CAFÉ EXPRESSO

Novembro 03 2007

 

 

É muito vulgar ter medo dos outros. Assim um medo geral. De ninguém em especial, mas de todos. Como se as pessoas estivessem, mesmo involuntariamente, organizadas contra. Contra nós. 

 

Acreditamos que cada um pensa em si. Primordialmente. Em si e, claramente, nos seus muito próximos. E em mais ninguém. Cada um pensa em si no que toca à satisfação das suas necessidades e na prossecução dos seus interesses pessoais. E isto é genericamente verdade.

 

As Grandes Questões  socioculturais, filosóficas, ideológicas e políticas do século XXI: QUANTO É QUE ISTO ME VAI CUSTAR? QUANTO VOU GANHAR COM ISTO? E o Estado faz-se indivíduo! QUANTO é uma palavra que devia ser premiada, distinguida, escrita nos céus com tinta indelével (se tal fosse possível).

 

Portanto, para proteger o seu ciclo particular de objectivos, ambições e de pequeninos troféus já acumulados, a atitude de cada um perante os outros é, em termos genéricos, e numa primeira análise, defensiva. Se é defensiva é agressiva. Qualquer defesa de qualquer coisa tem como consequência o ataque ou a agressão. Agressão ao que se aproxima, pisa ou transpõe uma determinada área defensiva pré-constituída. Mesmo que que tudo aconteça involuntariamente. Portanto, aqui ninguém tem desculpa.

 

Por exemplo, as pessoas não têm a culpa de trabalhar umas com as outras. Quero dizer, as pessoas têm que trabalhar umas com as outras. Próximas. Ou, até, juntas. Fulano concreto A com específico sicrano B , C, D, E, .. Z , A1 , B1 , C1 , D1 , E1 .. Z1 ... E é esta proximidade que cria o risco. O tal risco de alguém, por querer ou sem crer, pisar os limites do círculo de interesses do vizinho, colega do lado. Trata-se aqui do contexto ideal para o surgimento das aludidas posturas defensivas/agressivas e/ou do medo, dependendo do feitio de cada indivíduo em causa. É por isso que as pessoas têm que trabalhar juntas, mas não o fazem. Trabalham por si, pensando, pelo menos, em preservar-se.

 

Evidentemente, nem vale a pena falar das atitudes agressivas motivadas pelo desejo de alargar o ciclo de necessidades a satisfazer. Porque, como sabemos, as pessoas nunca estão satisfeitas. Daí a energia que se vai respirando.

 

O paradigma das relações de trabalho é o mais fácil de recriar. Por assim ser, lembrei-me imediatamente dele. Sobretudo porque representa um contexto em que o que está em causa pode ser a própria sobrevivência do indivíduo nos moldes em que ele, na sua actualidade vivencial, a concebe. Enfim, porque nos obrigam a consumir cada vez mais. Mais carros, mais televisões, mais férias, mais... mais coisas novas que não havia antes e que passam a ser mesmo necessárias.

 

O problemas destas questões é que as pessoas acreditam mesmo nelas. Ou seja, as pessoas protegem-se a si próprias como que inconscientemente  e acham realmente que a vida é uma luta. As pessoas detestam-se umas às outras, por assim dizer. As pessoas detestam-se a si próprias, por assim acrescentar. Porque os referidos processos não são humanos, no melhor sentido da palavra humano. Talvez o receio básico se situe no ponto em que se crê que não é bom dar valor aos outros. Qualquer valor. Mas, porém e sobretudo, quando o valor é realmente valor, e não uma invenção. As pessoas usam-se porque precisam umas das outras.

 

 Genericamente, apenas em momentos de calamidade, em que todos perdem tudo, ou em que todos percebem que navegam no mesmo barco à deriva (E QUE O BARCO ESTÁ mesmo À DERIVA) ou quando a desgraça alheia é demasiado profunda para ensombrar seja o que for do que é nosso, só nestes momentos as pessoas deixam de se usar para se ajudarem. Qualquer sistema de colaboração é forçado ou imposto por regras exteriores. Estas podem ser regras empresariais, legais, da política ou do etecetera . 

 

O "Plano Marshall": primeiro eu, colaborando contigo ou, mesmo, prestando-te a minha ajuda porque, de outro modo, vou acabar por me prejudicar.  Não vejo mal nenhum nisto. O que me perturba é que o processo-regra de "solidariedade" tenha sempre que apresentar esta estrutura.

 

A Guerra do Golfo: primeiro eu, aniquilando-te, senão vou perder muita coisas que me convém manter e mais umas coisas que ainda quero ganhar. Não pondero bem o peso das coisas. Só o que posso perder. Mesmo que tu percas tudo. Mesmo que tu morras.  Vejo muito mal nisto porque o processo-regra de solidariedade... Qual processo? 

 

O drama de New Orleans é um grande exemplo de solidariedade (essencialmente NÃO-ESTATAL ) real, pura. Porque deviam estar todos no mesmo barco. Mas não havia barco e, mesmo assim, o barco andou à deriva. Vejo muito de bom nisto. Apenas não devia ter sucedido a catástrofe.

 

Impregnada deste espírito envenenado, fui ao cinema e escolhi sem pensar, sem saber, sequer, do que tratava SICKO ", um filme de Micheal Moore . Um americano gigante galardoado  e gordíssimo, de boné com pala. É verdade. Nem sabia que era um documentário. Nem reparei. Nem pensei nisso. Não estava lá muito bem disposta.

 

Não choro nos filmes. Nunca! Tenho sentido da dignidade. Acho eu. Bom, e na verdade, também sou pouco de me deixar levar por pieguices. Demasiado cínica para esquecer que o que vejo é ficção. Mesmo que seja muito convincente.

 

De certa forma, até posso, eventualmente, sentir alguma inveja pelos choramingas . Pelo menos vivem gloriosos momentos de abstracção da vida, sem recorrerem a drogas, por exemplo. Saem de si, e entram na trama. Que nem mosca na teia da aranha, sendo que a aranha não está lá. É talvez invejável.

 

Chorei sinceramente neste filme. Várias vezes. Pelo menos, sempre que  não era possível suportar a dor. É que era um documentário. Era tudo verdade. Posso chorar quando é verdade.

 

Chorei por causa dos milhões de americanos doentes. Dos que não têm seguro de saúde (50 milhões! - mais do que a população alemã) e, principalmente, porque assim decidiu o realizador, com os que têm. Esta pessoas também morrem ou vão à falência e acabam por morrer depois! Isto é uma verdade simples. Aterradora. É assim.

 

Toda a gente tem de ir ver este documentário para crer. É tão chocante!

 

Aquele gordalhufas de boné vermelho e colete! Deve ter para aí 1,90 m de altura por 1,90 m de largura. É rico. Para que se preocupa ele? O coração deve ocupar todo o seu volume. Por isso ele não é obeso. Por isso ele é capaz de se mexer tanto, por tantos lados, ir a tantos lugares. Ajudar tanto! Chorei por ele. Por causa dele. Deixaram de existir americanos. Só pessoas. Que poder tem este homem para fazer isto a uma pessoa? Para além de me ter deixado em dor pelas pessoas de que falou, ainda me deu fé. Sobretudo ele. Mas também aquelas pessoas americanas muito doentes que tinham seguro de saúde. E as outras, que não têm porque não têm dinheiro para fazer um seguro normal de 9.000 dólares por ano, e que, ainda assim, não lhes permite sobreviver com um mínimo de dignidade. Isto é tão chocante!

 

Ele disse, e mostrou, que os americanos são gente boa e solidária. E, no entanto... Também demasiado materialista e, imagine-se, ingénua. Desde o Nixon , que os cidadãos norte-americanos estão encurralados numa armadilha tremenda que literalmente os está a destruir. Eu chorei de dó. E quem for ver o Sicko "  e não chorar... só pode ser accionista de uma HMO das que lá são mencionadas.

 

Tenho a noção de que é um tanto absurdo dizer isto, mas... sai do cinema a sentir amor pelo Micheal Moore . Amor mesmo. Como se fosse meu irmão ou coisa assim.

 

E sem ponta de veneno no peito. Aquela que levava. Disposta a amar quem venha. Afinal, porque se preocupa ele? Porque se dá ao trabalho? Para ficar ainda mais rico? Descobriu a pólvora, fazendo de cada produção sua uma bomba? Mais um Oscar, é o que ele quer?

 

Escrevi-lhe a agradecer por tudo. Juro.

 

publicado por Cat2007 às 00:06
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