CAFÉ EXPRESSO

Novembro 30 2009

 

 

 

Hoje está um óptimo dia para pôr a roupa a lavar. Tenho roupa suja acumulada vai para mais do que imenso tempo. Se não tivesse um grande guarda-roupa, a esta hora já andava vestida com uma serapilheira e um edredão por cima. Pois tem sido a chuva.

 

Há quem prefira a chuva ao frio e há quem goste mais do sol gelado. Eu prefiro que não chova, quando tenho muita roupa suja para lavar. Por outro lado, gosto mais dos dias luminosos, como o de hoje, é verdade. Mas é igualmente verdade que hoje está um frio de rachar. Vou aquecer-me no exercício de lavar roupa suja. Aposto que o frio atenua. Nem vai ser preciso aquecedor.

 

Os gatos nunca vão à máquina, ao alguidar ou à banheira. Mesmo que vão, não é necessário. Só têm uma peça de roupa que lavam com a própria língua. Mesmo assim, não deixa de haver alguma semelhança entre os gatos e as pessoas. Falo do uso da língua, claro.

 

publicado por Cat2007 às 14:00
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Novembro 20 2009

 

 

 

 

HÁBITOS NOTURNOS

 

Quando era pequena, e até ao fim da adolescência, costumava ir para a cama uma hora antes do sono para pensar de luz apagada sobre os meus problemas. Era assim que os resolvia, e adormecia, por fim, perfeitamente esclarecida sobre tudo o que havia para fazer. Por este processo podia manter a calma e o controle sobre as coisas. Tudo estava muito bem organizado. Assim, eu era uma criatura muito independente.

 

TEMPESTADES

 

Gosto do barulho da chuva pesada que cai continuamente. E dos trovões. Há uma certa sensação de limpeza profunda que me envolve nestas situações. Há um certo alívio. Como se o lixo e outros detritos fossem inapelavelmente arrastados para longe, ocorrendo a possibilidade de começar tudo de novo.

 

ACÇÃO

 

Mesmo que não tenhamos culpa sobre os eventos negativos, isso é um dado pouco relevante porque temos sempre que ter a capacidade de combater os seus efeitos agindo. Talvez a objectividade seja o instrumento racional mais útil que se pode ter.  Agir libertando o fundamental do acessório e, dentro do fundamental, fazer as escolhas que se impõem.

 

ACIDENTE MORTAL

 

Foi com um certo prazer que reflecti sobre o meu acidente mortal. Para mim, apenas potencialmente mortal. Para outros, mortal de facto. Ontem revi o choque, o sangue, as seringas, os tubos e o tribunal. Tenho orgulho em mim porque fiz tudo muito bem. Desde o momento em que percebi que ia ser abalroada por um monstro branco desorientado, até ao dia da audiência, onde convenci o colectivo de juízes de que o homem era  inapelavelmente culpado. Pelo meio há um dreno espetado no meus pulmões que tenho alguma dificuldade em esquecer. Creio que foi o que mais me doeu.

 

O SURDO E A ESTATISTICA

 

Recordo Beethoven, o surdo, para sustentar o profundo desprezo por probabilidades. Probabilidades são representações sobre possibilidades. Logo, não acredito na estatística, mas nos comportamentos mais adequados. Beethoven escrevia música. Isto é o comportamento adequado para um surdo que, mais do que tudo, quer compor.

 

PONTO DE CHEGADA

 

O melhor movimento que podemos fazer é aquele que nos faz chegar mais perto de nós próprios.

 

AUTORIA

 

Todas estas frases são minhas. Boas ou más, são originais. Mercem que se lhes atribua algum valor por isso. Ainda que seja um valor residual. Ou seja, aquele que eu lhes confiro. Muito obrigada.

 

publicado por Cat2007 às 14:23
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Novembro 19 2009

 

 

 

 

 

Há sonhos que se realizam pela entrega. Há sonhos que nascem da entrega. Há sonhos que morrem pela falta de entrega. O que interessa são os sonhos postos em prática. A entrega à tentativa. O medo pode impedir a entrega ou impulsioná-la. Pelo medo também se podem realizar sonhos. Não interessa exactamente que eles aconteçam. É bom. Deseja-se isso. Mas importa sentir-lhes o sabor pela prática. É realmente necessário praticar os sonhos. Fazer o que não se quer. Descobrir o que sonhamos. Ou encontrar caminhos. Agarrar o medo e usá-lo impunemente.  Os sonhos são as nossas principais fontes de vida. E existem para que se acredite neles.  A fé e a energia. É tudo o que temos. O resto é comprar sal para temperar a comida. Subsistência. O que é triste.

 

publicado por Cat2007 às 13:14
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Novembro 11 2009

 

 

 

Atirar a toalha ao chão é qualquer coisa que muito raramente me ocorre. Carregamos a toalha ao ombro para ir limpando o suor que nos vai escorrendo do rosto e do corpo por força dos trabalhos que vamos tendo. Quanto mais força temos que empregar, mais suamos , por consequência, usamos a toalha. Normalmente, esqueço-me das toalha em casa. Não como alguém que se esquece do guarda-chuva em casa quando, mesmo antes de sair de casa, já verificou que está a chover, e que vai durar para o dia. Não. Comigo e com a toalha não é assim. Não é este o espírito que nos une. Ou melhor, desune.

 

Estou mal habituada. desde miúda que os trabalhos não são trabalhos. São meras tarefas que não dão trabalho por aí além. Desconcentro-me assim. Não ando sempre a trabalhar. Não preciso da toalha. Desconcentro-me assim sobre a possibilidade de poder ter que enfrentar uma carga de trabalhos. Quando tudo nos é muito fácil de realizar, parece-nos que tudo será sempre fácil. A falta de hábitos de esforço desprotege-nos.

 

Passei o secundário a ditar aos colegas de grupo os conteúdos dos trabalhos que eram para ser feitos pelo grupo. Os professores definiam os temas e mandavam reunir os grupos. Nunca me importei em escolher os parceiros. Mal soava a ordem para começar, eu simplificava tudo. Escreve, dizia eu para quem me parecia ter a letra mais bonita. Pois este era o meu grande handicap. Uma letra feia, torta e quase incompreensível. Certa vez, uma professora qualquer disse-me que deixava sempre o meu teste para avaliar no fim. Era uma trabalheira corrigir coisas escritas com aquela letra. Não me importava. Pagavam-lhe para isso. Eu cá queria era a nota. Que era sempre alta. Tirada sem suor meu. Nunca fiz um teste de toalha ao ombro. Mas voltando ao trabalho de grupo que estava a explicar, eu ditava. De onde? Da minha cabeça. E começava: Os Maias...ponto. Posteriormente ... virgula. Agora fazes parágrafo porque vamos mudar de assunto e passamos para os Gregos. Então escreve. Normalmente estava tudo pronto muito antes do fim. É que não havia a discussão nem a dúvida. Num grupo de cinco eu ditava, alguém escrevia e três sossegavam. Agora, ao lembrar isto, olho para trás e reflicto um pouco para dizer que não notava que nem todos os colegas de grupo gostavam muito disso. Talvez se sentissem imbecis. Reparo que não era justo. Mas era tão natural em mim. E eu sou tão prática! Peço agora desculpa com efeitos retroactivos.

 

Um dia faltei a uma aula de História. A professora desabafou para a turma. Estava aliviada de eu não lá estar. Assim podia dar a aula em paz. É que eu não a deixava concluir os raciocínios. Concluía sempre antes dela. Todos. O melhor disto foi a minha admiração. Nunca imaginei que a professora me achasse uma chata de galochas. Antes pelo contrário. Imaginava-me adorada. Foi qualquer coisa semelhante a um desgosto de amor de um narcisista. De facto. Gostava daquela professora sem toques de especialidade. Gostava dela como dos outros professores, com excepção de um ou dois de quem gostava a sério. Portanto, fiquei magoada por ela não me adorar. Trata-se aqui de uma questão de justiça elementar. Se uma aluna tem uma professora mediana em função da média ponderada de todos os parâmetros adequados utilizáveis para a classificar, é natural que goste medianamente dela. Por outro lado, se uma professora tem uma aluna com capacidades de aprendizagem e de expressão acima da média, tem que gostar dela acima dos outros alunos. Esqueci-me, claro está, que me tinha de ser aplicado o critério que mede o  o nível de individualismo e também daquele que serve para avaliar o não me lembro que há mais pessoas dentro desta sala para além de mim. Esqueci-me por alguns momentos, talvez. Mas percebi logo depois. Era por isto que a minha avaliação era abaixo da média para aquela mulher. Eu simplesmente esfrangalhava-lhe os nervos. Ela já tinha um certa idade. Não aguentava aquilo. E, note-se, quem tinha de lidar com a situação era ela não eu.

 

Já os meus colegas gostavam quase todos de mim. Os raros que não gostavam eram mulheres. Havia sempre uma ou duas histéricas que não me suportavam. O pior disto é que eu deixava sempre que a coisa me infectasse. E quando dava por mim, também já não as podia ver à frente. Embora fingisse sempre e em qualquer circunstância um desprezo superior.

 

No meio de tantos hábitos, habilidades e charme, criei o hábito do deixa andar que isto é tudo muito fácil. Hábito que vesti até hoje. Hoje, que sou adulta, noto que a grande diferença para os adolescentes é a obrigatoriedade de ter um sentido de responsabilidade. Responsabilidade que, note-se, quase é o antónimo de facilidade. Não lido bem com esta exigência. Eu sou do clube do fácil. O senso de responsabilidade condiciona a conduta porque imprime no espírito a ideia de consequência. Eu sou do fácil. No mundo fácil não há consequências. Porque tudo é muito bem feito. O mundo fácil é habitado por pessoas muito mais capazes do que as outras. Nunca sofrem consequências de nada. Porque, repito, fazem tudo bem. Sucede que as pessoas do fácil têm de interagir com as pessoas da responsabilidade, que vêm tudo com um ar muito mais difícil e são em número infinitamente superior. É aqui que os cenários montados pelos difíceis começam a meter medo aos fáceis. Os fáceis adquirem o senso da responsabilidade através do medo. Porque não sabiam lidar com a coisa. Aparece a toalha.

 

Eu já me ando a habituar à toalha. De repente, sem eu dar por isso, juntou-se uma montanha de coisas difíceis, que eram fáceis. Agora, os trabalhos fazem-me suar tanto, que a toalha está ensopada. Por causa do peso, ponderei muito seriamente deitar a toalha ao chão. Mas foi aí que algo aconteceu. Voltei à consciência de mim. Eu sou um ser do fácil. Não tenho nada mais a perder que importe muito. O senso de responsabilidade foi erradicado. Estou eu comigo fácil. Olho para as coisas que parecem monumentais para toda a gente. E eu não acho. É fácil. Está no papo.

 

publicado por Cat2007 às 15:53
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Novembro 08 2009

 

Quando iniciei o estágio de advocacia, alguém muito competente instruiu-me nos seguintes termos:

 

1 - Em tribunal não há justiça. Ganhas ou perdes, se tens, ou não, as melhores armas e as sabes usar. Para nós e para os nossos clientes, o que importa é ganhar. A verdade e a justiça não interessam. Se acontecerem é um acaso. E nesse caso, óptimo, desde que ganhemos, pois está claro.

 

2 - Nós não estamos aqui para nos envolvermos com as pessoas. É muto importante não desenvolver afectos pelos nosso clientes, caso contrário perdemos a objectividade e acabamos a prejudicar toda a gente.

 

3 - Todos os clientes chegam aqui cheios de coisas para dizer. Por um lado, estão com problemas, e querem desabafar,  por outro, acham que têm que enunciar detalhes que consideram muito importantes e, por fim, vêm ainda com algumas sugestões na manga para nos guiar no nosso trabalho. Bom, têm exactamente cinco minutos para dizerem isto tudo. Findos estes, colocamos o nosso relógio em cima da mesa, e esclarecemos quanto custa uma hora de consulta e em seguida lembramos que não estão no padre, no psicoterapeuta ou no astrólogo. Depois começamos nós a fazer as perguntas que interessam. Indicamos os factos que precisamos que existam, ainda que não existam exactamente, e pedimos provas para eles. Terminamos a conferência dizendo que, a partir daquele momento, devem esquecer o problema porque este  passou a ser nosso, e não deles.

 

Por mais anos que viva, não me esquecerei destas coisas. São verdades incontornáveis. Não é frieza nem mercenarismo. É, antes pelo contrário, lealdade profissional. Esclarecendo, um juiz não é um ser todo-o-poderoso que pode julgar como muito bem entende. Está amarrado à lei e às provas. Por muito que tenha feeling, jamais vai decidir com base neles. Portanto, ou há provas ou adeus. Não vale a pena ir chorar para tribunal. 

 

E tudo isto porque em breve poderei voltar a ser advogada...

 

Daqui para baixo fica um enorme espaço em branco que não se nota. Era para ter sido preenchido com as coisas mais que eu ia dizer. Mas não disse. 

 

publicado por Cat2007 às 14:34
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Novembro 06 2009

 

Mãos...

 

As pessoas não são perfeitas. Porém, há muitas coisas perfeitas no planeta, a começar pelo próprio planeta em si. As pessoas são perfeitamente capazes de fazer coisas perfeitas.

 

Não sou perfeccionista, mas acredito em contextos emocionais perfeitos. Os gestos certeiros, os olhares indicados, as palavras certas, as acções adequadas a cada vivência. No fundo acredito nas emoções verdadeiras. E só aceito estas. Mais nada.

 

Por insegurança, tornei-me naturalmente especialista em detectar falhas nos contextos. Sou, por consequência, especializada na implosão de situações estáveis que vacilam. Naquilo que me importa, só me importa o tudo ou o nada. Já ganhei muito, apesar de tudo o que se encontra perdido, e me dói. Apesar da dor, o meu balanço é positivo.

 

Reconheço que não é fácil para ninguém estar comigo. Não é justo que outros tenham que suportar as consequências das minhas escolhas. Mesmo que estas escolhas tenham a ver com o modo como eu escolhi viver a minha vida. Mesmo que não sejam verdadeiramente escolhas.

 

Momentos houve em que fingi que era uma lagartixa  e deixei que se imaginasse que era possível esmagar-me com a sola do sapato. Noutras ocasiões, fui um jacaré demasiado abstraído para as funções de um jacaré, e, por isso, não decepei ninguém quando podia. Em alguns momentos mordi por estar muito irritada, como as cobras saciadas. Isso foi porque pensaram que eu era uma lagartixa, e eu só estava a fingir. Não se pode, por azar, pisar uma cobra do deserto. De qualquer modo, apressei-me a ir buscar o antídoto. O meu objectivo não é fazer mal a ninguém. Deixem-me estar. E apenas não mintam, que eu sou muito insegura.

 

Deixa-me estar. Eu ainda estou apaixonada por ti. Deixa-me estar. Eu escolho assim. Gostar sinceramente não é uma decisão. Não faz mal. Ou já não pode fazer mais mal do que está feito. Tudo o resto se pode decidir. Eu sou assim. Decido. E aguento-te na minha vida diariamente. Sem te ver, vendo-te. Porque não te quero ver mais.

 

publicado por Cat2007 às 13:48
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Novembro 05 2009

 

O que se segue é a reprodução de uma coisa que aconteceu. É correspondência verdadeira sobre coisas da minha vida pessoal que sucederam entre mim e alguém. Ressalvadas a identidades das pessoas e alguns poucos factos que não podem, por razões óbvias, ser aqui mencionados, vou publicar a última troca de palavras escritas entre mim e alguém no ano de 2007. Ainda não sei exactamente porquê, mas  faz-me todo o sentido fazer isto hoje, aqui e agora.

 

O que me foi endereçado:

 

Debati-me durante todo este tempo para não te dirigir uma palavra mais que fosse, não por ti mas por mim, que entendo não ser merecedor de perder um instante mais que seja contigo. Mas preciso que  saibas que já sei quem és e o que és, e como tu própria tanto gostavas de dizer em relação a outros terceiros… muito pouco! Apunhalaste-me da forma mais vil que pode haver, viveste comigo todos estes anos depois de um trágico acidente (em que estavas comigo) e que como sabes mudou com muita gravidade e para todo o sempre a minha vida, para trazeres para a casa onde morávamos, a cama em que dormíamos, debaixo do   mesmo tecto que as crianças ... uma pessoa com quem me traíste, num momento em que eu só e num Pais estrangeiro, estava ... numa cama de hospital, na minha ... operação deste odioso acidente.
 
Olhando para trás as tuas atitudes são agora inteligíveis, porque estão finalmente na moldura de indignidade, imoralidade e vilania que lhes compete …  entendo agora:
 
-Porque não me telefonavas, quando estava ... naquele hospital em ...;
 
-Porque gritavas comigo quando te telefonava de ..., e te recriminava por não me te telefonares… Nada como tentar virar sobre os outros, ( ainda que inocentes ) a raiva que sentimos de nós não é?
 
-Porque escolheste para dizer que não estavas apaixonada por mim o telefone, no momento em que estou hospitalizado;
 
-Porque depois de estarmos separados, aceitas-te e fundamentas-te como de grande importância para ti as aulas do ..., quando com todo o cuidado por telefone te fiz sentir não ser próprio eu estar a suportar uma despesa que nas circunstâncias era um luxo inapropriado (mais propriamente a patrocinar uma traição); 
 
És um ser sem princípios nem escrúpulos alguns, és o protótipo da perfeita imoral  … tenho a certeza que te penalizaste pela tua vergonhosa atitude … mas isso é natural, a culpa é o grilhão da imoralidade. Por esta altura, já te deves ter culpabilizado horrores e no entretanto te terás por certo justificado e desculpabilizado, porque de outra forma … como viver ?
 
Não te desejo mal porque és digna de pena e um dia fizeste parte da minha vida .
 
Como sempre te disse o segredo está em nos mantermos fieis aos nossos princípios … entende esta mensagem como a minha última vontade (da mais elementar justiça)   em relação à tua pessoa, sem qualquer direito de resposta da tua parte.
 

A minha resposta:

 

Caro ...,
 
O direito de resposta é um direito meu, não teu. No caso, a única coisa que poderás fazer é não ler. Nada mais. Por mim, não me importo de escrever sem receptor. Porque escrever, para mim, é, quanto mais não seja, bom. No mais, importa-me o que eu penso, e não o que tu pensas.
 
Imaginei que te debatesses muito para não falar mais comigo. Conheço-te. Eu não o fiz em sentido contrário. Ou seja, não tive, nem tenho, vontade de falar contigo. Simplesmente, não me debato com nada.
 
Levar uma pessoa para a cama onde eu dormia contigo. Sim. Fiz isso. Fiz amor com ... lá. Mais de uma vez. Não queria que soubesses porque não te queria fazer doer. Não por mim. Nunca tive medo da verdade. Enfim, mas já discutimos muito este assunto. Tu sabes. E concordas... 
 
No entanto, devo-te uma explicação. A principal. Mesmo que não a leias, ela está aqui. Se não a conheceres, ela voará pelo ciberespaço. Assim seja. Ou seja como for melhor. Eu dormi com ... lá para me libertar de vez de ti. Não foi para te magoar. Não foi porque dava mais jeito. Não foi para me vingar de nada. Foi o modo que eu arranjei de te arrancar irreversivelmente de mim. Não havia outra forma de sair, e, acredita, eu bem gostava de ser mais forte (porém, não sou. Sou o que sou). Sair de uma relação sem amor. Sem ternura. Sem consideração. Sem carinho. Sem solidariedade real. De uma relação moribunda suportada a balões de soro, onde a solidão e o sofrimento eram essencialmente meus.
 
Tudo isto não era para ser partilhado contigo. Só eu devia saber. E partir. Porque só eu não podia continuar a aguentar um suplício que era dos dois, mas essencialmente promovido por ti, com a preciosa ajuda dos teus incontornáveis pais. Tu fizeste tudo Montaste um esquema de frieza, afastamento e dor continuadamente suave até que fura.
 
Tu entendes muito pouco. O teu mundo é o teu e o do teu ciclo fechadíssimo, comparável a uma matilha de lobos com dentes a abanar de fraqueza. Todos cheios de angústias imaginárias e vergonhas deslocadas. Aí ninguém se ri com verdade. Aí ninguém gosta de um terceiro. De nenhum. Aí todos têm medo de viver porque receiam neuroticamente ser usados. Aí ninguém dá nada que verdadeiramente seja importante. Isso é um pequeno mundo que vive para dentro de si mesmo. Na neura de se autoproteger.
 
És livre de me dirigir a palavra quando o queiras, assim o queiras. És livre porque, neste momento, eu já compreendo a nossa história. E perdoo o que não era capaz de perdoar. Mas não esqueço. Não é possível esquecer tantos erros cometidos. Especialmente se queremos olhar com limpeza par o futuro.
 
O teu email, reflecte exactamente o que se espera de ti. Aquilo que tu não és capaz de fazer. Soltar-te dessa tacanhez nas emoções. Olhar para além dos olhos cinzentos do teu pai, que já são só os teus. Tu arrependeste de dar uma boa gargalhada. E só queres volatilizar-te num paraíso tropical.
 
Entre mim e ti existiu uma paixão. Que morreu na hora devida. Quando morreu, ficou uma relação de proximidade física fugaz e amor nada. Não podia ser de outra maneira. Nós não somos do mesmo mundo. A nossa relação devia ter acabado há muito. O acidente (e outras fraquezas) juntou-nos por ... anos. Ironicamente, foi o acidente que nos fez ficar juntos e enganados. Há muito que eu sabia que não me amavas. Até mim, tu não estavas preparado para amar. Não foste capaz, nem por um momento, de fazer isso.

 

Há um espaço entre o dizer e o sentir. Tu dizes tudo. Tu queres tudo. E não sentes nada! Nos últimos anos, não te conseguia perdoar a falta de amor sentido, verdadeiro, daquele que se vê no brilho do olhar. Não te conseguia suportar as deslealdades, as agressividades e os enganos forjados que eram os teus (feitos por ti a ti para me enganar a mim). A falta de generosidade moral e emocional. É mais fácil marcar médicos e dar dinheiro. Só que para quem vê, não enganas. Tu não és uma pessoa a sério!
 
Sobre os teus filhos, lembro-te que eles vão ser sempre meus filhos. Não me esquecerei de como fui decisiva para eles cá estarem hoje. Do que lhes ensinei e do que ainda foi possível partilhar (apesar de ti). Não me esquecerei de nada que lhes diga respeito a eles, e que eu assisti. Para mim, serão, pela vida os filhos que eu perdi. Para eles, mesmo que não o saibam, eu serei a outra mãe que eles têm e de que precisavam tanto. Foram os nossos filhos que destruíram a mentira que era a nossa relação. Se não conseguires viver com isto, constrói, reinventa ou mantém-te na verdade que quiseres.
 
Quero-te muito bem. Ou seja, desejo-te tranquilidade e muitas coisas boas para a alma. Espero que saibas amar, respeitar e compreender a pessoa que se seguir. Ouve o Vinicius de Moraes e faz-te à vida sincera e vivida. Pára de lançar a critica permanente sobre os outros. Pára de fingir que fazes tudo bem. Toda a gente vê que não é assim.
 
Se um dia quiseres, apita. Estou cá para o que precisares, apesar de tudo. Apesar dos meus filhos.
 
Saudações cordiais.

publicado por Cat2007 às 13:32
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Novembro 04 2009

 

 

 

Eu dou a volta às pessoas com as palavras. O que eu digo é sempre verdade. Sim, que eu nunca minto. Mas digo as coisas de uma forma que altero tudo a meu favor. Isto foi dito por alguém que dizia que me amava. Apetece-me imediatamente dizer que, se fosse eu, não amaria uma pessoa assim como eu, malgrado o nível do desejo sexual que eventualmente sentisse por alguém que fosse assim parecido comigo.

 

Uma pessoa que diz uma coisa destas, se acredita no que diz, se não está apenas e exclusivamente a defender os seus interesses (e já agora, pergunta-se que interesses serão esses), e, portanto, de má fé, está, no mínimo, equivocada.

 

A vida não é um jogo. Nem um julgamento. Há muitas coisas em comum entre os jogos e os julgamentos, nomeadamente a importância do resultado final. Adiante-se, desde já, só para relembrar aos mais distraídos, que o resultado final na vida é a morte. Para todos, sem excepção. Quer num jogo, quer num julgamento pode haver muitas ou poucas coisas em jogo. Mas há sempre algo que está em jogo. Pode ser muito, pouco ou relativamente importante.  Nos jogos e nos julgamentos, usamos as melhores armas que temos. Ganha quem levar as melhores armas e as conseguir usar nos momentos apropriados. É muito importante ganhar os jogos e os julgamentos. A vida não é um jogo. Nem um julgamento. Repito. A vida não é uma disputa. Não temos qualquer interesse fundamental em jogo na vida que possamos perder ou ganhar. Nenhum de nós. Embora, diga-se, sempre haja quem pense o contrário.

 

Na vida, posso perder a vida, a saúde, o emprego, o dinheiro ou, mais importante que tudo isto, alguém que eu ame porque este alguém perdeu literalmente a vida ou porque se perdeu de mim (sim, talvez interesse menos perder a própria vida do que a vida de um ser amado). Nada disto está em jogo, como é bom de ver. Porque perder ou ganhar nestas matérias da vida não tem nada a ver com as vitórias e derrotas em campo, no tabuleiro ou no tribunal. Todas as espertezas, truques, argumentos ou jogadas que se façam não podem nada contra um certo tipo de imponderável que a vida tem, e o jogo e o julgamento não têm. Nem sequer a sorte ou o azar na vida tem a mesma natureza. Acresce que muitos dos resultados que obtemos na vida pela vida que fazemos e pelo que fazemos na vida não são imediatamente apreensíveis, nem compreensíveis, nem calculáveis.  

 

Não fumadores morrem de cancro no pulmão, enquanto fumadores inveterados vivem até aos 90. Desportistas cedem a ataques cardíacos, enquanto balofos sorriem com um hambúrguer entre os dentes. O executivo mais brilhante perde o emprego e vai à ruína por causa da conjuntura económica, enquanto o traficante de droga que mal sabe ler e escrever fica rico. Houve pelo menos uma mulher que esteve apaixonada por Hitler, enquanto que a maioria dos seres humanos não tem ninguém disposto a suicidar-se consigo ao mesmo tempo. São exemplos recolhidos à pressa. Talvez nem sejam os melhores.

 

Para o que importa, eu queria dizer que não vale a pena andar a jogar na vida. Porque, como disse, a vida não é um jogo com um princípio e um fim, e a vida continua. A vida acaba-se um dia. E tem um toque de definitividade este acabar, que arrepia. Nada se lhe compara. É muito importante tirar da vida a verdade que ela tem. Seja ela qual for. Porque é muito triste morrer, tendo aprendido muito pouco. É muito importante ver exactamente as pessoas como elas são. E dar a ver quem somos. É fundamental não morrer vazio porque não se viveu na vida nada que na vida valha a pena.

 

Portanto, e voltando ao principio da conversa, não se tenta dar a volta a ninguém. Isto se eu estou a entender bem o que isto quer dizer. Dar a volta. Dar a volta a uma pessoa é convencê-la de alguma coisa que não é verdade por forma a que tal pessoa faça ou diga alguma coisa que nos interessa ou convém. Eu digo que não nos convém meter alguém a fazer aquilo que não quer ou a imaginar  que sente o que não pode sentir. Quem imagina que pode fazer uma coisa destas imagina mal. Se alguém tentasse fazer-me isto, eu haveria de perceber. E detestaria. Porque, nos termos atrás expostos, a mentira séria é das coisas mais detestáveis  que pode haver. Não se pode amar quem manipule assim os outros. 

 

Quem me disse o que disse pode ficar muito contente com esta notícia: não me ama. É uma boa notícia porque é um bom principio para um começo de vida noutro lado. Longe de mim. Porque eu não consigo respirar o mesmo ar de quem não me  respeita.

 

E, evidentemente, de quem me conhece mesmo muito mal.

 

publicado por Cat2007 às 20:01
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Novembro 02 2009

 

 

 

Porque razão há-de uma pessoa ter pena de si própria? Porque o défice de confiança pode atingir tais níveis num ser, que o sentimento é de incapacidade total para tudo e qualquer coisa. No limite, incapacidade para se mexer.  Normalmente, temos pena de pessoas assim. Normalmente os sem-abrigo são assim. Se sentimos assim por nós, temos pena.  

 

Não vale a pena. Porque é mentira. A autopiedade é um erro e uma estupidez, se não dormimos todos os dias em cima de um bocado de papelão à porta dos prédios da cidade ou nos bancos dos jardins. Não se deve adormecer em cima de mentiras só para nos sentirmos mais confortáveis no seio de uma desgraça qualquer que nos aconteceu. Porque um pântano pode ser extremamente acolhedor.

 

A infelicidade profunda, tal como a felicidade esfusiante, é um estado passageiro. O resto da vida é feita de coisas tranquilas que nunca mais aprendemos a valorizar, com excepção dos sábios que o fazem. Acredito que os maus momentos têm a grande virtude de nos demonstrarem que os outros, que não são os maravilhantes, são excelentes, e nós nunca tínhamos reparado. Nós os que andámos em alturas de paz à procura da agitação. São as nossas aspirações. Lixam-nos. Fazem-nos sonhar, adormecer em pé e, com toda a naturalidade, cair. As quedas fazem-nos doer. 

 

Porém, as dores passam com o tempo. Com excepção daquelas que precedem a morte, tais como as dores de cancro. Também há dores, que dão na alma, que despoletam a loucura. Mas, neste caso, é como disse, despoletam, não provocam. Um louco já nasce louco, e só está espera do melhor momento para aparecer. A generalidade das dores passam repito, sejam físicas ou emocionais. Passam.

 

Quando se partem as costelas é terrível. A dor. Eu sei porque já parti quatro ao mesmo tempo. Quanto a mim, o pior de partir as costelas é que não há nada a fazer. É esperar que elas recolem. Enquanto isso, as dores são demais. Ao que acresce a incapacidade para fazer quase tudo. Especialmente, mudar de posição na cama. A boa noticia é que tudo isto passa. Com o tempo. Já tinha dito isto, não já? Pois, é que é muito importante. O que não se pode é aspirar a que passe rápido. Porque isso é sonhar. Ser irrealista, portanto. O melhor é inspirar calmamente e expirar também com calma. Nunca aspirar. A dor assim é menos acutilante. 

 

Portanto, uma pessoa com as costelas partidas não é um deficiente motor. Escusa, então, de acreditar que sim, e ficar cheia de pena de si própria. Aliás, pelo que me é dado conhecer, não creio que a maioria dos deficientes motores tenham pena de si próprios. Porque o ser humano é mesmo assim. Cheio de recursos e criatividade. O importante é, volto a dizer, não aspirar. Respirar e esperar é que é a solução.

publicado por Cat2007 às 20:43
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