CAFÉ EXPRESSO

Junho 27 2007

 

 

 

Não tenho tempo. É sempre assim. Sempre assim. Sempre assim quando quero fazer alguma coisa que queria fazer. Mas não queria muito e, de repente já quero imenso. Falta-me imediatamente o tempo. Agora, que me restam apenas 15 minutos de vida neste espaço de edição, é que começo. Preciso de me distrair para que me surjam as vontades. Andei em viagens. Fiz todas as que pude no espaço de uma hora. A maior parte delas foram inúteis, no sentido clássico do termo. A sua utilidade negativa consistiu na perda de tempo que me fez passar. Agora já só tenho 10 minutos, quando comecei com 15, mas que, para ser exacta, eram realmente 13. 

 

Adoro o meu jipe. Mas ando aborrecida de morte com ele. É demasiado exigente. Sempre a pedir extremosos cuidados, quando eu sou assim uma mulher prática. Nunca hei-de compreender porque não posso deixar o tecto aberto em inclinação. Ele fica logo todo constipado se passar uma noite assim. Depois lá vêm os problemas no sistema eléctrico. Coisas no cérebro, portanto. O pior é que ele não tem por hábito queixar-se. Não  chora nem nada. Apenas, meses mais tarde, me causa uma surpresa qualquer, do género "AES FAULT ". É assim que ele me diz as coisas. Isto deixa-me ressentida. Agora tenho que sair e só a ideia de o ouvir num leve assobio e dizer "AES FAULT " antes de se por a andar como um carro normal, desmotiva-me para o resto do dia. É claro que vai para a marca tomar uma aspirina. Ainda esta semana tenho que o deixar lá. E pronto. É isto. Um filho não pode dar mais trabalho. Embora, claramente, possa.

 

Não lido bem com a gratidão. Sinto-me grata com muita gente e não me importo, o que me custa é que me agradeçam. Fico embaraçada até à medula. Tonta. Nem sei o que responder. Não que core, baixe a cabeça ou desvie os olhos. Ninguém me apanha nessa. Apenas existem coisas que seriam muito propositadas dizer e varrem-se-me. É como se me ligassem um aspirador de ideias ao cérebro (o que, bem sei, tecnicamente não existe) quando vem o momento certo. E o momento certo é aquele em que nos dizem muito obrigado. Sinceramente. Muito obrigado". Ainda recentemente passei por uma situação destas. Não tive resposta. Ou melhor respondi: "Pelo Amor de Deus! Isto não é nada. Esquece . Esqueçam". Um disparate. Ou seja, mal. Está mal dito. O que eu devia dizer era o seguinte: Não me agradeças porque eu espero uma coisa em troca. Espero que, logo que tenhas oportunidade, ajudes sentidamente também.

 

Ajudar é, uma obrigação que, uma vez  incumprida, não implica sansão. Pelo menos,  na maior parte das situações. É por isso que é tão obrigatoriamente discreta. Todos somos obrigados a ajudar, mas só ajuda quem quer. E quem ajuda porque quer deve fazê-lo com a máxima discrição, como bem observou Jesus Cristo. Fazer assim é sentir sem pensar. A Madre Teresa de Calcutá livrou-se do valor pecuniário a que tinha direito pelo Nobel da Paz. Deve ter sido por ter achado que o prémio foi mal atribuído. O que fez ela pela paz? A Madre fartou-se de ajudar toda a gente. Devia ter recebido o Prémio Nobel da Ajuda. Como este prémio não existe,ela rejeitou imediatamente o dinheiro do outro. Só podia ser assim. Madre Teresa era uma senhora coerente. A propósito, será que ela já foi canonizada? Eu, em pecado me confesso: não sei. Mas eu, se fosse ela, também não queria. Depois do Santo Escribá o ambiente não deve andar bom pelos corredores das santidades celestes.

 

 

 

 Sentir não é pensar. As respectivas configurações são diferentes . Além de que, por causa disso, pensar tem uma função e sentir tem outra. Não é por acaso que nos apaixonamos quase sempre pelas pessoas erradas, por exemplo. Claro que nós próprios também somos a pessoa errada.

 

publicado por Cat2007 às 13:00
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Junho 23 2007

  

Jorge Aragão ao vivo.

 

Não sei quando ao certo, mas foi há algum tempo. O Canal GNT ainda fazia parte da grelha da TV Cabo. Eu via muito. Agora temos o Canal Record . Já bati o record de vezes em que passei em zapping por ele e não parei um segundo. Assisti na GNT a um desempenho em duo entre a Alcione e um senhor chamado Jorge Aragão. Não sabia quem era. Ignorante! Fiquei chocada! Quem é este homem? "Jorge Aragão, Jorge Aragão, Jorge Aragão, Jorge Aragão, Jorge Aragão". Isto era eu a decorar. No dia seguinte fui à FNAC. Não havia. Como assim?

 

Eu explico:

 

Letras de Jorge Aragão   

 

Aquarela Do Brasil

Brasil, meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
O Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil! Brasil!
Pra mim... Pra mim...
Ô abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Brasil! Brasil!
Deixa cantar de novo o trovador
À merencória luz da lua
Toda a canção do meu amor
Quero ver essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil! Brasil!
Pra mim... Pra mim...
Brasil, terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
O Brasil verde que dá
Para o mundo se admirar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil! Brasil!
Pra mim... Pra mim...
Ô esse coqueiro que dá coco
Oi onde amarro minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil! Brasil!
Ô oi essas fontes murmurantes
Oi onde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Oi, esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil! Brasil!
Pra mim... Pra mim...

 

 

 

 

Você Abusou

Você abusou
Tirou partido de mim, abusou
Tirou partido de mim, abusou
Mas não faz mal
É tão normal ter desamor
É tão cafona sofrer dor
Que eu já nem sei
Se é meninice ou cafonice o meu amor
Se o quadradismo dos meus versos
Vai de encontro aos intelectos
Que não usam o coração como expressão
Você abusou...
Que me perdoem, se eu insisto neste tema
Mas não sei fazer poema
Ou canção que fale de outra coisa que
Não seja o amor
Se o quadradismo dos meus versos
Vai de encontro aos intelectos
Que não usam o coração como expressão
Você abusou...

 

Volta Por Cima

Chorei
Não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral
Não fica no chão
Nem quer que mulher
Lhe venha dar a mão
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima

 

É claro que eu estava convencida de que na Fnac havia tudo. Mas não. Afinal os responsáveis pelas aquisições lá do sitio  têm uma política do tipo mais conservador, digamos assim. Que atraso! Aposto que em Paris, por exemplo, não é assim. Aliás, tenho a certeza. Qualquer loja da Fnac em Paris tem o último grande potencial êxito do maior cantor aborígene da Austrália nas prateleiras para quem quiser comprar na hora. Fico com a impressão de que as Internacionais quando se instalam em Portugal se quedam imediatamente infectadas pelo talvez vírus do nacional provincianismo.

 

Se o povo de cá não conhece o Jorge Aragão, quem de direito e de obrigação tem de compreender a sua própria missão no caso. Ou seja, tem de o dar a conhecer. Foi muito aborrecido para mim não poder comprar um  disquinho que fosse de um dos maiores compositores/cantores de samba de sempre. Pelo amor de Deus! A Aquarela do Brasil sempre é a música que eu - não sendo brasileira e estando aqui a dizer o que me apetece sem grandes rebates de consciência -  sinto que devia ser o hino do Brasil. E, não sendo, não deixa de o ser porque deixa o Brasil mais perto de quem a houve. Mais reconhecido. Mais apreciado. Por outro lado, qualquer brasileiro que ouça aquilo e não se reconheça na sua terra, não é um brasileiro é uma mandioca.

 

É claro que o hino do Brasil é mesmo a "Garota de Ipanema".  O maior êxito da música clássica brasileira. Só, talvez no aeroporto de Riade (capital política da Arábia saudita) é que nunca se ouviu tal coisa. Mas isso não é por não conhecerem a música, mas porque as colunas de som lá instaladas estão todas ocupadas a reproduzir o som que é feito pelos senhores que rezam em grupo na mesquita local (entenda-se por mesquita local a mesquita do aeroporto).

 

Bom, mas eu  eu podia comprar a Aquarela do Brasil" na voz de quem eu gostasse mais. Sucede que eu já tinha isso cantado pela Gal . Por outro lado, nem imaginava de quem era a música. Está visto. Também podia ter trazido o "Você abusou",  mas... não sabia quem era o Jorge Aragão. Por fim, a "Volta  por cima", está aqui num disco da Bethânea . E eu nem vi quem a tinha escrito.

 

O que sei é que não sabia nada. Ouvi o homem a cantar com a Alcione . Quando ele apareceu em palco fiquei perturbada com o timbre e o tom da voz quente e romântico, gingado, malandro sério, rouco de prazer pela cachaça tomada em doses recomendáveis e aberto pelo sorriso permanente: e aquela presença de rei de grande corpo abençoado sentado em cima da vida como a vida gosta: sem lhe pesar, mas, ao contrário, enchendo-a da leveza da simplicidade autenticidade e do talento puríssimo . E a Alcione ainda informou que tinha sido ele quem tinha inventado aquela maravilha que ambos cantavam no momento. Para mim, tudo isto  foi o quanto bastou para seguir à caça dele. Pois fui à Fnac e não o encontrei.

 

Mas por ser verdade que quando se fecha uma porta se abre sempre uma janela (passe o acto medíocre do uso da máxima), eu passei as minha férias com o Jorge Aragão. Ora a cantar. Ora a compor. Eu não gosto nada de Albufeira. Mas atravessei-a, penetrei-a e embrenhei-me nela quase diariamente. É que fiquei num sítio tão perto que parecia que não fazia sentido ir a outro lugar comer, beber, ir às compras, jogar ténis.

  

Desagradável. Pelo menos não fiz o passeio aciganado junto à praia.  No entanto, comprei um pólo Lacoste totalmente falso a uma cigana muito simpática que me deixou em plena praça central de Albufeira com as camisas todas na mão enquanto ia a um esconderijo buscar um S. Estava preocupada com as acções da ASAE . Não lhe fossem confiscar o material todo. Cada vez gosto mais de ciganos. Pelo menos, das mulheres ciganas. De uma outra vez enchi uma velha senhora cigana de beijos. Só por ser afável e linda com os seus olhos azuis da verdadeira cor do Mediterrâneo.

 

 

A questão é que o Jorge Aragão transformou Albufeira num local aprazível e sensual. Inimaginável! É como diz a Sandra de Sá na Casa de Samba:  "Grande Jorge Aragão chegando na área! Se derrubar é pênalte !". Pois é. Titular indiscutível da selecção brasileira.

 

Quem me abriu a janela foi a Lee.  Perdão, a Ana Maria. Falei-lhe no caso e ela, no seu jeito generoso de ser enviou-me uma série de coisas inestimáveis. Entre elas lá estavam o cd e o dvd do Jorge Aragão e o Show completo da Casa de Samba.  Sinto-me muito orgulhosa de ter esta amiga do Rio de Janeiro. Tenho vaidade nisso. Nem toda gente se pode gabar de ter uma Amiga carioca. Não sei se me faço entender.  É que ela é tão carioca e nós temos tanto em comum! Creio que isto pode ser um sonho bom de qualquer bom português. Eu gostava de ser uma boa portuguesa. Talvez eu ame o Brasil e isso possa ser um bom princípio para começar a ser uma boa portuguesa. Gosto da Ana por ser quem é. Mas ainda bem que é brasileira do Rio de Janeiro. Assim a nossa amizade fica diferente e ainda mais especial. Por vezes, ela percebe-me melhor do que eu própria. De outras vezes, percebo-a eu a ela. Seja como for, nunca alguém foi capaz de me chegar tão facilmente.

 

É claro que a Ana é um tanto desfocada. Mandou os discos e, naturalmente, ficou à espera da minha reacção. Depois, ficou toda contente. Creio que disse qualquer coisa como que bom que tinha conseguido (não sei o quê) para o outro lado do Atlântico. Portanto, não percebeu que eu é que estava grata pelas coisas sensacionais que ela me mandou e que são feitas no seu país. Não sei se ela acha que alguém tem que ser convencido a gostar daquilo que é absolutamente superior. Ou, pior, não estou certa que ela compreenda que toda a gente percebe o que vale a cultura brasileira e que os seus expoentes são património cultural mundial. Enfim, como disse, ela é um tanto desfocada, além de complexa.

 

A Ana é uma das pessoas mais inteligentes e sensíveis que alguma vez conheci. Estou muito grata pela amizade que ela me tem. Por mim não passará um dia em que não me lembre dela. Acho que ela também não vê muito bem isto. Deve ser por causa do Atlântico ou, talvez, falta de óculos. Ou, então, eu é que sou um par de lentes de distorção.  Adorável criatura carioca pura tola Ana Maria do Rio de Janeiro. Miss Lee.

 

publicado por Cat2007 às 15:26
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Junho 10 2007

 

Em princípio, uma pessoa honesta é aquela que pauta as suas condutas de acordo com determinadas regras. Estas regras aplicam-se a todas as outras. Familiares ou terceiros. Conhecidos ou estranhos. Amigos ou inimigos. Existem somente um peso e uma medida. Uma pessoa honesta actua com transparência, fala com verdade e pensa com correcção. Ser honesto, em suma, é ser capaz de viver sem enganar os outros. Um pessoa honesta nunca tirar partido da boa fé, da ingenuidade ou, e muito menos, de uma posição de fragilidade alheia. As vantagens que se tiram da vida só podem ser os resultados das conquistas de cada um a partir dos seus actos meritórios, da solidariedade  do outro (embora, neste caso, o mérito próprio, em algum campo seja, igualmente, quase sempre a sua causa primeira) e, também, da sorte. Mais nada.

 

A lealdade também é uma regra de aplicação geral. E, ao contrário do que, eventualmente se pensa, não tem a referida aplicação geral apenas em termos potenciais . É certo que ela é devida por alguém para com  determinado individuo ou individuos. No entanto, à partida, e em primeiro lugar, qualquer um de nós tem o dever de se predispor para ser leal em relação a qualquer um. Por outro lado, mas no mesmo sentido, a lealdade é algo que tem de ser conquistado pelo beneficiário. Depende dos relacionamentos entre as pessoas, surgindo em determinadas circunstâncias da vida. Porém, e por isso, a lealdade, ao contrário da honestidade, é de diferentes tipos, conforme o género de relação que se estabelece entre os sujeitos. Na verdade, nós devemos lealdade à mãe, ao pai, ao irmão, à irmã, ao porteiro, ao vizinho, ao colega de trabalho, ao chefe, ao subordinado, ao nosso animal de estimação, ao clube do coração, ao país. É proibido trair a confiança depositada em nós. Seja por que razão for, independentemente das circunstâncias.

 

Ser solidário é estar aberto para as necessidades, desejos, alegrias, expectativas , dores, sorrisos, medos, forças e fraquezas dos outros (de todos), agindo com respeito pela sua individualidade. Não é ser bombeiro. Soldado da paz, sempre de mangueira em riste pronto para apagar qualquer fogo. É que há fogos que são para arder porque a vida assim concebe e faz todo o sentido. Não passa pela cabeça de ninguém, por exemplo, capturar todas as leoas da Savana a fim de evitar que elas predem os animais desprovidos de presas. Existe uma lei natural que comanda o instinto leonino. Há uma lei social de força idêntica que decide dos fogos que não são para apagar. De resto, os bombeiros a sério só papagam os fogos que têm que apagar. Neste sentido eles são solidários. No entanto, olhando as coisas do prisma eminentemente factual, até podem não o ser. Se o sentido com que actuam for apenas o sentido do dever. Do cumprimento de um dever profissional (quer se trate de bombeiros sapadores ou de bombeiros voluntários). O que importa, na verdade é o sentimento universalista de solidariedade que tem de estar dentro de cada um de nós. A nossa solidariedade deve estar pronta a servir a todos e deve ser capaz de ser  humilde para aguardar um sinal. Não é bonito andarmos a ajudar quem não deseja a nossa ajuda. Na verdade, parece mal. Até parece que queremos qualquer coisa. Talvez uma medalha?

 

Um ser  honesto, leal e solidário é, para mim, um ser perfeito. No mais, nenhum outro defeito me incomoda. Gosto de pessoas cheias de defeitos que são honestas leais e solidárias. São perfeitas. Não mentem, não enganam, não roubam, não se põem de costas, não nos encharcam a cara com uma mangueirada enquanto estamos a dormir ou apenas distraídos. Em princípio uma pessoa assim tem respeito por nós. E, o melhor, tem respeito por todos. Conhece o sentido do sentido da palavra liberdade e também daquela que se chama fé. Uma pessoa destas ajuda-nos a viver porque nos ajuda. E ensina-nos a crescer

porque se dipõe a ser ajudada.

  

 Não nos equivoquemos, a vida tem um sentido que é formado por todos os sentidos que têm os pedaços da nossa vida, em relação aos quais lho conseguimos dar. O sentido da  vida é um somatório de todos estes sentidos, cuja soma apresenta um resultado  maior que a adição de cada um deles aos outros. Pode ser uma  Luz. Um pedaço de transcendência . Uma gota da Verdade. Uma participação sentida no Algo que é Divino. O Bem. Ou o Poder que importa. Deve ser uma, ou todas, destas coisas boas que nos falta.

 

Talvez por acreditar assim me sinta a lutar constantemente. Comigo. Mas isso não é o pior. O pior é a raiva que me dá a cegueira leitosa de alguns indignos de serem comparados às leoas na Savana, que matam para comer e para dar de comer. Quem dera à maioria de nós poder gozar do orgulho das leoas viventes fora de cativeiro! Quem nos dera desempenhar a nossa função na natureza, no meio em que vivemos, com coragem e competência permanentes!

 

Sem querer comparar-me com elas, mas comparando de facto (numa declaração de total falta de humildade, da qual me penitencio humildemente), quando me encontro com gente a quem falta algum dos pedaços essenciais de humanidade (seja a honestidade, seja a lealdade, seja a solidariedade), sinto a mesma fúria instintiva que uma leoa ameaçada, e só me apetece saltar para a jugular do agressor. Não é matar para comer. É liquidar por conta do instinto de preservação.

  

Como é que a consciência de Roskolnikov não afecta certas pessoas? Percebo-as tão mal como julgo  compreendê-lo bem. Não faz sentido o crime sem castigo. O acto universalmente desvalioso deve ser punido. E se outros meios não funcionam, que seja a nossa consciência a conduzir-nos à Sibéria. Se assim não for, a nossa vida está perdida porque não poderemos aceitar e sentir  sinceramente o AMOR. Como no fim do livro.

 

 

publicado por Cat2007 às 01:09
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Junho 06 2007

 

 

 

 

Está um calor de forno! Hoje, muito proactivamente procurei casa para comprar, fui ao banco, tive a minha consulta de terapia e entreguei os documentos na DG . Está quase tudo tratado. Só falta ir conversar com o gerente do meu banco. Depois, para a semana, vou de férias por 10 dias. Consegui fazer isto tudo entre as 11h e as 16h. Cinco horas! Magnifico! Agora estou com um sono de morte. O que devia era ir jogar ténis. Porém, tenho uma boa desculpa. Ando a emprestar o carro ao meu irmão mais novo, que vendeu o dele. É, de facto, uma boa desculpa. Estou mais descansada.

 

Este blog está cada vez mais parecido com um diário. Notei agora. A ideia de ter um diário deprime-me. Faz-me pensar naquelas adolescentes quase-histéricas que só pensam em namorar. Iludidas pela força das sucessivas paixões que lhes queimam o peito e subjugam o respirar , têm um diário. Nele escrevem estas coisas inconfessáveis. O que sentem. Sentem-se sós. Ninguém sente nada assim. Ninguém pode compreender sentimentos únicos. Só quem os sente. Só o diário.

 

Estou cheia de sono. O Diário de Bridget Jones (uma reprodução adaptada de Sensibilidade e Bom senso) recebeu críticas péssimas do Expresso. Eu, por mim, gostei muito. Acho que foi uma adaptação feliz. A coisa saiu muito divertida e cheia de leveza. Há algum mal no facto de uma pessoa desejar divertir-se no cinema?  Claro que, dentro do estilo, há bem melhor. Mas também há bem pior, género Love is all around " - uma agonia. Porém, não é bom método andar por aí a dizer, ou, pelo menos, a pensar  "já vi melhor", "já tive melhor", "já foi melhor" ´What's the point ? Não ver, não ter, não ser mais nada para além do que já foi? O presente promete o melhor, o pior, o mais ou menos. Todos os dias é assim. Não perceber isto é acreditar que o passado e o futuro estão sentados numa cadeira ao nosso lado. Absurdo!

 

Não me lembro de ver um filme bem cotado pelo Expresso de que tenha gostado. Certamente aconteceu, no entanto, nas vezes em que assim foi, eu esqueci-me de ler a crítica do Expresso. Existirá, de resto, alguma pessoa, com o mínimo de autenticidade, que se guie seriamente pelas críticas de cinema do Expresso?  Em tempos fui ao King ver um filme de cinco estrelas do Expresso. Chamava-se "A Bíblia de Néon". Tudo me foi recomendado por uma amiga corrente (as que não são grandes amigas, apenas correntes). Ela também veio. Sessão da meia noite e eu quis começar a gritar no meio do filme. Só me lembro de um grande plano eterno sobre um lençol estendido num varal. Sei, ainda, que se abordava a questão das novas igrejas evangélicas, mas não sei ao certo o que foi abordado. Havia também uma criança, um rapazinho que andava de comboio.  Talvez por lá andassem duas senhoras, uma delas prostituta, creio eu. Não sei. Talvez tudo isto não passe de um pesadelo que eu tive uma noite qualquer e agora venho aqui culpar o Expresso. E culpo o Expresso porque, enfim, não era próprio esbofetear a Mónica por ser tão idiota. É que, se foi um pesadelo, ela também lá estava.

 

Um querido amigo meu confessou-me que os críticos  do Expresso eram todos uma espécie de realizadores de cinema frustrados. A partir daí tudo me pareceu mais claro. Mesmo que seja mentira. Não importa. Fiquei muito mais descansada. Acalma compreender as coisas.

 

No entanto, para imprimir aqui alguma justiça ao que digo, é preciso acrescentar que não é só no Expresso que se têm coisas incompreensíveis, tais como ideias e opiniões. Se notarmos bem, se formos por exemplo ao Jornal de Letras, percebemos imediatamente que  há ali  uma série de candidatos envergonhados ao Nobel da Literatura. É claro que, primeiro é preciso ter coragem para escrever um livro.

 

Mas os discursos políticos é que são o fenómeno mais intrigante. Pelo menos em Portugal. É quase impossível compreender o que um político pretende. Portugal é um país demasiado pequeno, onde cada ciclo é uma aldeia. O controle dos membros é apertadíssimo. Todos sabem que ora estarão em baixo, ora estarão em cima porque são poucos mas bons (no sentido de que são únicos e  construíram fortíssimas barreiras à entrada. Com efeito, não têm necessidade de falar para o povo. O que precisam é de dar explicações uns aos outros. É por isso que ninguém percebe nada. Falar às pessoas só vale a pena em época de campanha eleitoral. Aí, é vê-los no meio do peixe e da fruta. Há pessoas na política excelentes, competentes, humanas, sinceras, honestas. Onde andam elas, tão arredias que parecem?

 

Claro que existe, ainda, aquela ideia geral, aplicável a todos, políticos ou não, de que as coisas incompreensíveis são, em princípio, de excelentes para boas. Cá por mim acho que tudo aquilo que não chega aos receptores é de muito má qualidade. Então onde fica o sentido útil das coisas, se estamos vivos e gostamos de viver?

publicado por Cat2007 às 17:57
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Junho 04 2007

 

Uma pessoa insegura como eu necessita de referências.  As pessoas inseguras como eu pertencem a um determinado tipo de inseguros. Imaginemos uma estrada. A vida como um caminho a percorrer, desde o mistério do nascimento até ao mistério da morte. Da primeira à ultima grande incógnita há um caminho que as liga. Uma caminhada a fazer. O meu caminho é uma estrada larga e alcatroada. Toca-me em sorte o melhor desenho de engenharia, os melhores materiais, os melhores executores. Uma estrada longa, larga e perfeita por onde, à primeira vista, se pode iniciar um percurso seguro e rápido. E prosseguir cheios de espontaneidade.

 

Sentimos que o primeiro engenheiro de todas as estradas para todas as vidas é Deus. A Ele não se juntam os engenheiros de cá, embora intervenham, também, no processo. Porque tem de ser assim.

 

A minha estrada foi concebida  larga, alcatroada, recta e e bem sinalizada. Como disse, um caminho seguro para andar depressa, à primeira vista. No entanto, por falta de tempo e de verba, como é costume humano, em muitos lados do seu troço havia cortes. Falta de alcatrão com pequenas e grandes pedras por retirar, lamas das chuvas e crateras. De entre estas últimas, umas são estreitas, contornáveis por salto, outras tão largas como o leito de um rio normal. Perante estas, era preciso repensar tudo. O que fazer para continuar, se parar é morrer, e isto é verdade?

 

Fugir constitui a primeira opção fornecida pelo instinto de sobrevivência. Voltar o caminho todo atrás em direcção ao útero. Mesmo sabendo que o regresso ao princípio é deitar o tempo fora. Pior, é correr por um caminho cujo destino há muito que foi fechado e não nos disseram nada. Agora existe outra coisas. O mundo do medo provocado pela ilusão delirante. Nenhuma alma infantil vive dentro de um corpo demasiado grande, ao lado de um espírito atormentado de fraqueza.

 

É preciso ultrapassar as monumentais crateras. É necessário mudar hábitos e expectativas. É imperioso aprender, estudar o obstáculo, desenvolver novos processos para a acção. Pode ser que consigamos construir uma ponte. Pode ser que possamos voltar uns quilómetros para trás e recolher algumas pedras que contornámos sem saber da falta que nos fariam depois.  Pode ser que tenhamos que ir às beiras da estrada recolher terra com as nossas próprias mãos (se outros instrumentos não houverem) para encher o imenso buraco.

 

A minha estrada é destas. Linda, perfeita. Não fossem algumas incompetências humanas, alguns azares límbicos, alguma verba que faltou. É este o meu género de pessoa insegura. Cheia de seguranças e firmezas, Impossibilitada de dar passos certos em frente em específicos passos da vida. De momento, estou perto do fim da minha última grande cratera. Ainda faltam alguns metros. Muitos, na verdade. Contudo, nada que se compare às centenas que já tapei. Tenho as mãos sujas de terra. Os dedos descarnados. Os nervos retesados. As unhas sumidas. Depois mando arranjar isto tudo. Num cirurgião plástico.

publicado por Cat2007 às 12:47
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