CAFÉ EXPRESSO

Outubro 30 2007

 

 

Gostava de escrever umas coisas cheias de humor. Mas de tipo light . Não sei bem, porém, parece-me que o humor pesado dá mais vontade de rir. Vi, aliás, um filme fantástico que faz mais ou menos prova disto - o meu tipo favorito de filmes: comédias. Pois o dito filme tratava de uma senhora que matava toda a  gente que a incomodava, sendo certo que não tinha quaisquer escrúpulos em retalhar um corpo, se, por exemplo, tivesse que o esconder numa mala de viagem. Chama-se "Keep mum ", no título original. Do melhor. Mesmo!

 

Será que mum, se escreve assim: mum ? Ou é mumm ? Não. Deve ser mum. Bom, mas em português, o título é tão apatetado, que nem me lembro. Tipo aquele género para atrair alarves. Como se os amantes de comédia fossem todos espectadores de segunda. Ou como se a comédia fosse um género de terceira. Ou como se as pessoas muito cultas e inteligentes não pudessem gostar de comédia. Claro que eu não sou muito culta nem superiormente inteligente (sou apenas inteligente, concedo), e prefiro comédia. Mas isso não vem ao caso. Para o que importa, nenhum filme cómico alguma vez ganhou um Oscar da Academia. A menos que se considere "A vida é bela", como uma comédia. O que, a ser assim, também não tem grande relevo porque ganhou o Oscar para o melhor filme estrangeiro. O WorldOscar.

 

Eu defendo que o rapaz que fez a "Máscara" devia ter ganho o Oscar naquele ano. Só naquele ano. Porém, devia tê-lo ganho. A impressão que ficou é que não se dá o prémio máximo de melhor actor de cinema a um "clown", mesmo que ele divirta estonteantemente meio mundo. Ele, por seu lado, também disse logo que não havia problema nenhum. Que ia aprender a cantar para ser nomeado na categoria "melhor canção". Isto, claro, apontando para a edição do ano seguinte. Não sei o que se passou depois.

 

Gostaria só de deixar claro que o "Keep mum", nada tem a ver com a "Máscara". É de outro extracto. Mas que o Jim Carry foi bem na "Máscara", foi. E mais, eu gostei do filme. Por outro lado, o Robert de Niro devia ser proibido de fazer comédias. Não percebo se lhe pagam muito bem ou se ele é estúpido a ler argumentos. Provavelmente, tem pouco sentido de humor. Portanto, é estúpido. Não existem incompatibilidades entre uma coisa e outra. Quero dizer, entre ser um grande actor e, concomitantemente, estúpido.

  

Embora não pareça, isto leva-nos até ao Vinicius de Moraes. Gigante poeta que, como toda a gente sabe, era um enorme canalha. Quantas mulheres fecharam os olhos ardentes ao ouvir o som dos seus versos, e quiseram para si aquele homem ideal! Quantos idealistas pararam a ouvi-lo falar do Sábado, como um judeu arrependido.

 

Mas, voltando às mulheres do Vinicius - as que ele teve e as que quiseram tê-lo, todas as mulheres que o ouviram a sério: tenho um disco onde ele, como habitualmente, fala um bocado. A certa altura, neste disco, nesta faixa, diz qualquer coisa como isto: "a mulher verdadeiramente bela, tem de evidenciar uma ponta de sofrimento no olhar. E sublinha: "É, não há mulher verdadeiramente bonita sem sofrimento que se veja". Então, a mulher tem de ser sofrida para ser bela. Preferencialmente, sofrida de amor. De amor ou da traição do homem demasiado livre para lhe ser exclusivamente devoto. Tenho a certeza que todas as mulheres que amaram o Vinicius sofreram as consequências de ele não ser precisamente o que escrevia: "O amor é eterno enquanto dura". Ele criou e proferiu a frase que não era mais do que um auto-retrato. Saiu-lhe, talvez. Com sinceridade. Como ele era. Sincero e cândido. Maravilhoso bêbado! Infeliz. E deu-nos tanto. E deixou-nos tanto. Como a vida é estranhamente circular! As mulheres do Vinicius aproveitaram mais com ele, do que ele se aproveitou delas. Parece-me. Porque ele lhes terá mostrado pedaços de eternidade. Algo que ele só era capaz de imaginar, de fazer sentir, como o faz um voyer, mas não podia pessoalmente alcançar.

 

E o humor? Queria humor neste post por causa do "João" e do "Homem bom". Vejo-me a falar de amor. A ligação só pode estar no ponto em que um ou outro nos dão vontade de rir. E na questão do toque dos extremos. Ou seja, os extremos tocam-se. O riso e o choro, clarifico.

 

Por outro lado, é mais fácil ver o amor que o humor. Na verdade, na maior parte das vezes, quando não somos apanhados de surpresa, é preciso que nos convençam a rir. Fazer rir é muito difícil. Até porque o alvo está convencido de que não vai achar piada. Já o amor, está em toda a parte. Love is all around ". Pois, nas músicas, nos filmes, na publicidade e nas pessoas. As pessoas precisam de amar. Logo amam. Aquilo não é exactamente amor. Logo, ignoram o facto. Um gay deu um depoimento ao Daniel Sampaio onde confessava que tudo aquilo que sentia, nos cinco minutos em que se enfiava com um perfeito desconhecido, numa casa de banho de um centro comercial, constituiam substancialmente uma explosão de um amor enorme sublimado pela negação da sua própria orientação sexual. Daí ser tão viciante. Com certeza! Não me peçam, por favor, para ser compreensiva com coisas destas. Uma mulher leva todos os dias duas bofetadas e dois pontapés do marido. Para não ficarmos com um número par (quatro), que me incomoda (vá-se lá saber porquê), a mulher recebe sempre também uma cabeçada. Apesar de tudo, de tudo isto, não deixa o marido. Por amor. A sua auto-estima está ao nível do soalho. Logo, ama. Tenho pena, compreendo, mas custa-me a aceitar. É diferente do gay, não é? Em princípio, ele tem prazer directo. Não prazer retorcido. Enfim, ele só disse que tinha sexo. Acho que ninguém lhe batia. Assim, sou compreensiva com ela, e não com ele.

  

Por falar em sexo, reflectindo, descobri há pouco tempo que a idade está directamente relacionada com os preconceitos de índole sexual. Quanto mais novo mais conservador! Talvez toda a gente soubesse disto. Eu, por mim, não tinha visto bem a coisa. Mas é verdade. Pensei no meu próprio caso, e está tudo confirmado. Aos dezoito anos, a pessoa confunde um orgasmo com uma náusea. Aos dezoito anos, modernices, modernices, só mesmo nas roupas, nas musicas e em tudo que se possa lançar mão para parecer diferente. Logo, integrado. Aos dezoito anos, somos muito ignorantes. Logo, arrogantes. Aos dezoito anos, se tivermos algum tipo de substância aproveitável (belo físico, portanto), o prazer que damos, se damos, é aos outros. Mesmo sem querer, saber ou imaginar. E isto segue assim, quase igual até aos trinta. Depois, vem a revolução liberal. Ou seja, aos dezoito anos, estamos como a história até ao século dezoito. Depois disso, é o que se sabe. O liberalismo. O positivismo. A revolução tecnológica. A globalização. Enfim...

 

publicado por Cat2007 às 21:45
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Outubro 29 2007

 

 

O que vou contar é verdade. O meu nome é João. Sei apenas que nasci. Sei, também, que aconteceu na maternidade Alfredo da Costa. A mim e à maior parte dos nascituros de Lisboa. Sou, inclusivamente, amigo de alguém que passou pelo mesmo, no mesmo dia, mas não à mesma hora. Ali na Alfredo da Costa. É verdade, somos amigos desde a escola preparatória. Conhecemo-nos e soubemos da coincidência. Ele gosta de mim. E também gosta de mim de um modo diferente do que eu gosto dele. Apenas porque se importa com isso do dia de nascimento. De termos nascido no mesmo dia.  Por  mim, não sei bem o que pensar sobre esta exacta questão. Não penso assim.

 

Não me lembro da maternidade Alfredo da Costa em relação a mim. Apenas tenho vagas memórias sobre as duas ou três vezes em que tenho consciência que lá estive. Uma delas foi para acompanhar a mãe de visita à "senhora lá de cima", que foi ter um bebé. Eventualmente, nas outras ocasiões fui lá ver a minha própria mãe, que também foi ter um bebé. Infelizmente, depois de mim, a mãe teve mais filhos.

 

Estou certo de que não  gostei de ter mais irmãos. Como hoje não gostaria que um estranho me entrasse em casa sem autorização. Como um colega de trabalho me levasse o carro só para ver quanto dá em autoestrada. Como se, dos vinte cigarros que fumo por dia, que são meus, dez fossem para deitar fora sem qualquer motivo aparente. Não sei se esse desgosto foi imediato ou se surgiu quando o organismo como que me pediu mais nicotina. A que já lhe vinha faltando.

 

Dos hospitais da minha infância recordo o da Estefânia. A impressão que tenho é que foi neste que nasci. É o que a memória me indica, e está errado - basta olhar para o meu bilhete de identidade. Mas sei que fui atropelado por um carro. Levaram-me para lá porque era criança. Sei muito bem que estive lá deitado numa maca. Fui muito bem tratado. Com sorrisos e permissões. Com a excepção de não me poder levantar da maca. Mas também não queria.

 

O pai e a mãe estiveram sempre ao meu lado. É assim que me lembro. E pode não ter sido assim. Mas o que importa é o que eu lembro. Lembro, como se fosse agora,  nos nervos dos meus dez dedos das minhas duas mãos o momento em que não lhes larguei os tecidos porque os mandaram para casa. Eu ia lá ficar pelo menos uma noite em observação. Recordo o pânico na força tenaz dos meus pequenos braços a tremer. Não sei exactamente porque razão não podia absolutamente ficar ali. Lembro-me que sem eles Não! Gritei, por isso, todo o choro que tinha para expressar. O meu medo causou o talvez receio na medida certa para eu sair. Deram-me alta nestes termos.

 

Recordo a caixa dos bolos de pastelaria. Não vi a bola de Berlim, mas é provável que lá estivesse no meio dos outros. Eram vários. E todos para mim. Foi a mãe quem foi comprar de propósito. Deu-mos como a restituir os dez cigarros que há muito me faltavam, e nunca deixei de sentir falta. Perguntei se podia fumá-los realmente. Sim. Eram todos para mim. É bom ser atropelado.

 

Muito mais tarde, contaram-me que fora um bebé de colo muito doente em certos períodos . Que fui para o hospital da Estefânia muito mal, muitas vezes, nos braços apertados de aflição da mãe. Em perigo de vida. Senti-me muito gratificado retroactivamente. Senti saudades dos braços apertados da mãe que não me lembro de jamais ter sentido. Se a memória se alimenta e cresce das emoções, talvez eu me lembre disso tudo e perceba porque continuo a sentir que nasci ali, no hospital da Estefânia.

 

Um dia, não sei de que parte importante da semana, o pai e a mãe entregaram-me aos cuidados de um jovem adulto muito simpático. Era dono de uma pequena oficina de fazer coisas que não eram carros. Penso que era o seu hobby. Tinha uma mesa grande de madeira, um torno, serrotes, pregos e outras coisas assim giras de brincar.

 

Este dia aconteceu muito antes de ter sido atropelado e muito depois de ter morrido nos braços apertados da mãe ao colo dela. Como se deveria morrer. Talvez eu gostasse dele e da oficina dele. Com toda a certeza, os meus pais gostavam dele. Eu já tinha brincado naquela oficina. Sempre com poucas liberdades. Sempre com alguém por perto e com uma ou outra criança por companhia. Talvez. Imagino que sim. Não tinha idade para hoje me lembrar.

 

Vejo sem ver o pai e a mãe a descer a estrada a pé. Lado a lado, como de costume. Mas não acredito que dessem as mãos. Talvez fossem a falar. Já alheados de mim. Eu berro um choro que me leva a alma pela boca. Não sei o que ele faz. A minha cabeça não é mais alta do que a cintura dele. Não me lembro. Não me lembro. Mas acho que ele mostrou o pénis dele. Hoje sei que se chama assim. Mostrou-mo. A mim que não queria ver nada. Que não vi nada. Que ceguei naquela enxurrada de lágrimas que me encheu os olhos, me molhou a cara e a boca e as palmas e as costas das mãos pequeninas.

 

O pai e a mãe continuavam a andar, descendo a estrada solitária, mas segura. Iam seguros. Calmos. A falar da vida de um modo. Certamente, a pensar da vida de outro. Não pensavam em mim. Não falavam de mim. Não sei nada disto, mas sei. Soube ali, naquele momento, porque os vi a andar para lá. Para lá de mim. E eu ali. Apesar de não ter visto. Compreendi que já não vinham. Não voltariam atrás. E eu precisva tanto! No meu primeiro momento de vida em que perdi completamente a esperança. Se eles voltassem porque me sentiam a vida, tudo tinha sido diferente. Assim, antes pelo contrário, conheci o meu primeiro ataque de pânico.

 

O pânico ataca por poucos minutos. Provavelmente, nem um minuto ou dois. O corpo não permite mais. Quedei-me, então, calado, trémulo, espantado, confuso  e... curioso. Confusão! Senti a confusão a desequilibrar-me, ficando, no entanto, de pé. Não sei o que aconteceu do mau que foi. Talvez lhe tenha tocado no sexo porque ele mandou. Talvez, quando lhe toquei uma fantasia qualquer me tenha tocado a mim. Talvez, então, nessa fracção de segundo em que a fantasia curiosa ocorreu, eu lhe tenha tocado por voluntariedade. E o ódio de mim pesou-me em cima, esmagando-me. Sei isto. Embora não me lembre. Mas sei.

 

Eu disse que ia dizer ao pai. Ele disse que ia dizer ao pai. Eu acreditei que a culpa era minha. Tive vergonha do pai. Tive medo do pai. Tive medo que ele contasse ao pai. Mas não queria. Não queria. Se eu fosse contar ao pai, ele é que ia contar ao pai e não me deixava mais entrar na oficina. Não sei era muito importante poder ir para ali brincar. Importante era que não se soubesse porque não poderia ir mais para ali. Tinha que continuar a querer ir brincar ali na oficina e não querer voltar lá mais. 

 

O que terá acontecido depois do que aconteceu? Fiquei a brincar pelas horas que se seguiram até o pai voltar? Com medo que o pai voltasse porque, além do mais, tinha muita vergonha? Tenho a impressão que sim. Que brinquei humilhado com objectos e com pedaços de objectos. Humilhado na liberdade de mexer onde queria, brincar com o que queria. Como nunca pudera antes. Senti que recebia um prémio de consolação. Por ter perdido tudo. Aceitei grato. Morri um bocadinho, sendo eu tão pequenino. E eu nem sabia o que era perder tudo aquilo que sentia que perdia ali naquele momento. Perdia. E ganhava o poder de mexer onde queria. Brincar como queria naquela oficina. Como, acredito, sempre quis.

 

Mas, estou certo, a verdade era outra. A verdade é que eu não queria brincar. A verdade é que eu precisava de manejar aqueles objectos, daquele modo aleatório, para me distrair. Distraído, acalmei-me. Por isso brinquei mais. Cada vez mais concentrado. E os músculos do meu corpo distenderam-se com o passar dos minutos. Totalmente. Restou a angústia calada, calma. A primeira dor.  Não aconteceu mais nada. E tudo o que aconteceu foi tudo para mim. Para sempre.

 

Gostava de ter outro nome.

publicado por Cat2007 às 16:51
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Outubro 24 2007

 

Conheço este homem porque me meti na casa dele por acaso. Metamorfoseada de mosca, Ia a voar e entrei por aquela janela daquela casa. Ele tinha várias casas. E também ficava em hotéis quando fazia férias. Muitas vezes estava em escritórios, lojas ou restaurantes. Inicialmente, eu metia-me dentro das malas ou dos sacos dele para ir também. Tinha curiosidade. Depois, já não queria ir a lado nenhum. Desejava voar para fora dali. Mas fecharam-me todas as janelas e meteram-me numa jaula de grilo com rede. Impotente continuei a vê-los, a ouvi-los e a pagar pelos pensamentos deles, pelo tempo a mais que não desejava.

 

Falo do pai de uma família. Que era o chefe. Que, mais do que chefe, era o líder. Que, muito mais do que o líder, era um Santo. Que, por isso, era a própria família reflectida em si. Um homem bom. Muito melhor do que todos os homens. Assim se acreditava por contágio.

 

Um dia o Santo agradeceu a Deus por não ter um filho deficiente mental. Tinha dois muito saudáveis. Agradeceu a Deus. Sentia-se impregnado de um piedade oleosa (porque não saia com o banho) por alguém que tinha um filho doente. Doente assim. Da cabeça. A criança nascera com trissomia 21. Um mongolóide, pois.

 

O Santo tinha uma pena imensa. E, para tanto, bastava-lhe observar o riso apatetado do menino. Como que trespassado na alma por aquele olhar do menino feito espada afiada, desviava os olhos daqueles olhos demasiado pequenos e estupidamente tortos.

 

Como um santo se afasta do demónio, o Santo virou as costas ao menino e ao pai. Cheio de pena. Cheio de pavor. Agradeceu e pediu sempre a protecção divina. Regressado a casa olhou para os filhos cheio de orgulho. Pleno de satisfação. Contente consigo. Com os frutos que podia dar. Feliz com o seu mérito.

 

Até que a adolescência de um filho do Santo lhe trouxe a esquizofrenia para dentro de casa. As portas fecharam-se. Foi o adolescente em dor que se trancou. O Santo queria entrar. Tirar o filho de lá. O filho não saia. Não respondia. Ouvia vozes. Falavam-lhe no centro da cabeça. Diziam-lhe coisas diferentes. Mostravam-lhe caminhos e outras vidas. Outras pessoas. O Santo falava. Insistia. Não acreditava. Acreditava, antes, em Deus, que não lhe podia fazer aquilo. Estava grato a Deus por o ter livrado de um filho doente mental. O Santo acreditava, como nenhum homem comum pode acreditar, que um filho é uma extensão de um pai. Uma continuidade física, psicológica e emocional. Portanto, um reflexo fidelissimo. O Santo via-se a si próprio fechado nas divisões das casas com as vozes a encherem-lhe a cabeça. A falarem-lhe de coisas que lhe tapavam os ouvidos e o enchiam de terror. A vida tomou-lhe outro aspecto. A dor acompanhou-o para sempre. Ao filho. Mas também ao pai. Porque era um santo.

 

O Santo lutou. Lutou contra a verdade. Arrastou o filho por todos os caminhos, batendo a todas as portas. No entanto, só entrou pela porta certa já no fim. Quando deixou de acreditar na bondade de Deus. E aceitou que tinha um doente mental dentro de casa.

 

Perdeu a fé. Afastou-se do filho para que não os confundissem. Quebrou a fé com Deus e cortou os laços com o filho. Fez estas duas coisas ao mesmo tempo. Daí em diante passou a viver como um Santo órfão de filho e de Pai. E, numa conversa intima com Deus, revelou-Lhe que ainda guardava uma ínfima esperança de o filho que tivera voltar. Se assim fosse, estava disposto  conceder-Lhe, a Deus, de novo, a sua fé. Porque o Santo está convencido de que Deus não pode existir sem a fé dos homens e muito menos sem a fé dos santos, que é de mais elevada qualidade. Deus habita na alma dos santos, que o podem expulsar quando assim o acharem justo.

 

Tinha, então, obrigações perante aquele novo ser que chegara. O seu filho morrera. Vinha alguém em seu lugar. Uma cabala divina. Uma traição de Deus. Todos os dias chorava a perda do filho e no, entanto, era preciso cuidar para que um dia, quando não existisse houvesse quem tivesse santas obrigações para com o doido, ele não morresse de fome, de sede ou de frio. Isto é o dever de um Santo porque só um santo pode acarretar tamanha proeza de alma. Além de que todos exigem isto de um Santo e só a um santo. O Santo não pode desiludir ninguém quanto à sua santidade, sob pena de ser despromovido a homem e, consequentemente, desprezado.

 

Encheu-se de ambição e de espírito de sacrifício. Trabalhou até ser rico. Não esperava tanta riqueza material. Mas aceitou-a como uma recompensa concedida por si a si próprio, sem pensar que, talvez, Deus tenha dado a sorte, que não é sorte, mas vontade divina, ao filho que continuava ali. Em dor.

 

Mas, antes pelo contrário, o Santo descansou sobre o objectivo alcançado, usufruindo de tudo, e só de tudo, o que o dinheiro pode comprar. Por outro lado, cumprindo com o aludido dever de santidade, adquiriu para o débil mental, em nome do filho que teve um dia, um seguro de vida cujo propósito é assegurar-lhe um futuro livre de miséria.

 

E, de vez em quando, vai  olhando  para ele, para o filho que já não tem, para a carcaça viva do filho morto, com ressentimento. Mostra-lhe com o olhar o sentido do peso que é a tarefa que este lhe veio entregar, revelando-lhe como tudo é injusto. 

 

Leva-o ao médico, dá-lhe os remédios, paga-lhe tudo o que o dinheiro pode pagar, dentro dos limites do que se exige a um Santo. Porque ainda existem coisas que o dinheiro pode pagar, mas implicam um pouco mais de outro tipo de esforço. Um tipo de esforço que não se exige nem a um santo. Portanto, nada mais lhe deve porque isto é tudo o que se pode dar ao demónio que entra pela casa de um homem bom. O Santo é tão santamente bom, que alimenta demónios dentro da sua própria casa. E, por fim, como tem uma fé inabalável em si próprio, acredita que o filho um dia ainda há-de voltar. Aguarda a boa nova pelo telejornal.


publicado por Cat2007 às 16:54
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Outubro 23 2007
 
 
 
 
 
 
Entrou-me uma mosca varejeira em casa. É enorme para mosca. Á vista desarmada, é mais preta do que as moscas (embora a maior parte das moscas nem sequer sejam pretas). Faz um ZZZZZZZZZZZZZ muito mais alto. Não gosto. Faz-me medo. Tenho medo que me morda. Embora acredite que não o faça. Mas não a deixo tocar-me. Se o conseguir, alguma coisa desagradável fará. 
 

Entrou-me uma mosca varejeira em casa e eu tentei expulsá-la com um pano qualquer. A janela estava aberta. Sacudi o pano de modo a dirigi-la para a janela. Para fora da minha casa. Estive sempre atenta aos movimentos esvoaçantes do bicho. Fundamentalmente, não queria que ela me tocasse. Não.
 
Observei-a. Não me queria tocar. Se pensa, nunca pensou em tocar-me com essa intenção que só as pessoas têm quando estão intencionadas. A mosca só queria fugir. Voltar para  onde vinha, talvez. Também ela queria sair pela janela e ir à sua vida. Apenas não dava com a saída. Era só. Compreendi isto, mas como não lhe podia explicar e continuava com medo dela, continuei a lançar-lhe o pano para cima. Finalmente, lá atinou com a saída e foi-se embora. Nunca mais soube nada dela.
 
Deve ser complicado estar num labirinto. Um dia meti-me dentro dum labirinto num parque de diversões. Foi na antiga Feira Popular de Lisboa. Paguei para isso. Naturalmente, também paguei por isso. Se era um labirinto e na Feira Popular, tinha que ser um labirinto a sério. Uma coisa difícil, cheia de entraves no caminho, de indicações erradas, de apontadores falsos. Não comecei a gritar. Não faço essas coisas. Não comecei a gritar alto. Só calada. Por vezes, faço estas coisas. Porém, gritei pouco, dado que não entrei em pânico. Nunca entro em pânico quando tenho razões para isso. Quando é a sério, nunca. E aquilo, pessoalmente, não era só uma brincadeira. É que não suporto estar presa no caminhar. Impedida no ir.

 
As moscas vivem a sua vida. Aparecem na casa das pessoas sem desejar nenhum contacto com elas. Vêm para se alimentar, para se aquecer, para procriar, para dar à luz ou por engano. Vêm apenas porque vêm e querem sair quando for caso disso. Não querem aborrecer ninguém. Estão apenas vivas e são.
 
A questão é que as moscas aborrecem. Tanto que os seres humanos há muito que inventaram coisas para as matar com competência. As moscas não querem, mas chateiam as pessoas. As pessoas, por seu lado, quando se sentem chateadas matam as moscas. Com efeito, quando mais frágil é o chato, maior é a vontade de o aniquilar. A inversa também é verdadeira, naturalmente. Quanto maior é o chato, menor é a vontade de o matar (embora o desejo apenas se cale lá bem no fundo).
 

A amplitude da vontade é equivalente ao poder que se tem para consumar os actos que a satisfaçam. Por exemplo, os Rinocerontes atacam à parva. Vêm qualquer coisa a mexer ao longe e põem-se numa correria desenfreada em direcção ao alvo. As pessoas que estejam na mira dos rinocerontes não devem tentar outra coisa, senão fugir rapidamente. Porque, para aquelas bestas, o longe é muito perto. Correm como tudo. Não há tempo para sequer pensar em estratégias de defesa mais agressivas, como matar o rinoceronte. Portanto, só aniquilamos até um determinado ponto de força e de amplitude que nos surja em sentido contrário. Nos outros casos, fugimos. Não queremos saber porque razão as moscas andam perto de nós. Queremos matá-las porque nos aborrecem.
 
Também fazemos e acontecemos à distância, tipo cobardes. Falamos, opinamos. Posicionamo-nos a favor da guerra do Iraque e nem queremos saber do que propriamente falam os médicos da AMI. Os únicos humanos que falam com humanidade nestes casos. Certamente, nestes casos, e só nestes casos, pensamos no problema de matar moscas. São as únicas situações em que ponderamos sobre a inocência das moscas. Porém, concluímos pacificamente que é uma pena que morram moscas inocentes. Mas são moscas. Moscas da Ásia, no caso. Infecto-contagiosas, suspeitamos.
 
Na verdade, nada nos interessa na vida das moscas, para além de que não as queremos nas nossas vidas. Ora moscas somos nós. Ora moscas são os outros. Porquê não sei. O que sei é dos milhares de panos esvoaçantes, cortando o ar que vejo todos os dias. Cada um com o seu na mão. É estranho porque, afinal, somos moscas e pegamos em panos. Somos moscas sem corpo de mosca. Metamorfoses. Não, sínteses de elementos inconciliáveis. Somos mesmo esquisitos. Por vezes, muitas vezes, parece que os panos nos estão a acenar. Por vezes acenamos com os panos. Mas, no fundo, no fundo, é mentira. Não queremos os panos para acenar. A questão é que sendo moscas, mas não sendo moscas, não é fácil proceder a enxotamentos com panos da cozinha. Não sei porque insistimos nestes procedimentos.
 
Por muito que não o deseje ardentemente, cada ser humano é uma ilha. Há sítios por onde se pode penetrar. Há outros que não. As ilhas sabem que as pessoas só lá vão para andarem em cima dela, fazerem recolhas ou ver as vistas. Todas as ilhas têm sítios que ninguém conhece. Não é por acaso que são porções de terra rodeadas de mar por todos os lados. A solidariedade morreu no momento em que se separaram de outros pedaços de terra semelhantes. Ou a solidariedade nunca existiu porque nunca estiveram ligadas a quaisquer pedaços de terra desde que nasceram. Não tenho dúvidas que todas as ilhas se sentem sós. Mas preferem assim. Eu, enquanto ilha, resigno-me. Mas não gosto do modo como estas coisas são feitas.
publicado por Cat2007 às 19:31
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Outubro 22 2007

 

 

Um dia destes assisti na televisão a um programa sobre leões e hienas. Não foi o primeiro que vi sobre o assunto. Certamente, não será o último. E continuo sem perceber o que fazem os leões machos na vida. Esta história era sobre leões assim, e por esta razão,  tratava da vida e dos problemas das leoas.

 

Tratava-se de uma leoa que  tinha acabado de ter bebés e que foi azaradamente mordida por uma cobra. Ficou fraca e, gradualmente, indefesa. O seu grupo de sociabilização, onde se encontrava perfeitamente integrada, deixou-a entregue à sua sorte, prosseguindo tranquilamente o trilho colectivamente traçado. A leoa ficou ferida e com as crias para alimentar e proteger. À medida de que o veneno ia penetrando no seu sangue, misturando-se na corrente sanguínea, a leoa  ia decaindo. Tinha 48h para esconder os filhotes, arranjar-lhes comida suficiente e afastar-se deles. Assim fez. Depois, depois foi para um local dentro do possível protegido para esperar. Esperar que o veneno a matasse ou que o seu  organismo vencesse o veneno. O prazo era de 48 horas.

 

Os leões e as hienas não se suportam. Percebe-se o lado dos leões. As hienas estão sempre à espera dos seus restos. Dos restos das caças e dos restos mortais dos próprios leões. Aquela leoa estava certa de que as hienas viriam. Primeiramente, para lhe devorar os filhotes.

 

Posteriormente, apareceram. Em grupo, naturalmente. Formaram círculos de riso em volta da leoa ferida. De dia e de noite. Esta não se conseguia mover. As hienas aproximavam-se, fechando o cerco, apertando o circulo . A leoa não resistiria a um ataque. Mas rugia. E as hienas, porque são assim, porque são cobardes, ainda assim, temiam. E não se decidiam a atacar. Giravam e riam. Aguardavam agitadas que o veneno fizesse. O que elas não tinham coragem de fazer. Durante 48 horas esta leoa lutou contra a morte.

 

Venceu. É verdade. Venceu o veneno. E as hienas. Ao fim de dois dias levantou-se. Acto suficiente para as hienas partirem provisoriamente em debandada. Procurou os filhos. Foi ao esconderijo. estavam mortos, semi-devorados . As hienas são espertas. A mãe não pôde fazer nada. Podia ter sofrido uma recaída. Podia ter parado por ali. As hienas voltaram. Ela iniciou a sua caminhada. O seu objectivo era encontrar o grupo. Estava esfomeada, fraca  e só. As hienas acompanharam-na. Nunca a atacaram. Esperavam em movimento de perseguição. Mas a leoa encontrou o grupo. As hienas partiram de vez. A leoa salvou-se.

 

Não é por acaso que se formam grupos. A necessidade de pertença e o desejo de integração são componentes fundamentais do instinto de sobrevivência. O instinto de sobrevivência é um INTERESSE. O maior de todos.

 

Não sei bem o que esta  história tem a ver com a informação seguinte. Mas intuo alguma ligação por isso vou dizer que alguém de crédito disse que a mentalidade não muda antes de mudarem os processos de vida. Ou seja, as pessoas só mudam de mentalidade se forem obrigadas a isso. Se as coisas, as circunstâncias, mudarem de tal forma que não reste outra alternativa senão o comportamento correcto para chegar à ideia certa consentânea com a correcção daquele. Assim, e por fim, pela repetição imposta de um determinado comportamento, o indivíduo começa a acreditar que o que tem de ser deve efectivamente ser. E já nem se lembra que, certa vez, o obrigaram a agir daquele modo, pensando que sempre pensou assim. Creio que já sabia isto, mas não deixei de me embasbacar. Sabe-se lá porquê.

 

Mais de metade da energia das pessoas perde-se em cálculos. Cálculos sobre métodos de antecipação aos actos dos outros. Para tirar partido ou, sobretudo, para evitar golpes. Golpes que se imagina virão porque sim - aliás esta é a síntese da razão de ser dos loucos investimentos em defesa militar que os Estados fazem. Não existe a necessidade de necessariamente existir uma ameaça. Basta a possibilidade de se poder vir a ser ameaçado. O Estado somos nós.

 

Uma rapariga foi contratada para desempenhar as funções de criada pessoal de outra rapariga. Partiu de Londres para o campo. A casa para onde foi era chocantemente diferente de tudo ao que estava habituada. Diferente em tudo, daí o choque. Não sabia que era obrigação da criada de sala servir-lhe chá à hora do chá. Assim, pensou que havia engano. Porém, como não havia engano agradeceu. A partir daí a criada de sala passou a ser muito hostil, embora lhe servisse sempre o chá devidamente. Mas ela agradecia sempre. Até que se fartou e deixou de agradecer o chá, bem como suprimiu uma série de outras considerações e delicadezas. Isto em relação à dita criada de sala, como também com o restante pessoal doméstico, mordomo incluído. E a partir daqui passou a ser bem tratada, acabando-se as desconfianças. Aquela gente estava habituada a um sistema que funcionava dentro de um mundo particular que era o seu. Tudo o que de diferente lhes surgia pela frente era visto como uma afronta. Quem se julgava a tal que veio de Londres para agradecer o chá ou dizer bom dia ao moço da estrebaria? Só a dona da casa é que agradecia. Porque era dona da casa. Os criados não agradecem uns aos outros. É assim que estão habituados a ser tratados. É assim que querem que as coisas continuem. É assim que se sentem seguros e a ameaça desvanece-se.

publicado por Cat2007 às 15:10
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Outubro 10 2007

 

 
Todos nós vivenciámos experiências traumáticas na infância. É assim por definição. Mesmo os que de nós foram melhor protegidos e mais bem tratados. Sofrer pelo susto e pelo medo são elementos integrantes do conceito de vida infantil. É fácil de compreender. Quem não tiver filhos pode sempre observar os filhos dos outros. Verificar a inocência e a dependência pela extrema fragilidade, que é absoluta. A calma, tranquilidade e a segurança das crianças, a sua lucidez particular, a sua felicidade, mesmo quando não têm muitas razões para a ter, existem naturalmente. Neste caso, é como se pudessem encontrar  a sua alegria em pedaços espalhada por labirintos. E encontram sempre. Um bocadinho aqui. Um bocadinho ali.
 
Mas os pais. As suas acções e reacções. Grande parte dos problemas infantis nascem, crescem e agudizam-se por culpa exclusiva dos pais. A agressão, o abandono, a displicência, a ignorância e, em suma, a incapacidade de saber amar - esta exalada, inclusivamente ou também, pelo excesso de amor. Melhor, pelo excesso de zelo.
 

 

Ser mãe ou pai será a maior responsabilidade de um ser humano. E, eventualmente, ninguém pensa nisto com a devida seriedade. Ponho-me a pensar nas normas do Código Civil sobre o contrato de casamento. A união entre duas pessoas com vista a uma série de coisas, sendo a principal destas, constituir família. Ou seja, ter filhos. Procriar. 
 
É muito católico isto. E se é católico é para ser bom, de acordo com as convicções católicas sobre o bem. É, de resto, igualmente, algo muito selvagem porque essencialmente instintivo. Podemos afirmar, até, que o espírito católico anda ligado à selvajaria, uma vez que a maior parte das suas regras têm a sua raiz na organização dos indivíduos segundo o império das normas dos instintos primários. Desejo sexual; ordem natural e domínio.
 
Portanto, um casal sem filhos não o é verdadeiramente, segundo a bondade das convicções católicas. Por outro lado, é muito pouco católico não ter meios para alimentar, vestir e mandar as crianças para a escola. Embora subsista, sempre e em qualquer caso, a obrigação de procriar. Deus se encarregará de tudo aquilo que a incompetência ou a indignidade cristã dos pais não possa, mas deva. Digo que é muito pouco católico porque os católicos só toleram a pobreza nos monges.
 
Como em quase tudo, lucidez, generosidade, equilíbrio, e sorte são as palavras-chave. Lucidez porque não basta a grande ajuda dada pelo instintivo amor mãe-filho/pai-filho. Na maior parte dos casos, é um amor sem reservas. Mas, também, na maior parte das situações, é um sentimento desordenado. O instinto de preservação da espécie que nos leva a desejar procriar, se, por um lado, impulsiona o afecto visceral pela cria, por outro, tende a confundir a imaginação, provocando delírios de identidade espiritual com a pequena criatura, culminando em projecções do ego dos pais sobre a identidade dos filhos. Dentro deste circunstancialismo, em princípio, o amor paternal desconhece o sentido da palavra liberdade. A lucidez está em admitir que ali está uma pessoa. Mesmo que seja uma pessoa muito pequenina, que não ande, não fale e não se saiba alimentar, não merecendo, por isso, muito respeito.
 

Mas pior do que isto é, ainda, o efeito tapa-buracos dos afectos. Buracos nos espíritos paternos e o amor pelos filhos a funcionar como uma espécie de massa de cimento milagrosa do espírito emocionalmente coxo dos pais. E aqui entra a generosidade que muitas pessoas não têm. Sobretudo as emocionalmente torcidas. Enfim, mas emocionalmente torcidos somos todos nós, porém, sem dúvida uns mais do que outros. Outros que vêm nos filhos o reflexo do seu ego ou/e os que os  confudem com estradas ou caminhos por onde pensam que corre o sentido da sua própria vida, que há muito não tem sentido próprio nenhum.

 

Em termos práticos, e quanto a este assunto, o equilíbrio é quase o mesmo que a generosidade. Aceitar o outro. Mesmo que o outro seja um filho. É tremendamente difícil por causa da identidade genética, do poder e do ego. É uma prova tremenda e um passo crucial no processo de crescimento de cada ser humano. Daí que a decisão de procriar tenha de ser uma decisão. Não uma obrigação. Não uma decorrência natural. Quem não pode, não tem. Até poder. Se puder. 

 

Há crianças que são agredidas. Há crianças que são violadas. Há crianças que são assassinadas. Há crianças que passam fome. Há crianças que estão sós. Há crianças que têm medo. Há crianças que choram. Todas as crianças não percebem. Nada disto. Cada criança tem um mundo particular de alegrias, terrores, fome e sono onde o meio termo parece não existir. Há crianças com sorte. Há crianças sem sorte nenhuma. Todas as crianças somos nós.

  

publicado por Cat2007 às 15:38
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Outubro 08 2007

 

Mudei de casa. Terminei a mudança, quero dizer. Estou definitivamente instalada. Agora não quero mudar mais. Quero ficar ali muito tempo. Na nova casa. Ando a decorá-la cuidadosamente. E estou a gostar.

 

Quando mais decoro, mais gosto. Quanto mais gosto, mais quero lá estar. Quanto mais quero lá estar, menos me apetece sair de lá. Quanto menos me apetece sair de lá, menos quero ir para o trabalho.

 

Não gosto do meu trabalho. Sou jurista. Sou cinzenta. Sou travada. Sinto-me entrevada. A vontade de mudar de vida cresce célere dentro de mim. Vou mudar. Para mais e para melhor. Tenho pressa. E tenho de esperar. Paciência com planos. Calma e cálculo. Cama nas horas livres.

 

O mestrado começa dia 17. Já estou cansada só de pensar o que me vai cansar chegar até lá, sair de lá e fazer o caminho para casa. O durante não me incomoda. O que quero é terminar. Mas é este ano e o outro. Cansa-me ter de me dividir entre obrigações. estou mal habituada. A preguiça toma-me e eu deixo.

 

Sou jurista. Não sou matemática. Nem química. Se fosse encontrava as fórmulas que procuro para mudar para mais e melhor. Mesmo que não fosse mais depressa, que fosse com mais tranquilidade e outro espírito de esperar.

 

Esperar. Não deve haver muito de mais absurdo do que esperar enquanto se faz. Em princípio esperar é parar. Mas, afinal, não é. Esperar é fazer e prosseguir. Esperar é um túnel escuro por onde se caminha sempre a direito, apesar de nada se ver. Em qualquer hora, imagina-se, acredita-se, vai aparecer a luz.

 

publicado por Cat2007 às 14:32
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Outubro 04 2007

 

 

Sou uma pessoa impossível. Tenho, como característica mais marcante, um temperamento absolutamente insuportável. Num momento estou a sorrir e aparentemente tranquila como um anjo. No instante seguinte posso estar aos gritos em plenos pulmões. Tudo sobre a mesma questão.
 
O meu grande princípio de vida é ter por princípio não querer ser chateada e chatear as pessoas o mais possível para que evitem sempre chatear-me. Chateio também para me certificar disso.
 

Sou preguiçosa na medida em que só quero fazer aquilo que sei. Porque é mais fácil e sai mais rápido. Tenho permanentemente pressa de chegar ao fim.
 
Em princípio, só me visto bem para os outros verem. Por mim, andava de pijama o dia todo. Fico muito sensibilizada com as boas críticas, embora me incomodem elogios muito directos, do género olhos nos olhos.
 
Sou afectada pelo síndrome do super herói. Tenho a mania de me meter em tudo o que me pareça que é uma causa justa e, ainda, clamo por justiça. Neste aspecto, trata-se precisamente do que disse atrás. Chateio para não ser chateada. As injustiças e as maldades sérias chateiam-me imensamente.
 
Não gosto que me digam o que tenho de fazer. Porque, em princípio, eu não quero fazer nada que interesse muito aos outros. Só quero fazer as minhas coisas porque tenho uma excelente visão de conjunto sobre tudo, além de ser altamente criativa e humana. Sei sempre mais e melhor.
 
Sou arrogante e gosto de mandar no sentido de dirigir. Porque tenho os defeitos acabados de enunciar. Normalmente, os meus projectos são balões de oxigénio em termos da humanidade que entra pelos pulmões das pessoas com o ar.
 

Detesto a disciplina alheia porque desconfio dela solenemente. Na generalidade, as pessoas não falam por si, mas respondem a estímulos de um sistema que não foram elas que criaram. Não gosto disso. Gosto de questionar os sistemas inquestionáveis. Normalmente, é neles que se encontra a raiz dos problemas mais graves que afectam mais gravemente a vida de todos.

 
Sou desconfiada porque compreendo a força do instinto humano de preservação. E não existe animal mais perigoso do que o Homem à face da Terra. Porém, é necessário provocar um bocadinho os outros porque não existe outra forma de expelir a nossa própria agressividade. E temos de aceitar os riscos inerentes.
 

Já dei termo a mais ligações de amor e de amizade fundas do que os amores (no sentido lato do termo) que muita gente alguma vez conseguiu conhecer. E continuo a amar e a fazer-me amar. Continuo a gostar muito daqueles com quem não desejo voltar a estar. E o que me faz pena são os outros. Os que não vejo porque não os amei e, no entanto, estiveram na minha vida. Pena deles e irritação comigo mesma. Não devia ter lá andado. Se tivesse podido, era o que teria feito.

 
Não escolhi viver pelo lado mais difícil da vida. Simplesmente acontece-me.
 
publicado por Cat2007 às 09:31
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Outubro 01 2007

 

 

Ontem, num livro de um amigo que ando a ler, Tubarão 2000, vi uma passagem sobre um diplomata imbecil que se queixava da lagosta servida em primeira classe na British Arways. Ele disse à hospedeira de bordo que se aquilo era lagosta, ele era o principe de Edimburgo, ao que ela respondeu: "Sim, Alteza". 

 

No mais, coloca-se-me a seguinte questão: mesmo em primeira classe, as companhias aéreas ainda servem lagosta? Enfim, ainda estou em choque com a falência da SWISSAIR. Seja como for, o que importa realmente é que a classe política portuguesas (e seus ramificados) já não pode viajar em primeira classe a expensas do Estado. E muito menos na TAP. 

 

Ainda sobre viagens, a não perder é mesmo o filme "20 Centímetros", do Salazar. Realizador espanhol quase desconhecido do grande público, porém, maravilhoso. Pois o assunto é a transexualidade, vidas de putas, anões marginais e machões que adoram ser sodomizados. E, porém, a sensibilidade e os bons sentimentos imperam ali. Além do bom humor. Atributo crucial de qualquer pessoa inteligente. E digo mais, Madrid é Lisboa, com as necessária adaptações.

 

Pois é. Marietta é uma mulher num corpo de homem. Á conta disso tem de se prostituir. Porque, com aspecto de mulher e identidade de homem, ninguém lhe dá um emprego decente em horário diurno (ou, mesmo, noturno). Tem de cortar os 20 cm (20 cm!!!!!!) que lhe sobram ali perto da zona do baixo ventre. Entretanto, enquanto vai juntando dinheiro para a operação, faz as delicías (ela não, o membro dela) de muitos insuspeitos. Um deles até se apaixona por ela. Mas é um amor impossível que o homem é um grande macho passivo e não quer, por nada do mundo que ela, a mulher dele, se vá castrar.

 

 

A verdade é que Marietta, que é realmente uma mulher, e não um homem, cumpre o objectivo de se livrar do seu próprio pénis, tendo, por incompatibilidade de feitios, mandado o seu machão embora. Depois da operação ela vem feliz e uma mulher bonita. Normal, sem excessos de make-up ou decotes ladeados de lantejoulas.

 

 

Segundo pude entender, depois da cirurgia de mudança de sexo foi-lhe possível alterar os documentos e assumir legalmente a identidade própria, ou seja, de mulher.

 

Bom, então se for assim, Madrid está a anos de luz de Lisboa e as aparências iludem. Realmente os espanhóis! Aqui tão perto. Nossos ascendentes históricos (gostemos, ou não)... Primeiro inventam a legalização do aborto na península Ibérica. Depois, constroem uma legislação sobre reprodução assistida das mais liberais que há. Têm a "lata" de legalizar o casamento entre homossexuais. E agora isto: deram um passo de gigante no sentido da dignidade das pessoas que precissam de mudar de sexo. Ou melhor, da dignidade das pessoas.

 

Eu amo Lisboa e tenho muita vergonha!

 

publicado por Cat2007 às 09:28
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