CAFÉ EXPRESSO

Junho 30 2010

 

 

De certo modo, "Azul" é como eu. Um argumento inacabado. Sei como acaba a história. Sei como começa. Sei o que acontece pelo meio. Mas falta organizar a densidade das personalidades dos personagens. São complexos. É uma coisa sobre mulheres. É por isso. Claro. Mães e filhas e amantes. Não é uma história de lésbicas, mas os romances ali vividos tinham de o ser. Porque constatei que há algo de incontornavelmente incestuoso na relação mãe/filha. E nada o faria supor. Com efeito, até hoje nunca observei grande proximidade entre as mulheres. Entre as que geram e as que são geradas. Pode ser um equívoco meu, mas parece-me que as mães estão sempre mais próximas física e emocionalmente dos filhos do sexo masculino. Existe um não sei o quê de falta de à vontade, um distanciamento, uma espécie de fronteira que separa as mães das filhas. Ao ponto de se pensar que os rapazes são os preferidos.

 

Resolvi confrontar a minha mãe com esta questão: "Mãe, é verdade que sempre gostou mais dos manos do que de mim?". Ela ficou estupefacta. "NÃO!". Acreditei imediatamente nela. Por isso ficou-me na mente a imagem daquela barreira sem nome e sem forma que sempre nos separou.

 

A sensação é que caminhámos sempre lado a lado cheias de cuidado para não tocar nesse muro imaginário. Um elemento que nunca esteve presente na relação com o meu pai. Não questionei os meus irmãos sobre isso, mas será que com o pai a coisa corria para eles do mesmo modo? Quando questionar, poderei escrever sobre os homens e da relação pai/filho. Agora escrevo sobre mulheres. Só porque sou mulher.

 

Nunca medi a separação de que falo pelo número de beijos, abraços ou quaisquer outras demonstrações de afecto. Igualmente a falta de orgulho em mim nunca foi queixa que tivesse contra a minha mãe. Não é por isso que há uma fronteira que não se pisa. Talvez a questão esteja um pouco no modelo. As mães serão, em princípio, o modelo que as filhas devem seguir. Existe a enorme responsabilidade de orientar. E bem. As mulheres que não têm este tipo de relação de sangue vão juntas à casa-de-banho. Parecem demasiado próximas para a verdade da proximidade que realmente não têm. Eventualmente, é difícil para uma mulher ser mãe de outra porque tendo que ser o seu modelo, também está convencida de que tem de rivalizar. Estar contra. Desfazer. A imagem do homem dentro de casa é crucial. Tudo isto tem a ver com os papeis sociais destinados aos homens e às mulheres. Naturalmente, as relações das mães com as filhas são confusas. Não duvido da profundidade do amor que lhes subaz. Mas é mesmo isto que confunde. Parece que as mulheres não foram feitas para se amarem profundamente.

 

No "Azul" faço experiências. Criei uma mãe demasiado madura, que não tem uma relação de origem biológica com a filha, e já não tem marido. Construi uma mãe biológica jovem, que fica viúva ao fim de dois anos de casamento. A primeira mãe é heterossexual. A segunda mãe é filha da primeira, e é homossexual não praticante por ser heterossexualista e, para além disso, homofóbica. A filha desta é a Maria, e é homossexual.

 

Sem homens, abri um espaço para romper a barreira invisível onde não se pode tocar. As fronteiras entre estas mães e filhas foram violadas. Resultaram daqui relações quase incestuosas, demasiado intensas e com contornos um tanto trágicos. Fica-se muito próximo do ridículo. É difícil para as mulheres viverem sem pontos de referência masculinos. Mesmo as lésbicas precisam de homens. Nem que seja para compreenderem melhor porque gostam de mulheres.

 

A vida emocional de todas as pessoas corre muito próximo do ridículo. Todas as relações de amor começam pelo incesto. Há que enfrentar estes factos. Porque são factos.

 

O "Azul" não está pronto. Meti coisas nas bocas das pessoas erradas. Acresce que, enquanto narrador, não assumi as minhas responsabilidades, deixando os personagens falar quando não deviam. É por isso que não está bom. Ainda. De qualquer modo, há excertos do "Azul" onde eu não vou tocar. Como este que publiquei aqui. Talvez possa fazer o mesmo com mais um ou dois.

 

Ah, Azul! Pois... são os olhos de Teresa, do céu e do mar. Também os de Joana. Na verdade, a Ana é Joana. Decidi mudar. Fiz mal. A Maria. Nunca foi Maria. É Clara. Vai ficar Clara mesmo. Este argumento foi escrito em 2004. Não tenho culpa de me ter cruzado com Joanas e Claras depois disso. Além de que ninguém me garante que esteja livre de alguma Maria ou de uma Ana. Nomes são nomes quando pertencem a pessoas da vida real. Mas na ficção já não pode ser assim. Os nomes que eu esolhi respondiam a uma necessidade de dizer mais qualquer coisa. Ajustam-se ao que eu quero fazer com os personagens. Não podem por isso ser mudados.

 

 

publicado por Cat2007 às 16:38
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Junho 25 2010

 

 

No momento, o carro rodava por entre os elementos, móveis e imóveis, da cidade. E era só. Lá dentro ouvia-se o silêncio. Somos dois gritos calados. A música soltava-se nítida do rádio. Elas, porém, não ouviam. Estavam surdas de silêncios. As mentes perdiam-se de encontro ao objectivo traçado. Iam para casa. Para a cama. Fazer amor. You took a mistery and make me want it. A música que não se ouvia, estava ali apenas para acompanhar os ritmos das emoções. As melodias vinham de qualquer lugar não definido. De uma emissora irreal. Por isso, a estranha selecção musical. 

   

 

 

Até almas mais aventureiras e corajosas sentem, pelo menos, um respeito reverencial em relação ao desconhecido. Como se sairia do confronto com ele? Era nisto que Maria pensava. A verdade é que lhe doía a alma de uma forma física. Como se tivesse dores musculares. O sofrimento que antes lhe fora imposto enfraquecera-a. Sentia-se como uma criança desprotegida. Muito pequenina. Estava anormalmente fragilizada. Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão/Dava pra ver o tempo ruir/Cadê você, que solidão/Esquecerá de mim e enfim/De tudo o que há na Terra não há nada em lugar nenhum/Que vá crescer sem você chegar/ Longe de ti tudo parou/Ninguém sabe o que eu sofri. A dor da separação precoce que não chegou a acontecer, ainda lhe tocava assim. Desta maneira.

 

 

 Ana não a via de fora para dentro. Mas ao contrário. No teu poema existe um verso em branco e sem medida/Um corpo que respira em céu aberto/Janela debruçada para a vida/No teu poema existe a dor calada lá no fundo/ O passo da coragem em casa escura/E aberta uma varanda para o mundo. Tinha mergulhado dentro do espírito de Maria. Buscava-a nas profundezas do ser. Navegava a sua alma. Para a ver melhor. Existe um rio, a sina de quem nasce fraco ou forte/O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste/Que vence ou adormece antes da morteEmergiu no fim da canção. Agora, que tinha a imagem completa, podia vê-la com toda a nitidez. Existe um rio/O canto em vozes juntas vozes certas/Canção de uma só letra/ E um só destino a embarcar/No cais da nova nau das descobertas/No teu poema existe a esperança acesa atrás do muro.O carro estava parado junto ao prédio. Fixaram-se. O mesmo amor expelia pelos olhos energias convergentes. Era exactamente o mesmo género de amor. Existe tudo o mais que ainda me escapa/E um verso em branco à espera do futuro.

 

 

 

 

 

Maria deixou-se conduzir à casa, ao quarto e à cama. Foi a música que a levou. Aquela música que continuava a tocar dentro delas. A melodia que substituía todas as palavras. Ana despiu-a, deixando-a totalmente nua, estendida sobre o edredão. Parecia-lhe que ela acabara de morrer. Recuou. Foi capaz de se afastar dela. Só para a ver. Maria deixou-se estar imóvel. Fechou os olhos para não incomodar Ana.

 

Ana estava de pé embriagada de espanto. Continuava vestida. Tudo em si parara. Tal qual como o resto do mundo. You’re just too good to be true/Can’t take my eyes of you/You’ll be like even to touch/I Wanna hold you so much. Despiu-se. Manteve-se, no entanto, onde estava. De pé. Do mesmo modo. Entretanto, Maria abriu os olhos no momento em que virou a cabeça para ela. O sorriso foi-lhe transportado no movimento do olhar. Dos pés à cabeça de Ana. O olhar. You looked inside my fantasies/and made each one come true/Something no one else had ever found a way to do. Estendeu-lhe a mão. Ana foi.

 

 

Tudo acontecia com a solenidade das grandes ocasiões. Dos grandes eventos. Involuntariamente. Olharam-se com a seriedade de quem preside a um ritual. Apenas as pontas dos dedos actuava sobre a pele. Durante algum tempo. O sangue a ferver pulsava nas bocas, no entanto. Por isso o beijo interminável colou os corpos nus que se confundiram.A musica aproximou-se devagar. Au premiere temp de la valse/Toute seul te sorrit dejá/Une Valse à trois temps/ Une valse à quatre temps. Subia de tom.Une valse à vingt temps/ Une valse à cent temps.Explodia! Une valse à mil temps/ une passion de vignt ans/parsque tu as ving t ans et j’ai vingt ans. Dans le premirére temp de la valse 

 

 

 

A paixão afrouxou um pouco. Para deixar respirar o amor através das bocas que buscavam ar uma na outra. If i could make a wish i think i’d pass/can’t think of anything i need/No cigarettes, no sleep, no light, no sound/Nothing to eat/No books to read/Making love with you left me peaceful, warm and tight/What else could I ask/there’s nothing to be desired/Sometimes all I need is the air that I breath and to love you.

 

 

 

 O que se tornava difícil de suportar era aquela alternância de emoções, que mudava todos os ritmos intempestivamente, confundindo tudo. Sem possibilidades de contrariar nada, elas abandonavam-se. Deixavam os corpos vibrar de acordo com os sons. Entregavam as almas indefesas aos caprichos da música. Ver te correr /ver te pedir me mas/y se volviera a nascer repetiria/y se volviera te pediria mas calor/Me quemas con la punta de tus dedos/Tus manos hacem chagas in mi piel/Me abraco con tu lengua qui es de fuego/Tu ja sabes que me tienes quando quieras/Ja sabes como soy/Y que calor/Me gusta tu infierno. Ana provava o corpo de Maria. Incendiava-a. Molhava-a com saliva. Acalmava-lhe a pele. Entrou dentro dela vezes sem conta. Saiu. Entrou pela virgindade dela. Furou. Maria sentiu a devida dor. Ana bebeu o sangue com devoção. Passou-lhe os dedos pela boca. Pintou-lhe os lábios de vermelho. Tu vieste em flor/ eu te desfolhei/tu te deste em amor.

 

 

 Ana: És minha?

Maria: Toda!

 

Nenhuma delas sentia obscenidade no que acontecia.

 

Ana: Boazuda!

Maria: És tu.

 

Nem uma ponta de vergonha.

 

Maria: Vem, faz tudo outra vez.

Ana: Atrevida!

 

O mundo tinha o tamanho daquelas quatro paredes. Era essa a dimensão do universo. Aquele quarto. Os únicos seres viventes eram elas. De modo que podiam dizer e fazer tudo o que queriam, sem limites.

 

Ana: Tens que pedir.

Maria: A sério?

Ana: Implorar, pode ser?

Maria: Fode-me e chupa-me outra vez, querida.

Ana: Tu não tens vergonha…

Maria: Desejo-te.

Ana: E eu a ti.

 

Rolou para cima do corpo dela. Mais uma vez. Maria fechou os olhos. Devora me otra vez/ven, devora me otra vez.

 

Mas depois, como uma inevitabilidade, o prazer do amor recuperou completamente o espírito de Maria. Cresceu.

 

Maria: Agora vais ficar ai. Bem quietinha.

 

A bela amazona sentia-se já plena de vigor. Cheia do seu espírito guerreiro. Preparava-se então para subir para a sua montada. Desejava cavalgar velozmente a sua égua. Queria-a sem freios. Deu-lhe de esporas. Ela empinou. Maria sentiu uma vertigem. Depois, fê-la desenfrear numa correria. Sentiu-a a querer afrouxar, de vez em quando. Não lho permitiria. Feria-a nos flancos. A égua relinchava de dor. E sangrava. O animal acabou por disparar incontrolado. Como Maria desejava. Manteve-se habilmente na sela até a égua estacar. Completamente extenuada. Desmontou.

 

Passou-lhe as mãos pelo corpo derretido em líquidos de várias qualidades. Lambeu-lhe as zonas doridas. Engoliu-lhe as lágrimas. Uma por uma. O sal fez-lhe sede. Foi beber à fonte de água corrente. Ao lugar que, no momento, era o centro do seu universo. O seu mundo provisório. Ana enfiou os dedos nos cabelos dela e respirou fundo. Nobody does it better.../Nobody does it half as good as you/Babe your the best!

 

 

Maria: Querida, querida.

Ana: Diz, minha querida.

Maria: Querida!

Ana: Minha querida.

 

Apertaram-se muito. Como de costume. When you wish upon a star/Makes no difference who you are/Anything your heart desired/Will come to you/If your heart is in a dream/No request is too extreme/When you wish upon a star/ As dreamers do.

 

 

 

 

Davam as mãos com os corpos adormecidos. Há um bocadinho que nada diziam. Cada uma tinha-se retirado para uma tomada de consciência individual. Estavam a regressar cheias dos momentos ainda há pouco vividos. Principiavam, agora, a querer saboreá-los. Depois de os terem consumido.

 

Foi então que Maria, num gesto amplo alterou o cenário. E deu novas falas ao texto. Ficou repentinamente muito séria.

 

Maria: Tu tiraste-me a virgindade.

 

Ana olhou-a ardentemente. Não sabia falar.

 

Maria: Percebeste que eu te dei tudo, para além disso?

 

Pegou na mão dela e exibiu-lhe os dedos com réstias de sangue. Mesmo em frente aos olhos. Ana tocou-lhe o canto da boca com eles.

 

Ana: Eu sou tua.

Maria: Sem dúvida.

 

Ana franziu um pouco a testa.

 

Ana: Doeu?

Maria: Nada. Só no peito.

publicado por Cat2007 às 19:56
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Junho 23 2010

 

 

Estou cheia de sono. Creio que isto, esta declaração, podia ser um texto por si só. Os caminhos que ela dá a qualquer imaginação são praticamente ilimitados.

 

Estou com tanto sono, que não sei como vou fazer no ginásio. É impressionante a descida de rendimento. Por causa do sono. Não vou conseguir trabalhar com as cargas e fazer as séries  habituais. Além de que, está decidido, meia hora de cárdio era mesmo o que me faltava. Creio que hoje nem vinte minutos.

 

Acordei com tanto sono que me vesti de uma forma estranha sem dar por isso. Quando olhei para o espelho, parecia uma hospedeira da TAP, embora sem lenço. Cai imediatamente em estado de ansiedade momentânea. A necessidade de mudar tudo misturou-se com os ponteiros do meu relógio do quarto. "No time"! Voltei a olhar para o espelho. Pensei: "Ridículo"!. Desatei a rir. Depois tive que sair a correr. Não uso relógio de pulso. Incomoda-me.

 

Só queria estar vestida de outra maneira. Ou despida. Despida, definitivamente. Poderia dar um tratamento ao sono. Dormir ou consumir adrenalina. E o sono, adeus. E, portanto ... ops! Despida, definitivamente pode não acabar com o sono. Antes, pode lançar-me numa letargia trágica. Bolas, esqueci-me do ginásio! Mas vou. Morrer para lá. Melhor, depois de sair de lá. É que amanhã e depois não posso, sendo que a esta semana ainda falta um treino. Tem de ser hoje. Assim, estou aqui a escrever. Não me posso desgastar em "dossiers". Gastar tudo o que me resta. Enfim, estou a ver se acordo enquanto o tempo passa. Vou sair mais cedo. Tenho sono.

 

Agora ando a ouvir a "Rádio Orbital". De um certo ponto de vista, creio que não se pode descer mais baixo. "Orbital Mix"... Inenarrável! Peço desculpa ao bom gosto. Só que esta leveza feliz não me larga. Apetece-me mexer o corpo. O que fazer? Ando a ouvir a "Radio Orbital" porque estou a projectar movimentos que háo-de ser feitos. Aproveito, e faço alguns já. Aqueles sons repetitivos que se ouvem por baixo de todas as músicas foram propositadamente inventados para dar tesão, não foram?

 

O que devo vestir amanhã? Estou a reflectir. Em coisas que poderiam interessar a um artigo da revista "Máxima", por exemplo. Ora, se eu nem leio a "Máxima", a "Mínima",  a "Marie Claire", a "Marie Noir", a "Activa", a "Preguiçosa"... para que estou eu a reflectir deste modo? Acho que é porque tenho que decidir mesmo o que vestir. À noite, de preferência. Não posso arriscar mais. Ainda vou parar ao aeroporto de Lisboa pronta para uma viagem de longo curso a voltar no mesmo dia. O que está absolutamente fora de questão. Especialmente amanhã. Deixar a coisa para de manhã não é viável. De manhã não posso confiar em mim. Não funciono. Aliás, nem sequer me apeteceria mexer o corpo, se fosse o caso. Portanto a "Radio Orbital" estaria liminarmente excluída. Hoje à noite vou decidir.

 

Pois. Que vazio! de conteúdo. É do sono.

 

publicado por Cat2007 às 16:19
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Junho 18 2010

 

Pois é. Pois sou. Um conjunto invulgar para bom. Pois sou. Estou a assumir. Nunca o tinha feito antes. Este momento é solene, pois. Único. Para mim. Este blog é meu. Posso falar exclusivamente de mim. Ninguém me pode apontar nada. Ando um bocado farta disso. Que me apontem. Eu sou um poço de defeitos. Uma cabra, mesmo. Pois. É disto que eu estou realmente farta.

 

Na verdade, nunca vi ninguéma desfeitear um desvalido. Nunca vi. Talvez na televisão ou na ficção. Mas aqui é mesmo porque a coisa é tão indigna, que merece figurar nas grelhas dos telejornais. Também no cinema, no teatro e na literatura, exactamente. Quem não se lembra dos "Miseráveis"? JV não podia ser mais pobre, mais infeliz, mais desgraçado. Ainda assim, foi perseguido, humilhado, maltratado. Bom, mas afinal, ele tinha qualquer coisa. Não era nada disso. Antes, viveu muito tempo em situação de desvantagem. Porque acresce que começou logo por partir de trás.

 

Esta questão de partir de trás é muito importante. Não há nada mais desprestigiante, para quem imagina que partiu a frente, ver-se ultrapassado em toda a linha por quem começou com uma volta de atraso. As pessoas são assim. Não vão aos treinos, e depois querem ganhar corridas pela mentira. Mesmo que esteja na corrida errada. Não importa. As pessoas andam sempre a competir. Deve ser por um lugar ao sol. Sei lá porque andam sempre as pessoas a competir. E o que será exactamente um lugar ao sol? Há uma música um tanto chata que tem este título.

 

Por vezes, é bom ter um lugar à chuva. Quando era miúda, gostava muito de apanhar chuva. Nunca usei o respectivo guarda. O guarda-chuva. Mas o chapéu guarda a chuva? E onde a mete? E depois ela vai para onde? Não. O chapéu não tem essa utilidade toda. Apenas protege da chuva. Mal, mas protege. Para que haveria eu de querer proteger-me da chuva? Para não molhar a roupa e o cabelo? Para não ficar com gripe? Isso é hoje, que tenho de ir trabalhar. Na altura, ficar molhada dos pés à cabeça era mesmo a minha praia. Continuo a não usar guarda-chuva, mas a vaidade e o comodismo levam-me a procurar protecção quando chove. Obrigaram-me a ser vaidosa e comodista. Outrora, logo que os pingos começavam a cair, toda a gente desatava a correr. Eu abrandava o passo. Disfarçadamente. Não fossem pensar que era estranha porque desejava ficar encharcada pelo céu.

 

Abrandei o passo disfarçadamente a tentar evitar que me achassem estranha. Na escola, no desporto, na aparência física, nas relações de amizade. Em casa não. Todos me conhecem. Sou indiferente. Fui bem educada nesse aspecto. Em casa, respeitam-me. Posso mostrar-me sem receios de ser ostracizada. Ninguém me  acha nada de especial. Ninguém quer ir para a cama comigo. Não tenho dons oratórios superiores aos do meu pai. Não escrevo melhor do que o meu irmão Carlos. Não tenho uma genialidade tão absurda como a do meu irmão António. Não tenho a coragem física do meu irmão Victor. Não sou inteligentemente reservada com o meu irmão Nini. Não sou o complexo de defeitos e qualidades, que a minha mãe é. Não sou tão positivamente especial como ela porque não tenho um sexto sentido tão apurado. São alguns exemplos de como todos somos freaks num certo sentido do termo. Sou melhor do que alguém daqui em algo na mesma medida em que não sou tão boa noutra coisa qualquer.

 

Eles também abrandaram o passo. Todos. Menos o meu pai. Não tem problemas em sobressair. Até parece que gosta. Não tem medo. Nunca o vi com medo de nada. Só de mim. De me perder. E da mãe. O meu pai não gosta de mulheres por princípio. É mesmo uma questão de princípio. Misoginia, portanto. Mas gosta de mim e da mãe. Não nos pode perder. Não somos mulheres. Somos espíritos. Há muito que me habituei a não ser mulher e a ter que lutar com ele para lhe provar o contrário. Estas são as lutas que verdadeiramente me interessam. Percebo que as pessoas que não são daqui não percebam nada de mim. Eu não me ocupo seriamente com coisas que transcendem esta companhia de circo. Sempre tive que me gerir aqui dentro. Há muito, desde sempre, que lido com este vocabulário, que tem tantas palavras tão especificas, sendo quase um dialecto.

 

Como se lida com a diferença em democracia? O meu pai tem uma opinião muito firme. Quando chegamos ao ponto em que as pessoas não percebem, tem de ser à chapada. Nada democrático, pois. Mas sempre é verdade que lhe assistia razão em muitas coisas. Mesmo que não estivesse a abordar as pessoas pelo lado certo. O meu pai continua a ter razão. Basicamente não tem culpa de ser mais inteligente. E percebe isto. Assume isto. É out. Depois, tem de andar à chapada. Porque nem toda a gente atinge o ponto que, na maioria das vezes, só ele é que está a ver. Já levei umas quantas. Porém, no meu caso, não era por não estar a ver o ponto. Era porque não queria ver o ponto. Não me dava jeito. Há formas diferentes de não querer ver. Eu via mesmo. Por isso levava mais forte. Está certo. De qualquer forma, acho muito mais detestáveis aquelas pessoas que não querem ver e conseguem mesmo arrajar mecanismos para se manterem cegas. Para mim, são mais essas que é só ao estalo. Esta porta aberta para a amoralidade perturba-me. Aqui o meu pai discorda. Considera que se trata de uma espécie de retardados mentais. Não se pode perder tempo com esta gente.

 

Pois eu acho que aqui ele é pouco esperto. São mesmo os amorais que nos podem fazer mal. Só se ele não tem medo que lhe façam mal. Não deve ter não. Pois é. É verdade. Não tem. Tem razão. Os amorais levam depois. Depois de praticarem as suas imoralidades pró-inconscientes. Assisti a algumas repostas destas. Mas não sei como ele não se desgasta. Não se desgaste e pronto. Até gosta. Pois é. Aqui eu fico estupefacta. Não gosto. Desgasto-me. Magoo-me. Fico mortificada. Desapontada. Dores no peito. É esta minha mania materna de achar que todas as pessoas têm algo de excepcionalmente bom. E esta luta de andar sempre à procura disso.

 

O meu pai distancia-se destes percursos. Não leva os outros demasiado a sério. Mas a mim leva. Especialmente a mim. Não tem outra filha. Ele é que diz. Sou filha dele. Tenho imenso orgulho nisso, malgrado o que já me fez sofrer. Não lhe esqueço o dia em que se esqueceu de me contar a história do Corvo e da Raposa pela milésima vez. Não lhe esqueço ter-me ido meter na minha cama, quando eu queria dormir no meio deles. Não lhe esqueço o super maxi do domingo no jardim do Parque Eduardo VII. Estas rotinas que ele rompeu. Não lhe esqueço. Se eu era inteligente para fazer contas de dividir com três números aos cinco anos, também podia muito bem entender as razões dele. Era só falar. Não me chamou de parte para ter esta conversa. Não lhe esqueço. É um estupor convencido. E  muito pior, um tipo cheio de si próprio, embora nada vaidoso.

 

A minha autoestima envia-me agora sinais. Estou a divergir. Eu vim aqui para ficar out de uma vez por todas. Chega de fingir que não sou boa. Sou óptima. Venho dizer isto. A minha autoestima está cansada de mim. Disse-me que lhe falta o ar há muito tempo. Para parar com isto ou morre de vez. Estou às ordens da minha autoestima sofrida. Olho para ela. Não lhe podia ter feito isto. Está cheia de nódoas negras e escoriações. Está de pé. Mas seu eu não faço nada agora, ainda morre como as árvores. De pé. Lá está um lugar comum.

 

Adoro lugares comuns. É fácil comunicar através de lugares comuns. Exemplos que todos entendem. Uma inqualificável qualquer veio aqui deixar uns comentários, que se não fossem palavras, até se poderiam momentaneamente confundir com balas. Uma escrita péssima cheia de lugares comuns da autoria de uma fufa. Estou a usar os termos dela. Não os meus. Não digo fufa. Fiquei magoada com a agressão. Veio de uma pessoa. O respeito que eu tenho pelas pessoas trai-me assim. Fico exposta a mágoas. Não é o conteúdo que me importa. É a atitude. A energia má. Fico magoada. Afinal, as pessoas não são maravilhosas. É por estas e outras que admiro a atitude distanciada do meu pai e a forma especial que a minha mãe tem de estar próxima sem lhe doer. Um não quer saber dos defeitos alheios, a outra absorve as agressões cheia de pena das pessoas. Sei bem que quem me agrediu é uma pessoa digna de pena. Até a conheço. Porém, ainda assim, fico deprimida. Creio que estou preocupada com ela. É o momento da minha autoestima gritar. Mais um soco no estômago. E eu propositadamente sem guarda. Não posso mais.

 

O que sou eu? Primeiro a imagem. Bonita? Sim. mas mais do que isso. Sou uma giraça. Trato de mim. Cuido do meu corpo no ginásio e e na esteticista. Ando num jipe. Visto-me bem. importa-me a minha aparência. Fútil? Não. Mas parece. A quem não está a ver o ponto. O ponto é mais além, porque além do mais ouço sentidamente uma música, leio os autores que importam, conheço bem os clássicos. Percebo de muitos assuntos. Domino os diálogos e os raciocínios como tenho vontade. Tenho medo de me empenhar a fundo para não ficar demasiado à frente, coisa que vai acabar a partir de agora.

 

Pois as pessoas apaixonam-se por mim? Não sei. Devo imaginar que é suposto isso acontecer? Não vejo porque razão. Devo pensar nos sentimentos dos outros. Penso sempre. Se eu não quero. Devo pedir desculpas por não querer? Não creio. Devo explicações? Duvido. É suposto ajudar as pessoas a esquecerem-me? Ora, se eu não fiz propositadamente nada para ser lembrada. É preciso entender que o meu modo de ser quem sou existe por si. Não tomo atitudes especiais com intenções de me alimentar.

 

Devo apagar o blog? Ou passarei a não divulgar o endereço? Eu gosto de escrever e gosto que me leiam. Estou a ser exibicionista? O Saramago morreu hoje. Não me comparo. Só queria chamar-lhe um estupor exibicionista porque ganhou um Nobel. É a minha homenagem fúnebre ao escritor. Os escritores deviam morrer todos para não perturbarem as almas sensíveis. Os poetas também. Para grande alívio de muitos desprotegidos o Vinicius está morto. Eu creio que se deve mesmo acabar com a arte. Com esse tipos. Os artistas. São insuportáveis. Claro. Não falo por mim. Nunca me apaixonei por ninguém que tivesse andado a ler. Fiz bem. A maior parte dos meus favoritos habita os cemitérios. Seria uma criatura negra. Eu. A Amália. Eu lá me apaixonaria pela Amália. E no entanto, ela não era normal no que exteriorizava. Era, no seu todo, muito melhor do que a maioria dos seres humanos. Fartou-se de sofrer. Ninguém lhe perdoou isto. Agora, que está morta, é um descanso. Pode ser adorada em paz. O descanso é dela.

 

A partir de hoje, vou escrever apenas textos jurídicos. Luís, o nosso projecto de escrever um  livro acabou. Vou cortar o cabelo. Andar com os pés de rastos. Comer cozido à portuguesa numa base regular. Largar o ginásio e passar a frequentar o Mc Donald's. Vou comprar roupa na Zara. Vou ter um  utilitário. Vou calar a boca quando falo, e não escrevo. Vou deixar de tocar nas pessoas. Vou despregar os meus olhos dos delas. Vou deixar de partilhar sobre o que sei. Vou. Tem de ser. Senão, apaixonam-se por mim, e a culpa é minha.

 

Vou? Isso é que era bom. Não vou, não. Antes pelo contrário. Vou chamar toda a gente à responsabilidade. Vou lembrar que ninguém é responsável por quem cativa. Um mito horroroso que se tornou numa máxima quase bíblica. O Principezinho. Valha-me Deus! A infantilidade sórdida disto. Vou dizer que tenho o direito de ser quem sou. Vou esclarecer que ninguém me pode obrigar a fazer nada que eu não quero. Não ajudo ninguém a esquecer-se de mim. Não está na  minha competência fazer isso. Não sou aqui nenhuma área de serviço. Lamento. Já amei. Já sofri. Já esqueci. Ninguém me ajudou em nada. Ninguém jamais esteve disposto a ajudar-me. Não sei se o que se vê em mim corresponde à verdade ou é também um pouco imaginado. Não sei. Sei que todos somos responsáveis pelas nossas avaliações, se não vivemos na Terra do Nunca.

 

As avaliações sobre a minha pessoa que valem são as minha próprias. Tenho a obrigação de, a partir de agora, fazer uma avaliação correcta do que sou. Tenho a obrigação de dar o meu melhor. Tenho a obrigação de assumir as minhas responsabilidades. Estas obrigações têm do lado contrário a minha autoestima. Não uma pessoa qualquer cujo único propósito é defender os seus próprios interesses. Pois não. Não quero ter nenhuma relação amorosa. Porquê? Porque só tenho vontade de fazer amor, como só eu sei. Com quem saiba fazer amor, como eu gosto. Há muitos anos que não encontro quem faça amor como eu gosto. E fiz tanto, nos últimos anos. Não. Não tenho culpa das dores de ninguém. Eu sou uma pessoa boa. Lamento informar.

 

Tudo está muito pouco literário. Pois. É natural. Estou aqui a tratar de outras coisas. De mim. Um actor quando chora a sério não representa bem o choro. Toda a gente sabe. Tenho impressão que não fui clara, ainda assim. Não. Não estou cheia de mim própria. Não. Eu sou uma mulher estupidamente inteligente.

 

publicado por Cat2007 às 13:37
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Junho 16 2010

 

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Eu gosto de andar na "Montanha Russa". Tanto, que costumo comprar logo duas voltas seguidas. É que aquilo só tem ali uma parte que arrepia. O resto é basicamente anti-climax. O estado de anti-climax nada tem a ver com o período pós-orgástico. Penso mesmo que são opostos. Em primeiro lugar, "pós" (de depois, não de pó, cocaína ou farinha Maizena)  não significa o mesmo que "anti" (de contra, não de Antilhas Holandesas). Só por aqui se vê logo que não é a mesma coisa. Que são realmente coisas que se contrariam.

 

O anti-climax é um evento que se realiza todos os anos... não é nada todos os anos. Estava a brincar. Antes fosse! Antes fosse! Então, como ia dizendo o anti-climax é um evento que se realiza todos os meses, todas as semanas, todos os dias, a toda a hora? Não. É um evento que se realiza, sem data marcada. Mas que se realiza, realiza.  A si próprio. O anti-climax é um evento que se realiza para se auto-realizar. Portanto, um facto que sente. Tal qual as pessoas. Nunca pude imaginar que os factos sentem. Mas isso era apenas porque não tinha reflectido sobre a questão. Os factos sentem. Sentem na medida em que se fazem sentir. E os factos que se fazem sentir em sentido radicalmente oposto ao que as pessoas queriam para determinada situação concreta são os factos que sentem. Assim, reformulando, só os factos autónomos é que sentem. Autónomos em relação à vontade. É ou não é verdade que o anti-climax é um facto que origina frustração? E quando é que a frustração se dá? Pois exactamente! Quando a expectativa é alta. Altas expectativas geram frustração porque se baseiam em concretas situações que produzem factos autónomos. Factos que contrariam as expectativas, pois. Nestes casos, é como se o sentimento não fosse nosso. A coisa sai de nós porque não a controlamos. Fica como que a pairar ali á nossa frente. A esfregar-se na nossa cara sem decoro. O anti-climax é um furto por esticão de um especial prazer projectado que parece que vai acontecer mas não ocorre. Ocorre precisamente o contrário. Mas parece que ocorre. Mas não corre. Não corre bem. O problema está que o facto anti-climax dá experiências a experimentar. Daí que a crença na apoteose é imensa, incontornável. Por isso a terrível sensação de "flop". Ninguém fuma relaxadamente um cigarro depois de experienciar um "flop". Quando muito, fuma logo uns três ou quatro seguidos, dado o estado de irritação. Isto também se aplica a quem não fuma. Embora eu não compreenda muito bem o que faz uma pessoa que não fuma numa situação destas. A que se agarra exactamente? Bom, os não fumadores lá sabem. Se querem continuar sem fumar, é problema deles.

 

O orgasmo. Pois acredito que a Philip Morris deve muito do seu crescimento aos orgasmos, malgrado os resultados do relatório Hite dos anos 70. Na verdade, sabendo-se que a esmagadora maioria das mulheres americanas da época não se vinham, também isto ajuda a explicar os bons resultados da empresa. Os homens fumavam um depois. As mulheres fumavam três. Também por aqui se pode ver que o climax e o anti-climax são uma espécie de signos opostos. Têm uma qualquer relação fundamental que os une, mas que eu não sei explicar, uma vez que não percebo nada de astrologia. Percebo é que a astrologia anda ligada ao sexo. As pessoas consultam os horóscopos por causa disso, não é verdade? Também por causa da saúde e do dinheiro. Mas é exactamente a mesma coisa. Tudo para acabar na  cama com alguém. Como é obvio, por trás desta trapalhada toda paira o afecto. O afecto: the real need. Não é nada difícil confundir um orgasmo com uma declaração de amor. Porque o estado pós-orgástico é mesmo o estado de graça por excelência. O cigarro é fumado com a tranquilidade própria do perfeito idiota. É um cigarro sentido. E o que farão os não fumadores? Tão sentido, o cigarro, que até costumamos acender o da pessoa ao  lado para lhe dar. Fumamos no plural e em conjunto. É comovente. Partilha-se. Nicotina essencialmente. Pensado no caso, vejo agora como me sentia vazia com pessoas que não fumavam. Só tive duas. E não sei se por acaso ou porque sim, em ambos os casos, havia pressa em sair da cama. Para fazer qualquer coisa. Pois. Não fumavam. Nunca lhes perguntei como resolviam o problema de não fumar. Não me ocorreu. Compreendo-me. Estava a fumar. A fazer uma declaração de amor ao fumo que me saia pela boca e subia até aos olhos. Observava o fumo enlevada. Claro que fazia sempre aquela observação. "Ouve lá, isso de saltar da cama é estranho". Mas nem  ouvia bem as respostas. Por isso não me lembro. Não sei o que farão os não fumadores depois de se virem. O meu estado de graça no período pós é tal que compreendo tudo aquilo que nem estou a ouvir.

 

Preciso de duas voltas na "Montanha Russa". Porque a primeira só me dá tesão. Logo, levo sempre dois bilhetes na mão para duas voltas seguidas. Mas até dava mais.

 

publicado por Cat2007 às 21:54
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Junho 08 2010

 

Há, de facto, coisas que não têm interesse nenhum para mim. Como os espelhos de distorção da Feira Popular. Como o Mc' Donald's. Como... ia dizer mais umas, mas tenho de desviar já porque me lembrei de uma coisa que tem imenso interesse para mim. A opinião da minha mãe. A minha mãe é subtil mas vigorosamente contra o Mc Donald's.

 

Quando é contra, a minha mãe faz humor desqualificante. Uma das sua formas favoritas de desqualificar é pelo nome das coisas, das pessoas, das organizações e dos factos. Troca o nome. E põe um ar distraído pelo caminho. Quando o meu cão já a estava a incomodar um bocado, chamava-lhe Guilherme. Enfim, não era para me irritar a mim. Menos mal.

 

Mc Donald's. Nunca foi capaz de dizer. Este nome. Esta marca. Nunca. Mc Land, quando está menos ácida. Donald, quando está mesmo irritada. A ligação com o pato é propositada e evidente. Surge quando alguém foi lá. Bom, eu nunca tive que aturar isto porque, de facto, estou de acordo com ela. Mac Land do Donald. É o que o Mc Donald's é. A casa de repasto dos patos que gostam de carne servida de um modo extraordinário.

 

Deve ser das pessoas mais inteligentes que conheço. La mamma. Sabe gerir a própria agressividade. Melhor, sabe agredir sem o risco de levar o troco. Brilhante! Mesmo quando exagera. Andou dez anos a abusar com a ex-mulher de um dos meus irmãos. Trocou Inês por Ivone. Que escândalo! Ninguém pode esquecer Inês. É um nome lindo. Faz parte da parte trágico-romântica da história de Portugal, segundo as lendas. E segundo "A Castro", que tivemos que ler no secundário. Disse la mamma. Disse muito bem. O que pensa ela? Também sei fazer o jogo. Ivone!!! Diariamente. Talvez eles se tenham separado também à conta disto. Ainda estou para saber. Sobre o peso da coisa.

 

Eu gostava da Inês. Ainda chamei la mamma à atenção. Assim mesmo: "mamma, já chega. É indecente!". Esteve-se nas tintas. Riu-se. Claro, conhecia o jogo. Olhava para mim com aqueles olhos espertíssimos a sorrir. E sorria como quem diz: "Fui eu quem te ensinou a fazer isso. Mete lá a viola no saco". E, de facto, a Ivone gostava de ir ao Donald de vez em quando. Nada a fazer. Porém, apenas de vez em quando. Ela não foi justa com a Inês. Embora, claro o problema da Inês para a mamma pouco ou nada tivesse a ver com o Mc Land.

 

A dificuldade de fazer coisas por aprendizagem, é que existirá sempre um elemento artificial que nos denuncia. La mamma nasceu assim. Eu, bem, eu creio que não. Apesar das possibilidades genéticas. Talvez tenha herdado este belo hábito. No entanto, não creio. Parece-me que aprendi com ela. É que faço muito bem. No entanto, por vezes, acontece-me levar o troco. E ela nunca. Não. decididamente, não nasci assim. Não sou, pois, brilhante a agredir. Só mesmo muito irritante e desagradável. O que se nota. E é mau.

 

Para além do Mc Donald's, la mamma não suporta gente gorda. O que, não por acaso, tem tudo a ver. Andava eu há pouco tempo, muito recentemente, a reflectir porque sinto o mesmo. Mas não me lembrava da mamma. Desta coisa que ela tem contra o excesso de peso, pois. Imaginei uma explicação plausível para o meu problema: o facto de ter ficado refém de um paquiderme no secundário. Tinha apenas 14 anos. Poucas possibilidades de escolha, portanto. Do meu ponto de vista, claro.

 

Era uma pequena atleta, eu. Fazia 40 horas de desporto por semana. A minha melhor amiga chamava-se Maria Carlos Nogueira. E era magra, comme "il faut". Como eu. Também era uma pequena atleta. Inseparáveis. Fazíamos parte de três equipas desportivas. Entravamos em torneios inter-escolas. Daqueles à séria para escolas.

 

Em geral, ganhávamos. De resto, a Klitas virou jogadora federada de basquete. Era um bocadinho mais alta do que eu. No basquete entrava mais nos pontos em lançamento na passada. Quando não era possível passava-me a bola para trás. E eu era "something" nos lançamentos de longa distância. Sempre que uma de nós marcava, ela vinha a correr e saltava-me para cima com os braços e as pernas. Um abraço tão absurdo que me atirava invariavelmente para o chão. Uma vergonha! Porém, com ela... ora, nada a fazer! Sei que me sentia humilhada com aquilo. Porquê, não me apetece dizer.

 

 No volei, as manifestações públicas de afecto eram diferentes. Os bloqueios e os remates à rede eram com ela. A posição 6 era minha. Sempre. No entanto, é verdade que, quando ia para a 1, o jogo até podia acabar ali. Já explico. Mas era melhor na 6. Recuperava bolas impossíveis. Como? Sei lá. Cinco, doze, vinte por jogo. As que fossem necessárias. Mesmo ali a bater no chão. Ou a quilómetros das linhas. Depois, as passadoras e as rematadoras, como a Klitas, que as metessem lá do outro lado. Em condições de se esmagarem no chão, de preferência. Nestes casos, não havia muito tempo para a dita me vir com os números dela. Era o segue jogo. Graças a Deus!

 

No entanto, quando era a minha vez de servir, começavam os risinhos. Das minhas colegas claro. Era a hora do descanso, em princípio. Não muito. Um bocadinho. Sou canhota. Tinha um serviço por cima muito forte em que, além do mais, a bola parecia que se transformava num melão quando chegava ao lado de lá. Nem sei como fazia aquilo. Técnica especial não era. Era só bater de esquerda. Pronto. Nem sempre era fácil fazer mais de três pontos nos serviço. O que já era bom. Dava para ganhar muitos jogos. 

 

Mas uma vez ganhei um set por 12-0 (na altura era só até aos 12). Porque comecei na 1. Isto não é normal. Mas aconteceu. Como nunca mais. Eu disse ganhei. Disse muito bem. Foi absurdo. Embora, há que dizê-lo, a outra equipa também não jogava lá aquelas coisas. Tudo se conjugou. Foi o que foi. A meio, a gargalhada era geral. Porque eu estava com a fé toda, e não falhava uma. As outras, que não eram boas, mas também não eram assim tão más, foram ficando gradualmente péssimas. A certa altura, a Klitas já estava sentada no chão. Assim, como se estivesse no banco de suplentes. Lugar onde nunca estava. Na verdade, não era preciso jogar. Ninguém precisava de jogar. A nossa equipa ou a outra. Nem eu. Eu só precisava de manter aquela fé toda. E assim foi.

 

Confesso que não era capaz de escolher onde queria meter a bola. Nem sempre lhe acertava da mesma maneira, aliás. Não era capaz. Simplesmente. Mas que parecia que sabia, parecia. Menos à Klitas, que me conhecia muito bem. Assim, as chapadas de felicitação que levava, sempre que acertava com o serviço nos seios ou na cara das meninas da equipa contrária, ou quando a bola entrava mesmo no último centímetro de um dos cantos que ficam no fim da quadra de lá, aterrorizavam-me. Chapadas dadas pela Klitas, claro. Muito feminina, mas uma bruta! Vinha sempre dizer: "Ouve lá, tu inventas, e sai tudo certo. Tens uma grande lata!". Eu fugia por onde podia com a bola na mão. Como não podia ir para muito longe, era apanhada. E gritava-lhe em pânico: "Larga-me. Deixa-me ir servir, caraças! Ainda não ganhámos o jogo. Tenho que me manter concentrada. Olha o árbitro! Olha a cena! Olha a Margarida Leite (a nossa treinadora). Socorro!".

 

No entanto, preferia aquilo aos beijos e abraços no meio do chão. Ela batia-me porque achava que os meus serviços tinham qualquer coisa a ver com estar a gozar com as pessoas. Talvez. Mas eu não fazia por mal. Saia-me. E se não fossem aquelas agressões afectivo-idiotas da Maria Carlos, o meu gozo seria absoluto.

 

Porém, a Klitas era cruel. Éramos da mesma turma também. Não me perdoou a gorda. A gorda que se veio "alapar" em mim. Fiquei esmagada. Eu era uma adolescente que prezava a sua reputação. Não queria andar com a gorda nos intervalos. Como é óbvio. Nem mesmo que se sentasse ao meu lado nas aulas. Evidentemente. Depois, tinha a Klitas. Que me ocupava por inteiro. Dei a entender isto. Mas a gorda era uma chata de galochas. Não tinha vergonha. Ignorou o meu mal-estar e caiu-me em cima. Decidira que eu haveria de ser a sua amiguinha inseparável. Ainda hoje estou para saber porquê. A Klitas lixou-me logo. "Andas com a gorda, não andas comigo!". E eu: "Epá... Ó klitas, não me faças isto, por favor!". E ela: "Larga a gorda!". E eu: "Ela é que não me larga!". E ela: "Deixa-a sozinha!". E eu: "Não tenho coragem.". E ela: "Então, só estamos juntas nos treinos e nos jogos". E eu: "Mas porque não podemos estar as três? Ajuda-me lá nisto.". E ela: "Deves pensar que eu estou para ficar sentada nos intervalos e nos "furos". E passar a vida a ir comprar bolos ao bar. Tem mas é juízo! Ainda por cima, é o pessoal todo a gozar. Tudo a chamar baleia. Olha, desenrasca-te".

 

E eu não me desenrasquei. Fiquei a amiguinha inseparável da gorda. Como a gorda queria. E portanto, enchi-me cá dum ressentimento... contra a Kelitas? Não. A Klitas estava certíssima. Contra a gorda!

 

Assim, pensei que a minha agonia relativamente à obesidade, que até hoje se mantém inalterável, vinha daqui. Desta tristíssima passagem da minha vida de adolescente. Só agora percebo que não. Agora que reflecti melhor.

 

É muito anterior. Muito anterior. Remonta à infância. Á mamma. Um dia a mãe estava muito irritada com uma senhora de grandes dimensões que a seguia um bocado por todo o lado. Eu reparava nisto. Que a senhora andava sempre a querer conviver com a mãe. Porém, imaginava que a mãe também querida conviver com ela. Até que apanhei um choque. Em conversa com uma amiga, basicamente a mamma disse que não tinha paciência para aturar "aquele bezerrão". "Bezerrão", pensei eu. O que será um "bezerrão"? Não vi imediatamente que era um bezerro enorme. Porque não me parecia razão suficiente. Ou seja, a mãe não  podia estar aborrecida com a senhora só por ela ser gordíssima. Portanto, não tinha ideia do que era aquilo. Só podia ser um grave defeito de carácter. Sou pouco esperta, portanto.

 

Calei-me. E fui investigar. Saber o que era um "Bezerrão". Não perguntei directamente a ninguém, para não revelar os segredos da mãe. Mantive-me por longo tempo numa investigação discreta. Uma investigação que durou pelo tempo em que o meu irmão António demorou a sair-se com esta: "olha-me para aquele bezerrão!" Olhei ansiosa para a televisão. Ao fim de várias semanas de espera ia finalmente saber o que era um "bezerrão". Mas ele já sabia? Como? Bom, não importa. Espetei os olhos. Afinal era um actor infinitamente gordo. Um "bezerrão". Pois. Claro. La mamma odiava gordas. Afinal, era um defeito da personalidade. Das gordas. As pessoas não tinham nada que comer sem destino. Era isto que a mãe pensava firmemente. A infância marca-nos. Se marca!

 

publicado por Cat2007 às 15:42
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