CAFÉ EXPRESSO

Setembro 02 2007

 

 

 

 

 

Há uns anos tive uma relação. Ontem estive com essa pessoa e aconteceu recordarmos alguns passos dela. Sempre a rir. Na verdade, cada facto era um acontecimento. Essencialmente por isso acabou por acabar. Foram sete anos em que me pareceu que andava a snifar cocaína todos os dias. Sempre em permanente agitação.

 

Recordo de, na altura, vir uma ex-namorada dizer-nos que nós não tínhamos uma vida nada interessante. Para uma burguesa uma vida interessante compõe-se de idas regulares ao cinema, uma grande viagem por ano, pelo menos, e algumas leituras de circunstância a fim de ter matéria para conversas circunstanciais, dando a impressão de que se é culto sem, na verdade, ter verdadeiramente interesse por qualquer manifestação cultural. Ah!, quase me esquecia, também seria necessário jantar fora com regularidade, experimentando novos sítios e sabores.

 

Para além da evidente má criação, o que ficou claro foi que a ex-namorada era ex-namorada. Era a própria ex-oportunidade de viver, ou alienação regrada e integradíssima no sistema de adaptação social que faz tão bem.

 

Nós estávamos em casa e chegavam pessoas. Cozinhar é uma arte onde se pode revelar toda a bagagem cultural adquirida através das experiências que comportam um determinado tipo de conhecimento que é, precisamente, cultural. A pessoa com quem vivi cozinhava nestes termos. As pessoas apareciam para jantar. Na maior parte dos casos, como se percebe, não eram convidadas. Juntavam-se lá em casa pessoas que se desconheciam mutuamente. Pessoas que, as mais da vezes, nada tinham de comum entre si, mas que se divertiam a jogar poker , a ouvir e a contar histórias, a partilhar experiências e muito whisky.

 

A pessoa com quem eu vivi cantava. Mas cantava a sério. Era capaz de pôr um disco a tocar, cantar ao lado do Sinatra e parecer um duo a quem estava de costas. A pessoa com quem eu vivi, sabia fazer sapateado e gostava de se exibir. A pessoa com que vivi lembrava-se constantemente de pegar em tábuas, folhas de papel ou telas, lápis, pincéis ou canetas de filtro e desenhar uma pessoa ali ao jantar. A pessoa com quem eu vivi tinha o hábito de usar uma máquina fotográfica que estava lá para casa e fotografar a cara das pessoas a preto e branco. A pessoa com quem eu vivi recebeu um prémio de fotografia em Londres. A pessoas com quem escreveu guiões de cinema, peças de teatro e poesia. A pessoa com quem eu vivi não era artista porque não se dedicava a isso profissionalmente. A pessoa com quem eu vivi bebia por causa disso. A pessoa com quem eu vivi tinha uma coragem física e uma segurança social incomparáveis. A pessoa com quem eu vivi queria ser muito melhor do que imaginava que era e nunca saberemos o quão boa era. Por isso usava apenas o seu próprio talento para brincar. Por isso bebia e continua a beber.

 

Os factos até podem levar à conclusão de que tudo  podia ser um tanto decadente e triste, do ponto de vista do que posteriormente viria a acontecer . Não sei. Sei que pouco interessante é que não é. Cada minuto era uma viagem de longo curso. Cada episódio de vida era um livro de autor consagrado. Cada gargalhada provinha de algo tão bom como a melhor comédia produzida. Cada momento de amor era intenso e profundo. Num sistema mundial onde a democracia é o valor primordial, onde a igualdade é a palavra de ordem, há pouco espaço de aceitação para aquilo que é marcadamente diferente. O desajustado faz-se implodir. Porque ninguém aguenta a força toda do mundo em pressão de sentido contrário.

 

Compreendo perfeitamente que a pessoa com quem eu vivi, que amei, continue a beber e que nada, mesmo nada, lhe dê um sentido para parar. Ontem ri-me muito. A nossa história de amor acabou por causa de uma quantas garrafas de JB. Mas não foi verdadeiramente por causa disso. E, no entanto, ela ainda subsiste. Foi isso que acabámos a dizer antes de eu me vir embora ontem (mais uma vez). Nesse momento, a pessoa com quem vivo actualmente disse-me que se eu não desse um abraço, o faria em meu lugar. Dei aquele abraço à pessoa com quem vivi. Está muito carente. Eu não.

 

A minha vida de todos os dias é aparentemente igual à vida de todos os outros, e, talvez, até tenha uns pós a menos em actividades que eu não faço por decisão tomada. Mas a minha vida de todos os dias é cheia de vivências, emoções, novas ideias e conclusões preliminares sobre tudo o que me acontece. Chego ao fim do dia cansada e a sentir que me fartei de viver. E esta actividade não acaba. Só, talvez, quando um dia me cansar. O que é difícil porque o mundo está cheio de detalhes que vale a pena considerar.

  

Guardo comigo o meu património que tenho a sorte de poder transportar dentro de mim para todo e qualquer  lado. O meu património e eu é tudo aquilo que tenho e sou.  A pessoa com quem eu vivi é um dos meus maiores espólios. A nossa grande vantagem foi termos conseguido ser em conjunto duas individualidades distintas cada uma igual a si própria. Coisa muito interessante. Sinto-o.

 

publicado por Cat2007 às 15:08
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Assim é, babes. A melhor coisa é pack light já que a gente nunca sabe a hora que vai ter que partir.
Lee a 4 de Setembro de 2007 às 18:45

"Ter que partir". Também anda pensando na morte? Parece. Eu ando um bocado. Mas é porque a vida me está a parecer um pouco de menos na presente conjuntura.
Bom, seja como for, a minha viagem ao Rio de Janeiro já esteve para mais longe. Temos muito para falar cara a cara. É o que me parece cada vez mais. Beijo.
Cat2007 a 4 de Setembro de 2007 às 20:24

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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