CAFÉ EXPRESSO

Julho 29 2007

 

 

Classificar os outros pela inteligência. Os burros e os inteligentes. Sem meio termo. Como sempre. Com em tudo na vida. A dificuldade de aceitar a paleta de cores. A mentira e a verdade, o facto e a opinião. Objectos de distinção difícil. Assim, é complicado sentir os pés no chão. A alienação toma-nos porque os dados são imensos. Não é possível gerir tanta coisa propositadamente arrumada fora dos sítio. Não é possível. Uma boa parte de nós não anda realmente por cá.

 

 Não entendemos nada uns sobre os outros. Queremos que nos entendam apenas. Não importa o que sabemos nós de nós próprios. Desejamos que eles saibam alguma coisa boa com um aspecto minimamente estruturado. E nos digam ou, pelo menos nos façam ver, que é assim que nos vêm. Para nós vermos.

 

A dialéctica na prática. Preto/branco. Gordo/Magro. Inteligente/burro. Brilhante/imbecil. Parece, mas não é. Brilhante/imbecil é uma dualidade que não se insere na mesma categoria que  Inteligente/burro. Embora devesse. Mas não pode ser. É que, se assim fosse, não haveria categorias duais. Acabava-se a dialéctica que aparentemente nos simplifica a vida. Um dia pensámos assim. Hoje estamos baralhados dentro dela. Agora parece tarde demais. O mundo é demasiado complexo. 

 

Embora a esmagadora maioria das pessoas que habitam o planeta possuam uma inteligência média, é inaceitável que assim seja  para a maioria das pessoas que habitam o planeta. Portanto, alguns de nós somos burros, outros inteligentes. Esqueçam-se os brilhantes e os imbecis porque isso é o que verdadeiramente todos nós queríamos ser. Ou uma coisa ou outra. A fantasia consiste em imaginar que, sendo assim, a vida seria mais fácil. E o que nós queremos é facilidades. É compreensível. Viver não é nada fácil.

 

Gostava de me lembrar a que propósito me lembrei de falar em inteligência selectiva. Falava com alguém. Ia a dizer que outro alguém é burro. Mas parei. E pensei que estava a cair na armadilha da dialéctica racional prática. Deixa lá ver mesmo se a criatura é burra. Foi o que pensei. Afinal, não tinha dados para avaliar. Dados individuais e concretos sobre aquela pessoas que eu tão apressadamente queria qualificar. Recorri aos dados científicos gerais, àqueles de que falei. Os que dizem que a esmagadora maioria das pessoas tem um nível de inteligência mediano. Bom, então, se o visado é assim medianamente inteligente porque fez ele isto ou aquilo? Ou porque disse ele o que disse? Enfim, porque fez coisas aparentemente pouco inteligentes?

 

Não é difícil responder a estas questões. Com efeito, cada resposta a cada estímulo é sempre emocional. Isto também é um dado científico. Repetindo. Cada acção ou omissão tem por detrás um estímulo de carácter estritamente emocional. Posteriormente, o raciocínio vem conferir-lhe a respectiva racionalidade. Isto só não é devastadoramente assustador porque o equilíbrio emocional geral é mais vulgar do que se podia imaginar. Nós somos mais equilibrados do que racionais. Sem discussão. É cientifico. Portanto, não há que ter muito medo das decisões do Bush Junior ou dos senhores da Mossad ou, ainda, daqueles outros que foram instruídos nas escolas corânicas, por exemplo. E aqui está mais uma prova de que o ser humano é instintiva e tendencialmente  bom. Prova científica, sublinhe-se.

 

Bom, a inteligência ao serviço das conveniências pessoais em cada momento. Esta constitui a outra parte da questão do conceito de inteligência selectiva. Quem quer fazer o que quer pode tentar e fazer. Se conseguir. Então, se conseguir, tem de explicar. A explicação é o preço da vida em sociedade. Este preço mede-se pelo nível de desgaste nervoso registado ou registável em cada pessoa. Mas a explicação. A explicação é um produto do raciocínio e é melhor ou pior, consoante os factos a serem explicados. Concerteza que é mais inteligente que conseguir explicar-se melhor. O que sucede, por vezes, é que não é mesmo possível arranjar uma boa explicação. Portanto, o problema pode não se tanto de inteligência, mas mais de carácter.

 

Seja como for, e afinal de contas, o que é uma pessoa inteligente? Para mim, é quase tão difícil arranjar uma definição , como para todos (até para o Camões) é impossível dizer o que é o amor.

 

 

publicado por Cat2007 às 17:44
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Para mim nunca foi difícil definir quem é inteligente. Não é uma questão de estudo, cultura ou capacidade sagaz. Sempre considerei que o inteligente é aquele que não briga com a vida e é tão feliz quanto pode ser. Ser tão feliz quanto se pode não é ser feliz apenas. Pode-se ser feliz na ignorância, e talvez até por causa dela, mas saber ser feliz requer capacidade de adaptação. O inteligente não perde tempo com questionamentos inúteis e não fica dando murro em ponta de faca. O inteligente não se tortura e não se curva à sensibilidade se ela for debilitante. O inteligente é um corredor dos 100m enquanto o sábio é um maratonista. Ambos cruzam a linha de chegada eventualmente mas o inteligente chega bem mais cedo.
Lee a 1 de Agosto de 2007 às 02:07

Li atentamente. Fiquei a pensar, eu que não sei bem o que é uma pessoa inteligente, se, por acaso, vc não estará a falar mesmo é do esperto (em vez do inteligente). Ou seja, a pessoa inteligente é aquela que se dá bem? Que sabe e consegue dar-se bem? Estou a perguntar mesmo.
Cat2007 a 1 de Agosto de 2007 às 20:39

Não, babe. O esperto pode se dar bem, seja isso conseguido de maneira respeitavel ou não. O inteligente sabe ser feliz, o que é muito melhor do que simplesmente se dar bem.
Lee a 2 de Agosto de 2007 às 06:15

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