CAFÉ EXPRESSO

Maio 31 2010

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Ando tão calada, que bati com o carro contra um pilar de uma garagem. Ninguém me obrigou. Não fui provocada. Adiantei o pensamento ao acto. Curvei antes de fazer marcha atrás. Tinha visualizado. Marcha atrás e curva. Prego a fundo. Contra o pilar. Estava com a ideia na curva. Fiquei triste e preocupada. Triste por ter feito tamanha maldade ao jipe. Preocupada porque isto não pode ser normal.

 

Pouco depois de ter completado 18 anos suspendi a faculdade, fui viajar sem os meus pais saberem, apaixonei-me perdidamente, dormi com meio mundo e ainda tive tempo para andar a cheirar cocaína durante seis meses seguidos.

 

Acabei de fazer uma exposição. Isto é incomum porque não sou, por exemplo, pintora. Tenho vontade de rir. Porque este tique de "agent provocateur" não me sai da pele. Tive um professor na Ordem dos Advogados que me deu 20 a Processo Civil. Falo nele porque me deu 20, mas também porque percebeu esta minha faceta. Apenas não é uma faceta. Parece exibicionismo. Não parece? Errado! É pesquisa. Um dia destes explico. Não. Explico agora. Ando a observar. Não há exposição. Que mal tem um a miuda de 18 anos deixar de estudar por um tempo, viajar, apaixonar-se, fazer amor com quem lhe apetece e cheirar coca? Nenhum, se não apanhou SIDA ou caiu irremediavelmente no vício. É o meu caso. Aliás, é o caso de uma série de miúdas de 18 anos, imagino. Se não é, temos pena. Valeu a pena, tenho que dizer. Falar destas coisas é falar da vida. O que é que tem? Vou ser processada? Não, talvez apontada na rua. Ou no trabalho. Ora, não me façam rir! As pessoas têm tanto medo do "out". Deve ser porque se fartam de ouvir dizer que o que é bom é estar "in". Eu digo: falta de pinta. Carro utilitário com ar condicionado e GPS. É o que é. Deram-me uma coisa dessas de substituição. Não aguento! Que latinha frágil!

 

Já tentaram apontar-me o dedo. Nunca resultou. Como é isto possível, se eu sou insegura? A insegurança manifesta-se por capítulos do ser. Não infecta tudo como um vírus. Vou contar o segredo. Só sou insegura nos meus segredos. Nunca naquilo que exponho. Não sou insegura quanto à escrita, por exemplo. De outro modo não teria esta porta de casa aberta. Gosto do que escrevo. Não quando estou a escrever. Nem sei se gosto, ou não, do que escrevo quando estou a escrever. Agora só estou a sentir. Prazer. Depois leio. E gosto. Gosto sempre. Quero lá saber se a minha vida dava um livro, e se esse livro pode ser escrito por mim. Não quero saber porque sei. Dava um livro e poderia ser escrito por mim. Que não se vendesse nada e eu não possa fazer vida de escritora,  é mesmo o que me importa a sério. Porque eu sou do fácil. Que vida fácil seria! Trabalhar por necessidade e por prazer. Duas razões. Também se faz amor por esta mesmas duas razões. Eu faço muito bem amor, sem ser modestamente. Há muita gente que pode confirmar isto. de facto. Com também há muita gente que gostaria de ser minha testemunha no caso. Mas não é. Temos pena. Houve muito. Amor. Usei muito os dedos. Para escolher. Escolho a dedo.

 

Gosto de me sentir "picada". Gosto que me irritem. Gosto de me irritar. Gosto de tomar medidas. Gosto de esmagar egos. Não suporto egos. Como não aguento língua de vaca estufada. Agonia-me este prato. E o nome. É de um mau gosto! E por falar em mau gosto, este texto está a ficar parecido com uma gravata aos quadrados sobre uma camisa de riscas. Não, não. Não é piroso ou saloio. Não. Estou a falar daqueles homens psicadélicos do princípio dos anos 70. Só para dizer que isto está um tanto psicadélico. Com intenção. Gravatas aos quadrados sobre camisas de riscas ferem tanto os olhos como as luzes psicadélicas dos "clubs". E é isto. Também não me estava a comparar ao Andy Warohl. Embora seja certo que ele também fazia exposições.

 

Bati com o carro sem ajuda de ninguém porque estou muito embrenhada à procura de certas coisas. Coisas que me envolvem muito. Eu! E que ninguém se atreva a chamar-me egoísta ou egocêntrica. Senão, recomendo a leitura do Espelho. Aqui mesmo abaixo do Rock in Rio.

publicado por Cat2007 às 21:36
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Maio 24 2010

 

Rock in Rio Lisboa entrada.JPG

 

 

 

Pois tinha duas ideias na cabeça. Escreveria sobre duas coisas completamente diferentes. Em     separado. E eis que percebi que não eram tão diferentes assim. Fiz uma associação. De ideias, claro. E ficou tudo muito claro. O Rock in Rio de sexta-feira 21 tem tudo a ver com a mola. Tinha uma mola na cabeça. Melhor, foi para a cabeça porque saltou-me dentro do espírito. Notei que senti isto no Rock in Rio. Portanto, está tudo relacionado.

 

O meu balanço é positivo. Nas duas matérias. Rock in Rio e Mola. Primeiro o Rock. Bom, o fado foi de longe o melhor do Rock. E ponto. Justificações precisam-se. Não duvido nada. Dou-as. A Mariza é inexplicavelmente poderosa. Nem levou o melhor repertório possível. Havia coisas que eu queria ver e ouvir. Enfim. Mas pouco importa. Há um poder. Não. Não vamos agora perder-nos aqui em grande divagações. Se é a voz. Se é a imagem. Se é a música. Se é a poesia. Que canta. É poder. Porque? Porque sim. O poder é. Não se explica. No máximo sente-se. Quem ainda não viu, não sente nada. A explicação fica então para ser dada pelos sentidos. Quando for o momento de ver. Eu já vi. Várias vezes. Pena que não foram várias seguidas. É a vida... Na linha explicativa que venho a seguir, não faço parágrafo. Porque é a mesma linha. A Sangalo. Pois a Sangalo é um poço de energia e tem uma grande voz. Pena que as músicas sejam insuportáveis. Mesmo assim... "Ivete cadê você? Eu vim aqui só prá te ver" (isto era uma gritaria que se ouvia por lá) e as brasileiras à minha frente, a dancar como ninguém sabe, compuseram tudo numa quase perfeição. Não pude sentar-me na relva. Essa é que é a verdade. E já só queria pelo menos uma musica gira. Para estar inteira naquilo. E lá veio a "Poeira". Nice! Cantei e tudo. Posteriormente ignorei o John M. Coisa para ouvir no carro numa viagem pela auto-estrada. Pode ser. Mas para ali, para mim, não. sentei-me no chão. Depois, deitei-me no chão. Poeira na roupa. Para não dizer pior. Fiquei assim. Esperava a Shakira. Que se fez esperar. Não sei se soube fazer-se esperar. Ou se foi sem querer. Mas foi desagradável. Isso foi. Quando apareceu... Bom, não sei se estava com uma gripe ou "cheirada". Não sei. Os olhos estavam vítreos. E as face rígidas. Pelo menos. E mais. Parecia que não estava lá. Cantou quase tudo o que eram "hits". Não funcionava! Ela não estava lá. Entre músicas (entre cada música) a luz do palco apagava-se totalmente. Que estranho! Que corte! Safou-se com a voz. Era uma voz potente de um fantasma. Mas potente, ainda assim. Pelo que o fantasma iludia. Quase quase a conseguia trazer à vida. Não quero ser injusta e dizer que ela demorou 10 minutos para regressar ao palco. Para o "encore", está claro. A verdade é que eu senti, pelo menos, 10 minutos. Balanço das actuações: positivo. But never an A.

 

Sobre a organização. Não se pode deixar milhares de pessoas a morrer de fome e de sede cerca de 6 horas seguidas! Quem entra para um concerto no "Palco Mundo", já não sai. Porque não pode. Pelo menos, não pode voltar ao lugar de origem. Ora, o lugar de origem é aquele que originariamente foi escolhido. Porque era onde se via bem. E até estava desafogado. Respirava-se. Via-se. Escolhi não sair do lugar de origem. Ia morrendo de tudo. Fome, sede, cansaço. Não percebo!

 

Na tenda VIP (que coisinha mais nojentinha esta designação). Come-se, bebe-se e sentamo-nos à vontade. Também tem écrans gigantes para ver os "shows" que se vão sucedendo. Mas se era para isso, ficava em casa, que tenho um LCD impecável e um frigorifico cheio de tudo o que me apetece. Como é que aquela gente constrói a tenda "bip" "bip" a milhas do palco principal? Só pode ser porque quem vai para ali não vai ao Rock in Rio. E a organização sabe. Aquilo é tudo pessoal com convite que faz o favor de ir lá. Vão um bocadinho agoniados, é certo. Mas como vai lá estar imensa gente conhecida, faz-se o sacrifício. Não acredito que alguém tenha pago €220 por um bilhete "bip" "bip". Mesmo que tenha acontecido, não acredito. Ou acredito tanto como os próprios. Porque é inacreditável!

 

Portanto saltou-me a mola. Não é da roupa. É uma daquelas molas de arame. Daquelas que se comprimem e descomprimem. Todos temos uma mola dentro de nós. O nosso espírito tem uma parte que se agarra ao corpo. Esta ligação faz-se através da mola. Se a mola está comprimida, o corpo como que sufoca o espírito. Se a mola está mais solta, o espírito enche-se de ar e dá boas ideias ao corpo. Para agir. O espírito alimenta-se daquilo que o corpo faz, vê e sente. E para que servem as relações amorosas, se comprimem a mola? De certo modo, somos um bocadinho parecidos com os automóveis. Não me parece que as molas da suspensão possam andar muito tempo comprimidas. Claro que não sei se a suspensão tem molas. Não importa. O importante é compreender a ideia. A mola tem de estar no ponto certo de compressão e/ou descompressão. Pensei. Se a minha mola estivesse agora comprimida, não podia estar aqui assim como estou. Podia estar. Mas não assim. Olhei para o céu limpo. Olhei para as milhares de pessoas. Olhei para o palco. Olhei para a música. Olhei para a minha companhia. Olhei para mim. A minha mola estava no ponto certo de descompressão. Sorri. Para a vida.

 

publicado por Cat2007 às 19:44
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Maio 21 2010

 

 

 

 

 

 

Estou aqui com os dedos apontados e com um mau pressentimento. Pressinto que vou escrever uma montanha de disparates.  A ideia central é o distanciamento do individuo em relação a si próprio. Talvez a desfocagem. Não. Uma e outra coisa não são nada a mesma coisa. São, aliás, opostos. O distanciamento faz ver melhor. A aproximação que nos deixa muito próximos pode distorcer a nossa visão. Meter a cara em cima do livro. Afastar a cara do livro. Não conseguir ler. Ler muito bem, ainda que seja de óculos. Tenho impressão que li muitos livros com  a cara lá colada.

 

Portanto, o que quero é falar de desfocagem, e não de distanciamento. Isso é que era bom. O distanciamento. O puro. Se existisse. Via-se tudo tão bem. No caso, não era o livro que eu queria ver. Estava a pensar num espelho. Uma pessoa coloca-se em frente a um espelho. Se não for um daqueles espelhos da feira popular, cuja finalidade ninguém entende porque não faz sentido, dois passos para trás em frente ao espelho é o ideal. Estou a pensar naqueles espelhos que apanham o corpo inteiro.  Dois passos para a frente. E estamos colados ao vidro. Dois passos para trás e vemos tudo muito bem. A universalidade do nosso ser físico. E ainda podemos captar o interior em alguns sinais. Talvez no olhar. Se não estivermos a mentir. A fazer pose. Dois passos para a frente. Nem os olhos se vêm de jeito. Creio. Vou ali experimentar. Já venho. Voltei. Vi uma espécie de sombra a cores. E pouco mais.

 

É muito complicado tudo isto. Disse que ia falar da desfocagem. Afinal, são sombras coloridas. Além de que, mesmo dois passos atrás em frente ao espelho podem não reflectir uma imagem real. Ocorreu-me isto agora. Basta estarmos a mentir. Calados. Em pose. Tudo em nós que é físico pode ser posado. Um caso de distanciamento em sentido impróprio. Impuro. É um facto que nos dificulta muito mais a vida do que se pensa. Aliás, pensa-se o contrário. Penso eu.  Mas a questão aqui é a mentira mais funda. As mentiras que contamos ao outro. Ao que não está em pose. A nós, portanto. As mentiras para o mundo são meras incorrecções neste plano em que me encontro a falar. É inacreditável como somos capazes de nos fazer poses. E nem é preciso estar a olhar para espelho nenhum. Há espiritos que estão permanentemente em pose. Querem auto-impressionar-se. Querem fingir que isso é possivel. São espiritos pesados. Tão pesados que causam dores no corpo. Nas articulações, Nos musculos. Na cabeça. Morfina. È preciso morfina. Para as dores. E vem o vicio. De estar em pose. Viver a posar. A pose adquire-se pela picada da agulha da seringa com "Botox" que faz pose à cara. Mas aqui não é a cara. Nem "Botox". Nem morfina. Embora a morfina pudesse ter muita utilidade. Para aliviar. A substância desconhece-se. Mas vicia. E pode levar à morte. Como a morfina, mas num processo mais complexo. Quanto mais complexos são os processos de dor, piores são. A morfina está, pois, na infância da arte do alívio. O "Botox", o "Botox" realmente nem é para aqui chamado. Só se for para aligeirar esta ruga que me esta a surgir na testa por causa de tudo isto que digo. Porém, dispenso. Gosto de rugas na testa. Masoquismo? Ora, talvez não.

 

Compreendo que não seja agradável ver coisas desagradáveis. Posar o agradável para esconder o desagradável. Compreendo este vício. Sou decadentemente compreensiva. Mas, ainda assim, não entendo porque dói olhar para coisas bonitas e de qualidade. Posar o desagradável, para não ver o agradável. Isto é, antes de mais nada, triste. Confuso também. Aparentemente incompreensível. Menti. Não compreendo o quê, se eu só compreendo?

 

Dois passos atrás em frente ao espelho. Ver. Não há pose. Ver o que há. Bonito. Forte. Feio. Frágil. Genial. Obtuso. Cobarde. Preguiçoso. Atraente. Fraco. Necessitado... Ver, e pronto!

 

Necessitado é a palavra que eu escolho. Não é necessidade. É necessitado. Um atributo do espírito, e não do corpo, neste caso. Havia outros. Mas escolhi este. E vou tornar um espírito necessitado num corpo necessitado. Digo que nenhum corpo assim tem olhos. Só nariz e boca. O fluxo é de fora para dentro. Tem de ser. O corpo sem olhos que não é cego não vê ninguém. Pode-se não ser cego sem ter olhos. Há uns animais assim. Não me lembro quais. Talvez os morcegos. Não estou bem certa. Mas o que importa aqui não é quem não se vê, se não for o próprio. O corpo sem olhos não se reconhece. E também não reconhece o seu próprio espírito. A forma da energia da alma que o molda por dentro. O espírito não tem sinais do corpo, igualmente, e por seu lado. O corpo não vê o espírito. Dentro destas circunstâncias, o corpo bonito e algumas extraordinárias qualidades do espírito não valem nada.  

 

Resumir tudo o que disse na palavra egoísmo é de uma estupidez revoltante. Falei do caso de alguém que tem de ser pai e mãe de si próprio. Amar incondicionalmente o seu ser para fazer nascer o ser com vida que preste dentro de si. Para no fim aparecer alguém. A visão pessoal correcta. A paz. A felicidade. Numa palavra que devia vir antes, a aceitação. O espírito e corpo que forem capazes de fazer isto juntos pertencem a uma alma incomum. Daquelas que o mundo precisa. Por isso, melhor do que muitas e muitas outras. Todos somos bons e maus. Mas uns melhores do que outros.

 

Disse uns melhores do que os outros. Mas note-se que isso nem sequer é importante. A competição. Com o elemento exterior. A universal definição de bem é incontestavelmente pessoal.

 

 

publicado por Cat2007 às 00:10
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Maio 20 2010

 

 

 

Portanto o Presidente da República não vetou. O diploma do casamento entre pessoas do mesmo sexo, quero dizer. Tinha apostado que sim. Portanto, perdi uma aposta. E, agora, só por isso, tenho que estar aqui a escrever sobre a coisa. E sobre a coisa não me apetecia nada escrever. Dizer que nao me apetecia, que é como quem diz, não me apetece, não basta, porém. Porque perdi a aposta. Então, pronto, num pequenino apontamento: se a crise financeira não fosse tão ameaçadora para a economia nacional, ele tinha vetado nos termos que eu referi. Entre a coerência de um puritano e o bom senso de um economista, Portugal ficou concentrado nas questões fundamentais. Ainda bem.

 

Ainda bem que a discussão sobre o casamento homossexual não vai ser alimentada. Como já disse noutra sede, o casamento só interessa verdadeiramente a quem se vai casar. Não importa debater publicamente aquilo que, por definição, é privado. Era importante ver reconhecido a certo grupo de cidadãos um direito que os restantes têm. Era, mesmo elementar. Por uma questão de justiça. Porque não existem cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. Deixemos, então, o ex-cidadãos de segunda em paz. A reflectir sobre as decisões que, a partir de agora já podem tomar. Casar ou não casar. Coisas da vida privada.

 

publicado por Cat2007 às 00:32
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Maio 16 2010

 

 

 

Todos nós vivenciámos experiências traumáticas na infância. É assim por definição. Mesmo os que de nós foram melhor protegidos e mais bem tratados. Sofrer pelo susto e pelo medo são elementos integrantes do conceito de vida infantil.

 

É fácil de compreender. Quem não tiver filhos pode sempre observar os filhos dos outros. Verificar a inocência e a dependência pela extrema fragilidade, que é absoluta. A calma, tranquilidade e a segurança das crianças, a sua lucidez particular, a sua felicidade, mesmo quando não têm muitas razões para a ter, existem naturalmente. Neste caso, é como se pudessem encontrar  a sua alegria em pedaços espalhada por labirintos. E encontram sempre. Um bocadinho aqui. Um bocadinho ali.

 
Mas os pais. As suas acções e reacções. Grande parte dos problemas infantis nascem, crescem e agudizam-se por culpa exclusiva dos pais. A agressão, o abandono, a displicência, a ignorância e, em suma, a incapacidade de saber amar. A incapacida de saber amar é muito importante aqui para o caso. Resulta inclusivamente, ou também, do excesso de amor (melhor, do excesso de zelo).
  
Ser mãe ou pai será a maior responsabilidade de um ser humano. E, eventualmente, ninguém pensa nisto com a devida seriedade. Ponho-me a pensar nas normas sobre o contrato de casamento. A união entre duas pessoas com vista a uma série de coisas, sendo a principal destas constituir família. Ou seja, e ainda que assim não seja, ter filhos. Procriar.
 
É muito católico isto. E se é católico é para ser bom, de acordo com as convicções católicas sobre o bem. É, de resto, igualmente, algo muito selvagem porque essencialmente instintivo. Podemos afirmar, até, que o espírito católico anda ligado à selvajaria, uma vez que a maior parte das suas regras têm raiz na organização dos indivíduos segundo o império das normas dos instintos primários. Desejo sexual, ordem natural e domínio.
  
Portanto, um casal sem filhos não o é verdadeiramente, segundo a bondade das convicções católicas. Por outro lado, é muito pouco católico não ter meios para alimentar, vestir e mandar as crianças para a escola. Embora subsista, sempre e em qualquer caso, a obrigação de procriar. Deus se encarregará de tudo aquilo que a incompetência ou a indignidade cristã dos pais não possa, mas deva. Digo que é muito pouco católico porque os católicos só toleram a pobreza nos monges.
 
Como em quase tudo, lucidez, generosidade, equilíbrio, e sorte são as palavras-chave.
  
Lucidez porque não basta a grande ajuda dada pelo instintivo amor mãe-filho/pai-filho. Na maior parte dos casos, é um amor sem reservas. Mas, também, na maior parte das situações, é um sentimento desordenado. O instinto de preservação da espécie que nos leva a desejar procriar. Se, por um lado, impulsiona o afecto visceral pela cria, por outro, tende a confundir a imaginação, provocando delírios de identidade espiritual com a pequena criatura. E culmina em projecções do ego dos pais sobre a identidade dos filhos. Dentro deste circunstancialismo, em princípio, o amor paternal desconhece o sentido da palavra liberdade. A lucidez está em admitir que ali está uma pessoa. Mesmo que seja uma pessoa muito pequenina, que não ande, não fale e não se saiba alimentar. Que não merece, por isso, muito respeito.
 
Mas pior do que isto, e trato agora da generosidade, é, ainda, o efeito tapa-buracos dos afectos. Buracos nos espíritos paternos e o amor pelos filhos a funcionar como uma espécie de massa de cimento milagrosa do espírito emocionalmente coxo dos pais. E aqui entra a generosidade que muitas pessoas não têm. Sobretudo as emocionalmente torcidas. Enfim, mas emocionalmente torcidos somos todos nós, porém, sem dúvida uns mais do que outros. Outros que vêm nos filhos o reflexo do seu ego ou/e os que os  confudem com estradas ou caminhos por onde pensam que corre o sentido da sua própria vida, que há muito não tem sentido próprio nenhum.
 
Em termos práticos, e quanto a este assunto, o equilíbrio é quase o mesmo que a generosidade. Aceitar o outro. Mesmo que o outro seja um filho. É tremendamente difícil por causa da identidade genética, do poder e do ego. É uma prova tremenda e um passo crucial no processo de crescimento de cada ser humano. Daí que a decisão de procriar tenha de ser uma decisão. Não uma obrigação. Não uma decorrência natural. Quem não pode, não tem. Até poder. Se puder. Equilíbrio.
 
 Há crianças que são agredidas. Há crianças que são violadas. Há crianças que são assassinadas. Há crianças que passam fome. Há crianças que estão sós. Há crianças que têm medo. Há crianças que choram. Há crianças felizes. Todas as crianças não percebem. Nada disto. Cada criança tem um mundo particular de alegrias, terrores, fome e sono onde o meio termo parece não existir. E as emoções alternam-se ciclicamente. Há crianças com sorte. Há crianças sem sorte nenhuma. Há crianças. Todas as crianças somos nós.
 
 
Nota: O texto acima foi escrito e publicado neste blogue há muito tempo. Republico-o agora porque hoje o conteúdo me faz todo o sentido.

  

publicado por Cat2007 às 02:16
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Maio 11 2010

 

  

 

 

"Something in the way she moves...". Isto é dos Beatles, mas eu pretendo ignorar o facto. As músicas dos Beatles que eu adoro, nunca gosto quando são eles a cantar. É assim. Para mim, claro. Para os demais, é como os demais quiserem.

 

Por outro lado, o Tony Bennett canta isto, o "Something", como ninguém canta para mim. Não meti a vírgula de propósito. Podia ter escrito: o Tony Bennett canta isto, o "Something", como ninguém canta, para mim. Mas, se tivesse feito assim, não significaria que ele canta para mim. E era isso que eu queria dizer.

 

E porque cantará ele para mim? Em primeiro lugar, porque eu sinto assim. Em princípio, podemos sentir as coisas mais diversas. Aliás, não podemos sentir. Por definição, os sentimentos não podem ser impostos. Embora sempre possam ser provocados. Mas isso é outra coisa. Assim, é melhor dizer: uma pessoa sente as coisas mais diversas. No caso, e sublinhando, sinto que o Tony Bennett canta o "Something" para mim. Além do mais, também considero isto perfeitamente natural porque, quando ouço música mesmo a sério, nunca está ninguém comigo. Portanto, toca o "Something", e só estou lá eu. Logo, só pode ser para mim. Isto tem lógica. Não tem? Claro que tem.

 

Tenho de dizer que não há nada pior do que ir passando na vida por várias vidas, e ir deixando um livro aqui, um disco ali... Não posso com isto! E acontece-me, mesmo assim. É péssimo!

 

Tenho a Shirley Bassey a cantar o "Something", mas não é a mesma coisa. A mulher não canta o "Something" para mim. Creio que já escrevi por aqui que a Bassey só canta superiormente duas musicas. Uma delas chama-se "The greatest performance of my life". E não por acaso, a outra não me ocorre agora. Mas  ninguém mais devia poder cantar "The greatest performance of my life". Isto, se o mundo fosse feito à minha medida.

 

Porém, o que importa é que o meu disco do Tony Bennett com o "Something" ficou em algum lado há muito tempo. De vez em quando, lembrava-me disto. Do "Something" só para mim. E doía-me. A perda. Eu sou assim com os livros e os discos, também com a cola zero e o chocolate preto, embora noutro registo, claro, e com a roupa, ainda noutro plano.

 

Pronto já tenho o Tony Bennett a cantar o "Something" para mim de novo. Entretanto, passei a musica para o Iphone! Agora ouço sempre que quiser. Sempre que estiver sozinha.

 

Gosto de estar sozinha. O que é muito diferente de estar só, como se sabe. Só, não. Não gosto de me sentir só. E só em raros momentos da vida tal me sucedeu. É verdade: não há muito muito tempo, cheguei a sentir-me realmente só. Agora não. Paro já aqui para detectar um disparate. O disparate do "não gosto de estar só". Mas alguém gosta? Bem. Vou fazer uma pausa..............Pausa terminada. Prosseguindo, importa não confundir a tristeza com solidão e a expectativa com abandono. Solidão e abandono poderão ser sinónimos, se quisermos. Tristeza e expectativa, também. Mas, definitivamente, a dor, na maior parte dos casos, não é um sintoma de solidão. E, muitas vezes, é um sinal inequívoco de crescimento. Se for possível contornar com êxito o "síndroma de Peter Pan", chega-se ao ponto em que se percebe que crescer é bom. Essencialmente porque dá muito jeito. No fundo aprende-se a pôr convenientemente em prática aquele verso do Jorge Aragão "Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima". E compreende-se muito melhor porque é que o Micheal Bublé anda a repetir o Sinatra quando canta o "That's Life". 

 

Neste momento estou a ouvir o "Brass in pocket" dos Pretenders. Gosto do refrão. Gosto realmente muito do refrão. Vejamos: "I´m gonna use my arms/ i'm gonna use my legs/ I'm gonna use my style/ I'm gonna use my fingers/ I'm gonna use my my my imagination/ Cause i'm gonna make you see/ There's no one here/ no one like me/I'm special/so special...". Não que eu própria me sinta especial no sentido mais imediato do termo. Antes, pelo contrário. Sei perfeitamente que não existem pessoas especiais, em termos objectivos. Somente dentro de perspectivas subjectivas. A musica é "up". Musica e letra. Pela energia da musica e letra. Pelo poder da voz daquela mulher também. Contudo, no sentido mais mediato e subjectivo do termo, ou seja nos termos da letra, i'm special. Disto não tenho dúvidas.

 

Agora vou falar no "Smile". Porque é o título muito propositado que eu escolhi. E deixei ali em cima no sítio próprio. Pois também recolhi o "Smile" para o Itelefone. Vou deixar aqui um bocadinho da letra. Só para que tudo, afinal de contas, faça sentido. Porém, antes, devo dizer que não sinto tanto que esta musica seja cantada para mim pelo Bennett. Há quem o faça muito melhor do que ele, designadamente o Sinatra. Portanto, o "Smile": "Simile though your heart is aching / Smile even though it's breaking ... Smile and maybe tomorrow / You'll see the sun come shining through for you...".

 

Devo referir que fiz esta descoberta fantástica. O Ipod do Iphone. Sempre lá esteve, como todos sabemos. Eu... bem, eu nunca tratei do caso devidamente. Queria, mas não tinha tempo, e tal. Eu nunca tenho tempo, e tal. Agora, com o bocadinho de tempo que não tinha, e tal. Fiz algumas coisas com interesse. Para mim, obviamente. Pois  ripei CD's meus e pesquisei música na internet. Encontrei! Verdadeiras surpresas. Não nos meus CD's, claro. A maior e melhor de todas, de todas as surpresas, tenho de dizer isto... foi a própria Lady Gaga. Exacto! Digo isto em choque ainda. Porém... a versão acústica do "Poker face" é something! Ela canta muito. Nada a fazer. Depois, há uma outra música... "Again, again", que começa assim: "You gotta gotta a lot of nerv coming here". Vale a pena ouvir. E não vale a pena dizer mais nada. 

 

Também enchi a aparelhagem do itelefone com a Nelly Furtado. Gosto dela. Muito. Sem surpresas. É linda de um bom gosto (divino?) raro. Tem um talento especialíssimo para compor. E uma voz ma-ra-vi-lho-sa! Haverá uma montanha de gente a discordar de mim. Certamente. E depois? Já passei essa fase. Agora estou mais numa de "Manos al aire".

 

Musica. Essencialmente, é do que tenho estado a falar. Ou talvez não. Talvez não. Por outro lado, sim. Há umas coisas que não se desenvolvem bem sem outras.

 

De qualquer forma, e para o que importa, eu e os auscultadores estamos inseparáveis. Mesmo durante as horas de trabalho. Diria mais, especialmente durante as horas de trabalho. E não é que o trabalho está a correr muito melhor? Outra descoberta!

 

No mais, estou de auscultadores neste momento também. É bom estar sozinha com esta companhia toda.

publicado por Cat2007 às 19:12
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