CAFÉ EXPRESSO

Novembro 11 2007

 

 

 

Imagino que os cães de  caça poderiam ficar tontos se as lebres ou as raposas, ao fugir,  começassem a correr em círculos intermináveis. Talvez isso não aconteça.

 

Não sei. O meu cão era um teckel. Um pequeno cão de caça, portanto. Tinha um temperamento absolutamente obsessivo . Era capaz de ficar horas com a cabeça dentro de um buraco, desde que lá dentro estivesse uma criatura perseguida acoitada. Depois, eu ía lá, já louca de o ouvir ladrar, e mandava-o entrar para casa. Ele vinha à minha frente porque não tinha alternativa. Demonstrava-me isso claramente. Porém, como tinha respeito, mas não tinha vergonha, e porque a coisa era mais forte do que ele, se eu, distraída, abrisse a porta do jardim ele saia disparado. Para meter novamente a cabeça no buraco. Só regressava se já não estivesse lá o perseguido. De outro modo, passava lá a noite. Isto é, passaria lá a noite ou o dia, se eu deixasse. Isto enervava-me um bocado. Como é evidente.

 

Outra manifestação do temperamento obsessivo do meu cão verificava-se nas grandes viagens de carro no Inverno. Ora, no Inverno, ninguém normal abre a janela do carro. Especialmente se estiver frio ou a chover. Ainda menos numa auto-estrada (aliás, aqui, nem no Verão). Pois ele queria sempre ir de pé no banco da frente com a cabeça de fora e orelhas ao vento. Parecia um aviador! Fui eu quem, de início lhe mostrou como isso era bom. O que ele nunca aceitou é que só o podia fazer em percursos mais ou menos curtos e com temperatura amena. Também não entendia que nem sempre podia ir à frente. Enfim, havia gente estranha que não tinha disposição de ir com ele ao colo. O Belchior era menino para chorar durante várias horas seguidas. Ininterruptamente! Fazia um som tipo chaleira, quando a água está quase no ponto. Nunca saia deste tom. Água quase no ponto. Durante 2, 3, 6 horas! O tempo que fosse. Desde que ele não estivesse onde queria. Não se cansava. Nada o demovia. Nem ameaças. Nem umas palmadas. Nada! Era aguentar.

 

Portanto, o meu cão metia uma ideia na cabeça, e seguia tal ideia para onde quer que fosse. Sem desistir jamais. A cabeça dele ficava ali. Centrada naquela ideia. Para onde fosse a ideia a cabeça dele ia atrás da ideia. Não comia. Não dormia. Nada. Só aquilo.

 

Identifico-me, de algum modo. Por vezes, a minha cabeça cola, como papel à gordura, em certas coisas. Tenho o hábito de seguir os percursos mentais. Não as palavras. Mas o que está por trás. Procuro. Procuro. Meto a cabeça no buraco. E espero com os olhos esbugalhados. Por um movimento. Por um detalhe. Ladro. Provoco uma reacção qualquer. Fico à espera dela. Da reacção. Sou obcecada pelo fundo dos raciocínios dos outros. Portanto sou viciada na actividade de investigação das emoções. As emoções que estão por baixo das palavras e dos gestos. As emoções que residem na base dos olhares.

 

Nunca soube o que o meu cão faria se apanhasse o gato,  o rato, a raposa ou o coelho escondido. Já eu, eu não faço nada, para além da descoberta. Ganho em ficar a saber o que não sabia. Porque era isso que eu queria. Saber mais alguma coisa daquela pessoa concreta. E, em concreto, a generalidade das pessoas interessam-me . Porquê? Não tenho paciência para explicar agora. Teria de pensar nisso. Não é coisa que me saia facilmente para explicação por escrito. Exige paragens. Eu não faço pausas enquanto escrevo. Sei que preciso de compreender. Tudo. Sobre as pessoas que me ficam por certo tempo à frente.

 

Ora, isto é bom e é mau. As descobertas são boas e más. Como é evidente. E eu até já sei disto previamente. Acho, até, que é um desperdício de tempo e de energia andar sempre nestes exercícios.

 

Há pessoas cujo raciocínio é mais tortuosos do que um caminho de cabras cheio de curvas, se houvesse um caminho de cabras tão emaranhado como um novelo de lá previamente desenrolado. Como se nas curvas houvesse arbustos cheios de silvas.

 

Se seguimos o percurso de um raciocínio parecido com um caminho de cabras cheio de curvas que poderia ser parecido com um novelo de lã emaranhado, e também com arbustos de silvas, se tal caminho existisse, podemos ficar mais obsessivos do que já somos. Podemos aprender a raciocinar assim. E podemos ficar doentes. Há coisas de que nunca nos lembraríamos de pensar, e que, agora, já nos lembramos. Coisas que não servem para nada. Coisas negativas. Que emergem na nossa cabeça.

 

 Se eu não gostasse de percorrer os percursos é que era bom. Talvez não seja necessário fazer isso para chegar às descobertas. Mas eu faço-o. Eu sigo fielmente o trilho, desprezando atalhos. Quero mesmo ver por onde é. Portanto, eu gosto ainda mais do processo do que do fim do processo. Mas também gosto de chegar à conclusão. Porém, ainda assim, prefiro as descobertas do percurso. A porcaria dos arbustos silvados. A canseira das subidas e descidas. Torcer os pés nas pedras. A irritação de fazer espirais no quase retorno. Eu sou uma ovelha sem nenhum sentido prático.

 

Aparentemente, o que vou dizer nada tem a ver com o que deixei dito, mas o meu cão... Ainda é o meu cão.

 

 

publicado por Cat2007 às 00:41
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Não lembro qual foi o livro em que li isso mas nele, um homem sentia-se "lesado" por seu pai por ter-lhe destruído seu mito quanto a ele. Parece que o garoto tinha fantasias de herói com seu pai na guerra (não me lembro qual delas), e embora eles não tivessem uma relação amorosa, a fantasia de que havia algo de grandioso em seu pai, de certa forma o perdoava por não ter sido mais atencioso. Bem, um dia o pai do tal rapaz lhe disse que ao chegar em um vilarejo sozinho e assustado, deparou-se com uma moça e com medo dela delatá-lo ao inimigo, a estrangulou e fugiu. O filho, claro, compreendeu o medo do pai e sabia que não cabia ali nenhuma repreensão embora achasse que ele pudesse ter se precipitado em matar a pobre moça. O fato é que ele depois disso, sentiu-se roubado de sua fantasia, e no fundo se tivesse uma escolha, escolheria a ignorância. Por que escrevo isso, Cat? Por que tenho certeza que seu cão teria simplesmente matado a misteriosa criatura do buraco. Mas ao não vê-lo fazendo isso, essas memórias ficam mais docemente anedóticas do que realistas. Talvez você gostasse até. Não sei. Não somos iguais. Eu sempre prefiro ficar com a lembraça mais amena àquela escrutinizada. Até o chiclete mais doce se você mastiga demais, acaba te deixando um gosto amargo na boca.
Lee a 11 de Novembro de 2007 às 21:38

Bem observado. De qualquer modo, não tenho ilusões sobre o meu cão. Até porque ele matou dois pássaros tipo papagaios que os meus pais adoravam. Matou porque apanhou os pássaros à mão. Ou melher à boca. Ouve, até, quem chorasse. Chamei-lhe a atenção com gravidade. Ficou com aqueles olhos muito atentos. Mas não me pareceu arrependido. Era uma criaturinha impossível. Cheio de maus instintos. Adoro-o.
Cat2007 a 11 de Novembro de 2007 às 21:47

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