CAFÉ EXPRESSO

Março 26 2007

 

 

 

Hoje de manhã surpreendi-me num ataque de histerismo que só visto. Não porque fosse de manhã. O que, por razões óbvias, até seria uma boa razão. Mas não. Foi outra coisa. O trânsito. O meu caminho tem uma parte complicada de passar. Muitas faixas de rodagem. Muitos carros. Alguns condutores totalmente a dormir. Outros completamente acordados. Até parece que não existe ali ninguém equilibrado. A fila e a confusão, sem serem enormes, têm efeitos claros sobre os sistemas nervosos em geral.

 

Os nervos de estar a conduzir às 8h da manha acordam-me sem eu querer. Havia lá na fila um senhor tão acordado quanto eu. Com tantos nervos como eu. Por isso que arrancámos ao mesmo tempo de lugares paralelos para o mesmo sítio. No entanto, como não cabíamos os dois no destino, alguém tinha que ceder. 

 

Não estou habituada a ceder nestas coisas. Mas teve de ser. Porque o homem conduzia uma carrinha grande da DHL. Cedi. Apitei-lhe quando me vi forçada a travar. Para impedir o choque. Fiquei desvairada. Mudei de faixa e aproximei-me dele pela outra lateral.  Abri o vidro e mandei-o comprar um carro que aquele era da empresa. Já ouvi dizer que o carro para muitos homens funciona como uma espécie de extensão do pénis. Desmoralizou. Vi na cara dele que desmoralizou. Acelerei. Adeus.

 

Por outro lado, não percebo porque fiquei tão histérica. Vou então introspeccionar. Introspeccionando verifico que  algo me diz que ando frustrada. Masoquista. Irritada. Culpabilizada. Indisciplinada. Má filha. Amiga displicente. Aluna inaplicada. Só sei que não tenho vontade nenhuma de estar aqui. Neste momento histórico. Neste meu espaço de pisar. Não quero.

 

As únicas coisas que eu gosto de fazer é fumar, beber coca-cola light e to make love. Não necessariamente por esta ordem. Ando a fazer tudo isto talvez até em excesso. Agora vou comer um bocadinho de chocolate preto. Chocolate preto não como em excesso por razões obvias. Também não disse que estava autodestrutiva.

 

Não me apetece fazer-me bem nenhum. Porque não tenho disposição para fazer esforços para me sentir melhor. Do género, hoje vou fazer uma massagem. É um esforço ir até à massagista. E eu não mereço o esforço. Melhor, eu não quero merecer o esforço.

 

Estou chateada. Com o quê? Há muitas razões. Mas prioritariamente, estabeleço que não quero pensar em nenhuma delas. Todas as pessoas têm razões para andar chateadas na vida. Não é fácil ser adulto. É muito chato, mesmo. Eu não sou diferente de ninguém. Pelo menos, não quero ser. A menos que seja realmente.

 

Aliás, as minhas razões não são fortes para ombrear com a minha própria capacidade de encaixe e de dar cambalhotas. Sempre tive jeito para os números de trapézio apesar de, verdadeiramente, só por raras vezes ter subido ao baloiço pendurado lá em cima. Porém, quando fui, fui sem rede. Das poucas vezes que caí, fiquei apenas pendurada pelo pé. Pelo meu pé esquerdo. Não cheguei a estatelar-me no chão. Penso eu. Quero, pelo menos pensar. Senão, já estou irrecuperável. E eu não me vejo como um caso perdido. Sei que me subiu um pouco o sangue à cabeça. De certo modo, como hoje com senhor da carrinha DHL que evidentemente não era dele. Ao menos eu conduzo o meu carro. É positivo.

 

 

publicado por Cat2007 às 17:51
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Março 24 2007

 

 

 

Sinto o impasse. Algo me espera e eu, cansada pela turbulência alegre de parque de diversões  que há-de vir, estou aqui parada num descanso antecipado do meu sucesso. É por isso que não tenho vontade de sair para a noite e beber uns copos. Não se pense ou veja o sucesso como o sucesso. Aquele sucesso que sucede a alguma conduta nossa e nos torna famosos ou, pelo menos, bem sucedidos no sentido habitual do termo.

 

Espera-me o sucesso. Vou passar por cima das pedras e chegar ao cimo de algum lugar. Ou vou descer por elas e encontrar um recanto desconhecido de todos. Ou, então, vou guardar todas as pedras que encontrar no caminho. Guardá-las com as que já recolhi e, depois, vou construir um castelo. O meu castelo. A minha vida. Não como fez Fernando Pessoa. Uma obra inacreditável.

 

As minhas pedras são marcos e, concomitantemente, pontos de referência para o futuro. É verdade que as guardo. Mas não as arrumo ordenadamente em qualquer lugar por mim pré-determinado. Elas ajeitam-se sozinhas por onde querem na minha vida. Só mais tarde as poderei tomar. Mais tarde, depois deste impasse. Nesse dia começarei a construir o meu castelo. As pedras, o caminho e o castelo são, de facto, realidade que se me confundem.

 

Ando a tentar compreender o que quero através das pedras. O mundo está cheio delas. Não percebo porque razão só se usam pedras para a construção civil ou para alimentar ilusões e angústias nos gabinetes dos que se fingem magos. Não estou a prever o meu futuro e não acredito em adivinhos de carne e osso.

 

Acredito no vazio angustiado dos espíritos egocêntricos que só querem saber como anda a sua vida amorosa, a sua saúde ou o dinheiro. Problemas que lhes suscitam as leituras da literatura cor-de-rosa.

   

Acredito, pois, na Tertúlia cor-de-rosa, na SIC de manhã e na astróloga Maya que sabe tudo sobre as pessoas que aparentemente já conquistaram o que desejam na vida.

 

Acredito nos intriguistas porque são demasiado cobardes. A cobardia nota-se no cheiro. Acredito nos invejosos porque não conseguem resistir à intriga. Acredito nos medrosos porque são cobardes. Acredito nos incrivelmente vaidosos porque são egocêntricos. Acredito no povo faminto de atenção e ternura, comendo umas sardinhas, e olhando com devoção para umas lagostas suadas porque não as quer comer. 

 

Acredito nos impostores porque Hollywood é o centro do universo. Acredito no Vaticano e no Papa porque todas as pessoas de bom senso usam preservativo e em África se morre com Sida, de acordo com a fé da Igreja. Acredito na Opus Dei porque José Maria Escribá já é um santo. Acredito na política porque não lhe percebo o discurso e vejo obedece à lei das pás do moinho (umas vezes em cima, outras em baixo), sendo as caras sempre as mesmas em sensatas alternâncias.

 

Acredito na estupidez humana porque falta sentido crítico e o George W. Bush é o homem mais poderoso do mundo. Acredito na globalização e no excesso de liquidez porque há muita fome no mundo.

 

Por enquanto, ainda acredito em mim. Até passar o impasse.

 

publicado por Cat2007 às 01:53
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Março 22 2007

 

 

Há pouco tempo atrás mandei um e-mail ao Eng.º José Sócrates. Andava ele em viagem pela China.  Foi a propósito da sua intervenção na campanha pelo sim à despenalização do aborto. Acho-o um senhor com tendências progressistas de índole sociocultural , e isso agrada-me. Pois foi. Mandei-lhe um e-mail com o objectivo de o cumprimentar. No entanto, apenas e só, por isso. Pela agradável intervenção. Nada mais. Não tenho interesse nele, no PS, nem na política. Maça-me!

 

Entretanto, passado algum tempo, recebi uma resposta. Era, também, um e-mail proveniente do Gabinete do Primeiro Ministro. Abri. Não consegui imediatamente. Foi necessário fazer um download. Finalmente, era um ofício todo formal, com nº de série e tal. O conteúdo era menor e qualitativamente inferior. Basicamente, dizia que receberam a minha mensagem.
 
Mas para que se foram dar ao trabalho? Não compreendo. Aliás, compreendo se me recordar que, em geral, os políticos e seus acólitos, gostam de gastar o seu tempo em actividades ociosas ou naquelas, igualmente inócuas, onde prevalece a forma sobre o conteúdo. É assim. Já por isso não existe nenhuma bandeira de Portugal à entrada do site oficial do Governo português. Obviamente, não vou mandar mais nenhum e-mail ao Primeiro Ministro. Senão, falava-lhe (desnecessariamente) do assunto.
  
Tenho uma grande amiga brasileira. Vive no Rio de Janeiro. Conhecemo-nos há 4 anos num fórum da Rede Globo. Desde aí, falamos no Messenger e, de vez em quando, ao telefone. É uma pessoa inteligente, culta, sensível, solidária, generosa e bem educada. Hoje, é uma das minhas melhores amigas. Sendo certo que só não será mesmo a melhor porque ela vive lá e eu cá.
 
Confesso que gosto do Brasil. Do reflexo do talento e do cheiro. Do nosso passado português e do presente, onde ouço falar num modo que eu compreendo. Na minha língua. Gosto do enorme sorriso miscigenado.
 
É uma pena não podermos afirmar que fomos nós quem construiu aquela indiscrição (de indiscreta, obviamente) de massa crítica (povo mais território). Mas fomos nós quem inventou aquela energia. Ainda que não a possamos aproveitar para nós. Para nada. Só retirar algum proveito tabelar das suas produções.
 
Parece que nós sentimos o Brasil como a nossa segunda casa. Acreditamos, é o que parece, que aquele país imenso, situado no Continente Americano, logo a seguir ao Atlântico, onde respira a Terra planeta por um pulmão já semi-carbonizado, é o nosso país irmão.
 
Nós gostamos de sentir esta coisa assim. É natural. Reconhecemos muitas coisas boas naquilo. Para além da saudade navegadora, da mulata-branca-india, dos batuques africanos sintetizados na força contágica do samba.
 
Dá-nos muito jeito pensar que temos muita responsabilidade com o que para ali há de maravilhoso e de potencial. Temos tanta neste aspecto. Como temos igual quantidade sobre os maus aspectos. Na minha óptica, temos quase nenhuma em tudo ou nada.
 
É o momento de sublinhar o óbvio: o que digo não tem base científica, como não o tem quase tudo o que digo. Falo por impulsos sensíveis. Os testemunhos são os meus próprios.
 
Eu já vi e ouvi o desdém e o ressentimento dos do Brasil sobre todos os portugueses. Eles acham que lhes roubámos o ouro. Claro, nem se recordam que o ouro era nosso. Que o Brasil era nosso. Eles acreditam que são católicos e supersticiosos por causa das nossas evangelizações. Mas quem lhes ofereceu os Pais de Santo e Iemanjá entre outras divinizações católico-pagãs foram, essencialmente, os Africanos (ou seja, na verdade, nós). Eles acham que não são caucasianos porque quem levou os negros para lá fomos nós.
 
A verdade é que, se nós não tivéssemos uma certa tendência para andar a bater omeletas, misturando claras com gemas, talvez os nativos fossem puros índios e tivessem mais auto-estima. Porque, naturalmente, os outros, os brasileiros poderiam ter sido colonizados por ingleses. O que tinha sido uma sorte. Hoje eram os Estados Unidos da América do Sul. E o continente americano não se designava EUA, Canadá e América Latina, certamente. Ou podiam ter os espanhóis como colonizadores. A vantagem era uma e mais uma. Duas, portanto. Tinham todas as probabilidades de possuir um “ar tão europeu” como os Argentinos. Por outro lado, deixariam de odiar os mesmos argentinos. Relaxante em dias de futebol, pelo menos.
 
O Brasil está mais perto dos Estados Unidos e ainda mais do que nós gostaríamos de imaginar. Por outro lado, só para nos perturbar, imagino eu, têm muito mais simpatia por África do que por nós, fingindo, por isso, afinidades mais íntimas. Connosco, reconhecem a ligação imperial incontornável, mas tentam esquecê-la a todo o transe. Olham para Portugal e para os portugueses como aquele pai pobre e ignorante de quem o filho "modernaço" se envergonha. Por isto, tenho pena deles e de nós.
 
Porque não somos assim de tão boa vontade para com África ? A nossa África de onde nem há 40 anos saímos. Poderá ser porque não queremos estar ligados à miséria descoberta? À inferioridade? Económica. Social. À falta de escola. À falta de comida. À SIDA. À Guerra. À simpatia. Ao calor. À sinceridade. À identidade. O Fado à Morna. À responsabilidade. Ao sofrimento. Ao ser. Ao Benfica e ao Sporting. À Selecção Nacional. À RTP África . Aos portugueses. Aos africanos.
 
É uma vergonha, mas à nossa África , só estão, sentida e profundamente, ligados aqueles a quem, nós, os de cá, andámos a chamar muito tempo "retornados". Porque vieram de lá. Branquinhos. Porque nem pretos eram.
 
A quase-indiferença a África é o desprezo dos frágeis pelos que ainda o estão mais. Isto é passar por um irmão pobre na rua e fingir que não o conhecemos. Além do mais, revela que temos uma má consciência métrica. O Atlântico é muito mais imenso do que o Mediterrâneo. E mesmo que se vá de barco, como dantes, o Atlântico para o Brasil é muito maior. 
 
E, no Brasil, também não há brancos verdadeiros. Nós, portugueses, não somos brancos. Com muito orgulho. Orgulham-se Camões, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill , entre outros. E, muito modestamente, eu própria.
 
Na mesma semana de Novembro fui ver dois concertos ao Coliseu. Primeiro, a Mariza . Depois, o Chico Buarque. Ambos  encheram aquilo ao ponto de ruptura. Eu fiquei na segunda fila das cadeiras de orquestra. Sempre que quis respirar, não tive problemas. E via tudo muito bem visto. Via bem o que me interessava, evidentemente.  
 
Mariza foi tudo aquilo que é tipicamente português de altíssima qualidade. Sangue africano no fado onde nasceu Alfama árabe não é uma Morna da excelente Cesária Évora. Com todo o respeito, sendo-o também, é muito mais. É a Ásia do Portugal mulato de cabelos lindamente pintados de norueguês.
 
Eu tenho pouca palavras para descrever o que sinto quando vou ver a Mariza ao vivo. E vou sempre que posso. Ou sempre que ela cá está a cantar. Peço sempre baixinho ao meu Santo (acredito que tenho um Santo desconhecido, que é muito meu amigo e que me segue para todo o lado): “não me deixes ouvir ninguém a compará-la com a Amália”. É uma falta de consideração para com as duas. Nem sempre o meu Santo me atende.
 
Assiste-se a um espectáculo desta mulher e, além de se receber muita coisa, ainda se percebe que anda por aí muita gente escondida com belas mãos de longos dedos. Tem de ser assim.
 
Não que seja actualmente  o caso da Mariza , para o nosso bem de sabermos que ela existe e de podermos aproveitar os frutos que nos dá. Graças a uma pequena editora holandesa. Gostaram dos cabelos dela e decidiram gravá-la para o mundo que ela, seguidamente, com toda a naturalidade, conquistou.  
 
Tudo isto depois de todas as editoras discográficas sérias em Portugal a terem mandado embora por a considerarem com má apresentação.
 
A Mariza tem tanta importância para o Governo português, como a bandeira nacional: Ou seja,  merece muito respeito e admiração. No entanto, concedo, se a bandeira portuguesa apresentasse um encarnado e um verde mais escuros, teria outra classe. A Mariza não se veste só de preto.
 
Na mesma linha, mas sem ter a ver directamente com o caso. O meu amigo António Victorino D'Almeida disse-me, certa vez, que:  "o Villa Lobos é um produto mediano. A música clássica brasileira é a Bossa Nova". E acrescentos em tom enlevado: "eles têm um talento espantoso. Em quase tudo, e fundamentalmente, para a música". Os brasileiros. É claro que estou de acordo.

 

O Concerto do Chico também foi superior. Um outro género, uma outra presença, uma outra demonstração de...genialidade (sobretudo, na enorme poesia pessoal  que o Chico canta, cantada por ele muito bem, numa voz mais ou menos boa).
 
E estava tudo a correr muito bem. Eis quando, senão, o senhor, já no fim,  se lembra de introduzir esta musica aqui: "Foi bonita a festa, pá Fiquei contente Ainda guardo renitente um velho cravo para mim Já murcharam tua festa, pá Mas certamente Esqueceram ...". Isto, sem ninguém lhe pedir, foi ele que fez, há muito tempo sobre nós. Sobre Portugal. E fez muito bem.
 
Sucede que, precisamente, na introdução, antes de começar propriamente a cantar, ele disse que se tratava de algo que nunca cantava no Brasil (os brasileiros não apreciam), mas que achava muito propositado cantar aqui na "terrinha". E fiquei com o espectáculo estragado.  Para quem não sabe, a "terrinha" lá significa o mesmo que cá: a província, a sitio atrasado, a terra dos parolos. O Chico percebeu a gaffe cometida em pleno Coliseu dos recreios em Lisboa. Não em Valpaços, Trás os Montes, por exemplo, ou no Sergipe, algures no Brasil real, por outro exemplo.
 
Mas, na fracção de segundo seguinte, fez como os 5 mil portugueses que estavam no Coliseu. Ou seja, fingiu que não aconteceu nada. Os ritmos arrancaram de imediato, ele elevou a voz e o público rendeu-se num aplauso corrido à velocidade dos tempos musicais. E era só sorrisos. E uma grande alegria. Tudo muito contagiante.
 
Se afirmasse aqui que Portugal é um país com baixa auto-estima, estaria a precipitar-me escandalosamente? Certamente. Onde estão os dados? Os conteúdos dos estudos científicos que o comprovem? Onde foram deixadas as citações dos autores respeitados? Não sei se existe algum estudo sobre o assunto. Quanto aos autores, não me lembro assim de ninguém. Bom, mas eu sou preguiçosa e, por isso, desinformada, distraída, indolente, pequena e ridícula. Embora não seja baixa. De estatura baixa, quero dizer. Eu não sou baixa.
 
Se fossemos um povo com sentido da dignidade e se conhecêssemos o valor básico da união, teríamos deixado o Coliseu em silêncio. Nem um bater de palmas, durante a música. Nem um aplauso, no fim. O Chico haveria de ouvir um minuto de silêncio em sua própria homenagem, O voo da mosca que lhe iria pousar em cima, havia de se ouvir em todos os cantos do Coliseu. Para mim, o Chico nunca mais! Mas, como é só para mim, não há problema. Ele foi tão aplaudido, que eu temi a possibilidade de não conseguir chegar a casa antes de amanhecer. Os encores foram para aí uns 4, com meia hora de palmas a intervalar.
 
Fica a frase publicitária que, talvez, não por acaso, se nos colou aos tímpanos para sempre: se eu não gostar de mim, quem gostará ? Sabonete Ponds para lavar a cara.
 
publicado por Cat2007 às 13:44
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Março 20 2007

 

 


Existe uma ligação forte entre o elogio e a inveja. Mas não só. Entre o medo e  o elogio também. Neste último caso, nos dois sentidos. Sucede que, assim, já não é elogio. O elogio presenteado, tipo brinde publicitário "gama para empresas", quero dizer. Numa situação destas, se há elogio, não há elogio. Há a mentira utilitária a ver se pega e dá alívio. Palpita-me que também existe uma ligação sólida entre o elogio e a cobardia. On verá(apetece-me dizer este francês sintético musicado, linha Brel, se fosse ele a cantar).

 

Gosto de ser elogiada. Quem não gostar que atire a primeira pedra. Qualquer manualzinho de bolso sobre psicologia aplicada (ao quotidiano comezinho) ensina que assim é. Não vale a pena mentir. Existe também, como se sabe, uma ligação entre o elogio e a mentira.

 

Normalmente, ninguém me elogia. Durante muito tempo pensei que isso era normal. Acreditava, dada a normalidade do facto (entendida no seu sentido de habitualidade) que o elogio amolece o espírito. Insufla o ego. Desincentiva o esforço. Trabalho e alegria são incompatíveis. Prazer pela obra realizada é praticamente um pecado  (tal como a luxúria é um dos "Sete pecados mortais"). Seja lá que obra for. Mesmo que seja encerar um chão muito bem. Pelo trabalho tem-se o salário. Pelo trabalho obtém-se uma nota curricular. Quando se obtém. Há professores que não acreditam no mérito de ninguém, para além do seu próprio.  Nem a admiração revelada se adquire pelo trabalho. Só pelo estatuto. Ter concluído uma licenciatura em Direito, só contribuiu para cimentar, ainda mais (como se fosse preciso), esta minha noção para a vida.

 

Há quem admire muito a Maior Árvore de Natal da Europa, que este ano esteve na Praça do Comércio. Logo que se soube, e foi logo, que era a maior Árvore de Natal da Europa, toda a gente a elogiou. É muito fácil elogiar objectos. Sobretudo, se forem os maiores da Europa. Particularmente, porque a margem de erro é pequena. Também porque não ameaça ninguém. Não é uma pessoa próxima ou em risco de o ser.  

 

Geograficamente, nós, Portugal, não somos o país mais pequeno da Europa.  Porém, não sei porquê, acreditamos firmemente que sim. Somos o país mais pequeno da Europa. Como justificar este absurdo? Com a doença. Nós estamos doentes do sistema métrico do nosso patriotismo.

 

 Sinceramente, não me considero exemplo para nada ou para ninguém, para além de um ou outro bom exemplo que justamente possa dar. Um dia entrei em contacto mais estreito com a sociedade civil brasileira (aquele conjunto de fenómenos organizados  que ficam entre o Estado e a família), bem  como com a sociedade brasileira não organizada -  com as pessoas. Foi aí que fui elogiada pela primeira vez com toda amplitude e verdade.

 

No princípio, estranhei. Achei que não era verdade. Que os brasileiros são assim: Gente de sorriso fácil. De gingado fácil.  Em geral, de pouco saber e cultura. Gente de mentira fácil. Gente que diz e faz tudo andando pela superfície da vida, a ver se é amada ou se safa na vida. Como os brasileiros são mal educados, carentes, egocêntricos e oportunistas, pensava. Mal. Muito mal na minha falta de educação básica. Se digo aqui e agora tudo isto que pensava é porque já me arrependi e tenho vergonha hás muito tempo.

 

Os brasileiros são tanto assim como o são os portugueses, os ingleses, os franceses, os americanos, os indianos, os alemães ou os africanos. Quem pensar o contrário um dia arrepender-se-á. Não se pode confundir um universo cultural particular a cada sociedade com o carácter de cada pessoa. Podemos gostar, ou não gostar, do modo de viver global de um determinado povo. Podemos gostar, ou não, conforme a nossa própria sensibilidade e aptidão para poder saber mais dos outros. O que não se pode é andar por aqui e por aí a generalizar, caracterizando e reduzindo ilogicamente cada ser humano a um padrão que, ainda para mais, nem sequer é apurado. Temos este hábito de dizer coisas como, por exemplo: os brasileiros são malandros, os americanos são muito espertos, os japoneses são umas formigas trabalhadoras, os africanos são estúpidos, os alemães são frios, o café está na mesa, o hambúrguer é para o miúdo , o meu carro é um Honda, esse anel de diamantes é um assombro, estas salsichas fazem um cachorro óptimo.

 

Tenho um amigo alemão. De quem gosto muito. Senão não era meu amigo. Era outra coisa. Disse-me um dia, em modo de alta voz, que acreditava sinceramente que as mulheres portuguesas tinham bigode e andavam todas de bata. Isto enquanto estava na Alemanha. O que, como é normal, aconteceu durante a sua vida toda, até se mudar para Portugal. Protestei com uma interjeição . Não estava preparada para aquilo. Não fui imediatamente capaz de falar. Ele explicou-se. Disse-me que, na Alemanha, não conhecia portuguesas que não fossem assim. Havia muitas e todas usavam bata e tinham bigode. Mais, quando, nos noticiários lhe apareciam notícias referentes a Portugal, lá vinham as senhoras hirsutas embatadas a falar. Fiquei doente. Porém, claro que o Frank é casado com uma portuguesa. Na minha casa, nunca viu uma bata pendurada em lado nenhum. No mais, ele é engenheiro da Siemens, a empresa que prefere Portugal.

 

Foi graças aos elogios soltos, sentidos, permanentes, sem esperarem nada em troca, que eu aprendi a escrever. Escrevi em muitos sítios para brasileiro ler. E eles, sinceramente gostavam. Porque o diziam e, em troca, só me pediam para não parar de escrever. Um deles construiu-me um blog para ficções. Queria que eu escrevesse mais. Eu escrevi. Com uma alegria. Com um impulso. Com um prazer. De cada dia, cada vez escrevia melhor. Histórias melhores. De cada dia, cada vez produzia mais. O meu blog para o Brasil enchia-se de comentários. Vinham apenas elogiar. Nada mais.

 

Espero que resulte evidente que não quero aqui elogios! Sobretudo porque sei que não os receberei. Mas, ainda que assim não fosse, viriam de portugueses. E, em Portugal não se elogia ninguém. Eu sentir-me-ia muito incomodada por um solto e sorridente elogio lusitano. Nós não temos capacidade (nós, menos eu). Ser capaz de elogiar, não tem tanto a ver com o que se sabe ou conhece das coisas, mas com o modo de sentir das pessoas. Porque vivemos tão mesquinhos e desconfiados. É uma pena que um país ande há tanto tempo a deixar-se dominar pela insegurança, pelo medo, pela dúvida e pela inveja.

 

publicado por Cat2007 às 19:22
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Março 18 2007

 

 

Fui obrigada a retirar o post sobre Portugal e o Brasil porque uma série de gente se uniu contra mim. Recebi cartas e telefonemas ameaçadores. Eram portugueses e brasileiros ofendidos. Todos juntos numa união contra mim. A unidade contra o mal. Nunca pensei que este bloguezinho chateasse tanta gente! Nem sabia que havia essa gente toda que lia as minhas coisas.

 

Tentei argumentar. Expliquei que isto era o meu cantinho no espaço democrático ocidental. Acrescentei que não era Comunista, nem, sequer e muito menos, nacionalista. Jurei que amava o meu país. Os portugueses criticaram-me duramente. Como fui eu capaz de afirmar que Portugal não tinha auto-estima?

 

Eu disse isso? Eu acho que não disse bem isso. Eu disse que pensava que não tinha muita. Não é a mesma coisa. Acrescentei que deviam era ir todos criticar a Maria Filomena Mónica que está sempre a dizer mal do país aberta e desavergonhadamente . Cortaram-me logo com esta: a MFM pode dizer o que lhe apetece. Ela já conquistou o seu lugar. Ela trabalha muito para se poder sentar em frente a uma câmara e falar. Eu nunca fui à televisão. Eu não tenho direitos. Se quero dizer o que me apetece, tenho que ir fazer um doutoramento em Londres ou nos EUA. Só quem é doutorado nos estrangeiro é que pode dizer mal de Portugal. Ou, então, devo arranjar forma de me tornar milionária. Toda a gente tem um grande respeito pelo dinheiro, e eu devia saber isso.

 

Fiquei estupefacta! Então eu disse mal de Portugal? Eu disse bem de Portugal. Responderam-me que não era essa a questão. Portugal não interessa. Todos se estão nas tintas para este pequeno país pobre, situado no ponto mais ocidental do fundo das costas da Europa. O que revoltava, realmente, era esta minha postura de não ser ninguém e de me p ô r para aqui a falar. Além do mais, a mãe da Mariza é mulata! E, mais, o que tinha eu contra as novelas brasileiras??????????? E mais a melhor cantora portuguesa de todos os tempos é a Nelly Furtado. Se eu não sabia disso, que fosse ler um bocado, em vez de estar para aqui a escrever páginas e páginas de absurdos infanto-tresloucados . Eu ainda protestei: "mas a Nelly Furtado nem sabe falar português como deve ser. Aliás, ela fala mesmo bem é inglês e tem um espanhol perfeito! Não a ouviram a cantar com o Juanes? Comparem lá com a música da "Força! Força!", do Europeu de futebol". Pronto. Basta! Agora já não teremos mais contemplações consigo! Vai ser processada já!

 

Quanto ao porta-voz dos brasileiros unidos entre si e com o portugueses contra o mal personificado na minha pessoa, a sua primeira frase foi: "você tá tirando uma com a nossa cara? Tá tirando uma, é?????????? A gente não tem nenhum Chico Buarque cantor, ô guria ! Esse cara só pode ser portuga , ô vilã! Cê é do mal! Cê é do mal! A gente só tem Ivete Sangalo , Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Chororó, Vagabunda ignorante! E o Hino, Ô Piranha!!!!!!!!!!!!!, nosso Hino é maravilhoso. É a nossa cara! Foi o Roberto Carlos quem fez, música e letra! Tá bom?! E o meu nome é bem brasileiro, acrescentou o homem, o meu nome é Wagner, viu???????????????

                         

publicado por Cat2007 às 19:10
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Março 15 2007

 

 

É verdade. Na verdade, vou falar de verdade na verdade. Verdade na verdade quer dizer a verdade objectiva dentro da verdade subjectiva. Bem, well (como nos livros e peças anglo-saxónicas, e que aparece sempre nas traduções - o que ninguém compreende. Do género, "bem, está um dia de sol extraordinário"), mas como dizia, bem, na verdade, vou falar de ambas as verdades. A verdade de cada um e a verdade factual (posso, ainda, acrescentar a verdade que só Deus sabe. Mas esta talvez seja mesmo a factual. É que mesmo as intenções são factos. A dificuldade está em prová-las).

 

Portanto, a verdade dos factos é tão divina como a verdade de Deus. É que é  difícil controlar o labor interpretativo. Certamente, qualquer objecto carece de interpretação. Como compreendê-lo sem o instrumentalizar desta forma? Porém, é necessário parametrizar, limitando. Senão, não dá. Todos falamos e a língua é outra.

 

O problema é que, na maioria das vezes, e dentro de uma mesma conversa, uma esponja nunca é só uma esponja. Pode ser um objecto de absorção, um ser vivo, amarela ou de outras cores, tingida, para o banho ou para a louça, objecto de um homicídio por sufocação, detestada, amada, ignorada (SIM, HÁ QUEM NUTRA SENTIMENTOS POR ESPONJAS!). Mas nunca é só uma esponja. Não existe objectividade na interpretação. Logo, não há interpretações perfeitas porque certas. As pessoas não têm o divino poder de se controlar e evitar olhar para o próprio umbigo. É por esta razão que a falar é que a gente se desentende. Qualquer conversa suscita pontos de discórdia. Mesmo quando estes são inconfessáveis ou não são confessados. Aliás, qualquer conversa deve terminar quando a discussão já a substituiu. O ideal será retomar vinte minutos depois, quando todos estiverem mais calmos (qualquer manual de inteligência emocional dirá isto - de qualquer modo, não sei se estes livros existem).

 

Perante os mesmo acontecimentos, a minha verdade é diferente da tua verdade. Isto é absolutamente verdade. De resto, a minha mentira, também é diferente da tua, como adiante se demonstrará.

 

Pois a verdade sobre os mesmos factos pode resultar em factos diferentes, de acordo com as posições, observações e concepções  pessoais que se interpõem. Já ouvi dizer que "cada pessoa é um mundo". É capaz de ser verdade. Porém, na verdade, não me parece que a generalidade das pessoas gostem disso. Creio que temem a solidão. As pessoas que não gostam de ser um mundo individual. Acham que significa isolamento. O que se quer é ser-se especial. Quando se está com esta vontade mais latente, esta vontade de se ser especial, quer-se ser um mundo. Mas isso, isso é a fingir. As pessoas só querem ser vistas como especiais. Não querem realmente sê-lo. Ser especial é ser diferente. A democracia e a igualdade imanentes não suportam a diferença . Aqui ninguém quer ser especial porque aqui ninguém quer ser diferente. Custa muito. É por isso que ninguém se esforça para ser melhor. Antes, faz-se sempre um esforço para parecer melhor, especial e diferente , com o aconchegante pensamento que envolve: "graças a Deus que sou igual a toda a gente". Pois. À custa de tanto querer, bem se consegue.

 

A minha verdade é aquilo em que eu acredito. A minha mentira é aquilo que eu sei que não pode ser, mas digo que sim. Que é. posso dizê-lo a mim mesma. E acreditar, acreditando que a minha mentira é verdade. Trata-se de uma resultante da diferença entre o saber e o sentir. Aquele espaço que fica para percorrer entre o que se sabe e o que se sente sobre uma mesma coisa. Porque se começa ao contrário. Primeiro pensa-se e depois sente-se. O melhor seria, evidentemente, sentir e a seguir pensar. Não faço a apologia do comportamento fundamentalista do tipo irracional-descontrolado-expontâneo. Faço um apelo à autenticidade, Logo, à transparência nos comportamentos. Desejo espaços de liberdade de dizer em paz. Campos de troca com respeito próprio e meta-pessoal.

 

Se eu traisse alguém, trair, trair no sentido novelístico da palavra, não dizia. Porque há sempre uma razão para um comportamento.

 

Devemos perceber porque fazemos aquilo que não nos parece bem. Se somos do género de exercer a autopunição com categoria e empenho, ninguém será capaz de nos punir mais e melhor. Se somos do género radicalmente oposto, ou seja do tipo canalha sem vergonha, a crítica e o ressentimento dos outros só nos atingem enquanto nos faz sons incomodativos nos ouvidos. No mais, existe um lado solidário que os que mentem com coragem são capazes de exercer, enquanto que os canalhas sinceros esmagam as suas vítimas com a a verdade. Na verdade, não é preciso magoar as pessoas. Na verdade, há verdades que não acrescentam nada, além de muita dor para o receptor e um certo alívio para o emissor.

 

publicado por Cat2007 às 14:26
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Março 07 2007

 

 

A homofobia é uma fobia. Logo, um medo irracional. No caso, é um medo irracional aos homossexuais. Conheço algumas pessoas, poucas, que têm aracnofobia. O que consiste num medo irracional às aranhas. Bom, se o medo é irracional, é porque não está razoavelmente fundado. Daí as reacções irracionais que o medo irracional despoleta. Por causa das aranhas já vi pessoas a pular e a gritar,como se houvesse incêndio na sua própria  roupa do corpo. Outras ficam muito caladas, com o olhar fixo no abstracto e o corpo rígido. Percebe-se a aceleração cardíaca. Não dizem nada. Estão mortas. De medo. Ainda um terceiro tipo: estas reagem. Pisam a aranha num assomo de agressividade sem precedentes. São impulsionados pela tensão nervosa extrema incontrolável. Mesmo depois do esmagamento da carcaça do bicho não descansam. A ideia é fazer eclipsar também os seus restos mortais. 

 

Não me lembro de algumas vez assistir a uma crise de homofobia ao vivo. Mas já li nos livros e já vi nos filmes, na televisão e na internet. Por vezes, o homofóbico salta sobre a aranha e desata a pontapeá-la. A ver se a mata de vez. Noutras circunstâncias, o homofóbico sai a correr. Há, ainda casos, em que é dominado por uma crise de catatonia. Fica tenso e calado, repetindo sempre o mesmo gesto reiteradamente. Este gesto é tipicamente o do "saltinho para o lado e enxotar", "saltinho para o lado e enxotar", "saltinho para o lado e enxotar", "saltinho para o lado e...".

 

Obviamente, há qualquer coisa de neurótico na homofobia. Como na aracnofobia. Como em qualquer fobia. A neura é tanto maior quanto menos razoáveis e desporpocionadas são as respectivas reacções. A visita a um médico é a melhor solução para quem abriga uma fobia já demasiado insustentável, com graves reprecussões na sua vida quotidiana.

 

Poderia pensar-se que há aqui alguma coisa de homofóbico. Nisto que vou fazer em seguida. Mas não há.  A matéria não é minha. E para o que importa tem graça. Não posso deixar de mostrá-la e comentá-la. Só porque possa parecer politicamente incorrecta. O que tem graça é para rir. Se é para rir, vamos rir. Com certeza que há limites. O mais importante é o da dignidade das pessoas. Nunca vi ninguém sentir-se menos digno só porque teve esta ou aquela atitude ridícula. O ridículo é humor porque faz rir. A noção do próprio ridículo é muito difícil de apreender. Falta-me muitas vezes. Conforta-me o facto de saber que não estou só.

 

Segue-se, em reprodução, uma matéria riquíssima. Tão rica que podem sem dificuldade retirar-se meia duzia de valiosos outputs. Porém, para mim basta o nome do personagem principal. Mardoqueu. Isto, este nome, estou certa, é o resultado do hábito que todos os brasileiros têm de evitar dar nomes portugueses aos filhos. Preferencialmente, escolhem nomes americanos. Como Maicon, por exemplo. Escreve-se Michael. Mas eles ouvem Maicon. Logo, Maicon é. No caso em análise, a origem tem de ser Murddock. Os pais decidiram que haveria de ser Murddock. Não sabiam escrever, logo seria como soava: Mardoque. Quem colocou ali o u final e criou um Mardoqueu, não sei. De qualquer modo, o nome da criança está à altura do destino do homem: deputado e pastor da IURD. Um predestinado.

 

"Deputado sergipano condena criação da "Igreja Gay"

 

O deputado estadual e pastor Mardoqueu Bodano (PL-SE) se posicionou contra a criação da Igreja Gay, que está sendo organizada há pelo menos três semanas por homossexuais sergipanos.

Para ele, "o homossexualismo vai de encontro à palavra de Deus, que criou o homem sendo a sua imagem e semelhança e fez a mulher para ser a sua companheira". Bodano lembrou que a igreja é uma congregação religiosa que abriga todos os que se sentirem oprimidos ou desejarem orar a Deus sem objeto de discriminação e não é uma instituição segmentada e apenas voltada para os gays.

"A igreja é uma instituição para se redimir dos pecados e uma boa oportunidade dessas pessoas tirarem o diabo de suas vidas, este espírito maligno que gera toda essa situação de homossexualismo", disse Mardoqueu, ressaltando que se o ser humano pensar um pouco mais em Deus não há espaço para este tipo de discussão.

Segundo o parlamentar, que é pastor da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Deus criou a mulher para poder ajudar o homem, principalmente nos momentos mais difíceis de nossas vidas. Para ele, o ser humano não pode ir de encontro à natureza e o homossexualismo, até que se prove o contrário, não atende os princípios regidos pela bíblia sagrada. 

 

 

Por outro lado, não é que as paradas gays me incomodem. Na essência das coisas, não são muito diferentes de quaisquer outras manifestações pelos direitos de pessoas a coisas. São tão populosas e ruidosas como qualquer passeata da CGTP, por exemplo. Também, são tão coloridas e musicais como a Festa do Avante. E é bem verdade que são muito mais divertidas do que os eventos exemplificativos indicados. Quer dizer, não há dúvida que, ali, o pessoal diverte-se imenso. Aliás gay quer dizer... isso mesmo: alegre.

 

No entanto, confesso, estranho a ideia de misturar pão com circo. Quem costuma dar o circo dá o pão também. Neste caso, não. O povo pedinte é que faz o circo. Não entendo. Não entendo, sobretudo porque, parece-me, no meio de tanta palhaçada alguém se vai recusar a entregar as bolas de padaria. Provavelmente, estou a ser reaccionária. Porque não se há-de misturar assuntos sérios com diversão? Sim. Estou a ser reaccionária. Tal como os governos e a generalidade dos indivíduos que integram as sociedades modernas.

 

As imagens e os excertos jornalísticos que se seguem foram publicados em meios de comunicação social de grande divulgação. Reportam-se a factos ridículos. Exibem aparências e comportamentos ridículos. Toda a gente percebe que os gays que vão às paradas gays não são todos assim. Provavelmente, nem, sequer, a maioria. Contudo, os que aparecem são estes. Os chocantemente ridículos. Pelo excesso de liberdadade coartada. Como é evidente, a Reuters e os outros agentes da notícia não trabalham em cima da normalidade. Será que os gays não percebem isto? Ou, se percebem, não se importam? 

 

 

 

 

 

publicado por Cat2007 às 22:52
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Março 05 2007

 

 

Antes de mais, o corpo serve para pensar a seguir a sentir pelo processo de absorver. Escrevi sobre o complexo de Peter Pan e Cinderela. Basicamente sobre a perfeição. Abri o Pessoa e lá estava. "Adoramos a perfeição porque não a podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivessemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito". Temos que aceitar que este homem já disse tudo o que havia para dizer.

 

Não me senti ridícula por não ser original e criativa. Para isso era precisa muita sobranceria. Falta-me. Felizmente. Talvez por não desejar nada. Não ter nenhum objectivo na escrita, para além de mexer as mãos e os olhos e os elementos dentro de mim enquanto escrevo.  

 

Gostei muito de escrever o que escrevi. Sem ter dito nada de novo. Sem qualquer assomo de criatividade. Gosto da minha desorganização. Porque é minha. O Pessoa é tão admiravelmente sintético.

 

Preciso desta actividade. Construi este espaço para mim. Não faço textos. Num certo sentido. Construo frases cujo sentido é o meu. Não existe uma estrutura projectada. Um plano pré-determinado. Não espero que gostem de mim pelo que escrevo. Para isso era preciso que me lessem mais do que escrevo.

 

Sei de amigos que vêm aqui visitar-me. Por saber, aconchega-me a presença deles. Porém, se um dia me faltarem, eu vou continuar aqui. Não vejo outra alternativa. Não tenho mais nenhum sítio onde colocar as palavras sobre assuntos que invento sem a capcidade de acrescentar nada na vida de ninguém. Tenho pena porque o que importa é a gente que se  situa para além de nós. A vida não tem sentido sem os outros.

 

Já compreendo que não é saudável ver as pessoas gostarem de coisas minhas que eu não gosto. Percebo que é muito importante aceitar-me. Não tenho de ser melhor do que aquilo que não sou. O desejo de excelência não deve afectar-me. Se um dia fizer bem que muita gente possa aproveitar.

 

O assunto comigo talvez seja fazer as pazes próprias. Se é que eu ando aborrecida comigo. O que pode até não ser verdade. Não gostava de ser outra pessoa. Olho em volta e não vejo ninguém, admirando tanta gente que é capaz do que eu não sou. Gosto de muita gente mas não quero ser diferente de mim mesma. Não posso. Se um dia mudar para melhor, é porque não mudei. Entrei apenas num outro nível de síntese.

 

Gostava de ter a boca um bocadinho maior, mas, para já, vou ficar com a que tenho. Se um dia fizer uma estética para aumentar a boca, não vou deixar que esta que agora trago desapareça. Isto é que é entrar num outro nível de síntese. Fundamentalmente, a mudança faz-se a subir degraus emocionais. Não. Não é a cabeça que muda. Mudam as emoções. E, na verdade, não mudam. Sintetizam-se com a apreensão da novidade que nada tem de novo.  Que nos chega e se ajeita dentro de nós num processo pacífico de aceitação dos efeitos do tempo na vida.

 

Tenho pena do que deixei para trás. Mas não há outra alternativa. Temos que deixar para trás tudo o que fica para trás porque o tempo nos empurra. O passado não tem existência material. É só memória. Não podemos mexer na memória. Nem com a falta dela. Esquecer não é perder. A sintese já ocorreu e muitos degrau nos suportaram. No futuro, que também não existe, seremos outros. A memória patrimonial somos nós em cada momento crucial da nossa própria história. No presente feito de todos os dias da nossa vida.

 

Segundo Thomas Mann, a alma é a energia da vida e o espírito é a forma interna que a vida assume, ao passo que o corpo consiste na configuração material da nossa existência ("José e os seus irmãos"). Escusamos de andar a fingir que o corpo é secundário. Como gostamos de mentir. Melhor, como o equívoco nos seduz! O corpo é uma espécie de pórtico. Nada pode atingir o espírito sem passar por ele. O espírito é cego, surdo, mudo e não tem nervos.

 

Gosto de chocolate preto, de coca cola zero e de cigarros. Gosto de ler e de escrever. Gosto de fazer amor. Gosto de qualquer manifestação de ternura com as mãos. Gosto de musica. Gosto de conversar. Preciso muito do meu corpo. Agradeço-lhe tudo o que me dá. Espero morrer quando o meu corpo estiver demasiado cansado e a minha alma estiver farta de me suportar o espírito já feito de uma certa forma inalterável.

publicado por Cat2007 às 12:13
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Março 04 2007

 
Eu acho que o Eça se sentia extremamente magoado com o Dâmaso "trés chic". Nem sei se não foi por causa dele que se foi embora para o estrangeiro escrever sobre Portugal. É facil pensar num plano de fuga e executá-lo se nos andam a oprimir demais. A culpa deve ter sido do Dâmaso. Não de Portugal. Portugal terá sido o amor ao longe de quem e a quem se escreve cartas de amor. Se eu fosse o Eça, tinha-me acontecido isto. Como não sou, vivo aqui com este amor angustiado pelo meu país, inventando pré-literatura sem categoria literária.
 
Há uns tempos ouvi uma senhora muito abalizada a falar sobre o Eça na televisão. Maria Filomena Mónica. Como uma grande baliza cheia de bolas que parece ser, ela disse e disse. Devolvendo bolas à vez. Claro que há aqui um contra-senso. Se bem que as balizas servem para receber bolas, é certo que o objectivo do jogo, no momento da equipa que defende, é evitar isso mesmo. Que as bolas entrem. Neste aspecto, ninguém quer ter uma baliza cheia de bolas. Nem ninguém, muito menos,  quer ser a própria  baliza. Já viram os jogadores furiosos a dar pontapés nos postes e mesmo nas redes? É porque não estão contentes com as bolas que lhes entram pela baliza dentro. Por outro lado, não interessa falar na equipa que ataca. Essa, é óbvio, quer a bola na baliza. Quando isso acontece é uma alegria orgástica que se dá. Só que a baliza é dos outros. 
 
A senhora fartou-se de explicar o autor e a autoridade dele que, até parecia, era ela quem lha dava. Assim como quem descobre a pólvora, que toda a gente já conhece e usa mas não sabe explicar. Que é como quem diz, ninguém quer explicar a pólvora. As pessoas sem serem umas grandes balizas são inteligentes. Assim, basta-lhes saber que é muito intensa, explode, faz feridos, e essas coisas assim. A pólvora. É por isso que fingem (fingimos) sempre que acreditam (acreditamos) na pólvora descoberta pelos outros. Não querem (não queremos) magoar os sentimentos de ninguém. Todos nos calamos (todos se calam) com vergonha de dizer: “Olha lá, tu não descobriste nada”. Ou:  "Desculpa mas estás a inventar”. Ora, isto é pelo menos uma demonstração de grande delicadeza e compreensão para com o próximo.
 
Nisto, eu estou quase como sempre com o O’Neill . "Há mar e mar/ Há ir e voltar". Não se deve nem vale a pena explicar a arte em particular. E uma série de outras coisas muito importantes em geral. É que perdemos o tempo precioso de aprender. Acresce que, como dizia um amigo meu, “o meu sucesso é sempre um mal entendido”. Porquê? “Porque os meus leitores constroem entendimentos que eu jamais idealizei”. E agora digo eu própria: não há dúvida que o texto finalizado só o está depois de ser escrito e a seguir a ser lido fora da autoria original. Um texto, um bom texto, o único que existe, vê o seu poder paternal partilhado por muita gente sentidamente disposta a assumir tamanha responsabilidade. 
 
Aquela senhora televisiva foi convidada mais uma vez para falar num programa de televisão. E explicava o Eça. Invocava factos simples, logo inexplicáveis: o Eça pertencia à classe social x. Mais tarde foi aceite na classe x+1, mas não lhe foi concedido o estrato respectivo. Daqui e a partir também de outras factualidades também sem interesse nenhum para o que importa do Eça partia para a explicação da obra. Nada a fazer. É deixá-la falar.
 
Não deixa este de ser um modo de agir natural. Porque já nos habituaram a isso. Fiquei a assistir àquilo cheia de um mau pressentimento. Estamos habituados a ser o repositório dos estudos, criticas, ensaios, palavras ditas, produções dos outros. Sobretudo dos outros que não têm nada de verdadeiramente criativo e terno para partilhar. Daqueles que não produzem vida na vida de ninguém, Dos que são vazios porque não dão nada. Não sabem fazer trocas de humanidade. Porque também não têm nada para a troca. O que sabem é falar de construções. Edificações urbanas que consomem os espaços verdes. São incapazes de fazer um elogio. Mesmo ao jardim do Eça. É demais!
 
Ali estava ela, exibindo o seu bilhete de identidade. Sim. Ela não falava do Eça. Falava de si própria, usando escandalosamente o Eça que para sorte dela está sob um determinado aspecto, no aspecto prático, morto e não a pode questionar. Houve palavras ouvidas e vistas naquele dia  que ainda hoje me estão à frente dos olhos. Como se na altura  tivesse tomado um ácido a trip não estivesse completamente ultrapassada.
 
Afirmou-se que a grande tragédia do Eça enquanto escritor era ser português. Pois se não fosse era universalmente conhecido. Como é que ela sabe que o homem queria ser universalmente conhecido? Um escritor tem de escrever. Não tem como fugir duma fatalidade destas. Um escritor não quer ser conhecido. Quer ser lido. Por alguém. Não tem que ser por toda a gente. Nem por alguém muito importante. Oupelo mercado americano. Um escritor só precisa de escrever e ser lido. O resto são projecções que lhe são alheias.
 
Foi sublinhado que Portugal é pequeno e periférico. Pois. E então? A Bélgica é pequena. O luxembrugo. O prato da sopa. A colher de café. As jóias da coroa. Os diamantes da Merylin. Um chapéu. Um relógio. Um homem. Uma mulher. O World Trade Center era mínimo. O planeta.
 
O tamanho das coisas é relativo. Como esquecer isto e dizer convictamente: isto é pequeno. E mais, as relatividades não têm importância nenhuma, sob pena de, sem querer, nos andarmos a nivelar por baixo. Portugal é periférico em relação a quê? A quem? A que como? A que quando? A que onde? A que porquê?  Nos Estados Unidos, por exemplo,  é bom sinal viver na periferia do centro. Mas quem precisa dos conceitos americanos? Só mesmo os americanos e os crédulos.
 
Maria Filomena Mónica disse que se fosse, por exemplo, americana seria muito mais conhecida do que é. Tenho a impressão que os padrões de exigência americanos são elevados em muitas matérias. Isso pode servir para muita coisa ou não servir para nada, dependendo de quem analisa, ganha ou perde com o facto. Se ela fosse americana, não era portuguesa. É o que se compreende. No mais, não sabemos o que mudaria na essência das coisas. Que estação televisiva lhe abriria as portas para dizer bem da América? Se ela fosse americana, seria capaz de, sentidamente, dizer bem da América?
 
Ela disse que não lhe apetecia traduzir os seus próprios textos para inglês. Não sei se não disse que não tinha “pachorra” para isso. Também não sei porque haveria de dar-se ao trabalho. Mas isso é porque eu desconheço o trabalho dela. Só li dois livritos e uns artigos de opinião. Talvez não me tenha dado ao trabalho. De certeza não me dei ao trabalho. Sou indolente, abstraída e desinteressada, pequena, periférica e ridícula. Falo do que não sei. Talvez deva ser punida por dizer o que  senti. A senhora, percebe-se, jamais será castigada por falar do que nunca poderá saber.
 
Filomena afirmou que a língua portuguesas “lixava” (não sei se disse assim) os escritores portugueses porque o resto do mundo não sabe, nem quer saber português. Os nossos autores não são traduzidos. Os tradutores não traduzem a partir de línguas que desconhecem.
 
Bom, mas os tradutores estrangeiros é que devem traduzir as obras portuguesas? A obrigação de nos divulgar é dos outros? Nós queremos ser divulgados? Eu não sei. E posso não saber. Sei que houve uns quantos japoneses que decidiram aprender português só para saber o que Amália dizia na voz. Também não sei que significado pode este facto ter.
 
 Era um programa interactivo. Havia pessoas a telefonar. Todas a cumprimentaram com respeito e vivacidade numa espécie de deferência feliz. Uma telefonou até com o único propósito de lhe dizer que tinham amigos ou parentes comuns. Mónica não ligou muito a isso. Às afinidade expostas por esta especial telespectadora. Mas gostou do resto. Do conteúdo dos outros telefonemas cujo conteúdo era mais ou menos isto: O Eça está Morto! Viva a MFM ! A entrevistadora sorria com cuidado e admiração. Só podia estar confusa. Também não sei.
 
Realmente este meu desejo que todos os dias se vivifica num esforço sofrido de inadaptação é muito forte. Não interessa a mais ninguém, senão a mim mesma. Por outro lado, vai interessando a algumas pessoas porque as aborrece severamente. O meu virar de costas é verdadeiro, sentido e consciente porque sou capaz de segurar entre as mão o que me cai mal e deixá-lo cair, ou não, conforme os riscos. Cinismo ? Talvez e não.
 
Apetecia-me desatar aqui a explicar uma série de coisas. Mas não me parece que o deva fazer. Sobretudo, por uma questão de coerência. No mais, por convicção. Os factos, sem grandes explicações, falam por si. Se todos nós temos Amália na voz, onde anda o Portugal que fez nascer o Eça de Queiroz? Más videiras não fazem um excelente vinho. Portugal é bom. Indiscutivelmente. E sem explicações. É bom. Produz bons frutos. É bom.
 
No momento, e de há longos momentos para cá, Portugal anda triste, deprimido e humilhado. Não sei como conseguimos fazer isto a um pai.
 
publicado por Cat2007 às 15:22
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Março 01 2007

 

 

Há pessoas que querem manter-se sempre jovens. Assim, vão descuidando quaisquer responsabilidades de um adulto, deixando deliberadamente de assumi-las ou (não deliberadamente) de enfrentá-las. O que se passa é que tudo isto acontece por falta de desenvolvimento do senso moral. O sentido moral é o instrumento humano que propicia a superação de obstáculos íntimos ou externos. O Peter  não assume qualquer tipo de responsabilidade. É como se estivesse parado no tempo. O que, no caso dele, é mesmo verdade.

 

Também existe o "Complexo de Cinderela". Praga que atinge  mulheres e homens, embora, ao que parece, não de igual modo. Há menos homens Cinderelas do que mulheres. Faz todo o sentido. Entre outras coisas, os homens não têm os pés suficientemente delicados para aguentarem uns elegantes sapatinhos de cristal, salto 12 cm.

 

O "Complexo de Cinderela" consiste, basicamente, na mania que algumas (muitas) pessoas têm de procurar um grande amor, sendo que, tal amor, tem de ter, como objecto eleito, uma pessoa perfeita. Tal e qual! Uma pessoa perfeita. Claro que a perfeição de que aqui falamos,  é um conceito não científico,  objectivo, portanto. É a perfeição concebida pelas cabeças das Cinderelas, aquando das construções teóricas que desenvolvem durante a dedicada lavagem do chão da cozinha. Toda a gente sabe, as tarefas domésticas são extremamente relaxantes e dão muito tempo para pensar. O que é bom. 

 

Pelos vistos, todos temos um pouco a mania que somos Peter Pan. Ao mesmo tempo, todos procuramos o ser ideal para uma vida a dois, como a Cinderela. As diferenças (entre todos) é que uns somos mais assim que outros.  Com exclusão dos verdadeiramente manientos , dos patológicos, enfim, daqueles que deixam mesmo transpirar, por todos os poros da pele, estas desreguladas obsessões  e só se aguentam na base dos comprimidos hard , injecções, internamentos, choques eléctricos e lobotomias (as duas últimas técnicas já não se usam). Estes, são muito mais assim do que o resto da população. Não é deles que quero falar. Quero mesmo é deixá-los em paz.

 

A conversa é com os outros. Nós, portanto. Nós os consumidores activos ou potenciais de Xanax e antidepressivos. Todos nós, segundo as estatísticas (com excepção das pessoas que vivem no campo ou perto da praia). Nós queremos ser o Peter e somos, também, uma parva de uma Gata Borralheira, que há-de ser princesa, enquanto nós não. Já estou desconfiada de nós. Para começar, o Peter Pan é uma criança. Depois, não se percebe bem se é um rapaz ou uma rapariga (a despeito do nome). Dois obstáculos legais: Em Portugal só podem casar os cidadãos maiores de idade ou os menores, com mais de 16 anos, desde que devidamente emancipados pelos pais. O segundo entrave é que o casamento homossexual não é permitido. Ou melhor, só é legalmente viável o casamento entre pessoas de sexos diferentes. Então como é que o Peter Pan se vai casar se nem pais tem? E que idade tem o Pan ? Deve ter menos de 16 anos. Portanto, o problema dos pais nem se coloca. Como qualificar a Cinderela que habita dentro de nós? Um transexual, se se trata de uma Cinderela Pan? Mas, pode, no entanto, pertencer ao terceiro sexo. A Cinderela Pan. O Peter , só por si, já pertence.

 

Cinderela e Peter Pan vivem dentro de nós como um só. São um híbrido. Como se já não chegasse a própria hibridez do rapaz/menina. Fundidos, são ainda mais híbridos . Porque, então, temos, rapaz/rapariga/menino.  Como podemos nós andar bem?

 

Pessoalmente, estou-me nas tintas para a Cinderela . Andei a tomar, por enganos, comprimidos para a esquizofrenia e deixei de a ver e de a ouvir. Não sei se ela morreu dentro de mim. Sei que não a vejo e não a ouço. Agora, já posso reconhecer, com toda a tranquilidade: eu não sou uma pessoa perfeita.  O mais, fez o meu sentido de justiça. Fez-me pensar: então se eu não sou uma pessoa perfeita, como posso aspirar a conquistar alguém assim para mim? E também pude raciocinar nos seguintes termos: se eu não sou uma pessoa perfeita, como posso saber o que é a perfeição? Se eu não sei o que é a perfeição como vou reconhecê-la nos outros? E por fim pensei: a perfeição deve ser uma grande chatice. Logo não deve ser perfeita. Donde, não existe. Mesmo Deus, Nosso Senhor, tão perfeito, tão perfeito, e vai logo conceber umas criaturas como nós, capazes abrir buracos na Camada de Ozono. 

 

Já, agora, porque é que Deus é um homem? Imensa gente faz esta pergunta. Nos mais diversos locais. Pergunta-se a si mesmo no duche de manhã; no supermercado; no trânsito...Pergunta aos outros depois de fazer amor, durante um jogo de futebol, na praia... Já me perguntaram a mim. E nem me lembro em que situação foi. Deve ter sido no duche. Não faço ideia porque Deus, em imagem, é um homem. Mas, desconfio que é verdade. Se Deus tiver uma imagem, só pode ser a de um homem. Porquê? Não sei. Os extraterrestres também são sempre representados como humanóides. Pode ser pela mesma razão. E, mais, se os extraterrestres vêm do céu e se Nosso Senhor está no céu, então é porque são todos do sexo masculino.

 

Não vou discutir isto. Nunca fui ao Céu (quer dizer, já fui, mas não a este Céu de que estou a falar). Não tenho ideias nem argumentos. Não sei de nada. Apenas digo, ainda bem (ou não) que Deus e os Marcianos, em princípio,  não fazem sexo. Senão, eram todos gays. E, como se sabe, há quem não goste de gays. Onde ficava a fé das pessoas? O que faria o Paulo Portas aos domingos de manhã. É que deixava de haver igreja. O Colégio São João de Brito encerrava? O que diriamos ao Papa?

 

Será que Deus fala com os Marcianos e todos os extraterrestres, em geral? Porque nunca fala Deus connosco, os humanos? Será que não gosta de ser visto como  homem? Será que gostaria de pertencer ao terceiro sexo? Será que o Peter Pan é Deus? E a Cinderela , também tem alguma coisa de divino? Ao que parece, só terá se for homem ou pertencer ao terceiro sexo. Aposto que sim. Que, bem lá no fundo, a Cinderela é um homem.

 

Mas o Peter Pan não é homem. Já o disse. Em primeiro lugar, é um míudo. Depois, é um míudo/miuda-porém- não-transsexual. Peter Pan pode ser uma criatura do terceiro sexo. Já o disse. Agora, que isto que tenho vindo a escrever não tem qualquer lógica ou interesse, também é verdade.

Vamos ao que interessa. Como disse, acredito que me libertei da Cinderela . De modo que posso esquecê-la. Tenho pena de quem ainda anda com a mulher colada à parte de dentro das costas. Tenho a certeza que a criatura provoca umas dores terríveis nas costelas. E até pode conseguir partir alguma. Por mim, basta-me o Pan aos saltos. Saltos enormes que eu não consigo dar e que acontecem dentro de mim. É um inferno! 

 

Num determinado aspecto, sou tão irresponsável como o Peter Pan. Porém, não tenho o mesmo jeito que ele para a ginástica desportiva e para a esgrima. Igualmente, não tenho um batalhão de amigos que confiam em mim e me seguem para todo o lado, bem sabendo que eu sou naturalmente quem sou. Mais importante que tudo, não sou capaz de parar o tempo, ficando parada com outros dentro dele. Só sei ficar parada enquanto o tempo alheio a mim corre. Não tenho a velocidade do Peter para apanhar o tempo. É por isso que ele continua pequeno e ágil e eu estou para aqui uma adulta deprimente a lutar contra a adaptação com uma espada invisível. Eu queria lutar contra o Capitão Gancho.

 

Não acredito na maioria das coisas a que tenho de me adaptar. Se acreditasse, não gostava delas. Vou revelar um segredo. Acho melhor. Nunca fui irresponsável. Eu trabalho constantemente num processo de inadapatação muito consciente e responsável. Tenho muita pena de não ter  nada em comum com o Peter Pan . No entanto, sou capaz de parar o meu próprio tempo, de acordo com o ritmo que imponho. Mas o meu mundo é só meu. Tenho alguma pena.

publicado por Cat2007 às 12:25
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