CAFÉ EXPRESSO

Julho 29 2007

 

 

Classificar os outros pela inteligência. Os burros e os inteligentes. Sem meio termo. Como sempre. Com em tudo na vida. A dificuldade de aceitar a paleta de cores. A mentira e a verdade, o facto e a opinião. Objectos de distinção difícil. Assim, é complicado sentir os pés no chão. A alienação toma-nos porque os dados são imensos. Não é possível gerir tanta coisa propositadamente arrumada fora dos sítio. Não é possível. Uma boa parte de nós não anda realmente por cá.

 

 Não entendemos nada uns sobre os outros. Queremos que nos entendam apenas. Não importa o que sabemos nós de nós próprios. Desejamos que eles saibam alguma coisa boa com um aspecto minimamente estruturado. E nos digam ou, pelo menos nos façam ver, que é assim que nos vêm. Para nós vermos.

 

A dialéctica na prática. Preto/branco. Gordo/Magro. Inteligente/burro. Brilhante/imbecil. Parece, mas não é. Brilhante/imbecil é uma dualidade que não se insere na mesma categoria que  Inteligente/burro. Embora devesse. Mas não pode ser. É que, se assim fosse, não haveria categorias duais. Acabava-se a dialéctica que aparentemente nos simplifica a vida. Um dia pensámos assim. Hoje estamos baralhados dentro dela. Agora parece tarde demais. O mundo é demasiado complexo. 

 

Embora a esmagadora maioria das pessoas que habitam o planeta possuam uma inteligência média, é inaceitável que assim seja  para a maioria das pessoas que habitam o planeta. Portanto, alguns de nós somos burros, outros inteligentes. Esqueçam-se os brilhantes e os imbecis porque isso é o que verdadeiramente todos nós queríamos ser. Ou uma coisa ou outra. A fantasia consiste em imaginar que, sendo assim, a vida seria mais fácil. E o que nós queremos é facilidades. É compreensível. Viver não é nada fácil.

 

Gostava de me lembrar a que propósito me lembrei de falar em inteligência selectiva. Falava com alguém. Ia a dizer que outro alguém é burro. Mas parei. E pensei que estava a cair na armadilha da dialéctica racional prática. Deixa lá ver mesmo se a criatura é burra. Foi o que pensei. Afinal, não tinha dados para avaliar. Dados individuais e concretos sobre aquela pessoas que eu tão apressadamente queria qualificar. Recorri aos dados científicos gerais, àqueles de que falei. Os que dizem que a esmagadora maioria das pessoas tem um nível de inteligência mediano. Bom, então, se o visado é assim medianamente inteligente porque fez ele isto ou aquilo? Ou porque disse ele o que disse? Enfim, porque fez coisas aparentemente pouco inteligentes?

 

Não é difícil responder a estas questões. Com efeito, cada resposta a cada estímulo é sempre emocional. Isto também é um dado científico. Repetindo. Cada acção ou omissão tem por detrás um estímulo de carácter estritamente emocional. Posteriormente, o raciocínio vem conferir-lhe a respectiva racionalidade. Isto só não é devastadoramente assustador porque o equilíbrio emocional geral é mais vulgar do que se podia imaginar. Nós somos mais equilibrados do que racionais. Sem discussão. É cientifico. Portanto, não há que ter muito medo das decisões do Bush Junior ou dos senhores da Mossad ou, ainda, daqueles outros que foram instruídos nas escolas corânicas, por exemplo. E aqui está mais uma prova de que o ser humano é instintiva e tendencialmente  bom. Prova científica, sublinhe-se.

 

Bom, a inteligência ao serviço das conveniências pessoais em cada momento. Esta constitui a outra parte da questão do conceito de inteligência selectiva. Quem quer fazer o que quer pode tentar e fazer. Se conseguir. Então, se conseguir, tem de explicar. A explicação é o preço da vida em sociedade. Este preço mede-se pelo nível de desgaste nervoso registado ou registável em cada pessoa. Mas a explicação. A explicação é um produto do raciocínio e é melhor ou pior, consoante os factos a serem explicados. Concerteza que é mais inteligente que conseguir explicar-se melhor. O que sucede, por vezes, é que não é mesmo possível arranjar uma boa explicação. Portanto, o problema pode não se tanto de inteligência, mas mais de carácter.

 

Seja como for, e afinal de contas, o que é uma pessoa inteligente? Para mim, é quase tão difícil arranjar uma definição , como para todos (até para o Camões) é impossível dizer o que é o amor.

 

 

publicado por Cat2007 às 17:44
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Julho 23 2007

 

 

Tenho impressão de que não vivo neste mundo, de vez em quando. Não percebo demasiados eventos óbvios. Porque é que a Floribela é um super êxito? Quando quero dormir ligo a televisão à hora da Floribela. Se ambas as coisas coincidirem, a minha vontade e a hora da emissão, durmo profundamente. Neste aspecto, a Floribela é um super êxito para mim. Se olho  deste ângulo, vejo o smash.

 

Talvez os êxitos sejam feitos disto mesmo. Dos olhos de muitos colocados em ângulos diferentes. Há ângulos maiores e outros mais pequenos. Falo da capacidade de cada ângulo. Tenho impressão, ainda por causa do êxito da Floribela, que há um lado muito depravado nas crianças. Nos santos populares, vi uma pós-adolescente fisicamente idêntica à Floribela. Por isso vestia-se dentro daquele estilo inenarrável. Esta criatura acreditou demasiado. Parece-me.

 

Tenho impressão que não vivo neste mundo. Os santos populares também são um êxito. Subir da Baixa pela Sé até à Cerca Moura. Nisto consiste a festa dos santos populares. A parte que é mesmo um êxito, quero dizer. Nunca tinha feito isto na vida. Este ano fui lá. Tive medo da multidão que só estava ali para caminhar em duas direcções. Para cima e para baixo. Quando se sobe, continua-se, apesar do medo. Há o acreditar. O crer que lá em cima se passa alguma coisa muito especial. Mas... não há lá nada. É tão estranho!. Só bêbados. Vómitos. Sardinha assadas já frias. Copos de plástico. Berros de alegria alcoolizada. Banquinhas de música e cerveja. As pessoas não sossegam.

   

publicado por Cat2007 às 23:32
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Julho 14 2007

 

Como sabemos, as cores que estão disponíveis na vida não são apenas as neutras. Eu disse cores neutras, portanto. Um disparate, enfim. O preto e o branco, ou a própria ausência de côr, definindo cada um dos extremos das coisas. Ausência de cor está bem. A vida é colorida. Existem imensas cores. É policromática. Exactamente.

 

As pessoas não são apenas obesas mórbidas ou do slim type, conforme se requer na publicidade ou na moda. Também se aceita aqui o tipo musculado ou bem definido. Em geral, e com excepção do que, ao que consta, se passa nos Estados Unidos onde larga percentagem da população tem as dimensões de um tanque de guerra, o tipo da generalidade das pessoas é average. Há uns averages em forma. Outros um tanto moles de músculos. Mais uns quantos a pisarem o risco e a caírem para o lado slim. E ainda alguns com meia dúzia de quilos a mais. São todos average. Estão dentro desta categoria com meia dúzia de quilos a mais e ainda uns pózinhos aqueles que são do género leitãozinho terno sempre em movimento e com a energia do cão lá de casa. O meu o pai, desde que aos cinquenta anos deixou de fumar 4 maços de cigarros por dia, ficou sempre assim, average e tal

 

Porém, sobre o ponto de referência average, e nunca sobre o slim, há gente com excesso de peso. Quero dizer há gente com mais de 10 kg a mais. Ou seja, pessoas que,  sobre o average com   mais uns quilitos (10 kilinhos) têm a distinta lata de se apresentarem aos outros com cerca de 15 kg sobre essa marca. Ora, se não há doença, isto parece-me inadmissível! A que propósito uma pessoa come e estaciona até aos +10+

15 = 35 kg a mais? Isto é gente insuportável. Porque anda sempre a movimentar-se pelos mínimos. Braços, perna, dedos. Até o raio do pescoço! Só se apressam para sair e ir comer qualquer coisinha rápido.

 

Olha-se para esta gente, e parece que estão na vida em permanente refastelanço. Os outros que se "lixem" ou se acomodem. Pois então! Deus nos livre de cair sob a dependência destas criaturas do anti. Não sei se alguém sabe o que significa estar diariamente a olhar para isto. Olhar para e ouvir uma criatura que, se puder e as circunstâncias lho permitirem (o que quase sempre sucede), limita-se a mexer os olhos. Faz actividade física? Faz, sim. Passa o dia a mexer os olhos. E também  todos os músculos envolvidos na própria actividade de comer. Nada dos ombros para baixo.

 

Comer um pastelinho. Este pessoal adora estar sempre a comer um pastelinho. De 20 em 20 minutos, se for possível, venha um pastelinho! Vejo-os mexerem-se. Os músculos abaixo do pescoço, quero dizer. Há um estímulo, claro. Para ir o mais rápido possível e entrar no elevador. Descer um andar, comprar o pastelinho. Voltar as costas ao balcão dos pastelinhos em jeito de  quem está a fazer caixinha, envolvendo emocionalmente o pastelinho. Abrir a boca e devorá-lo pela metade. Entrar no elevador para subir um andar. Abrir a porta do elevador de mão vazias, olhos semi-esbugalhados, os últimos movimentos dos maxilares. Um respirar fundo à laia de suspiro.

 

De volta à cadeira. Trabalho para fazer. Muita desenvoltura mental. Para arranjar desculpas pelo trabalho que não está feito porque não apetece realmente fazer. São desculpas de cima para baixo. A culpa não é nunca do paquiderme é sempre de outra coisa qualquer. Não há recursos e aqui nós somos só um. Diz o animal de grande porte. Nós somos só um? Interrogo-me eu por breves instantes. Depois vejo que é verdade. A área ocupada corresponde à que utilizariam duas pessoas slim. Está correcto. Vivem dentro do bicho dois slims sufocados. É por isso que não se conseguem mexer.

 

Não sei porquê, mas acho que a culpa é do elevador.  Digo isto porque odeio andar de elevadores. Tenho medo que parem quando eu estou lá dentro. Ainda bem!

 

 

publicado por Cat2007 às 12:33
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Julho 11 2007

 

 

 

Pois foi. Tiram-me este gato. Era meu. Nem conscientemente sei bem porque razão ele é o núcleo do meu blog. Talvez porque se trata de perda.  Não pedra. Por aqui falo de perdas e trato delas. De perdas. De qualquer tipo. Não sei tratar de pedras. Não me roubaram o gato. Tiraram-mo. O que é muitíssimo pior. Quem rouba deseja com um mínimo de intensidade. Quem encontra não age. Encontra e sente. Simplesmente.

 

É terrível quando alguém a quem devemos confiança (em quem confiamos por força dos sólidos contextos vivenciais  que nos levam a confiar) nos coloca em situação de perigo. Neste caso, em perigo de perder o gato. No momento em que tudo se deu não pensei que o gato fosse desaparecer brevemente. Porém, compreendi  que o deixava emocionalmente negligenciado. E alinhei nisto. Embora não me sinta culpada. Não tive realmente culpa. Por isso não posso. Naquele momento, precisava de tempo para mudar a situação. Um dia ou dois. Foi o tempo suficiente para o perder para sempre. Senti-me impotente como um doente acamado. Desesperada como uma criança.

 

Se um amor que não é amor (nem será,mas ninguémsabe), que era algo proveniente de uma grande paixão, estivesse em fase crescente com o tempo (o que, sem que se soubesse, também não estava), com uma coisa desta magnitude viraria os (meuss) olhos para baixo e decrescia. Foi o que sucedeu.

 

Comprei-o (embora não o tenha pago) numa exposição onde eu fui só para ver. Não queria nenhum gato. Muito menos um gato comprado. Não achava bem porque há muitos gatos abandonados na rua. E tal. Etc. Pois assim sendo. Encantei-me irreversivelmente. Com a beleza? Não. Ele era lindo por todas as razões. Foi a presença de espírito comunicativo. Queria brincar todo cheio de energia. Era um bebé. De cor diferente de todos os outros. Só mais tarde compreendi que era igual ao Garfield, mas vivo. Daí ficou Gaga. O gato Gaga. Faz sentido.

 

Era um preíodo incomum aquele que eu vivia há 4 anos. Apenas queria estar só. E só a escrever. Gostava de estar em casa a escrever. Podia passar os dias inteiros em casa. Seja isto bom ou mau. Com o meu gato deitado de barriga para cima e depois a rebolar sobre a secretária. Levantava-me de vez em quando. Sempre que necessário. Ele vinha como um cão. Sem o chamar. Imaginava que o som do teclado era um estímulo ou que uma caneta empunhada lhe estava apontada. Esticava a pata. Não me deixava trabalhar em paz. Fazia-me sorrir muitas vezes por dia. Fundamental! Parava para lhe falar. Ou para lhe apertar a barriga gorda. Mas não balofa. Na verdade. era um gato muito magrinho. Percebia-se isso depois do banho.

 

Todas as manhãs acordava com a cabeça nojenta e com a sensação de ter dormido pouco. Eu. Todas as noites ele vinha enfiar o nariz rosa inexistente no meio dos meus cabelos. Só nos meus. Fazia uns ruídos e parecia que se estava a assoar. Saía-lhe líquido transparente pelo nariz. A meio da noite repetia-se. Na época, eu dormia diariamente acompanhada. Mas sentidamente, para mim,  só o meu gato é que ali estava. Demorei demasiado tempo a aceitar este facto. Foi assim. Não por culpa do gato.

 

Se a alma não é pequena, o espaço no interior do espírito é enorme e cabe muito dentro do peito. Cada entidade tem o seu lugar. Porque cada qual gera o seu próprio tipo de afecto e tem, por isso, a sua função. Nunca se deve economizar nestes espaços interiores. Não devemos empenhar a nossa alma com outras declaradamente pequenas. Ainda que a nossa possa estar apenas em fase de crescimento

 

Também existe um cão. Que, igualmente, perdi. No dia 31 de Dezembro de 2005. O grande conforto é que não o perdi. Roubaram-mo. Como disse, é muito diferente. Não posso dizer mais nada sobre ele porque ainda aqui está. Foram 10 anos. Uma vida! Para um cão. Devem ter pensado que era mais novo. Perecia.

 

O meu cão e o meu gato eram muito amigos por culpa do gato. Lambia-lhe (o gato) regularmente a cabeça (do cão) e gostava (o gato) de dormir na cama dele (do cão). Veio muito tempo depois, mas soube integrar-se.  Ambos corriam atrás dos gatos. Gente que não era lá de casa, segundo concluiam. Queriam expulsá-los do jardim do condomínio. E conseguiam sempre. Não posso falar mais do meu cão.

 

O gato perdeu-se por negligência ou pelo chamado desinteresse puro de quem ficou a tomar conta dele por uns dias por querer sem o desejar (ficar comogato por uns dias). Saiu pelo portão que se fechou. Ficou do lado de fora. E ninguém deu pela sua falta. Só umas horas depois. Alguem o encontrou. Ele deve ter achado bem. Melhor do que ficar naquele espaço inenarrável. O pior é que nunca compreendeu porque razão fui eu levá-lo para ali. E o deixei lá.  O pior para mim, claro. Ele não é um gatinho voltado para o sofrimento.

publicado por Cat2007 às 13:43
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Julho 06 2007

Era preciso ter muita lata para dar um título a este post no preciso momento em que o começo a escrever. E não sei exactamente do que vou falar. Assim, nas primeiras impressões próprias conscencializadas, não tenho assunto. Acho que é a primeira vez que isto me acontece assim, de uma forma tão definida.

 

 

É claro que outros momentos houve em que comecei a escrever e acabei a dizer coisas que, no inicio, não foram imaginadas. Porém, sempre tinha algo para começar. Alguma coisinha parvinha, pelo menos. Hoje não. Hoje nada. E ESCREVO. Estou a escrever. Enquanto o faço, concentro-me na busca do assunto. Um assunto qualquer. Mas, até agora, nada.

 

 Parei. 3 segundos. Lembrei-me . É o seguinte: Ontem fui ver o "13 Ocean ...". Era isso ou o Manoel de Oliveira naquele filme com um nome francês. Não quero explicar porque razão é que as opções se resumiam a isto. Para o que importa, as escolhas eram estas.

 

Olhei para o cartaz (?) promocional do (novo) filme francês do Manoel de Oliveira. Estava um casal de idosos (?) sentado à mesa de um jantar (presumo eu, que iam ou estavam a jantar). Achei, foi quase uma certeza, vi como que iluminada, que o filme era aquilo. Aquela cena, apenas. Filmada de vários ângulos. Possivelmente sem falas. Uma ou duas lágrimas. Dois ou três sorrisos. Três ou quatro movimentos de mãos. Quatro ou cinco...bocejos do público.Não me interessa falar do Manoel de Oliveira porque considero que ele também não se interessa pelas pessoas normais que vão ao cinema. E, no entanto, o que importa é que ele seja feliz.

 

Mas o  Manoel de Oliveira tem 100 anos. Se não são 100 são 99. Não. É quase certo que tem 100 anos. Feitos há pouco. Até recebeu não sei o quê, embora saiba que foi dinheiro, do Ministério da Cultura para fazer mais um filme por causa disso. Da idade, ao que me pareceu. Tenho vontade de chorar. Não quero ver esse filme. E quase me sinto obrigada.

 

No entanto, pode ser que a saúde de ferro, lucidez e óptimo aspecto do senhor, autênticos milagres, inexplicabilidades, tenham uma razão de ser e/ou sirvam algum propósito elevado (até agora, têm servido para absorver subsídios do Governo, prémios em conceituados Festivais de Cinema Europeu - onde se recebem animais de ouro, ou penas de cristal, ou, possivelmente, câmaras em rapé, o que não é fácil  - bem como  servem, sobretudo, para chatear). De acordo com os padrões normais, o Manoel de Oliveira é um idoso.E deixemos, finalmente, o Manoel de Oliveira em paz. O padrão normal que nos guia na identificação de idosos é a idade. E depois o aspecto físico.

 

Chapéus de padrão quadriculado sobre a cabeça pendida ao peito, bengalinha de madeira, joelhos arqueados pelas artroses, mãos secas e venosas. Depois do 70, um individuo torna-se idoso. Não importa o que ele produz e os dotes que revela. O aspecto que tem. É um idoso. O Manoel de Oliveira tem um brilho de vida no olhar. Afinal, cá está o Manoel de Oliveira de novo. Como é isto possível? Um sorriso de saúde as costas rectas por mais tempo do que as minhas.. E faz coisas de uma exigência intelectual que me transcende o comum dos mortais de 30 anos. Tem 100 anos. Podia apostar-se que não tem mais de 70. Porém, 70. Seria sempre um idoso.

 

Como disse, apesar de não deixar de o fazer, não estou interessada em falar do Manoel de Oliveira enquanto cineasta. Não gosto. Estou ressentida. A transposição do Simão Botelho para um écran ainda me causa pesadelos hoje. Sinistro, porém entediante. É preciso ter muito talento para fazer coisas sinistras capazes de matar as almas de tédio. O meu ressentimento vem do facto de, por uma vez, por aquela vez, ter dado crédito ao homem e ter ganho não sei quantas dezenas de minutos de vida em sofrimento. Esta o Manoel de Oliveira vai ficar a dever-me para sempre. Também não me interessa falar dele enquanto pessoa. Não o conheço de parte nenhuma. Não tenho por onde andar.

 

O que quero é falar de idosos. O meu pai tem 79 anos, a minha mãe 69. O meu pai é bastante idoso, portanto. À minha mãe falta um ano. Sinto-me ressentidíssima com isto. E já vou explicar porquê. A palavra idoso é absolutamente detestável, apesar das boas intenções supostas. Um dia, se tudo correr dentro da normalidade, todos vamos ter mais de 70 anos. Haveremos de ser idosos. E como vamos odiar saber isso! Um idoso é um individuo de muita idade. Muita idade! Não com muitos anos de vida, como se canta nos "parabéns a você", note-se. Idade demais, pois. Demais. Porquê? Para quê? Talvez para estar vivo. Artroses demais. Comprimidos demais. Despesa social demais. Demasiada tristeza. Porque ser idosos é ser doente. Então, todos os doentes são idosos. Todos os inúteis são idosos. Porque todos os idosos são inúteis.

 

Os meus pais resolvem problemas com uma energia, com uma lucidez, com uma capacidade resolver que eu não tenho. Os meus pais sentem-se e são mais capazes do que os filhos em quase todas as coisas que importam. Os meus pais fazem mais quilómetros a pé numa semana do que eu num mês inteiro. Ando, contudo, a tentar habituar-me à ideia de que eles são idosos. Que, na verdade, não são pessoas para fazer nada do que realmente fazem. Não compreendo como eles não se convencem de que são idosos. Quase todos os dias aparecem notícias na televisão a dizer isso. "Um idoso de 72 anos perdeu-se em pleno Rossio". Ou "a nova política para a terceira idade...".

 

As generalizações sociais são decisões mentais, na generalidade, estúpidas. De um género de estupidez que magoa, faz mal. Esquecem sempre os ângulos concretos da vida. Tenho a certeza de que a grande maioria das pessoas incluídas no escalão etário dos idosos, não o são. Doentes, inúteis ou pobres de espírito. E, ainda que sejam tudo isto, ainda que vivam estas situações, não  são idosos. São apenas doentes, inúteis ou pobres de espírito. Embora eu não acredite em pessoas assim. Só, talvez, em doentes. Nunca em pessoas a mais. Com que direito nós declaramos que certas pessoas têm idade demais?

  

 

publicado por Cat2007 às 20:14
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Julho 03 2007

 

 

O copo está meio cheio ou meio vazio? Isto é a questão/asserção/na verdade, chavão mais irritante que eu conheço. Acho que é. Um copo é um copo. Nenhum copo precisa de nada dentro para ser um copo. Aliás, se contiver, seja lá o que for e independentemente da quantidade, deixa de ser um  simples copo para passar a ser um copo de qualquer coisa (um copo complexo).  É muito importante não confundir as entidades com as suas funções. Não ser utilitarista é um bom princípio de conduta para quem quer  evitar problemas de equilibro. Entre outros.

 

Já dentro da questão do utilitarismo, e falando em concreto dos copos, que é de facto aquilo que de momento falo. Tudo depende do acto. E o acto é encher ou esvaziar? O que estamos a fazer ao copo? Se estamos a encher, independentemente da medida, o copo  caminha para cheio. Se estamos a esvaziar, o copo vai para vazio. É assim. Por exemplo, um senhor vai a um bar e pede uma imperial. O barman pega num copo vazio, coloca-o por baixo da torneira da cerveja e puxa o manípulo para baixo. Cai cerveja dentro do copo. Porém, esqueci-me de dizer,  o senhor que pediu a imperial afinal só deseja meia imperial. Cumprindo estas instrução, o que fez o barman?  Encheu meio copo. É lógico.

 

Não me digam, esvaziou meio copo? Então se o copo estava vazio. Ninguém esvazia o que está vazio, santo Deus! E quero lá saber das pessoas que só estão a olhar para o copo com liquido até meio e não sabem nada da história do senhor que só pediu meia imperial. Não acredito que pensem enquanto o senhor foi à casa de banho: "olha ali aquele copo de imperial sozinho. Está meio vazio." Ou, antes pelo contrário: olha um copo de imperial meio cheio." A maior parte das pessoas normais não se interessa pelos copos dos outros. Só talvez os sedentos. Mas esses não são normais. São sedentos, claro.

 

Esta história de que o copo está meio cheio ou meio vazio, dependendo da perspectiva é, quase de certeza, uma invenção de alguém que gosta de pensar que a vida é mais interessante com enigmas especiais. Ou, dito de outro modo, cheia  de mistérios para dona de casa desesperada desvendar.

  

Estamos na presença de um chavão. Um chavão é uma chave grande. Teoricamente, uma chave grande serve para abrir uma grande fechadura. E como  não faz sentido uma porta pequena com uma fechadura grande, a porta  deve ser enorme. Ora, portas  enormes abrem-se  (quando se abrem) para espaços fechados grandes. Não se justificaria, igualmente, colocar uma porta de um castelo, por exemplo, numa pequena (relativamente) casa de 2 pisos. Ou, mesmo, na porta de entrada do prédio. Do mesmo modo, não valeria muito  a pena instalar uma porta num espaço aberto. Parece-me.

 

Portanto, um chavão é uma chave grande para uma fechadura grande de uma porta grande para um espaço fechado grande. Um chavão é pois um instrumento de acesso. Aquele de que trato agora dá acesso a quê? À verdade. A uma verdade muito concreta que nos diz que as pessoas optimistas vêm o copo meio cheio e que as pessimistas o vêm meio vazio. Isto devia enriquecer a nossa vida. Se fosse verdade seria um dado importante. Um dado a mais para o nosso património de aprendizes do Como Viver.

 

Não estou contra nenhuma formula para a simplificação da comunicação entre as pessoas. Apenas não gosto de imagens inadequadas. É evidente que, para além dos deprimidos com carácter de habitualidade, dos bipolares ou dos irresponsáveis-inconscientes, existem umas pessoas mais optimistas do que outras. Mas, pergunta-se, isso não terá a ver fundamentalmente  com as situações concretas da vida de cada um? Com cada momento do percurso? O que têm os copos a ver com isto?

 

Parece-me que ir para os copos é bom. Esvaziá-los se estão cheios (ou meios ou com 1/4, ou com,,, não, com menos do que isso não deve valer muito a pena) de líquidos susceptíveis de alterarem o estado de consciência (ou pelo menos da disposição) em direcção a um qualquer ponto de satisfação pessoal. É para isso que os copos servem. Para serem cheios e esvaziados por desejo e por prazer. E, para responder a um dos o comentários a este post, quem diz copos diz garrafas, canecas ou tupperware, claro.

 

Os alcoólicos estão naturalmente excluídos das considerações precedentes.

 

publicado por Cat2007 às 21:12
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