CAFÉ EXPRESSO

Dezembro 31 2007

 

 

 

Há mais de cinco anos que tenho este disco da Dionne Warwick . "Dionne Warwick sings the standards". Quando era ainda muito pequena já gostava dela por causa de uma ou duas músicas que me sensibilizaram logo na altura. Uma delas é aquela: "I Know i'll never love this way again". Eu era uma criança romântica, portanto! Sucede que ainda hoje não a tenho. Foi por isso que, há cerca de cinco anos atrás, fui à FNAC. Mas não havia. É por isso que ainda hoje não a tenho. Mas ainda queria ter. Trouxe, portanto, os standards. Não são os standards da Dionne , claro. Porque se fossem esses, o disco tinha de ter lá aquela musica que eu queria. Antes, são musicas do Cole Porter , bem como daquelas duplas incontornáveis:  Gershwin Gershiwin ; Bernstein/Sondheim; Bacharach/David, e assim. Esta última, no entanto, perfeitamente contornável - não gosto, embora goste do "Way to San Jose", que não está, evidentemente, neste disco.

 

Bom, mas, então, nestas circunstâncias,  Dionne canta standards como "The way you look tonight"; "Summertime"; "I love Paris"; "The good life" e, sobretudo "C'est si bon". Foi esta música que me fez decidir pelo disco. Por razões sentimentais. A única que eu não tinha. Que tinha de ter por razões sentimentais, como disse.

 

E é assim. Compra-se um disco por causa de uma música. Nada de inédito. Não tive interesse em ouvir antes de comprar porque tinha que comprar o "C'est si bon". E porque também gosto de surpresas. Na verdade, para não me dar ao trabalho. E, bien sur, foi uma má surpresa!

 

Na verdade, trata-se de um conjunto de interpretações da Dionne em nova. Uma sonoridade terrível. Muito metálica. Típica dos anos sessenta, com aqueles arranjos feitos para deixar as pessoas com os nervos em franja. Mas como com  boa vontade tudo se resolve, acabei por aceitar as coisas como são. No fim do processo, já adorava o disco. De resto, já me tinha acontecido algo de semelhante com um CD da Liza Minnelli, que comprei por causa do "Cabaret".

 

Entretanto, compreendi que a Dionne Warwick e estes standards, bem como a Liza, no tal disco de que falei, que até tem músicas maravilhosas - "The man i love "; "Stormy weather"; "I' ll wait for you" ou "Come rain or come shine" - são intocáveis. Com efeito, se não estiver a ouvir sozinha, pedem-me sempre para tirar o disco. Ou, mais delicadamente, perguntam-me se não posso baixar um bocadinho. Isto, para o meu estadode boa vontade católica,  é quase humilhante. Porque, enfim, eu consegui acreditar que toda esta múscia é uma verdadeira maravilha.

 

Há muito tempo que não ouvia, pois, o disquinho da Dionne Warwick . Estou a ouvir agora. Pela segunda vez porque estou a escrever  sobre ele. Com efeito, tinha que escrever sobre ele. Isto depois de o ouvir depois, não o ouvindo há imenso tempo. E não precebo como não percebo certas coisas quando não estou interessada em perceber. Então, percebi, pela primeira vez, que a jovem Dionne Warwick desafina em todas as musicas! E só desafina menos, desafinando, ainda assim, no "Babbles, bangles & beads", o que é compreensível, uma vez que dá para cantar esta musica gritando.

 

Esta descoberta chocou-me. A começar pelo meu autismo. Mas, sobretudo, e isto é que importa, porque não se pode admitir uma coisa destas de um dos maiores ícones da "motown", não é? Mesmo que lhe tenha sucedido em nova. Ou pode? Estou desconcertada. Gostava de ter muitas cópias deste disco da Dionne para distribuir na praça pública. Se eu fosse desse estilo, claro. De qualquer modo, incrivelmente, não desafina no "C'est si bon". E isto é ou não é uma sorte?

 

Descobri, ainda, uma outra coisa má, embora, em princípio não tão grave. O francês. O "La vie en rose" também consta desta compilação que, vejo agora, é verdadeiramente dramática. E, devo dizer, um chinês cantaria com semelhante pronúncia! Que mal pode ter isso? É uma cantora americana. É normal. Não, não é normal. Tão mal não é normal. Mesmo para os americanos que não falam lingua nenhuma, para além do inglês, e acham que isto lhes fica muito bem. A Gal Costa também não sabe falar inglês, e eu fiquei a pensar mal dela. Não me parece justo. Ou há moralidade ou comem todos, certo?

 

Não sei o que se passa comigo. Fiz girar o CD da Dionne pela terceira vez. Agora não noto nada. A mulher não sai do tome canta em francês com o mesmo sotaque do Frank Sinatra (e não do Mao Tse Tung). Que estranho!

 

publicado por Cat2007 às 15:46
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Dezembro 29 2007

 

                                                                                            

 

Hoje subi a Rua Nova do Almada. Vi um rapaz. Chamou-me a atenção, de entre os vários com que me cruzei, mas que não vi. Era magro para homem. Usava o cabelo puxado por um rabo de cavalo. Demasiado puxado para homem. Vestia uma calças e uma camisa de corte muito moderno. Demasiado justas para homem. Segurava um cigarro entre dois dedos finos, de uma mão fina, sustentada por um pulso fino. Demasiado finos para homem. Compreendi que era gay. A evidência da sua orientação sexual surgiu aos meus olhos como um cobertura de chocolate para um bolo de chocolate. E foi por tudo isto que o achei ridículo.

 

Na Rua Garrett a fila para o Néspresso " era interminável. Não sei se o G. C. tem alguma responsabilidade nisto. Certamente, alguma terá, porém não toda. A máquina, e os pacotes, e as caixas, e as cores e as histórias sabem a chocolate. Eu não bebo café, mas tenho o vício do chocolate. Entre o chocolate preto e o café existem as suas semelhanças. Seja como for, não vou passar a beber café.

 

Se estiver em casa, fico a ver a "Operação Triunfo". Não sei bem se me deva envergonhar disto. Porque, enfim, aquilo tem um lado que me enfada, tem um lado que me distrai e tem um lado que me interessa. Assim, é complicado mudar de canal.

 

Na edição de ontem, a Ana Bola, considerou que uma das miúdas (a única que lá ficou, de resto) é basicamente uma cantora extraordinária em qualquer parte do mundo. Acrescentou, no entanto, que por exemplo, quando ouve a Mariza , sabe que é a Mariza que está a cantar. Se houve a Rita Guerra (que paralelismo é este?), também a reconhece. Já a Vânia (é como se chama a pequena) se canta, e estamos de olhos fechados, não é possível saber a quem pertence aquela voz. A Ana Bola acha que isto se deve ao facto de ela ainda não ter feito o trabalho necessário para que a voz se torne característica. Eu cá adoro a voz da Mariza, porém só depois de ela ter cantado várias vezes, é que me convenci que a voz era mesmo dela. Agora, reconheço-a de olhos fechados. E não é pelo tacto.

  

Por falar nisso, encontrei a Mariza num restaurante no outro dia. Foi jantar na mesa atrás da minha. Tenho muito orgulho em 99% do portugueses: a amostra que foi possível retirar lá no restaurante. 99% deixaram-na jantar em paz, recolhendo-se num ou outro olhar discreto que a Mariza merece. No entanto, surgiu um labrego que se levantou da sua mesa e foi ter com ela. Falou e falou. Claro que este homem representa menos do que 1% da população de comensais da ocasião. De qualquer modo, foi tão incomodativo que merece a pluralidade.

 

publicado por Cat2007 às 19:33
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Dezembro 26 2007

 

 

 

 

O que pode acontecer a quem puser o pé sobre uma lagartixa? Pode sujar a sola do sapato. O que pode suceder a quem pisar um jacaré? E se eu fosse uma lagartixa. E se eu fosse um jacaré. Ninguém pisa um jacaré. Pelo menos, propositadamente. As cobras egípcias são lindas. Um tanto inexplicavelmente, existem algumas no deserto do Sahara . Para caçar, estas cobras enterram-se na areia. Quem estiver a passear no deserto pode sempre, por azar, pisar uma cobra egípcia . Como se sabe, o seu veneno é mortal. Quem estiver a passear pelo Sahara , pode sempre pisar, sem querer, um animal de baixo porte - um animalzinho. Neste caso, em princípio, não há azar. Pergunto-me se, no Lisboa-Dakar " os atropelamentos de elementos pertencentes à fauna do deserto são vulgares. O que nem sequer vem ao caso. Lembrei-me, apenas.

 

Portanto, ninguém quer ser uma lagartixa. Quer dizer, quem não quer ser lagartixa, não lhe veste a pele. Passe o cliché . Com efeito, não faz muito sentido acalentar mágoas e ressentimentos pelo mal que nos fizeram. E, na verdade, a condição dos animais  rastejantes não vem ao caso porque também não vale a pena arrancar pernas às pessoas ou dar-lhe dentadas mortais. Quer dizer, também ninguém quer ser  um jacaré. É ridículo. As pessoas são distraídas e põem os pés em cima de tudo o que está ao seu alcance por baixo. Não é por mal. Também não é por bem. Por os pés em cima é pisar. As pessoas precisam de pisar para caminhar. E "o caminho faz-se caminhando" - título do programa de Mário Soares no Canal 1. Se falei em animais é  porque nós, os humanos, também somos assim seres muito naturais. Ser natural é ser de acordo com a natureza. Também não acredito muito que os animais não pensem. E viver numa cidade não é fácil para ninguém.

 

As pessoas não são perfeitas. Porém, há muitas coisas perfeitas no planeta, a começar pelo próprio planeta em si. As pessoas são perfeitamente capazes de fazer coisas perfeitas. Não sou perfeccionista, mas acredito em contextos emocionais perfeitos. Os gestos certeiros, os olhares indicados, as palavras certas, as acções adequadas a cada vivência. No fundo acredito nas emoções verdadeiras. E só aceito estas. Mais nada. Por insegurança, tornei-me naturalmente especialista em detectar falhas nos contextos. Sou, por consequência, especializada na implosão de situações estáveis que vacilam. Naquilo que me importa, só me importa o tudo ou o nada. Já ganhei muito, apesar de tudo o que se encontra perdido, e me dói. Apesar da dor, o meu balanço é positivo . Reconheço que não é fácil para ninguém estar comigo. Não é justo que outros tenham que suportar as consequências das minhas escolhas. Mesmo que estas escolhas tenham a ver com o modo como eu escolhi viver a minha vida. Mesmo que não sejam verdadeiramente escolhas. Momentos houve em que fingi que era uma lagartixa. Noutras ocasiões, fui um jacaré muito distraído, e, por isso, não decepei ninguém quando podia. Em alguns momentos mordi por estar muito irritada, como as cobras saciadas. Isso foi porque pensaram que eu era uma lagartixa, e eu só estava a fingir. Não se pode, por azar, pisar uma cobra do deserto. De qualquer modo, apressei-me a ir buscar o antídoto . O meu objectivo não é fazer mal a ninguém. Deixem-me estar. E apenas não mintam, que eu sou muito insegura.

 

publicado por Cat2007 às 18:19
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Dezembro 23 2007

 

Estava a pensar no interesse que podem ter as coisas que eu aqui escrevo. Compreendo que há quem venha aqui ler. Não quero que ninguém me responda a isto. Estou apenas a reflectir.

 

Por vezes, escrevo porque já não escrevia há algum tempo. Por vezes escrevo porque algo se passa comigo. Por vezes escrevo porque tenho as minhas opiniões. Olho para o que acabo de dizer, e vejo que o assunto sou sempre eu em diferentes ângulos . A coisa está centrada em mim. Dai a questão. Porque hão-de haver pessoas interessadas nisto? É pobre, quero dizer. Eu acho. Sinceramente.

 

Podia dar informações preciosas. Coisas que poucas pessoas soubessem. Mas não. Podia opinar com encanto e imaginação sobre aspectos muito bem compreendidos da vida. Mas não. Podia escrever sem conteúdo mas com um estilo vertiginoso que divertisse ou fizesse sonhar. Mas não. Mas não posso fazer nada disto porque não sei.

 

Ando sempre a reflectir. Cada vez que aprendo coisas novas, compreendo que tenho mais dúvidas. Quando mais fundo se vai mais complexa é a realidade. Não sei, até se reflicto como devo. Deve haver uma regra, um método, para proceder à reflexão. Não tenho. Tenho o meu. Pouco cientifico. Muito parcial.

 

Não gosto de olhar para dentro de mim e verificar emoções mal justificadas. Não gosto de reflectir sobre isso, e fazer o esforço de mudá-las. O pior é que tem de ser. Depois de saber.

 

Na sexta feira tive vontade de não pagar uma conta. Ou seja, tive oportunidade de não pagar uma conta. Uma conta de supermercado. Sai sem pagar decidida a não pagar. Mas voltei atrás. Fui levantar dinheiro, e voltei atrás para pagar. Eu não queria pagar. Este foi o impulso. Mas não consegui. Porque o peito me começou a doer e o cérebro ficou branco. Dei meia volta e voltei. Paguei. Podia não o ter feito. Nada me aconteceria, e a culpa ainda era deles. Não interessa porquê. Foi uma situação rara. Ainda bem que paguei. As pessoas ficaram muito aliviadas, e agradeceram-me muito. Foi bom assim. Não percebo porque me confronto com dilemas destes. Porque não sou mais simples? Ou pagava. Ou não pagava. Devia ser assim. Não percebo porque tenho tantas dúvidas. Percebo que queria pagar. Senão, não tinha pago. Ponto final. Não é? Não porque não gosto de ter tido e respondido  ao impulso de não pagar.

  

Ontem, no Canal 1, da RTP,  deu um programa incompreensível a seguir ao telejornal. Em prime time , portanto. Organizaram uma ceia de Natal do mais requintado que pode haver. O programa era apresentado por um cozinheiro que supostamente todos devíamos conhecer, mas eu não sei quem é. Havia quatro ou cinco pratos de Natal. Iguarias religiosas (porque, enfim, a quadra é religiosa, acho eu) provindas de regiões diferentes. Da Suécia , do Havai, de França, de Portugal, claro, de... não me lembro. Os convidados, meia dúzia, eram pessoas importantes, por esta ou aquela razão, e havia lá um comandante careca desconhecido, que devia ser importante também. O cozinheiro tinha aquele corte de cabelo que não engana ninguém. Assim queque. Falava como só um chato pode falar. Não conseguia ser um comunicador porque era cansativamente expressivo. Estava em esforço. O que se me pegou imediatamente. Fiquei cansada por contágio. Estava lá o Mário Soares. O menu foi de príncipes . Todos falaram das suas pequenas e curiosas experiências natalícias . Um de cada vez. Totalmente desinteressantes. Mesmo a do ex-exilado António Barreto que passou um Natal a trabalhar na Suíça ou no Luxemburgo , carregando o correio de Natal que era imenso por ser Natal e foi muito duro, até porque estava imenso frio. O Continente do Belmiro de Azevedo patrocinou. Achei que a Simonetta Luz Afonso estava parecida com a Ana Marques, a senhora do PS e de Timor. A Sílvia Alberto era a mais nova de todos. E a mais bonita.

 

Reflecti. E não percebi nada. Mas que programa era este? Senti-me, como me sinto ainda, e até agora, uma comunista. E não sou. Não posso admitir que a RTP me faça sentir uma comunista nas vésperas do Natal! Não tenho nada contra os comunistas. Nem a favor. Mas pensei nas pessoas pobres e remediadas pobres que só têm a televisão para se distrair. Essas pessoas a verem aquilo. Os velhos, os sós, os pobres, os doentes. Estas pessoas assim, que não têm dinheiro para comprar prendas, que não vão receber prendas, que não têm dinheiro para cumprir os mínimos exigidos por esta época festiva. Terá a RTP pensado em alimentar-lhes pelo menos as almas com um programa destes? Podiam mudar de canal. Mas talvez não pudessem ter mudado de canal. Talvez se instale o conflito do acesso. Não posso ter, pelo menos posso ver. A RTP é uma televisão pública. Não tem o direito de colocar as pessoas nestas situações.

 

Eu gosto da Judite de Sousa, mas aquele programa com o jovem  Salvador Mendes de Almeida... Aterra-me a sua tragédia. Sinto uma pena muito sentida por ele. Admiro-o pela sua coragem. É assim. Simplesmente. Não posso imaginar-me a viver o que ele vive. É um rapaz incomum, talvez. Porém, ainda bem que o Salvador pôde ir para um bom hospital espanhol logo a seguir ao seu acidente de moto. Ainda bem que pôde estar um tempo em Itália. Ainda bem que pode pagar a uma senhora para estar no quarto ao lado do dele durante a noite, e que vem quando ele a chama pelo walkie talkie . Ainda bem que ele tem aquela cadeira de rodas super especial que o sustenta de pé. Ainda bem que tem os médicos e os melhores fisioterapeutas. Ainda bem que teve acesso à tecnologia que lhe permitiu concluir uma licenciatura. Ainda bem que os amigos não o abandonaram. Ainda bem que tem namorada. Ainda bem que ele tem o espírito forte e positivo que demonstra. Ainda bem que pertence a uma família muitíssimo privilegiada . Espero que seja o único tetraplégico deste país, e que Deus o ajude sempre. E a mim também pelo que acabo de dizer.

 

E, para terminar: quem é o Justin Timberlake

 

 

 

publicado por Cat2007 às 22:49
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Dezembro 16 2007

  

 

...E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes do meu,
Os nossos olhos muito perto, imensos,
No desespero desse abraço mudo,
Confessaram-se tudo!
... Enquanto nós pairávamos, suspensos
Entre a terra e o céu.

 Adão e Eva de José Régio

 

Gosto de fórmulas felizes. Esta é. "Aceitas um convite para jantar com direito a pequeno almoço?". É o modo ideal de se dizer a uma pessoa: "Olha, esta noite eu quero foder , e tu cumpres os mínimos olímpicos exigidos para o efeito".

 

Nunca fiz uma coisa destas na vida. Pelo contrário, já disse: "queres vir para a cama comigo hoje?" , quando desejava muito mais do que o desejo que tinha no momento, e que não era propriamente físico . Talvez por isso, o meu convite foi muito bem aceite.

 

Gosto da fórmula pela fórmula. Pelo modo de dizer sem dizer. Detesto a motivação. Simples, cínica, recta. Detesto. Mas gosto da fórmula porque pinta a acção com a mais fina  hipocrisia. Um certo tipo de hipocrisia é necessário. Aceito-o como um bem na vida das pessoas. Se as coisas podem  parecer bonitas porque motivo vamos, sem motivo, apresentá-las feias? Na maior parte dos casos, a elegância não é exactamente elegância em si. E a hipocrisia também não é a arma favorita da ilusão, se a mentira não é velada. As pessoas adultas têm obrigação de saber distinguir a mentira da verdade. Quem não souber, só pode receber (pelo menos a maior parte das coisas) na sua versão mais desagradável. O mundo está cheio de coisas feias. Podemos tratar da beleza das coisas sem medo de parecermos muito frívolos. É um bem que fazemos. De qualquer modo, nunca aceitaria um convite para jantar com direito a pequeno almoço.

 

Um dia combinei tomar um chá no Meridien com o marido de um amiga minha. Gostava muito daquele homem. Usava fórmulas diferentes. Nunca hipócrita. Como eu e a mulher dele costumávamos tomar chá às terças e quintas, ele achou que também tinha direito a tomar um chá de vez em quando. Mesmo que não fosse duas vezes por semana. Isto tem muita graça, e é, de certo modo, muito terno. Estou mesmo a falar de chá, pelo amor de Deus! Ele, por seu lado, já tinha deixado bem claro que queria ir para a cama comigo. Era claro para mim e para a mulher dele também. Tudo estava bem porque eu, igualmente, tinha deixado bem claro que nunca iria para a cama com ele. Mas gostava muito dele. E gosto.

 

Mandou o motorista buscar-me e levar-me ao Meridien . Não gostei muito desta parte. Mas ele era assim. Cheio de cuidados. Não fosse eu perder-me no caminho, talvez. No meio da chá disse-me que tinha reservado um quartinho para nós lá no hotel. Just in case. Desatei a rir. Perguntei porquê. "Porque sim, achei que podia vir para cama comigo hoje" . "Depois de tanto tempo a dizer-lhe que não, ainda acha que eu alguma vez lhe vou dizer que sim?". "Porque não?". "Se eu agora lhe fosse dizer que sim, você já nem seria capaz de fazer nada. Somos amigos". Eu ria-me. E ele, pensativo, ripostou: "Isso é verdade, mas fazia mesmo assim, só para lhe deixar a marca do zorro". " A marca do zorro???????".  Gosto de fórmulas felizes. Foi muito divertido. Tão divertido que, confesso, olhei bem para ele, e quase cedo. Pareceu-me tão infantil que, não fora o objecto da cedência, eu poderia fazer-lhe todas as vontades. Existe, pois, uma frontalidade desarmante, totalmente desprovida de qualquer género de hipocrisia, que me toca também.

 

La imbidia es la enfermidad nacional, pero nos une. Todos lo somos". Isto, talvez, é verso que falta no hino espanhol. Imbidia significa inveja, esclareço. Nas palavras dos espanhóis, a inveja é o maior principio moral (ou imoral) de união do seu povo. A declaração não é hipócrita. Não é elegante. Não é terna de infantilidade. É a exteriorização directa de uma verdade deprimente. Nada bonito. Porém, em certas circunstâncias , é assim que deve mesmo ser-se. Honesto. Gosto de fórmulas felizes.

 

publicado por Cat2007 às 12:47
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Dezembro 13 2007

 

 

Quando éramos pequenos, contavam-nos histórias de encantar. Príncipes e princesas, de excelente carácter, jovens e lindos ao irreal encontravam-se, e, depois de ultrapassarem enormes obstáculos colocados por indivíduos feios e maus (quase sempre mulheres), casavam e eram felizes para sempre. Para sempre significa até à morte. Não se dando o caso de morte prematura, a morte ocorre depois da velhice. Não sei porquê, mas, depois de ouvir o “e viveram felizes para sempre”, nunca dei por mim a imaginá-los velhinhos e juntos.
 
De acordo com os conceitos vigentes, a beleza está ligada à juventude; a juventude é pressuposto da saúde, energia e alegria. Existem imensas relações de amor. Todos os dias nascem umas e morrem outras. Os velhotes estão fora deste processo.
 
Quando acabamos um “caso” pensamos em outro que virá, e que, à semelhança do anterior, viveremos felizes para sempre. Enquanto o físico nos ajudar será assim. Há uma energia nas relações que as leva a existirem e a terminarem, enquanto o físico nos ajudar.
 
Todos temos a ilusão da eterna juventude. Mesmo os velhos. Mesmo os feios.
publicado por Cat2007 às 13:17
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Dezembro 02 2007

 

 

My personal and free online diary

 

Hoje é especialmente importante escrever aqui alguma coisa. Especialmente porque não tenho nada para dizer, e acho que devia. Devia porque isto aqui é mesmo meu. Sinto que me perco daquilo que sou. Devia escrever aqui hoje para não me distanciar ainda mais.

 

Esta tudo tão parado dentro de mim, que não vem uma ideia. Penso que devia organizar os pensamentos. Melhor, penso que devia organizar as emoções e expressá-las em pensamentos escritos. O pior é que este também não é o lugar ideal. Não posso pôr-me aqui a falar de mim. A desvelar-me. É, a qualquer nível, desaconselhável. Mas eu lá era capaz de escrever num diário! Num diário "à séria". Acho ridículo.

 

Acho ridículo espalhar privacidades muitíssimo privadas num diário. Porque é impossível fazer isso. Portanto, quem faz, não faz. É só produção/exibição do  ridículo. Por isso não se deve ler o diário de ninguém, e dá tanta vontade. Por isso ninguém deixa ler o seu diário, e quer tanto partilha-lho.

 

Não há outra forma de dizer a verdade sobre alguma coisa, senão evitando falar dela directamente enquanto se vai falando. Assim como quem vai, por exemplo, dizendo muitas coisas sobre a liberdade - descrevendo-a, valorizando-a, questionando-a...- apenas para não revelar que está preso. Porque quem está preso e não sabe, sente que está preso mas não o sabe dizer.

 

Fazer um diário, é como tentar o suícido para chamar a atenção dos outros. É tudo feito às escondidas. Sobretudo do próprio.

 

Tenho as emoções desorganizadas porque não sei o que sinto. Não. Sei o que sinto porque percebo os sintomas. Mas não sei os nomes dos meus sentimentos. Uma dor de cabeça é uma dor de cabeça. Todos sabemos o que é uma dor de cabeça mas nem sempre podemos saber a sua causa. Nem os próprios médicos não sabem exactamente o porquê dos ataques de enxaqueca, por exemplo. Sabem que com codeína a coisa se resolve. Também existem paliativos para as emoções do tipo náusea persistente. E, claro, como para as enxaquecas, não existe nenhum fármaco capaz de as erradicar .

 

Como é evidente, as emoções são fenómenos originários do cérebro. Saber isto devia tornar as coisas muito mais simples do que são na verdade. Era só pensar com método e jeito. Porém, a capacidade de pensar é um recurso extremamente limitado. A razão é que o pensamento não pode materialmente mudar um facto que já aconteceu. Sobretudo, se é um facto remoto. Acresce a isto a irracionabilidade do trauma, quando existe, e é chamado para o caso. Tornar o trauma irracional é uma habilidade do cérebro para aplacar a dor violenta. A memória engole a dor, apagando-a.

 

Todos nós somos aquilo que pensamos e pomos em prática. Não interessa o que, no plano das intenções, da essência ou da verdade nós, somos. Não interessa. Cada um actua de acordo com o que pensa. E, mesmo que pense de um modo diferente daquele com que actua, actuando, vai acabar por deixar de pensar como pensava. O pensamento altera-se de acordo com a prática. A nossa prática muda-nos. Porque o  pensamento se altera e nós somos o que pensamos.

 

Para muitas pessoas não há nada pior do que coexistir consigo próprio. Um adulto é composto de uma criança mais um adulto ambos dentro do mesmo corpo alterado. Uma criança com dor não é amada pelo seu adulto porque essa criança não se sentiu amada, pelo menos, pelos adultos que tinham que a amar. Muitas pessoas não suportam estar sozinhas porque a sua criança lhes é intolerável na dor que sente. O adulto que é assim, rejeita a sua criança aflita. E tem toda a razão, embora faça muito mal.

 

As pessoas cheias de razão (fundamentada nas emoções compreensíveis) podem fazer muito mal aos outros. Nesta medida, as pessoas muito boas podem ser muito más. Ser mau é fazer coisas que provocam dor aos outros. Os outros podem ser gente, animais, o planeta, Deus ou elas próprias. Há muitas crianças a chorar dentro dos adultos do mundo. Estas crianças não deviam ser inscritas nos mesmos colégios. Os presos não deviam estar na mesma prisão.

 

 

publicado por Cat2007 às 20:58
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