CAFÉ EXPRESSO

Setembro 28 2007

 

O movimento LGBT! Lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros. Todos diferentes todos iguais. Sim. Trata-se de uma sigla de designação cujo escopo é agrupar pessoas em distintivos conjuntos de género, fingindo que não é isso. Pois. Não chega o género biológico – homem ou mulher. É preciso dizer claramente que dentro do universo das pessoas diferentes existem subgrupos altamente diferenciados entre si.

 

Por exemplo, o que distingue uma lésbica de um homossexual? E porque é que se chama gay a um homossexual, dentro de um contexto destes? As lésbicas e os gays são pessoas com a mesma orientação sexual. Ou seja, desenvolvem as suas relações sexuais-afectivas com pessoas do mesmo sexo. Gay quer dizer alegre, bem disposto, divertido, e por aí. Já uma lésbica é uma disciplinada seguidora da rainha da ilha de Lesbos, Safo. Ora, que  em Lesbos as suas naturais fossem todas lésbicas é indiscutível. Mas é tão verdade como o facto de todos os homens de lá serem lésbicos – e toda a gente sabe que por lá os havia, malgrado estar a falar de uma lenda. Como todos os nacionais de Portugal são portugueses. Enfim, porque não incluir já na sigla o P? LGBTP. Lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e portugueses. Quanto aos gays, que, quando não se recorre ao anglicanismo, são simplesmente homossexuais, são sempre alegres (gays). É incompreensível. A menos que os homossexuais homens deprimidos afinal não o sejam realmente. Gays, quero dizer. Enfim, este pode ser um raciocínio que ajude a resolver os problemas interiores de aceitação pessoal de muita gente. Bom, mas então, talvez a sigla LGBT devesse conter uma pequena concretização do género: L(G(se não for deprimido em sentido amplo)BT). Ficamos, pois, com uma coisa semelhante a uma fórmula matemática. E isto, confesso, já me transcende.

 
Em jeito de resumo parcial, podemos concluir que as lésbicas não são homossexuais e que os homossexuais só o são se forem pessoas bem dispostas, bem como que os portugueses também têm direito a estarem inseridos numa sigla representativa de um movimento sobre direitos dos desfavorecidos da espécie que se entenda.
 
Sobre os bissexuais. Admitindo obrigatoriamente que parte da sua orientação sexual-afectiva está virada para pessoas do mesmo sexo, é necessário distinguir, para os efeitos do que se disse atrás, se são mulheres ou homens e se, dentro destes últimos, se são pessoas alegres e bem disposta. Por aqui se começa a perceber o quão maiores são as dificuldades dos bissexuais. Mas, mais importante, é a questão de saber o que fazer com o lado heterossexual desta gente. Como é possível introduzir um aspecto adjectivante altamente louvado socialmente com outro que suscita tantas ganas de afirmação contra o preconceito da sociedade? Metidos na sigla LGBT, e dentro do respectivo movimento, os bissexuais são pessoas apenas consideradas pela metade? São perguntas. Só perguntas! Outra pergunta: não seria mais coerente falar apenas de homossexuais ponto? E a sigla poderia ser HT. O que, nos deixaria perante uma coisa semelhante a um símbolo químico. E por aqui eu não vou entrar. Pela química, quero dizer. De qualquer maneira é de acrescentar que, segundo informações cientificas fidedignas, não existem bissexuais, mas homossexuais afectivamente mal resolvidos.

 
Finalmente os transgéneros ou transexuais. Transgéneros confunde-nos logo com os alimentos transgénicos, que tanta controvérsia têm levantado por virtude do mal que podem fazer à saúde. Bom, mas o que têm a ver os transexuais com os homossexuais se o que se passa com estas pessoas se relaciona com um problema crucial de falta de identidade entre o sexo biológico e o sexo psicológico? Trata-se de uma questão grave, difícil, mas puramente médica, que deve, portanto, ser resolvida pelos médicos. Estas pessoas não são, em princípio, homossexuais. Na realidade, são mesmo, na sua maioria, heterossexuais. Basta observar para concluir assim. Seria muito importante encarar-se esta questão com lucidez, já que a comunidade cientifica é unânime na matéria. As pessoas com um problema de transexualidade deveriam poder mudar de sexo e de identidade naturalmente e com todo o apoio possível do Estado. Tudo o que de contrário se passa é incompreensível, aviltante e desumano. Tentar integrar os transexuais em movimentos e outros âmbito de índole homossexual só contribui para agudizar o problema das pessoas porque, logo à partida, contribui para aprofundar a confusão.
 
E posto isto a sigla LGBT… Bom, deixa de ser sigla porque só tem uma letra H. Ora H pode significar muitas coisas, como hora H. Ou hidrogénio. Ou homossexual apenas. Homossexual apenas. Nenhum movimento pelos direitos ao que quer que seja que se preze admite ter uma sigla com uma letra apenas. O movimento H. Pois. Deve ser isso.
 
publicado por Cat2007 às 10:18
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Setembro 27 2007
 
 

 
É importante saber isto. Ou, também, se há vida noutro planeta qualquer. E quanto custa o bilhete. Saber da temperatura das águas. Se o alojamento, para além do obrigatório conforto interior (que inclui, evidentemente, televisão, aparelhagem de som, telefone e computador ligado à Internet), tem jardins e piscinas. Se o ar condicionado funciona. A qualidade do SPA. Onde se pode ir beber um copo. E as possibilidades de arranjar sexo (o, até, de arranjar o sexo). E a praia é deserta? Mais importante: saber se as pessoas de lá só falam e actuam no estrito acordo da medida das nossas necessidades pessoais.
  
A busca do paraíso sem homens (homens e mulheres, claro) no sentido clássico do conceito (de homem – e de mulher, claro) parece impor-se. Porém, como é claro, o que queremos é fugir todos uns dos outros. Porque o inferno somos nós. O que é, do ponto de vista pessoal, totalmente inaceitável
Talvez, de alguma forma, assim se justifiquem as práticas nudistas. Uma tentativa de evasão. Porém, está bom de ver (literalmente) que os nudistas nada mais conseguem senão evadir-se das próprias roupas –  até porque nunca se esquecem de levar o jornal ou outro objecto de utilidade análoga, como um par de raquetes de Beach não sei o quê. No fundo, o que eu não compreendo é a razão de ser de estar nu na praia com um chapéu na cabeça.
 
Se não estamos noutro planeta, eu não concebo ficar nua na praia em estado de permanência (durante as horas em que lá esteja, quero dizer). De outro modo, não me vestiria para entrar no carro e voltar para casa. Deveria atravessar a ponte (sim, porque as praias de nudismo situam-se na margem sul do Tejo, como se sabe) e enfrentar nua o tradicional trânsito do”garrafão” 25 de Abril (ex-Salazar) igual à de S. Francisco, Califórnia. Devia, em seguida, sair nua do carro e entrar em casa. Posteriormente, vestir-me-ia para tomar banho. Em seguida despir-me-ia para sair. Poderia ir jantar fora e entrar pela noite de Lisboa (animada, por sinal), por exemplo, sempre nua. Voltando a casa, deveria vestir-me para fazer amor. Ora bem! Vestir-me para fazer amor. Aqui está um exemplo do fenómeno do eterno retorno! Nos velhos tempos, ou nos tempos dos velhos fazia-se amor vestido, afastando alguns tecidos para cima ou para o lado. Seria quase como uma espécie de reedição dos clássicos. Muito culto.

  

publicado por Cat2007 às 10:00
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Setembro 26 2007
 

 

 

A inteligência emocional de um indivíduo traduz-se na capacidade de gestão das suas próprias emoções. Como não é possível gerir o que não se entende, a inteligência emocional pressupõe a compreensão de o universo interior do sujeito em causa pelo mesmo.
 
Mas o universo interior, como universo que é, revela-se uma realidade de grande e complexa dimensão. Por outro lado, se os fenómenos se agitassem apenas a um nível interno a partir de proveniências puramente interiores, talvez fosse mais fácil a apreensão. Acontece que a configuração emocional dos sujeitos depende de uma série de elementos de várias proveniências, embora não de diferentes raças e credos (sendo, no entanto verdade que a raça e o credo são também para aqui muito propriamente chamados). Com efeito, a genética, a assimilação das regras sócio-culturais e religiosas e o que se passou lá por casa, contam. Assim, antes de se compreender, o individuo tem de construir noções preliminares sobre estas circunstâncias. Depois, olhará para dentro e tentará ver como se deu a síntese. Acredito que, apesar de tudo, existe, ainda, um factor individual distintivo. Ainda que possa ser um mero ponto residual.
 
A inteligência emocional revela-se no posicionamento do sujeito perante os outros e o mundo. Espera-se que quanto menor for o grau de conflitualidade relacional maior será a inteligência emocional.
 
O conceito de inteligência emocional é dos nossos dias porque hoje todos queremos acreditar somos seres civilizados. E tudo começou com as revoluções liberais e, posteriormente, com a Declaração Universal dos Direitos do Homem e, posteriormente, por aí fora com mais actos e factos de grande relevância para a imagem do homem enquanto ser humano.
 
Pois eu acho que os papeis, a revoluções e as guerras e o grandes compromissos internacionais, tenham eles a dignidade e a dimensão espacial que tiverem, não querem dizer nada para o que aqui importa. Pois eu acho que a história, com as suas grandes mudanças no sentido da humanização para a humanidade não se consubstancia em actos direccionados por isso e para isso. Foi sempre a economia, com a política a servir de base de apoio que tratou de tudo, tendo-se aproveitado, ainda, o desenvolvimento tecnológico e das ciências, bem como o medo internacional na óptica do olhar do Leviathan. A implementação dos ditos sistemas democráticos, a abolição da escravatura, o voto das mulheres, o trabalho (fora de casa) das mulheres, a pilulesca revolução sexual, o Protocolo de Quioto...
 
 
O ser humano colectivamente nunca faz o bem pelo bem. Porque colectivamente é apenas isso. Um colectivo formado por pessoas em busca das suas próprias realizações. E isto não tem nada de civilizado. Isto corresponde ao instinto básico de sobrevivência que nos coloca, em termos do ser, ao mesmo nível de qualquer animal selvagem. Mais especialmente junto dos predadores por assim o podermos. E que importância teríamos  se o nosso instinto de sobrevivência fosse equiparado ao dos insectos? Em termos de sobrevivência, a nossa esperança de vida podia situar-se entre as 24 e as 48 horas, como sucede com alguns insectos. Por outro lado, havendo insectos assassinos, não sei se o são por questões relacionadas com a sobrevivência.
Ora o princípio da Humanidade consiste precisamente no contrário. Em não matar por necessidade, entendendo-se aqui o acto de matar no seu sentido mais amplo. Hoje, como somos cada vez mais confusos (falta de tempo para actividades do género introspectivo), superficiais e hipócritas, gostamos de pensar e agir como se fossemos civilizados ou mais humanos. Também porque cada vez nos encontramos mais sós, estamos mais desconfiados. Logo mais medrosos. Logo, mais agressivos.
 
Mas, como disse, acreditamos que estamos mais humanos. Até  pela ilusão do conforto e pelas disponibilidades materiais (ainda que o endividamento particular esteja atingir níveis espantosos). Por isso, falamos e propalamos e achamos que, afinal, a inteligência emocional é atributo crucial.
 
A inteligência emocional consiste na capacidade de o individuo saber quem é e, ao mesmo tempo perceber as motivações emocionais dos outros de uma forma lúcida. É bonito, porém extremamente difícil. Ninguém quer ser emocionalmente inteligente se isso o fizer aparecer ao mundo como uma ovelhinha. Porque as ovelhinhas são dar lã, queijo, para abater e para comer. Porque ninguém se interessa pela bondade das ovelhinhas brancas. Ou ninguém quer ser emocionalmente inteligente se isso implica andar constantemente a fingir que tem sentimentos de ovelhinha, mas, na verdade, não é. É desgastante!
 
Assim, talvez seja preferível  cada um guardar a sua inteligência emocional para si e usá-la quando está metido em sarilhos. Porque todos andamos constantemente metidos em sarilhos, como é bom de observar. Então, é ser um misto de ovelhinha e guerreiro. Um bocado esquizofrénico, portanto. Por isso os anti-depressivos para estes “esquizofrénicos” e existência de pessoas estúpidas que não têm meios nem muitas razões para deixarem de o ser.
publicado por Cat2007 às 09:45
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Setembro 15 2007

 

  

Toda a gente quer sair do anonimato desde que o ser humano abandonou o nomadismo e as tribos viraram cidades cheias de complexidades. As aldeias hoje perdidas ao largo das autoestradas cortantes previamente expropriatórias, não contam. Actualmente ninguém conhece ou quer conhecer o vizinho do andar de cima. Hoje toda a gente quer ser conhecido por mais alguém para além do pai e da mãe. Para além da família nuclear, melhor dizendo. Enfim, do pai e da mãe, como disse.

 

Vivemos na era da democracia, o que, em termos simples, significa que este é o período histórico do "Zé Ninguém". Trata-se do melhor sistema de entre os piores possíveis. Assim o aceitamos humildemente, lembrando com vagos tremores  as exaltações executórias de indole também circense como as crucificações, os enforcamentos, as decapitações, as purificações na fogueira  ou, assim mais recentemente, a frescura ambiental ali da prisão de Caxias. E, no entanto, continuamos, como continuaremos, infelizes.

 

Em tempos fui assessora de imprensa. Um nome pomposo para algo que não quer dizer mais nada, para além de que conhecia muitos jornalistas especializados (creio eu) na área das atribuições e competências específicas onde o meu trabalho pairava.
 
Havia lá um senhor na baiuca (onde eu assessorava para a imprensa, portanto) que estava permanentemente em bicos de pés. Primeiro achei que a frustração dele era nunca ter sido admitido na Companhia Nacional de Bailado. Depois, vendo melhor a coisa, veio-me à cabeça que o seu sonho poderia ter sido em tempos o próprio Bolshoi, dado ter mencionado uma vez o nome de Dostoievsky (que, embora fosse apenas escritor, sempre era Russo. Aliás, claramente Ucraniano, mas isso não vem agora ao caso).

 

Afinal, o homem só queria aparecer na televisão, o que conseguiu por diversas vezes. E daqui não veio nenhum mal ao mundo. Mas bem é que não trouxe também e tudo o que se faz na vida deve ser por bem ou por mérito. Mas o problema principal  residiu sempre na postura. Sempre em bicos de pés. Um tanto ridículo, não?
 
Eu própria apareci na televisão em Setembro de 2000. Tive um acidente brutal de carro, mas que parecia de mota, dados os danos físicos, e toda a gente que estava a ver as notícias achou que eu estava morta. Ainda bem que os meus pais, pessoas para quem eu sou conhecida, já se tinham ido deitar.  Como se pode verificar, eu não estava em bicos de pés para aparecer na televisão. Encontrava-me previamente ao volante de um automóvel que deixou de ter este nome e passou a ser designado por salvado. Pronto.
publicado por Cat2007 às 11:01
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Setembro 06 2007

 

 

Estou a ouvir uma música no estilo soft pop jazz, cantada por alguém com uma voz muito motown . Não sei quem canta o quê. Mas estou a gostar muito. A rádio Marginal tem destas surpresas. É por esta razão que agora tenho a música sempre sintonizada em 98.1 FM. A música de casa, quero dizer.

 

Chego a casa e carrego no botão. E já está. Não tenho que me preocupar em escolher discos. Devo estar cansada dos meus discos. Dos que me vêm à cabeça e daqueles que também tenho e nem me lembro. A música tem qualidades telecinéticas . E quanto mais sensível se for, mais essas qualidades se acentuam. Creio que, presentemente, não tenho interesse em realizar viagens ao passado. Mesmo ao passado recente. Tudo com mais de 6 meses de existência marcada na minha vida me entedia ou irrita. Estão excluídas as pessoas que habitam o meu presente, como é evidente. Mesmo que não ande a falar muito com elas. Como é o caso dos meus pais, por exemplo.

 

publicado por Cat2007 às 20:17
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Setembro 04 2007

 

 

Actualmente correm por aí uns e-mails, que há muitos anos já foram cartas, cujo escopo principal é dar a volta ao mundo ou percorrer muito espaço. Ocupam o espaço nas caixas de correio das pessoas de bem e nas suas vidas. Solicitam a manutenção no prolongamento de uma corrente sabe Deus de quê com um objectivo que nem o Diabo sonha. Sempre quebrei essa corrente. Sou contra a manipulação. Se me pedissem, por favor para retransmitir o conteúdo a um determinado número de pessoas porque sim, eu talvez o fizesse num belo dia de tédio. Mas virem-me com a conversa de que vou ter boa sorte ou bom azar se não fizer o que perfeitos desconhecidos dizem... francamente!

 

 Hoje, num dia não de tédio mas de embrutecimento, descortinei na minha caixa de correio (do trabalho) um e-mail com o teste de personalidade do Dalai Lama. Aquele que alegadamente o semideus inventou, ou patrocinou com o espírito, ou não, mas cuja autoria lhe é atribuída ou ao seu espírito forte. Bom, mas como só eram 5 perguntas, e eu  bem sabia que sim porque já  tinha feito o mesmo teste há algum tempo, resolvi alinhar. Enfim, por ser dada a parvoíces.

 

Os resultados mais interessantes revelam  que a minha mãe é a minha alma gémea, que a minha actual prioridade na vida é a carreira e que o sexo para mim é aromático. E tudo isto porque não bebo café. Se eu bebesse café, diria que é estimulante ou energético. Como não bebo, mas gosto do cheiro, acho aromático. Logo, eu vejo o sexo como uma realidade aromática. O sexo para mim é aromático. Se o cheiro do café me agoniasse, o sexo para mim seria agoniativo . Percebe-se que a relação entre o sexo e o café, para além de algumas humidades em comum, não existe. O que existe é uma resposta óbvia por parte de quem bebe café todos os dias. E essa eu não dei porque, precisamente, como disse, não bebo café. 

 

Fico muito lisonjeada por saber que a minha mãe é a minha alma gémea se isso significar que a minha alma é igual à dela. Para obter este resultado  tive que escolher, de entre cinco cores, o branco. Pelo menos não me disseram que havia de casar com ela. Um descanso.

 

Mas o que eu não apanhei ainda muito bem é a relação da vaca com a carreira. Na verdade, para mim, uma vaca é um animal tranquilo de olhos muito meigos. Seduzem-me as vacas. Chifres, pele dura e grande porte. Tranquilidade e ternura. Nunca penso numa vaca como bife. Não vejo a minha carreira como um bife que quero comer porque nem sou grande adepta de carne escura. No mais, se da lista apresentada constasse um elefante, eu haveria de ter muitas dúvidas na escolha. É que tenho dúvidas que o elefante substituísse a vaca para o efeito pretendido. É que aqui para o pessoal que se livrou de ter nascido em África ou na Ásia, o elefante não é um animal votado ao trabalho. Cá por cima, os elefantes estão no Jardim Zoológico. Daí a vaca em vez do elefante. Porque, no mais, os elefantes não têm chifres, mas possuem grandes dentes de marfim.

 

No fim do e-mail, lá vinha a corrente que deve dar a volta ao mundo utilizando o nosso tempo e meios. Naturalmente, apaguei o e-mail. Não vi nada de aromático nisto.

 

publicado por Cat2007 às 20:57
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Setembro 02 2007

 

 

 

 

 

Há uns anos tive uma relação. Ontem estive com essa pessoa e aconteceu recordarmos alguns passos dela. Sempre a rir. Na verdade, cada facto era um acontecimento. Essencialmente por isso acabou por acabar. Foram sete anos em que me pareceu que andava a snifar cocaína todos os dias. Sempre em permanente agitação.

 

Recordo de, na altura, vir uma ex-namorada dizer-nos que nós não tínhamos uma vida nada interessante. Para uma burguesa uma vida interessante compõe-se de idas regulares ao cinema, uma grande viagem por ano, pelo menos, e algumas leituras de circunstância a fim de ter matéria para conversas circunstanciais, dando a impressão de que se é culto sem, na verdade, ter verdadeiramente interesse por qualquer manifestação cultural. Ah!, quase me esquecia, também seria necessário jantar fora com regularidade, experimentando novos sítios e sabores.

 

Para além da evidente má criação, o que ficou claro foi que a ex-namorada era ex-namorada. Era a própria ex-oportunidade de viver, ou alienação regrada e integradíssima no sistema de adaptação social que faz tão bem.

 

Nós estávamos em casa e chegavam pessoas. Cozinhar é uma arte onde se pode revelar toda a bagagem cultural adquirida através das experiências que comportam um determinado tipo de conhecimento que é, precisamente, cultural. A pessoa com quem vivi cozinhava nestes termos. As pessoas apareciam para jantar. Na maior parte dos casos, como se percebe, não eram convidadas. Juntavam-se lá em casa pessoas que se desconheciam mutuamente. Pessoas que, as mais da vezes, nada tinham de comum entre si, mas que se divertiam a jogar poker , a ouvir e a contar histórias, a partilhar experiências e muito whisky.

 

A pessoa com quem eu vivi cantava. Mas cantava a sério. Era capaz de pôr um disco a tocar, cantar ao lado do Sinatra e parecer um duo a quem estava de costas. A pessoa com quem eu vivi, sabia fazer sapateado e gostava de se exibir. A pessoa com que vivi lembrava-se constantemente de pegar em tábuas, folhas de papel ou telas, lápis, pincéis ou canetas de filtro e desenhar uma pessoa ali ao jantar. A pessoa com quem eu vivi tinha o hábito de usar uma máquina fotográfica que estava lá para casa e fotografar a cara das pessoas a preto e branco. A pessoa com quem eu vivi recebeu um prémio de fotografia em Londres. A pessoas com quem escreveu guiões de cinema, peças de teatro e poesia. A pessoa com quem eu vivi não era artista porque não se dedicava a isso profissionalmente. A pessoa com quem eu vivi bebia por causa disso. A pessoa com quem eu vivi tinha uma coragem física e uma segurança social incomparáveis. A pessoa com quem eu vivi queria ser muito melhor do que imaginava que era e nunca saberemos o quão boa era. Por isso usava apenas o seu próprio talento para brincar. Por isso bebia e continua a beber.

 

Os factos até podem levar à conclusão de que tudo  podia ser um tanto decadente e triste, do ponto de vista do que posteriormente viria a acontecer . Não sei. Sei que pouco interessante é que não é. Cada minuto era uma viagem de longo curso. Cada episódio de vida era um livro de autor consagrado. Cada gargalhada provinha de algo tão bom como a melhor comédia produzida. Cada momento de amor era intenso e profundo. Num sistema mundial onde a democracia é o valor primordial, onde a igualdade é a palavra de ordem, há pouco espaço de aceitação para aquilo que é marcadamente diferente. O desajustado faz-se implodir. Porque ninguém aguenta a força toda do mundo em pressão de sentido contrário.

 

Compreendo perfeitamente que a pessoa com quem eu vivi, que amei, continue a beber e que nada, mesmo nada, lhe dê um sentido para parar. Ontem ri-me muito. A nossa história de amor acabou por causa de uma quantas garrafas de JB. Mas não foi verdadeiramente por causa disso. E, no entanto, ela ainda subsiste. Foi isso que acabámos a dizer antes de eu me vir embora ontem (mais uma vez). Nesse momento, a pessoa com quem vivo actualmente disse-me que se eu não desse um abraço, o faria em meu lugar. Dei aquele abraço à pessoa com quem vivi. Está muito carente. Eu não.

 

A minha vida de todos os dias é aparentemente igual à vida de todos os outros, e, talvez, até tenha uns pós a menos em actividades que eu não faço por decisão tomada. Mas a minha vida de todos os dias é cheia de vivências, emoções, novas ideias e conclusões preliminares sobre tudo o que me acontece. Chego ao fim do dia cansada e a sentir que me fartei de viver. E esta actividade não acaba. Só, talvez, quando um dia me cansar. O que é difícil porque o mundo está cheio de detalhes que vale a pena considerar.

  

Guardo comigo o meu património que tenho a sorte de poder transportar dentro de mim para todo e qualquer  lado. O meu património e eu é tudo aquilo que tenho e sou.  A pessoa com quem eu vivi é um dos meus maiores espólios. A nossa grande vantagem foi termos conseguido ser em conjunto duas individualidades distintas cada uma igual a si própria. Coisa muito interessante. Sinto-o.

 

publicado por Cat2007 às 15:08
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