CAFÉ EXPRESSO

Novembro 22 2007

 

Prisão na Ilha de Alcatraz.

 

Estou perto da conclusão de que a democracia constitui uma outra forma de despotismo, ou a sua formulação moderna. Os poderes do déspota iluminado, do déspota anterior a este e dos déspotas comunistas-fascistas mais recentes transferiram-se para a sociedade. O déspota da democracia é a colectividade. Como a colectividade se confunde com o Estado, o déspota é o Estado. Nos modernos sistemas político-económicos-democráticos o Estado procura demitir-se da responsabilidade directa pelo desempenho do maior número de tarefas possível, delegando tudo o que pode o mais que pode em entidades particulares. No entanto, e para tanto, necessita de regular. Regular a actuação privada. Portanto, aumenta a necessidade de regulação por parte do Estado. Se aumenta a necessidade de regulação, aumentam as regras e os espartilhos, a máquina que os produz e os respectivos mecanismos de controlo. Aumenta o Estado. Portanto, quanto maior o espaço para a iniciativa privada, mais se agiganta o Estado. O espaço da iniciativa privada é um espaço de lei. O monopólio da produção legislativa pertence ao Estado.
 
Neste contexto, a distância entre o indivíduo e o Estado é praticamente inexistente. Não existe verdadeiramente sociedade civil. Por isto eu disse que a colectividade se confunde com o Estado. Mas não é apenas por isto. Há que acrescentar, ainda, para completar o quadro que se apresenta, a consideração dos interesses individuais, os quais são apenas considerados porque os cidadãos têm direito ao voto. Assim, os interesses individuais têm de ser considerados colectivamente. Colectivamente, quer dizer, maioritariamente. Maioritariamente, quer dizer, pela maioria.
 
Por definição, o interesse maioritário opõe-se ao interesse individual, quando não se dá o caso de o esmagar, mesmo. No jogo democrático joga-se às concessões e aos ajustamentos. Como democracia implica liberdade e igualdade, procura-se atender aos interesses de todos, respeitando todos os direitos. Os mecanismos pelos quais se procura chegar a este desiderato implicam constrangimentos sobre as liberdades individuais e atropelos ao princípio da igualdade e da justiça aplicados individualmente.
 
Em democracia não há liberdade real. Esta conscientemente concedida com a consciência que se contribui para o bem de todos, respeitando o sistema que nos serve, mas nos descontenta, e que, ainda assim, é o menos mau de todos. Simplesmente porque vivemos juntos.
 
A palavra mais importante em democracia é: “correcto”. Politicamente correcto. Socialmente correcto. Fisicamente correcto. Intelectualmente correcto. …mente correcto. E eteceteramente correcto. Etc. É incorrecto ser estúpido, mal informado, mal disposto, feio, preguiçoso, desinteressado, talentoso…etecetera. É incorrecto ser assistematizado.
 
publicado por Cat2007 às 12:47
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Novembro 14 2007

 

 

Existem imensas palavras acabadas em ento. Enamoramento. Comprometimento. Unguento. Sofrimento. Enforcamento. Lento. Cimento. Firmamento. Fermento. Isento. Enceramento. Sonolento. Há imensas. Eu sou uma mulher logo, quando fico com sono não posso ficar sonolento. Só sonolenta. Eu queria ficar sonolento depois de um enceramento nos ouvidos. Mas só posso ficar sonolenta. A concordância não é tão perfeita. Até porque não existe firmamenta.

 

A questão é que me dá sono ter que, por comprometimento, ouvir falar de coisas em relação às quais não estou numa situação de enamoramento, mas de um comprometimento tão forte como o cimento. Ao ponto de pensar no meu próprio enforcamento. Porque enfim, são casos de sofrimento  lento onde um unguento está isento de qualquer  utilidade. E a cera nos meus ouvidos cresce, como se fosse massa para bolo com fermento.

 

Admiro as pessoas que gostam de fazer tudo aquilo que eu detesto fazer. Aquilo que detesto mesmo. Não falo de lavar a louça, por exemplo. Coisa simples que detesto apenas. E nem faço, por acaso. Mas que poderia fazer, se fosse mesmo necessário. Falo de assuntos que pessoas gostam de tratar. Assuntos que, do meu ponto de vista, não interessam a ninguém. Primeiramente, ressalvo que há coisas neste planeta que, não estimulam um santo, mas que têm de ser feitas. Há quem goste. E isso é bom. Para nós, os outros, também. Estas pessoas são melhores do que os santos, neste aspecto. Por gostarem das tarefas, quero dizer. Também, por comprometimento, enfim, por obrigação mesmo, tenho que fazer coisas destas. Não fico com sono porque estou distraída.

 

Na verdade, falo aqueles factos que, para além não terem interessarem a ninguém, têm uma existência perfeitamente inútil. São coisas supérfulas. Realmente supérfulas. Desinteressantissimas e escandalosamente inúteis. Há pior do que isto? Há. O facto de existirem pessoas que se lhes dedicam por extremo prazer, com grande vibração. E mais, muito pior, há sistemas muito responsáveis, de grande seriedade, que se organizam em torno deste verdadeiro tormento. É aqui que me vêm à mente todos os entos.

  

publicado por Cat2007 às 19:27
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Novembro 11 2007

  

 

E se uma pessoa tivesse que estar diariamente a desviar-se horas seguidas de objectos lançados na sua direcção? Uns atrás dos outros. Horas a fio. O que poderia acontecer a essa pessoa? Se fossem bolas de ténis, por exemplo.  Uma daquelas máquinas próprias para treinar, disparava as bolas seguidas de uma forma louca. Imensas. A pessoa tinha que fugir. Porque já não podia ir lá de raquete. Já tinha perdido a raquete pelo chão. O Objectivo era realmente evitar que qualquer das bolas lhe tocasse. E se, a máquina que lançava as bolas tivesse uma coisa qualquer incorporada, como os misseis, e conseguisse teleguiar as bolas? O que poderia acontecer? Imaginemos que não podia, por absurdo (ainda maior) sair do campo.

 

Varias coisas podiam suceder. Aquisição de boa forma muscular e cardio-vascular. Melhoria significativa dos reflexos. Aumento da capacidade de concentração. Maior controle do movimento do corporal. E, eventualmente, mais umas tantas coisas que não estou agora capaz de nomear. Mas até chegar aí? O que poderia suceder? Sucumbir por ataque cardíaco. É uma possibilidade.

 

Bem, levar com as bolas todas na cara. Não doi muito. Uma ou duas bolas. Dez bolas. Mas cem bolas! Cem bolas, manda qualquer um para a doença. Uma vez acertei uma bolada em cheio nos seios de alguém. No passa nadie! Mas cem bolas nos seios! Isso já é outra coisa. E duzentas. Bem, duzentas, nem posso imaginar.

 

Portanto, uma pessoa tem que se desviar da máquina que manda violentamente cem ou duzentas bolas teleguiadas. E como se faz uma coisa destas? É ir para o court já com uma forma fisica invejável. É, ainda, entrar com todos os sentidos alerta. É ter nervos de aço. Não mexer até ao último segundo para enganar a máquina. De tudo, o mais difícil é não mexer até ao último segundo. Não reagir. Só no momento certo. Ás primeiras ninguém consegue tal proeza. Porém, quem atravessar o processo sem cair em padecimento, acaba por conseguir.

 

É verdade. Para todos os problemas existem as respectivas soluções. É só identificar muito bem aqueles. As suas causas. Uma vez identificado, um problema perde logo dimensão. Depois, basta ter uma certa frieza para descortinar as soluções. As soluções são sempre mais difíceis do que os problemas. Por isso há pessoas que perferem ficar toda a vida com os problemas. Peferem aquela coisa da morte lenta. Eu perfiro acabar com os problemas. Radicalmente.

 

 Voltando ao court, a solução será, então, estar em grande forma fisica, psicológica e emocional. Portanto, uma tarefa monumental. Uma solução para o problema tremendamente difícil. Mais difícil do que levar com duzentas bolas na cara, e ir parar ao hospital para operar ao maxilar, ao olho ou ao nariz. Ir. Doente e indigno. Para mim, a indignidade é mais difícil do que a dificil solução apontada. Perfiro matar-me a ficar cheia de saúde global, e ir à luta. Aguentar as primeiras boladas. Os impactes.

 

Mas ainda, assim, ninguém pode passar uma vida nisto. Então, é preciso, com todos os riscos inerentes, fazer uma manobra de aproximação ao canhão das bolas. Suavemente. Sem apanhar. Ou apanhando o menos possível, Ir chegando. Na verdade, a máquina tem fragilidades. A maior é que, a partir de um certo raio de proximidade ela não consegue detectar o objecto. Então, cá por mim, chegada aí, é ir direita à merda da máquina e parti-la aos bocados sem dó nem piedade.

 

Não aguento receber sem dar. Há um limite para tudo. Procuro estender o meu limite. Dar a outra face. Mas Jesus Cristo é demasiado importante. Eu sou só eu. Tenho pena. Não estou interessada nos problemas da máquina. Nas razões da sua agressividade gratuita. Não quero saber que ela, afinal, tem uma avaria. Eu só entrei no court para treinar um bocado de ténis. Ultrapassar o limite equilibrado da compreensão, é ser desiquilibrado. Não estou a chamar desiquilibrado a Cristo. Mas ao ser comum. Atrás da máquina há um grande martelo. Ela nada pode fazer e vai apanhar forte e feio. A máquina fica desfeita e eu fico maravilhosamente saudável graças ao que ela me fez passar. É bem feito! Ou não é?

 

Já o disse, compreendo a agressividade instintiva dos animais selvagens. Não aceito, porém, ataques gratuitos das pessoas, para além do meu limite de aceitação. E garanto que é vasto. Era o que mais me faltava agora. Logo eu que adoro leoas.

 

Mas enfim, reconsiderando, talvez depois de passado o tormento de ter de aguentar e fugir. De ter de me aproximar, aguentar e fugir. Chegada lá ao pé. Ver a máquina horrorosa continuando a lançar bolas sem me poder atingir. Eu de martelo na mão atrás dela. Ela a lançar bolas para lá. Aparvalhada. Não sei se não largo o martelo e a empurro apenas para fora do campo, e lhe viro as costas. Talvez. De certeza. Quase de certeza. Bem, mas uma martelada leva. Só uma. Ou duas. É justo. Eu sou uma pessoa justa. Não sou uma leoa.

 

publicado por Cat2007 às 02:04
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Novembro 11 2007

 

 

 

Imagino que os cães de  caça poderiam ficar tontos se as lebres ou as raposas, ao fugir,  começassem a correr em círculos intermináveis. Talvez isso não aconteça.

 

Não sei. O meu cão era um teckel. Um pequeno cão de caça, portanto. Tinha um temperamento absolutamente obsessivo . Era capaz de ficar horas com a cabeça dentro de um buraco, desde que lá dentro estivesse uma criatura perseguida acoitada. Depois, eu ía lá, já louca de o ouvir ladrar, e mandava-o entrar para casa. Ele vinha à minha frente porque não tinha alternativa. Demonstrava-me isso claramente. Porém, como tinha respeito, mas não tinha vergonha, e porque a coisa era mais forte do que ele, se eu, distraída, abrisse a porta do jardim ele saia disparado. Para meter novamente a cabeça no buraco. Só regressava se já não estivesse lá o perseguido. De outro modo, passava lá a noite. Isto é, passaria lá a noite ou o dia, se eu deixasse. Isto enervava-me um bocado. Como é evidente.

 

Outra manifestação do temperamento obsessivo do meu cão verificava-se nas grandes viagens de carro no Inverno. Ora, no Inverno, ninguém normal abre a janela do carro. Especialmente se estiver frio ou a chover. Ainda menos numa auto-estrada (aliás, aqui, nem no Verão). Pois ele queria sempre ir de pé no banco da frente com a cabeça de fora e orelhas ao vento. Parecia um aviador! Fui eu quem, de início lhe mostrou como isso era bom. O que ele nunca aceitou é que só o podia fazer em percursos mais ou menos curtos e com temperatura amena. Também não entendia que nem sempre podia ir à frente. Enfim, havia gente estranha que não tinha disposição de ir com ele ao colo. O Belchior era menino para chorar durante várias horas seguidas. Ininterruptamente! Fazia um som tipo chaleira, quando a água está quase no ponto. Nunca saia deste tom. Água quase no ponto. Durante 2, 3, 6 horas! O tempo que fosse. Desde que ele não estivesse onde queria. Não se cansava. Nada o demovia. Nem ameaças. Nem umas palmadas. Nada! Era aguentar.

 

Portanto, o meu cão metia uma ideia na cabeça, e seguia tal ideia para onde quer que fosse. Sem desistir jamais. A cabeça dele ficava ali. Centrada naquela ideia. Para onde fosse a ideia a cabeça dele ia atrás da ideia. Não comia. Não dormia. Nada. Só aquilo.

 

Identifico-me, de algum modo. Por vezes, a minha cabeça cola, como papel à gordura, em certas coisas. Tenho o hábito de seguir os percursos mentais. Não as palavras. Mas o que está por trás. Procuro. Procuro. Meto a cabeça no buraco. E espero com os olhos esbugalhados. Por um movimento. Por um detalhe. Ladro. Provoco uma reacção qualquer. Fico à espera dela. Da reacção. Sou obcecada pelo fundo dos raciocínios dos outros. Portanto sou viciada na actividade de investigação das emoções. As emoções que estão por baixo das palavras e dos gestos. As emoções que residem na base dos olhares.

 

Nunca soube o que o meu cão faria se apanhasse o gato,  o rato, a raposa ou o coelho escondido. Já eu, eu não faço nada, para além da descoberta. Ganho em ficar a saber o que não sabia. Porque era isso que eu queria. Saber mais alguma coisa daquela pessoa concreta. E, em concreto, a generalidade das pessoas interessam-me . Porquê? Não tenho paciência para explicar agora. Teria de pensar nisso. Não é coisa que me saia facilmente para explicação por escrito. Exige paragens. Eu não faço pausas enquanto escrevo. Sei que preciso de compreender. Tudo. Sobre as pessoas que me ficam por certo tempo à frente.

 

Ora, isto é bom e é mau. As descobertas são boas e más. Como é evidente. E eu até já sei disto previamente. Acho, até, que é um desperdício de tempo e de energia andar sempre nestes exercícios.

 

Há pessoas cujo raciocínio é mais tortuosos do que um caminho de cabras cheio de curvas, se houvesse um caminho de cabras tão emaranhado como um novelo de lá previamente desenrolado. Como se nas curvas houvesse arbustos cheios de silvas.

 

Se seguimos o percurso de um raciocínio parecido com um caminho de cabras cheio de curvas que poderia ser parecido com um novelo de lã emaranhado, e também com arbustos de silvas, se tal caminho existisse, podemos ficar mais obsessivos do que já somos. Podemos aprender a raciocinar assim. E podemos ficar doentes. Há coisas de que nunca nos lembraríamos de pensar, e que, agora, já nos lembramos. Coisas que não servem para nada. Coisas negativas. Que emergem na nossa cabeça.

 

 Se eu não gostasse de percorrer os percursos é que era bom. Talvez não seja necessário fazer isso para chegar às descobertas. Mas eu faço-o. Eu sigo fielmente o trilho, desprezando atalhos. Quero mesmo ver por onde é. Portanto, eu gosto ainda mais do processo do que do fim do processo. Mas também gosto de chegar à conclusão. Porém, ainda assim, prefiro as descobertas do percurso. A porcaria dos arbustos silvados. A canseira das subidas e descidas. Torcer os pés nas pedras. A irritação de fazer espirais no quase retorno. Eu sou uma ovelha sem nenhum sentido prático.

 

Aparentemente, o que vou dizer nada tem a ver com o que deixei dito, mas o meu cão... Ainda é o meu cão.

 

 

publicado por Cat2007 às 00:41
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Novembro 07 2007

 

Ontem estive a ver um bocado da discussão parlamentar sobre o Orçamento de Estado para 2008. A ideia mais clara com que fiquei foi que as propostas do Governo, boas ou más, não foram percebidas. Enfim tenho a certeza que foram apresentadas. Em português, Não em chinês, grego ou russo. Em português. Mas não apanhei.

 

Não sei quem começou a divergir, embora bem sabendo porquê. Porque se diverge nestas coisas. Já explico. Não sei quem começou a fingir que estava ali a discutir a aprovação do OE do ano que vem. Se o Governo, se as bancadas da oposição. O que sei é que, claramente, não entendi muito bem quase nada de tudo aquilo que seria importante entender. Até porque o OE está aprovado, uma vez que o governo é maioritário, como se sabe. A Lei é uma formalidade. Esqueceram-se que as pessoas que não são da mesma cepa. Enfim, dos cidadãos. Como sempre.

 

Para ser justa, tenho que dizer que não vi do princípio. E que também não fiquei até ao fim. Cheguei no momento em que o Primeiro Ministro já estava a ser interpelado pelos partidos contrários. Estive quase a mudar de canal. Mas fiquei. Só porque o  senhor estava bonito, como sempre. É um homem bonito, com um sorriso bonito. Ponto. De resto, pouco mais sei dele. Enfim, talvez se note algo de temperamental e falta muita falta de paciência no homem, aussi . Também é muito confrontativo .  Porém, nada disto me desagrada. O que me desagrada é a política. Por isso ia mesmo virar de canal. Mas, como ele tem bom aspecto e é reactivo de um modo que me agrada, fiquei. E já que fiquei, mesmo sendo naquela  parte do debate, mesmo sendo um debate político, fiquei curiosa. Atenta também. Enfim, também vai entrar em vigor o novo diploma das carreiras das função pública. Tinha as minhas expectativas quanto à possibilidade de clarificação de algum do conteúdo de aspecto duvidoso constante do dito diploma. Embora baixas. Esforcei-me . Forcei-me a ficar. Apesar de a minha atitude básica ser outra. A de nunca querer ficar a ouvir político nenhum.

 

 

Bom, mas o Orçamento de Estado é o instrumento legal de concretização da política nacional mais importante de todos. Em termos práticos, o OE explica como nos vão mexer no bolso no próximo ano. Igualmente, está apto a demonstrar as opções políticas fundamentais sobre o destino de todos nós no que toca a todas as matérias onde mexe e por não tocar simplesmente noutras matérias. Em resumo, é um meio fundamental de revelar um determinado rumo nacional. Nós queríamos saber se estamos a rumar bem e para onde. São coisas muito importantes.

 

Bom, e portanto, se a discussão é sobre o Orçamento, espera-se que se discutam as propostas inclusas na proposta de Orçamento. Já agora, porque é a Assembleia da República que o vai aprovar. Mas não. Esperam-se observações do género, "Sr. Primeiro Ministro, a proposta X quer dizer que haverá consequências do tipo A, B e C. Parece-nos bem porque a consequência A leva à solução Alfa, ou  não lhe parece que talvez devesse ser mudada no sentido x1 , ou alterada para z ou, pura e simplesmente esquecida?" Por exemplo. Se os deputados tivessem seguido esta linha ou dito algo assim normal, eu, estou certa,  tinha percebido as propostas. Poderia, enquanto cidadã, ter feito o meu juízo sobre as objecções apresentadas. Porém, como disse, não dei por grandes objecções directas às propostas. Dei pela objecção geral ao Orçamento no seu todo. Dei pelo facto de que esta mesma objecção global existe porque sim e por mais nenhuma razão. Agora, quem quiser que vá ler as trezentas e não sei quantas páginas do Orçamento. Ninguém irá. Eu, por mim, talvez uma grande parte. Porque sou jurista pública e estou, por isso, neste aspecto, lixada.

 

Enfim, o que eu percebi muito bem é que as discussões parlamentares que têm honras de directo televisivo não por cabo são uma espécie de feira de vaidades. É isso que os deputados lé estão a fazer. Exibição. Sempre a divergir do que importa. A trazer à colação questões que nada têm a ver com a Questão. Só para armarem. Mais nada. Não acredito que ali esteja gente sinceramente preocupada com alguma coisa. A vida deles não é essa. A vida deles é jogar o jogo político. Uma espécie de Bridge. Adorável, mas só para quem sabe jogar e de mais sentido útil nenhum, para além de constituir grande estímulo para os intelectos de quem joga. Assim , parece que os depurados  foram ao veterinário e lhes meteram um daqueles chips para identificar animais de estimação. Depois das eleições, todos os deputados têm de ir ao veterinário, antes de se sentarem no Parlamento.

 

 Seja como for, repito, o Orçamento já está aprovado porque o Governo tem maioria absoluta na Assembleia.  O Primeiro Ministro, claro, percebe tudo daquele bridge. Também joga. Mostra claramente que percebe. E rir-se com arrogância. Devia ter cuidado. Um dia toda a gente se enche de coragem para assistir atentamente a estes debates. Espero esse dia.

 

Pois, o Orçamento, como dizia, na discussão do Orçamento de Estado as atenções dos intervenientes concentram-se em fazer campanha política. Tudo isto é evidente. Todos sabem que sim. E ninguém tem vergonha. Por isso O PM ri-se imenso e está sempre bem disposto. Ninguém tem vergonha. Já ninguém tem noção. Estão todos ali há demasiado tempo. O sistema engoliu-os. Vomitou-os. Transformou-os numa massa própria sistemática. São os membros e os sentidos do sistema. Deviam ir todos para casa. Em Portugal os políticos governam por sua conta. As pessoas estão atentas a outras particularidades das suas vidas quotidianas. Cada povo tem a classe política que merece. Devíamos ir todos para casa.

 

O ex PM , Pedro Santana Lopes, voltou como líder da bancada parlamentar do PSD. Depois do debate, pediu, através dos jornalistas, "alguma compreensão para quem ainda se está a readaptar a estas lides". Paulo Portas, também ele recentemente regressado, como líder da bancada do CDS-PP ,  e o seu ex-ministro da defesa, falou dele como se não o conhecesse. Como se nunca o tivesse visto. As televisões e os jornais estavam todos previamente concentrados na batalha Santana Lopes/José Sócrates PM actual, relembro, porque outrora os dois costumavam debater no jornal de domingo da RTP. Pedro Santana Lopes é tão talentosamente cândido que pede compreensão para a sua falta de forma nas questões da demagogia e do discurso inócuo. Para a questão de ainda não estar a postos para divergir dos interesses nacionais com a mestria de outrora e para se exibir ao melhor nível dentro desta falta enorme de nível e de senso no estar dos políticos portugueses. Assim como um grande jogador de futebol regressado de uma lesão. E quase que ficamos solidários com ele. Quase ficamos mesmo compreensivos. Como é possível? Pedro Santana Lopes e Paulo Portas outra vez nas televisões??????????? Como vamos aguentar?

 

Em relação aos acabados de citar e a todos os demais, não sei se eles pensam que o Parlamento é a sala de estar lá da casa da quinta deles. Mas têm que acabar com estas conversas de churrasco. Já ninguém pode com o cheiro!

 

Por falar nisso, o Presidente da Assembleia da Republica parecia o encarregado da grelha. sempre a fingir que estava a cumprir com grande dignidade as suas dignas e altíssimas funções. Porém, como acontece sempre que se está a fingir, perdeu a concentração, e mostrou logo um belo pedaço de picanha grelhada. Pois, com efeito, a certa altura,  disse, a rir e com grande sentido de paternalismo, entre outros sentidos que não estou apta a deslindar, disse, dizia eu, à deputada Teresa Caeeiro do CDS-PP  - ex-secretária de estado não me lembro do quê - que todos  os Parlamentares tinham grande simpatia por ela, mas que, ainda assim, ela, (Teresa Caeeiro ) estava obrigada a respeitar o Regimento da Assembleia. Enfim, que era preciso manter um bocadinho as aparências e tal. Entre a reacção da visada e outras coisas,  Percebeu-se que Teresa Caeeiro nunca leu o Regimento da Assembleia. Foi a risada geral. Mas não por isso. Antes, pelo modo como ela mostrou que se estava nas tintas para isso, como todos estão. Teresa Caeeiro foi eleita a Deputada mais ingénua da sessão, confirmando-se que é, portanto, uma desfiltrada . Por mim, não achei graça. São private jokes . Ultrapassam-me. Notei, nessa altura, que as intervenções de Teresa Caeeiro me vinham incomodando de sobremaneira por causa do seu visual  "Caras". Fiquei a olhar espantada  para aqueles longos cabelos louros com o toque despenteado da moda. Lembrei-me da Cinha Jardim, sei lá porquê. Imaginei féria na neve, sei lá porquê. Vislumbrei um acontecimento social de grandes repercussões cor de rosa, sei lá porquê. Por fim, fiquei a empreender nas razões da especial simpatia parlamentar por Teresa Caeeiro . Sei lá porquê.

 

Em resumo, aquilo foi, em termos globais, uma coisa muito divertida. Todos aqueles amigos que ali foram ontem passaram um bom bocado. É o que eu tenho a dizer do que vi da discussão parlamentar do Orçamento de Estado para 2008. Da parte a que assisti, claro!

 

publicado por Cat2007 às 09:00
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Novembro 03 2007

 

 

É muito vulgar ter medo dos outros. Assim um medo geral. De ninguém em especial, mas de todos. Como se as pessoas estivessem, mesmo involuntariamente, organizadas contra. Contra nós. 

 

Acreditamos que cada um pensa em si. Primordialmente. Em si e, claramente, nos seus muito próximos. E em mais ninguém. Cada um pensa em si no que toca à satisfação das suas necessidades e na prossecução dos seus interesses pessoais. E isto é genericamente verdade.

 

As Grandes Questões  socioculturais, filosóficas, ideológicas e políticas do século XXI: QUANTO É QUE ISTO ME VAI CUSTAR? QUANTO VOU GANHAR COM ISTO? E o Estado faz-se indivíduo! QUANTO é uma palavra que devia ser premiada, distinguida, escrita nos céus com tinta indelével (se tal fosse possível).

 

Portanto, para proteger o seu ciclo particular de objectivos, ambições e de pequeninos troféus já acumulados, a atitude de cada um perante os outros é, em termos genéricos, e numa primeira análise, defensiva. Se é defensiva é agressiva. Qualquer defesa de qualquer coisa tem como consequência o ataque ou a agressão. Agressão ao que se aproxima, pisa ou transpõe uma determinada área defensiva pré-constituída. Mesmo que que tudo aconteça involuntariamente. Portanto, aqui ninguém tem desculpa.

 

Por exemplo, as pessoas não têm a culpa de trabalhar umas com as outras. Quero dizer, as pessoas têm que trabalhar umas com as outras. Próximas. Ou, até, juntas. Fulano concreto A com específico sicrano B , C, D, E, .. Z , A1 , B1 , C1 , D1 , E1 .. Z1 ... E é esta proximidade que cria o risco. O tal risco de alguém, por querer ou sem crer, pisar os limites do círculo de interesses do vizinho, colega do lado. Trata-se aqui do contexto ideal para o surgimento das aludidas posturas defensivas/agressivas e/ou do medo, dependendo do feitio de cada indivíduo em causa. É por isso que as pessoas têm que trabalhar juntas, mas não o fazem. Trabalham por si, pensando, pelo menos, em preservar-se.

 

Evidentemente, nem vale a pena falar das atitudes agressivas motivadas pelo desejo de alargar o ciclo de necessidades a satisfazer. Porque, como sabemos, as pessoas nunca estão satisfeitas. Daí a energia que se vai respirando.

 

O paradigma das relações de trabalho é o mais fácil de recriar. Por assim ser, lembrei-me imediatamente dele. Sobretudo porque representa um contexto em que o que está em causa pode ser a própria sobrevivência do indivíduo nos moldes em que ele, na sua actualidade vivencial, a concebe. Enfim, porque nos obrigam a consumir cada vez mais. Mais carros, mais televisões, mais férias, mais... mais coisas novas que não havia antes e que passam a ser mesmo necessárias.

 

O problemas destas questões é que as pessoas acreditam mesmo nelas. Ou seja, as pessoas protegem-se a si próprias como que inconscientemente  e acham realmente que a vida é uma luta. As pessoas detestam-se umas às outras, por assim dizer. As pessoas detestam-se a si próprias, por assim acrescentar. Porque os referidos processos não são humanos, no melhor sentido da palavra humano. Talvez o receio básico se situe no ponto em que se crê que não é bom dar valor aos outros. Qualquer valor. Mas, porém e sobretudo, quando o valor é realmente valor, e não uma invenção. As pessoas usam-se porque precisam umas das outras.

 

 Genericamente, apenas em momentos de calamidade, em que todos perdem tudo, ou em que todos percebem que navegam no mesmo barco à deriva (E QUE O BARCO ESTÁ mesmo À DERIVA) ou quando a desgraça alheia é demasiado profunda para ensombrar seja o que for do que é nosso, só nestes momentos as pessoas deixam de se usar para se ajudarem. Qualquer sistema de colaboração é forçado ou imposto por regras exteriores. Estas podem ser regras empresariais, legais, da política ou do etecetera . 

 

O "Plano Marshall": primeiro eu, colaborando contigo ou, mesmo, prestando-te a minha ajuda porque, de outro modo, vou acabar por me prejudicar.  Não vejo mal nenhum nisto. O que me perturba é que o processo-regra de "solidariedade" tenha sempre que apresentar esta estrutura.

 

A Guerra do Golfo: primeiro eu, aniquilando-te, senão vou perder muita coisas que me convém manter e mais umas coisas que ainda quero ganhar. Não pondero bem o peso das coisas. Só o que posso perder. Mesmo que tu percas tudo. Mesmo que tu morras.  Vejo muito mal nisto porque o processo-regra de solidariedade... Qual processo? 

 

O drama de New Orleans é um grande exemplo de solidariedade (essencialmente NÃO-ESTATAL ) real, pura. Porque deviam estar todos no mesmo barco. Mas não havia barco e, mesmo assim, o barco andou à deriva. Vejo muito de bom nisto. Apenas não devia ter sucedido a catástrofe.

 

Impregnada deste espírito envenenado, fui ao cinema e escolhi sem pensar, sem saber, sequer, do que tratava SICKO ", um filme de Micheal Moore . Um americano gigante galardoado  e gordíssimo, de boné com pala. É verdade. Nem sabia que era um documentário. Nem reparei. Nem pensei nisso. Não estava lá muito bem disposta.

 

Não choro nos filmes. Nunca! Tenho sentido da dignidade. Acho eu. Bom, e na verdade, também sou pouco de me deixar levar por pieguices. Demasiado cínica para esquecer que o que vejo é ficção. Mesmo que seja muito convincente.

 

De certa forma, até posso, eventualmente, sentir alguma inveja pelos choramingas . Pelo menos vivem gloriosos momentos de abstracção da vida, sem recorrerem a drogas, por exemplo. Saem de si, e entram na trama. Que nem mosca na teia da aranha, sendo que a aranha não está lá. É talvez invejável.

 

Chorei sinceramente neste filme. Várias vezes. Pelo menos, sempre que  não era possível suportar a dor. É que era um documentário. Era tudo verdade. Posso chorar quando é verdade.

 

Chorei por causa dos milhões de americanos doentes. Dos que não têm seguro de saúde (50 milhões! - mais do que a população alemã) e, principalmente, porque assim decidiu o realizador, com os que têm. Esta pessoas também morrem ou vão à falência e acabam por morrer depois! Isto é uma verdade simples. Aterradora. É assim.

 

Toda a gente tem de ir ver este documentário para crer. É tão chocante!

 

Aquele gordalhufas de boné vermelho e colete! Deve ter para aí 1,90 m de altura por 1,90 m de largura. É rico. Para que se preocupa ele? O coração deve ocupar todo o seu volume. Por isso ele não é obeso. Por isso ele é capaz de se mexer tanto, por tantos lados, ir a tantos lugares. Ajudar tanto! Chorei por ele. Por causa dele. Deixaram de existir americanos. Só pessoas. Que poder tem este homem para fazer isto a uma pessoa? Para além de me ter deixado em dor pelas pessoas de que falou, ainda me deu fé. Sobretudo ele. Mas também aquelas pessoas americanas muito doentes que tinham seguro de saúde. E as outras, que não têm porque não têm dinheiro para fazer um seguro normal de 9.000 dólares por ano, e que, ainda assim, não lhes permite sobreviver com um mínimo de dignidade. Isto é tão chocante!

 

Ele disse, e mostrou, que os americanos são gente boa e solidária. E, no entanto... Também demasiado materialista e, imagine-se, ingénua. Desde o Nixon , que os cidadãos norte-americanos estão encurralados numa armadilha tremenda que literalmente os está a destruir. Eu chorei de dó. E quem for ver o Sicko "  e não chorar... só pode ser accionista de uma HMO das que lá são mencionadas.

 

Tenho a noção de que é um tanto absurdo dizer isto, mas... sai do cinema a sentir amor pelo Micheal Moore . Amor mesmo. Como se fosse meu irmão ou coisa assim.

 

E sem ponta de veneno no peito. Aquela que levava. Disposta a amar quem venha. Afinal, porque se preocupa ele? Porque se dá ao trabalho? Para ficar ainda mais rico? Descobriu a pólvora, fazendo de cada produção sua uma bomba? Mais um Oscar, é o que ele quer?

 

Escrevi-lhe a agradecer por tudo. Juro.

 

publicado por Cat2007 às 00:06
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