CAFÉ EXPRESSO

Junho 16 2010

 

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Eu gosto de andar na "Montanha Russa". Tanto, que costumo comprar logo duas voltas seguidas. É que aquilo só tem ali uma parte que arrepia. O resto é basicamente anti-climax. O estado de anti-climax nada tem a ver com o período pós-orgástico. Penso mesmo que são opostos. Em primeiro lugar, "pós" (de depois, não de pó, cocaína ou farinha Maizena)  não significa o mesmo que "anti" (de contra, não de Antilhas Holandesas). Só por aqui se vê logo que não é a mesma coisa. Que são realmente coisas que se contrariam.

 

O anti-climax é um evento que se realiza todos os anos... não é nada todos os anos. Estava a brincar. Antes fosse! Antes fosse! Então, como ia dizendo o anti-climax é um evento que se realiza todos os meses, todas as semanas, todos os dias, a toda a hora? Não. É um evento que se realiza, sem data marcada. Mas que se realiza, realiza.  A si próprio. O anti-climax é um evento que se realiza para se auto-realizar. Portanto, um facto que sente. Tal qual as pessoas. Nunca pude imaginar que os factos sentem. Mas isso era apenas porque não tinha reflectido sobre a questão. Os factos sentem. Sentem na medida em que se fazem sentir. E os factos que se fazem sentir em sentido radicalmente oposto ao que as pessoas queriam para determinada situação concreta são os factos que sentem. Assim, reformulando, só os factos autónomos é que sentem. Autónomos em relação à vontade. É ou não é verdade que o anti-climax é um facto que origina frustração? E quando é que a frustração se dá? Pois exactamente! Quando a expectativa é alta. Altas expectativas geram frustração porque se baseiam em concretas situações que produzem factos autónomos. Factos que contrariam as expectativas, pois. Nestes casos, é como se o sentimento não fosse nosso. A coisa sai de nós porque não a controlamos. Fica como que a pairar ali á nossa frente. A esfregar-se na nossa cara sem decoro. O anti-climax é um furto por esticão de um especial prazer projectado que parece que vai acontecer mas não ocorre. Ocorre precisamente o contrário. Mas parece que ocorre. Mas não corre. Não corre bem. O problema está que o facto anti-climax dá experiências a experimentar. Daí que a crença na apoteose é imensa, incontornável. Por isso a terrível sensação de "flop". Ninguém fuma relaxadamente um cigarro depois de experienciar um "flop". Quando muito, fuma logo uns três ou quatro seguidos, dado o estado de irritação. Isto também se aplica a quem não fuma. Embora eu não compreenda muito bem o que faz uma pessoa que não fuma numa situação destas. A que se agarra exactamente? Bom, os não fumadores lá sabem. Se querem continuar sem fumar, é problema deles.

 

O orgasmo. Pois acredito que a Philip Morris deve muito do seu crescimento aos orgasmos, malgrado os resultados do relatório Hite dos anos 70. Na verdade, sabendo-se que a esmagadora maioria das mulheres americanas da época não se vinham, também isto ajuda a explicar os bons resultados da empresa. Os homens fumavam um depois. As mulheres fumavam três. Também por aqui se pode ver que o climax e o anti-climax são uma espécie de signos opostos. Têm uma qualquer relação fundamental que os une, mas que eu não sei explicar, uma vez que não percebo nada de astrologia. Percebo é que a astrologia anda ligada ao sexo. As pessoas consultam os horóscopos por causa disso, não é verdade? Também por causa da saúde e do dinheiro. Mas é exactamente a mesma coisa. Tudo para acabar na  cama com alguém. Como é obvio, por trás desta trapalhada toda paira o afecto. O afecto: the real need. Não é nada difícil confundir um orgasmo com uma declaração de amor. Porque o estado pós-orgástico é mesmo o estado de graça por excelência. O cigarro é fumado com a tranquilidade própria do perfeito idiota. É um cigarro sentido. E o que farão os não fumadores? Tão sentido, o cigarro, que até costumamos acender o da pessoa ao  lado para lhe dar. Fumamos no plural e em conjunto. É comovente. Partilha-se. Nicotina essencialmente. Pensado no caso, vejo agora como me sentia vazia com pessoas que não fumavam. Só tive duas. E não sei se por acaso ou porque sim, em ambos os casos, havia pressa em sair da cama. Para fazer qualquer coisa. Pois. Não fumavam. Nunca lhes perguntei como resolviam o problema de não fumar. Não me ocorreu. Compreendo-me. Estava a fumar. A fazer uma declaração de amor ao fumo que me saia pela boca e subia até aos olhos. Observava o fumo enlevada. Claro que fazia sempre aquela observação. "Ouve lá, isso de saltar da cama é estranho". Mas nem  ouvia bem as respostas. Por isso não me lembro. Não sei o que farão os não fumadores depois de se virem. O meu estado de graça no período pós é tal que compreendo tudo aquilo que nem estou a ouvir.

 

Preciso de duas voltas na "Montanha Russa". Porque a primeira só me dá tesão. Logo, levo sempre dois bilhetes na mão para duas voltas seguidas. Mas até dava mais.

 

publicado por Cat2007 às 21:54
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