles rolaram. E rodaram. E colaram. Por fim, as bocas sacrificadas afastaram-se só para respirar um bocadinho e deixar entrar a saudade.

Joana: Até amanhã, amor.

Clara: Até amanhã, meu amor

Madalena: Adeus, querida.

Teresa: Adeus, amor.

E os dias foram passando assim repetidos mas cheios de coisas novas. Como sempre. Tal qual tinha sucedido no ano velho. Costuma ser assim no ano novo. O tempo passa sem que se produzam grandes alterações nas vidas. A menos que se tomem decisões muito sérias.

Teresa: Amanhã é sábado. Quero ir passear contigo amanhã pela tarde. Vamos a Sintra.

Madalena: Vamos a Sintra fazer o quê?

Teresa: Passear de carro. Nunca fomos passear juntas. Tu só queres estar aqui.

Madalena: Sabes bem que eu estou aflita com a tese. E…

Madalena não queria outra vida com Teresa. Basicamente aterrorizava-se com a ideia de serem namoradas.

Teresa: Madalena, não me dês desculpas. Em vez de irmos para a cama amanhã à tarde vamos passear a Sintra.

Madalena: Mas eu prefiro ficar a fazer-te. Não me canso e sinto sempre falta. Tu não? Tu sim. Eu sei que sim. Tu também preferes ficar na cama comigo em vez de ir agora para Sintra.

Teresa: Não.

Madalena: Não? Estou a errar as fórmulas químicas, já vejo.

Teresa: Não. Quero mesmo falar contigo.

Madalena: Então, querias passear e afinal é para termos uma conversa? É assunto sério?

Teresa: Não te armes em parva. Chegou o momento de falarmos sobre nós em termos diferentes do que temos feito. Sem a sombra do passado.

Madalena: O passado está vivo.

Teresa: Não é para discutir esse assunto hoje. É amanhã. Quando formos a Sintra.

Madalena: Vai ser uma conversa igual a mil que já tivemos.

Teresa: Veremos.

publicado por Cat2007 às 19:01
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Setembro 26 2016

Resultado de imagem para electra complex

 

Quando existe um pai e uma mãe presentes, é suposto que a filha siga o modelo da mãe. Com efeito, [o] complexo de Electra define-se como sendo uma atitude emocional que, segundo algumas doutrinas psicanalíticas, todas as meninas têm para com a sua mãe; trata-se de uma atitude que implica uma identificação tão completa com a mãe que a filha deseja, inconscientemente, eliminá-la e possuir o pai (citado da Wikipédia).

 

Portanto, a filha, que quer conquistar o pai, segue o modelo comportamental da mãe por ciúmes dela. Sublinhe-se, então, que a criança quer conquistar o pai ao mesmo tempo que tenta afastar a sua rival, a mãe. O que nunca chega a conseguir, constituindo-se assim a primeira grande frustração da vida da mulher. Por isso, quando crescem, as mulheres procuram homens que sejam semelhantes ao seu pai. E eu já não sei se é por isto que elas têm uma certa tendência para se aniquilarem umas às outras. No sentido em que este sentimento, esta vontade de eliminação de criaturas do mesmo sexo responde a uma forte pulsão que reside na infância, nos termos explicitados.

 

Na hipótese de crescer sem uma referência masculina, ou seja, se a criança menina viver só com a mãe, o que sucede? Isto sou eu a pensar. Porque não li nada sobre o assunto. Então, pensando, começarei por dizer que é muito provável que a garota imite os comportamentos da mãe para lhe agradar, uma vez que é a criatura que a protege e orienta.

 

Podia, mas não vou levantar mais hipóteses porque não é preciso complicar.

 

publicado por Cat2007 às 15:21
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Setembro 25 2016

Joana acabara mesmo agora de a deixar. “Hoje não fico em casa. Mãe”.

Clara: Joana, onde estás?

Joana: No Técnico. Porquê?

Clara: Volta para trás. Vou descer.

Joana voltou o mais depressa que pôde.

Joana: Mas não querias ir para casa?

Clara: Queria porque tinha pressa de encontrar a minha mãe. Queria mentalizar-me para a enfrentar. Para representar mais um bocado, portanto.

Joana: Não te castigues. Dadas as circunstâncias, não podes agir de outra maneira. Não para já.

Clara: Mas ela não vem. Tem um namorado. O que te dizia, eu?

Joana virou-se para a janela como se aquele gesto fosse casual. Depois perguntou:

Joana: Onde queres ir?

Clara: Para tua casa, idiota.

Joana: Claro que sou idiota. Pensei que ainda estivesses magoada comigo.

Clara: Mas eu não te disse que não?

Joana: Disseste, sim.

Clara: Acelera.

Chegaram.

Joana: Querida, tens fome?

Clara reteve um instante o olhar sobre ela. Joana brilhava num sorriso aberto. Clara compreendeu.

Clara: Muita.

Joana pôs a tocar no quarto uma melodia funda. Já deitadas na cama, Clara deslizou para cima dela. A música evoluiu. Clara abordou o corpo dela com a mesma entrega e fervor de uma executante que se absorvia no seu instrumento de eleição. A fusão era perfeita. Entre ela e o instrumento possuído. Clara tocava como e tivesse estudado aquela peça extraordinária durante anos a fio. A música espalhava-se de melancolia. As lágrimas rolavam. E lá fora não chovia. Existem momentos assim. Como aqueles em que o cenário se apaga e ficam apenas pequenas luzes que têm somente a função de enfatizar dois elementos fundamentais. Um que toca e outro eu se deixa tocar.

E o céu cinzento acordou enfim numa trovoada sinistra, largando um mar sobre a terra. Foi aqui que a música se alterou. As notas passaram a ser tocadas com o vigor das grossas gotas de chuva que se atiravam suicidas contra o chão. A música arrasava o corpo a cada nota tocada. Joana parecia querer sucumbir sob dedos de aço. Porém, respondia superiormente a cada golpe, soltando as notas que se faziam ouvir. E assim deu a forma pretendida àquela composição inédita. Até que a música morreu sobre o corpo que se imobilizava de cansaço. A alma da música saiu dali como um sopro. No quarto quedaram-se apenas os corpos trémulos, sobrepostos e húmidos.

Há algum tempo colada e quieta na pele de Joana, Clara tinha os olhos muito abertos. Ia adquirindo a consciência mais profunda da devassidão a que oferecera e onde perdera o seu corpo. E da felicidade que isso lhe trouxera. Via como crescera sem pecado. Mudara irremediavelmente para mais. Para cima. Para um plano inimaginável. Os demónios que habitam todas as almas foram expulsos da sua. Olhou para Joana. “E da dela também”.

Clara: Sinto-me feliz.

Joana: Eu também.

Sufocaram a nudez dos corpos num abraço do tamanho delas.

publicado por Cat2007 às 17:29
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Setembro 24 2016

 

 

Hoje passei o dia a pijamar.

publicado por Cat2007 às 21:46
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Setembro 24 2016

Era sexta-feira. Teresa saíra cedo do escritório. Porque podia muito bem lançar trabalho para segunda-feira. Sentia o peito pesado e dores nas costas. Porque estavam tensas. Considerou que o melhor seria ir a casa mudar de roupa e sair para caminhar um pouco. Para se libertar.

Clara ainda não chegara. “Ainda bem. Não quero estar com ela hoje. Depois do que sucedeu ontem, nem sei o que lhe dizer”.

Libertou-se da camisa e do blazer e dos saltos altos. Enfiou uns jeans e umas botas castanhas de cano alto. Saiu par a rua. Foi para a Praça de Londres. Decidiu tomar um café muito perto de Madalena. Na Mexicana. Imaginava-a em casa. Mas ainda não era hora de a visitar. Antes, tinha que caminhar. Pensar um pouco. Tinha saudades físicas dela. Como todos os dias. Não queria discutir. “Hoje não”.

Terminou o café e dirigiu-se em passos descontraídos até à Avenida de Roma. Ia olhando para as montas distraidamente. Por vezes fixava-se nos vidros para se ver. Não estava segura da sua imagem. Toda a gente a achava anormalmente bonita. Mas ela não se via assim. “A nossa beleza são sempre os outros que acham. A beleza decisiva para a felicidade é aquela que é sentida por quem realmente nos importa. De resto, não decide nada e muito menos garante alguma coisa. A verdade, é que atualmente não me sinto bonita porque a Madalena diz que não me ama. E eu estou quase a acreditar”.

Caminhou mais um pouco. De costas para a Praça de Londres. Os pensamentos sobre o que sucedera na noite anterior com a filha impuseram-se-lhe. Não se reconhecia. O que tinha Clara a ver com o que ela andava a fazer? Naquela casa não se trancavam as portas. As rotinas era desassegredadas. Madalena não voltaria a cometer o erro de fazer amor com ela na casa da Alameda como há vinte anos atrás. Podia assim continuar com a filha nos mesmos rituais. Cada uma nos seus espaços íntimos. E os encontros nas zonas comuns da casa. Clara chorou. Não queria voltar fazer a filha chorar. Ela que só chorava por razões fortes. Como Teresa. Não lhe iria contar nada, afinal. Porque se lhe contasse alguma coisa, teria que dizer tudo desde o passado. Era muita coisa. A miúda não merecia. E não merecia também porque Teresa continuava incerta sobre o que desejava fazer da sua vida. Apesar de ser certo o amor que sentia por Madalena, não sabia se o queria viver assumidamente. Não sabia se queria mudar. Sem estas certezas, não podia contar nada à filha.

Atravessou a rua e voltou para trás em direção à Praça de Londres. Agora caminhava em passadas mais rápidas. Queria libertar-se das incertezas nos braços de Madalena. Talvez o amor que fizessem a ajudasse.

Madalena: Olá, querida.

Teresa: Tu dizes que não me amas.

Madalena: Vens para discutir ou vens para fazer amor?

Teresa: Venho para te atormentar.

Madalena: Não é preciso. Eu já vivo atormentada por tua causa. Mas se me quiseres atormentar na cama, parece-me bem.

Teresa: Estás tão segura de ti.

Madalena: Estou segura sobre as fórmulas químicas que aprendi.

Teresa: Gostas de brincar. Tornaste-te uma pessoa um bocadinho cínica. Consegues separar muito bem as coisas. A tua vida é a tua vida. Eu sou eu. E no in between aproveitas para me comer.

Madalena: De facto, vens para me queimar a cabeça apenas.

Teresa: Não. Venho para o teu corpo. Mas tenho raiva. Quero-te com raiva.

Madalena: Então faz-me com raiva.  

Teresa: És uma ordinária.

Madalena: Que disparate. Sou uma mulher adulta. Tu não.

Teresa: Cínica!

Madalena desnudou o tronco rapidamente.

Teresa: Aqui.

Madalena: Sim, aqui.

Madalena aproximou-se dela e mordeu-lhe a boca. Teresa investiu sobre ela ainda com mais raiva do que a que já trazia. Não se despiu. Empurrou-a contra a parede junto á porta da rua.  Baixou-se e puxou-lhe as calças para baixo.

publicado por Cat2007 às 14:04
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