CAFÉ EXPRESSO

Março 27 2008

 

 

Exitem várias versões da estória. Mas o elemento comum a todas é o fim. No fim, Narciso morreu no limite de um longissimo exercíco de auto-contemplação extasiada. Abdicou do resto para além de si. Da vida. Morreu de lindo que se via. De lindo que se julgava. Não comeu. Não dormiu. Não fez mais nada para além do dia em que viu o seu próprio reflexo, e se encantou.

 

Todos percebemos que beleza que justifique isto não existe. Por um lado, não existe porque não existe. Porque a beleza é nada para além de um conceito altamente subjectivo. Quem acha, acha. Quem não acha não acha. Para o mesmo. Narciso só achava que era a mais bela das criaturas. Qualquer um de nós poderia sempre discordar sentidamente dele. Por outro lado, ainda que existisse o que não existe, subsiste o sentido que não faz a obsessão do indivíduo por si próprio (recuso-me a chamar a isto amor) ao ponto de lhe consumir a alma e a vida.

 

Simplificadamente, o narcisismo consiste na incapacidade de ver e sentir as realidades que transcendem a individualidade. O seu fundamento reside numa profunda falta de afecto. A necessidade obriga à concentração do ser sobre si mesmo. Porque está concentrado em si, o sujeito observa demasiadas vezes o seu reflexo. Ora, o reflexo é apenas uma imagem superficial do ser. É a ela que o narcisista está preso. Por isso, só desce nas profundezas da água quando deixa de ser e de sentir. Quando morre. Submerge. E vai ao fundo. Só quando morre, e já nada faz sentido. Até lá, até ao fim, sofre. Muitíssimo!

 

publicado por Cat2007 às 20:48
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Março 04 2008

 

Acontece-me o desânimo por não sentir paixão. Quando não sinto paixão. Tudo o que fazemos na vida, significativo, ou não, necessita de paixão. A falta de paixão é muto pior que a falta de sal. Embora não nos apeteça comer em ambos os casos. É verdade que, também em ambos os casos, nos habituamos a viver com a ausência. O que é triste.

 

A paixão é pior do que o sal porque é necessária em muitas mais coisas do que apenas nos alimentos ou no mar. Até para ir comprar sal ao supermercado temos de ter alguma. Não exactamente para a prática do acto em si. Mas para praticar todos os pequenos actos como este. Todos os dias fazemos coisas sem significado. A maior parte (a parte esmagadora) das coisas que fazemos todos os dias têm significado semelhante. Á compra de sal no supermercado. Fazer isto sem paixão é viver sem paixão nenhuma. O que, repito, é triste.

 

Uma componente essencial da paixão é o interesse. Ninguém tem interesse especial em comprar sal. Não de um modo directo. Outro aspecto fundamental da paixão é o contentamento. Ninguém fica especialmente contente quando compra sal. Não de um modo directo. Mais um  elemento estrutural da paixão é o prazer. Ninguém sente particular prazer em comprar sal. Não de um modo directo. Só por meios indirectos é possível viver sentidamente  a vida de todos os dias, portanto.

 

Os modos directos de injectar paixão no sangue condicionam, pois, o conteúdo dos actos diários sem significado, que são quase todos. Há pessoas, coisas, actos e factos. Esses meios directos.

 

É verdade que o interesse, o contentamento e o prazer sempre foram mais intensos com as pessoas. Para mim. Pessoas desconhecidas. Conhecidas em dado momento antes de ocorrer uma certa fusão. E comprar sal passou a ser interessante e alegre. Um enorme prazer. Mesmo não sendo necessário. Mais sal.

 

Mas não pode ser sempre assim. Excesso de sal. Pode ser no ponto. É, até, melhor. A partir de certa altura. Mais lúcido. Alucinação lúcida. Acho que é possível . A alucinação lúcida é um estado que se consegue depois da entrega. Pode ser à pessoa da fusão. Mas não tem de ser apenas neste caso.

 

A alucinação lúcida depende, sempre e em qualquer caso, da entrega. Entrega aos meios de injectar paixão no sangue. Não tem que ser só com aquela pessoa. Pode ser com os outros meios. Qualquer meio de realização de sonhos é um meio directo destes de que falo. Mesmo a tal pessoa. Há sonhos que se realizam pela entrega. Há sonhos que nascem da entrega. Há sonhos que morrem pela falta de entrega. O que interessa são os sonhos postos em prática. A entrega à tentativa. O medo pode impedir a entrega ou impulsioná-la. Pelo medo também se podem realizar sonhos. Não interessa exactamente que eles aconteçam. É bom. Deseja-se isso. Mas importa sentir-lhes o sabor pela prática. É realmente necessário praticar os sonhos. Fazer o que não se quer. Descobrir o que sonhamos. Ou encontrar caminhos. Agarrar o medo e usá-lo impunemente.  Os sonhos são as nossas principais fontes de vida. E existem para que se acredite neles.  A fé e a energia. É tudo o que temos. O resto é comprar sal para temperar a comida. Subsistência. O que é triste.

 

 

publicado por Cat2007 às 20:15
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