CAFÉ EXPRESSO

Agosto 17 2007

 

 

 

 

 

Em primeiro lugar, o que é uma relação amorosa? Descubra-se.

 

O que há numa relação amorosa que não existe nas outras relações humanas? Sexo salta logo à cabeça.

 

Então, sexo. Sim.  E o que é?  Fazer uso dos próprios órgãos sexuais,  estabelecendo, com outrem   (outrem  tem plural - outros, penso eu) trocas várias da mesma índole dentro de um determinado contexto. Até parece a definição ciêntifica de ecossistema: qualquer àrea natural, que inclui seres vivos e seres inanimados, que interagem, realizando trocas de matéria e energia.

 

Falo de sexo, e não de fazer amor para evitar a inclusão de factualidades sórdidas, como o incesto. Digo estabelecendo com outrem porque quero partir do pressuposto de que os envolvidos são pessoas, contornando os inenarráveis esquemas da bestialidade. Refiro-me a trocas da mesma índole para deixar claro que não incluo perigosas práticas sadomasoquistas no conceito. Digo pessoas e não seres humanos em geral, para afrontar os pedófilos. 

 

Relembro que a definição dada é construída enquanto componente ou elemento integrante do conceito indeterminado relação amorosa que procuro preencher. Quero dizer que, o sexo existe fora da relação amorosa, se entendermos que nem todas as relações sexuais que se estabelecem entre pessoas têm, elas próprias, uma componente emocional - o que é muito discutível.

 

E eu que até aqui  pensava que fazer sexo era foder. Vejo, agora, como é difícil compreender estas coisas.

 

A sexualidade. A menina dos olhos de Freud! A sexualidade condiciona toda a vida de uma pessoa. Foi ele quem o disse. Intuitivamente acredito que sim. Tudo o que de bem fazemos por nós, em qualquer aspecto da vida (mesmo que seja estudar ou dar comida aos pobres) é um contributo para a nossa melhoria pessoal de forma a estarmos e parecermos  melhores para os outros. Parecer melhor aos outros (a qualquer um) é um desejo comum a todas as pessoas e têm a sua raiz na sexualidade. Não importa a força ou a debilidade de tal desejo, desde que ele exista.

 

Claro que, vistas as coisas deste modo, não é possível excluir o incesto. A nossa sexualidade é decisivamente montada por ele. Ou, de outro modo, o primeiro prazer puramente sexual e afectivo é incestuoso. E, já agora, segundo a "teoria do sexo indiferenciado", homossexual. Quer para rapazes ou raparigas porque os bebés têm orgasmos e acreditam que a criatura que lhos dá é do seu sexo.

 

É estranho pensar que os bebés acreditam e pensam em género sexual. Não é? Porém, parece que é isso mesmo. Mas não.  Antes pelo contrário, os bebés sentem as coisas desse modo e sabem lá eles disso. Não as pensam assim.  Daí não terem sentimentos de culpa. Mas deixemos isto de lado agora. Porque, de qualquer modo, o Freud tinha ou não tinha  ar de tarado sexual?

 

Para que serve uma relação amorosa? E, antes disso, o que é uma relação amorosa. Uma das suas componente é o sexo. Este, porém,  em nada a distingue de outras relações que não são amorosas (de um certo tipo amoroso, que é do que estou a falar). Porque, além do mais, há relações amorosas sem sexo. Contam a esmagadora maioria das relações que têm mais de 2 anos? Contam.

 

Nestas coisas é como no âmbito de um contrato de trabalho. A pessoa pode não estar a trabalhar, desde que esteja em condições e tenha bem interiorizado que pode e deve começar a fazê-lo a todo o momento. Tem de estar preparada, portanto. Veja-se, como exemplo, um médico nos serviços de urgências que só vai ali um minutinho ao bar tomar café. É um exemplo ilustrativo. Mas é um mau exemplo porque ele vai ao bar com urgência e volta já se houver um caso urgente para tratar. Mas há aquelas profissões em que as pessoas estão dias inteiros sem fazer nada,  mas têm que estar ali, carregando a obrigação de estarem a postos para fazer. Ainda que, em casos graves, se saiba que a empresa vai falir. Enfim, é aguentar o posto.

 

Se incluir, sexo a relação amorosa serve para dar prazer e aliviar algumas tensões. No entanto, há muitas relações que têm sexo deplorável, miudinho, medíocre, breve, individual. Porque, nestes casos, só um é que quer e o outro quer fugir. Mas, por diversas razões,  não foge e aguenta muito mais do que o posto. O primeiro também anda triste com a situação, mas um nadinha mais satisfeito. E insiste sempre. São as necessidades.

 

Mas para que serve uma relação amorosa, se se pode ter sexo e não a ter? Talvez porque seja potencialmente mais fácil tê-lo porque a coisa está mais ali à mão. E o que é uma relação amorosa? É uma relação onde quem lá está metido sente amor? A  maior parte das relações de amor profundo não são amorosas. Veja, por exemplo, as dos pais com os filhos ou a dos cães com os respectivos donos. Segundo as estatísticas, a maioria das relações amorosas não contém amor.

 

Ainda de acordo com as estatísticas, grande parte das relações amorosas permanecem porque são integradas por bens materiais (mesmo que não sejam muitos), pela comodidade de as pessoas não se darem a incómodos e por uma série de relações cruzadas (e seus interesses conexos) da mais diversa espécie com terceiras pessoas. E, no entanto, uma ou o conjunto destas coisas não é dado exclusivo de uma relação amorosa. Note-se como funciona uma sociedade comercial.

 

Parece que tudo o que uma relação amorosa tem, igualmente, outras detêm. Sexo. Amor. Dinheiro (para simplificar), Estabilidade. Relações sociais. Muitas podem ter mais do que uma dastas coisas. Outras apenas uma. O que não podem é ter todas ao mesmo tempo. Isso, só as relações amorosas. Ainda que efectivamente não tenham  Basta potencialmente, como disse já.

 

Parece que uma relação amorosa é composta por um conjunto de banalidades que a tranforma num sistema especial. Banalidades, ou seja, coisas comuns. Não há nada mais comum do que o afecto, por exemplo. O amor. Existe imenso amor no mundo.  E as bananas são banais.

 

E é possível amar mais alguém do que a um filho? É um tipo de amor diferente? Depois de Freud quem pode assegurar isto com honestidade? Depois de Freud e logo a seguir à nossa própria  consciência de que existem  tantas  (imensas) relações amorosas que, de algum ângulo, são mesmo assim.

 

Por exemplo, eu tenho uma tia que se apaixonou por um homem. Pagou-lhe as dívidas para ele se casar com ela. E ele jurou casar-se com ela. Porém, nunca antes de a mãe morrer. Amava mais a mãe, está claro. E não amava a minha tia. Pois. Mas tambémnão amava outra mulher, senão a mãe.Até à morte dela, claro. Como podia ele estabelecer comparaçõers entre realidades incomparáveis, não é?

 

Mas teve tanto azar que a mãe (pessoa aparentemente saudável e ainda jovem) morreu nem um ano depois. O senhor transformou-se no meu tio. E, realmente, viveram juntos até que a morte dele os separou, após 40 anos de casamento. Sei de fonte segura que o sexo não era nada mau.

 

E mais, só as relações parentais podem potencialmente, como não podem as outras, enrrugar e cegar a liberdade do indivíduo,  obstaculizando o seu  desenvolvimento individual precisamente pleno.

 

Essas e as relações amorosas. Exactamente.

 

publicado por Cat2007 às 20:40
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Gosto...é isso msm
Raquel a 13 de Maio de 2010 às 00:28

Quer dizer que concordas comigo, portanto? Mas +e um ponto de vista um tanto negativo,
Cat2007 a 13 de Maio de 2010 às 01:04

é realista e está muito bem descrito
Raquel a 13 de Maio de 2010 às 11:23

Obrigada. Ms sendo realista, e tratando-se da matéria que se trata, não deixa de ser bastante cínico, não e.
Cat2007 a 13 de Maio de 2010 às 15:28

para mim não tem nada de negativo..
Raquel a 13 de Maio de 2010 às 11:24

Só uma imagem negativa das relações amorosas da vida real, é o que tem de negativo. Só. Lol.
Cat2007 a 13 de Maio de 2010 às 15:30

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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