CAFÉ EXPRESSO

Outubro 10 2007

 

 
Todos nós vivenciámos experiências traumáticas na infância. É assim por definição. Mesmo os que de nós foram melhor protegidos e mais bem tratados. Sofrer pelo susto e pelo medo são elementos integrantes do conceito de vida infantil. É fácil de compreender. Quem não tiver filhos pode sempre observar os filhos dos outros. Verificar a inocência e a dependência pela extrema fragilidade, que é absoluta. A calma, tranquilidade e a segurança das crianças, a sua lucidez particular, a sua felicidade, mesmo quando não têm muitas razões para a ter, existem naturalmente. Neste caso, é como se pudessem encontrar  a sua alegria em pedaços espalhada por labirintos. E encontram sempre. Um bocadinho aqui. Um bocadinho ali.
 
Mas os pais. As suas acções e reacções. Grande parte dos problemas infantis nascem, crescem e agudizam-se por culpa exclusiva dos pais. A agressão, o abandono, a displicência, a ignorância e, em suma, a incapacidade de saber amar - esta exalada, inclusivamente ou também, pelo excesso de amor. Melhor, pelo excesso de zelo.
 

 

Ser mãe ou pai será a maior responsabilidade de um ser humano. E, eventualmente, ninguém pensa nisto com a devida seriedade. Ponho-me a pensar nas normas do Código Civil sobre o contrato de casamento. A união entre duas pessoas com vista a uma série de coisas, sendo a principal destas, constituir família. Ou seja, ter filhos. Procriar. 
 
É muito católico isto. E se é católico é para ser bom, de acordo com as convicções católicas sobre o bem. É, de resto, igualmente, algo muito selvagem porque essencialmente instintivo. Podemos afirmar, até, que o espírito católico anda ligado à selvajaria, uma vez que a maior parte das suas regras têm a sua raiz na organização dos indivíduos segundo o império das normas dos instintos primários. Desejo sexual; ordem natural e domínio.
 
Portanto, um casal sem filhos não o é verdadeiramente, segundo a bondade das convicções católicas. Por outro lado, é muito pouco católico não ter meios para alimentar, vestir e mandar as crianças para a escola. Embora subsista, sempre e em qualquer caso, a obrigação de procriar. Deus se encarregará de tudo aquilo que a incompetência ou a indignidade cristã dos pais não possa, mas deva. Digo que é muito pouco católico porque os católicos só toleram a pobreza nos monges.
 
Como em quase tudo, lucidez, generosidade, equilíbrio, e sorte são as palavras-chave. Lucidez porque não basta a grande ajuda dada pelo instintivo amor mãe-filho/pai-filho. Na maior parte dos casos, é um amor sem reservas. Mas, também, na maior parte das situações, é um sentimento desordenado. O instinto de preservação da espécie que nos leva a desejar procriar, se, por um lado, impulsiona o afecto visceral pela cria, por outro, tende a confundir a imaginação, provocando delírios de identidade espiritual com a pequena criatura, culminando em projecções do ego dos pais sobre a identidade dos filhos. Dentro deste circunstancialismo, em princípio, o amor paternal desconhece o sentido da palavra liberdade. A lucidez está em admitir que ali está uma pessoa. Mesmo que seja uma pessoa muito pequenina, que não ande, não fale e não se saiba alimentar, não merecendo, por isso, muito respeito.
 

Mas pior do que isto é, ainda, o efeito tapa-buracos dos afectos. Buracos nos espíritos paternos e o amor pelos filhos a funcionar como uma espécie de massa de cimento milagrosa do espírito emocionalmente coxo dos pais. E aqui entra a generosidade que muitas pessoas não têm. Sobretudo as emocionalmente torcidas. Enfim, mas emocionalmente torcidos somos todos nós, porém, sem dúvida uns mais do que outros. Outros que vêm nos filhos o reflexo do seu ego ou/e os que os  confudem com estradas ou caminhos por onde pensam que corre o sentido da sua própria vida, que há muito não tem sentido próprio nenhum.

 

Em termos práticos, e quanto a este assunto, o equilíbrio é quase o mesmo que a generosidade. Aceitar o outro. Mesmo que o outro seja um filho. É tremendamente difícil por causa da identidade genética, do poder e do ego. É uma prova tremenda e um passo crucial no processo de crescimento de cada ser humano. Daí que a decisão de procriar tenha de ser uma decisão. Não uma obrigação. Não uma decorrência natural. Quem não pode, não tem. Até poder. Se puder. 

 

Há crianças que são agredidas. Há crianças que são violadas. Há crianças que são assassinadas. Há crianças que passam fome. Há crianças que estão sós. Há crianças que têm medo. Há crianças que choram. Todas as crianças não percebem. Nada disto. Cada criança tem um mundo particular de alegrias, terrores, fome e sono onde o meio termo parece não existir. Há crianças com sorte. Há crianças sem sorte nenhuma. Todas as crianças somos nós.

  

publicado por Cat2007 às 15:38
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Sabe o que dá uma pena enorme? É saber que você não mudou muito. Quando mudamos, ou melhor, quando evoluimos, há esperança que o futuro nos traga alguma posição de conforto quanto as nossas inquietudes no presente. Ao compreendermos que não mudamos tanto assim, essa esperança esvai-se. E se da infância à juventude / maturidade ainda se aproveita algo durante a jornada, da maturidade à obsolescência não resta muito de bom não. Há quem goste de viver de lembrança e faz do viver agora refém dessa necessidade futura. Para mim é muito pouco. a aspirar, ainda que eu tivesse muito a recordar.
Lee a 15 de Outubro de 2007 às 00:40

Quando começei a ler o teu comentário apanhei um susto. O que dá uma pena enorme é saber que EU não mudei muito???????? Bom, enfim, depois entendi que não era comigo. Era uma forma de dizer as coisas. de falar de toda a gente. Ok. Ufff! Por aqui vc percebe que eu concordo contigo em quase nada, bebe. Quanto a este assunto, claro. Beijo.
Cat2007 a 16 de Outubro de 2007 às 20:50

Meu "você" definitivamente não era você. ;-). Anyway, tremo em pensar que aos 60, vou ser a mesma pessoa que sou hoje, apenas, mais velha. Quando digo a mesma pessoa na verdade, quero dizer "ter os mesmos desejos". Por incrivel que pareça, não creio que eu tenha mudado muito desde que me entendi inserida em meu contexto. A única coisa que muda é que você se admite derrotada depois de um tempo. Time wears you into submission eventually. Não é algo pelo qual anseio mas fazer o que? Resistir é impossivel.
Lee a 18 de Outubro de 2007 às 03:37

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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