CAFÉ EXPRESSO

Junho 18 2010

 

Pois é. Pois sou. Um conjunto invulgar para bom. Pois sou. Estou a assumir. Nunca o tinha feito antes. Este momento é solene, pois. Único. Para mim. Este blog é meu. Posso falar exclusivamente de mim. Ninguém me pode apontar nada. Ando um bocado farta disso. Que me apontem. Eu sou um poço de defeitos. Uma cabra, mesmo. Pois. É disto que eu estou realmente farta.

 

Na verdade, nunca vi ninguéma desfeitear um desvalido. Nunca vi. Talvez na televisão ou na ficção. Mas aqui é mesmo porque a coisa é tão indigna, que merece figurar nas grelhas dos telejornais. Também no cinema, no teatro e na literatura, exactamente. Quem não se lembra dos "Miseráveis"? JV não podia ser mais pobre, mais infeliz, mais desgraçado. Ainda assim, foi perseguido, humilhado, maltratado. Bom, mas afinal, ele tinha qualquer coisa. Não era nada disso. Antes, viveu muito tempo em situação de desvantagem. Porque acresce que começou logo por partir de trás.

 

Esta questão de partir de trás é muito importante. Não há nada mais desprestigiante, para quem imagina que partiu a frente, ver-se ultrapassado em toda a linha por quem começou com uma volta de atraso. As pessoas são assim. Não vão aos treinos, e depois querem ganhar corridas pela mentira. Mesmo que esteja na corrida errada. Não importa. As pessoas andam sempre a competir. Deve ser por um lugar ao sol. Sei lá porque andam sempre as pessoas a competir. E o que será exactamente um lugar ao sol? Há uma música um tanto chata que tem este título.

 

Por vezes, é bom ter um lugar à chuva. Quando era miúda, gostava muito de apanhar chuva. Nunca usei o respectivo guarda. O guarda-chuva. Mas o chapéu guarda a chuva? E onde a mete? E depois ela vai para onde? Não. O chapéu não tem essa utilidade toda. Apenas protege da chuva. Mal, mas protege. Para que haveria eu de querer proteger-me da chuva? Para não molhar a roupa e o cabelo? Para não ficar com gripe? Isso é hoje, que tenho de ir trabalhar. Na altura, ficar molhada dos pés à cabeça era mesmo a minha praia. Continuo a não usar guarda-chuva, mas a vaidade e o comodismo levam-me a procurar protecção quando chove. Obrigaram-me a ser vaidosa e comodista. Outrora, logo que os pingos começavam a cair, toda a gente desatava a correr. Eu abrandava o passo. Disfarçadamente. Não fossem pensar que era estranha porque desejava ficar encharcada pelo céu.

 

Abrandei o passo disfarçadamente a tentar evitar que me achassem estranha. Na escola, no desporto, na aparência física, nas relações de amizade. Em casa não. Todos me conhecem. Sou indiferente. Fui bem educada nesse aspecto. Em casa, respeitam-me. Posso mostrar-me sem receios de ser ostracizada. Ninguém me  acha nada de especial. Ninguém quer ir para a cama comigo. Não tenho dons oratórios superiores aos do meu pai. Não escrevo melhor do que o meu irmão Carlos. Não tenho uma genialidade tão absurda como a do meu irmão António. Não tenho a coragem física do meu irmão Victor. Não sou inteligentemente reservada com o meu irmão Nini. Não sou o complexo de defeitos e qualidades, que a minha mãe é. Não sou tão positivamente especial como ela porque não tenho um sexto sentido tão apurado. São alguns exemplos de como todos somos freaks num certo sentido do termo. Sou melhor do que alguém daqui em algo na mesma medida em que não sou tão boa noutra coisa qualquer.

 

Eles também abrandaram o passo. Todos. Menos o meu pai. Não tem problemas em sobressair. Até parece que gosta. Não tem medo. Nunca o vi com medo de nada. Só de mim. De me perder. E da mãe. O meu pai não gosta de mulheres por princípio. É mesmo uma questão de princípio. Misoginia, portanto. Mas gosta de mim e da mãe. Não nos pode perder. Não somos mulheres. Somos espíritos. Há muito que me habituei a não ser mulher e a ter que lutar com ele para lhe provar o contrário. Estas são as lutas que verdadeiramente me interessam. Percebo que as pessoas que não são daqui não percebam nada de mim. Eu não me ocupo seriamente com coisas que transcendem esta companhia de circo. Sempre tive que me gerir aqui dentro. Há muito, desde sempre, que lido com este vocabulário, que tem tantas palavras tão especificas, sendo quase um dialecto.

 

Como se lida com a diferença em democracia? O meu pai tem uma opinião muito firme. Quando chegamos ao ponto em que as pessoas não percebem, tem de ser à chapada. Nada democrático, pois. Mas sempre é verdade que lhe assistia razão em muitas coisas. Mesmo que não estivesse a abordar as pessoas pelo lado certo. O meu pai continua a ter razão. Basicamente não tem culpa de ser mais inteligente. E percebe isto. Assume isto. É out. Depois, tem de andar à chapada. Porque nem toda a gente atinge o ponto que, na maioria das vezes, só ele é que está a ver. Já levei umas quantas. Porém, no meu caso, não era por não estar a ver o ponto. Era porque não queria ver o ponto. Não me dava jeito. Há formas diferentes de não querer ver. Eu via mesmo. Por isso levava mais forte. Está certo. De qualquer forma, acho muito mais detestáveis aquelas pessoas que não querem ver e conseguem mesmo arrajar mecanismos para se manterem cegas. Para mim, são mais essas que é só ao estalo. Esta porta aberta para a amoralidade perturba-me. Aqui o meu pai discorda. Considera que se trata de uma espécie de retardados mentais. Não se pode perder tempo com esta gente.

 

Pois eu acho que aqui ele é pouco esperto. São mesmo os amorais que nos podem fazer mal. Só se ele não tem medo que lhe façam mal. Não deve ter não. Pois é. É verdade. Não tem. Tem razão. Os amorais levam depois. Depois de praticarem as suas imoralidades pró-inconscientes. Assisti a algumas repostas destas. Mas não sei como ele não se desgasta. Não se desgaste e pronto. Até gosta. Pois é. Aqui eu fico estupefacta. Não gosto. Desgasto-me. Magoo-me. Fico mortificada. Desapontada. Dores no peito. É esta minha mania materna de achar que todas as pessoas têm algo de excepcionalmente bom. E esta luta de andar sempre à procura disso.

 

O meu pai distancia-se destes percursos. Não leva os outros demasiado a sério. Mas a mim leva. Especialmente a mim. Não tem outra filha. Ele é que diz. Sou filha dele. Tenho imenso orgulho nisso, malgrado o que já me fez sofrer. Não lhe esqueço o dia em que se esqueceu de me contar a história do Corvo e da Raposa pela milésima vez. Não lhe esqueço ter-me ido meter na minha cama, quando eu queria dormir no meio deles. Não lhe esqueço o super maxi do domingo no jardim do Parque Eduardo VII. Estas rotinas que ele rompeu. Não lhe esqueço. Se eu era inteligente para fazer contas de dividir com três números aos cinco anos, também podia muito bem entender as razões dele. Era só falar. Não me chamou de parte para ter esta conversa. Não lhe esqueço. É um estupor convencido. E  muito pior, um tipo cheio de si próprio, embora nada vaidoso.

 

A minha autoestima envia-me agora sinais. Estou a divergir. Eu vim aqui para ficar out de uma vez por todas. Chega de fingir que não sou boa. Sou óptima. Venho dizer isto. A minha autoestima está cansada de mim. Disse-me que lhe falta o ar há muito tempo. Para parar com isto ou morre de vez. Estou às ordens da minha autoestima sofrida. Olho para ela. Não lhe podia ter feito isto. Está cheia de nódoas negras e escoriações. Está de pé. Mas seu eu não faço nada agora, ainda morre como as árvores. De pé. Lá está um lugar comum.

 

Adoro lugares comuns. É fácil comunicar através de lugares comuns. Exemplos que todos entendem. Uma inqualificável qualquer veio aqui deixar uns comentários, que se não fossem palavras, até se poderiam momentaneamente confundir com balas. Uma escrita péssima cheia de lugares comuns da autoria de uma fufa. Estou a usar os termos dela. Não os meus. Não digo fufa. Fiquei magoada com a agressão. Veio de uma pessoa. O respeito que eu tenho pelas pessoas trai-me assim. Fico exposta a mágoas. Não é o conteúdo que me importa. É a atitude. A energia má. Fico magoada. Afinal, as pessoas não são maravilhosas. É por estas e outras que admiro a atitude distanciada do meu pai e a forma especial que a minha mãe tem de estar próxima sem lhe doer. Um não quer saber dos defeitos alheios, a outra absorve as agressões cheia de pena das pessoas. Sei bem que quem me agrediu é uma pessoa digna de pena. Até a conheço. Porém, ainda assim, fico deprimida. Creio que estou preocupada com ela. É o momento da minha autoestima gritar. Mais um soco no estômago. E eu propositadamente sem guarda. Não posso mais.

 

O que sou eu? Primeiro a imagem. Bonita? Sim. mas mais do que isso. Sou uma giraça. Trato de mim. Cuido do meu corpo no ginásio e e na esteticista. Ando num jipe. Visto-me bem. importa-me a minha aparência. Fútil? Não. Mas parece. A quem não está a ver o ponto. O ponto é mais além, porque além do mais ouço sentidamente uma música, leio os autores que importam, conheço bem os clássicos. Percebo de muitos assuntos. Domino os diálogos e os raciocínios como tenho vontade. Tenho medo de me empenhar a fundo para não ficar demasiado à frente, coisa que vai acabar a partir de agora.

 

Pois as pessoas apaixonam-se por mim? Não sei. Devo imaginar que é suposto isso acontecer? Não vejo porque razão. Devo pensar nos sentimentos dos outros. Penso sempre. Se eu não quero. Devo pedir desculpas por não querer? Não creio. Devo explicações? Duvido. É suposto ajudar as pessoas a esquecerem-me? Ora, se eu não fiz propositadamente nada para ser lembrada. É preciso entender que o meu modo de ser quem sou existe por si. Não tomo atitudes especiais com intenções de me alimentar.

 

Devo apagar o blog? Ou passarei a não divulgar o endereço? Eu gosto de escrever e gosto que me leiam. Estou a ser exibicionista? O Saramago morreu hoje. Não me comparo. Só queria chamar-lhe um estupor exibicionista porque ganhou um Nobel. É a minha homenagem fúnebre ao escritor. Os escritores deviam morrer todos para não perturbarem as almas sensíveis. Os poetas também. Para grande alívio de muitos desprotegidos o Vinicius está morto. Eu creio que se deve mesmo acabar com a arte. Com esse tipos. Os artistas. São insuportáveis. Claro. Não falo por mim. Nunca me apaixonei por ninguém que tivesse andado a ler. Fiz bem. A maior parte dos meus favoritos habita os cemitérios. Seria uma criatura negra. Eu. A Amália. Eu lá me apaixonaria pela Amália. E no entanto, ela não era normal no que exteriorizava. Era, no seu todo, muito melhor do que a maioria dos seres humanos. Fartou-se de sofrer. Ninguém lhe perdoou isto. Agora, que está morta, é um descanso. Pode ser adorada em paz. O descanso é dela.

 

A partir de hoje, vou escrever apenas textos jurídicos. Luís, o nosso projecto de escrever um  livro acabou. Vou cortar o cabelo. Andar com os pés de rastos. Comer cozido à portuguesa numa base regular. Largar o ginásio e passar a frequentar o Mc Donald's. Vou comprar roupa na Zara. Vou ter um  utilitário. Vou calar a boca quando falo, e não escrevo. Vou deixar de tocar nas pessoas. Vou despregar os meus olhos dos delas. Vou deixar de partilhar sobre o que sei. Vou. Tem de ser. Senão, apaixonam-se por mim, e a culpa é minha.

 

Vou? Isso é que era bom. Não vou, não. Antes pelo contrário. Vou chamar toda a gente à responsabilidade. Vou lembrar que ninguém é responsável por quem cativa. Um mito horroroso que se tornou numa máxima quase bíblica. O Principezinho. Valha-me Deus! A infantilidade sórdida disto. Vou dizer que tenho o direito de ser quem sou. Vou esclarecer que ninguém me pode obrigar a fazer nada que eu não quero. Não ajudo ninguém a esquecer-se de mim. Não está na  minha competência fazer isso. Não sou aqui nenhuma área de serviço. Lamento. Já amei. Já sofri. Já esqueci. Ninguém me ajudou em nada. Ninguém jamais esteve disposto a ajudar-me. Não sei se o que se vê em mim corresponde à verdade ou é também um pouco imaginado. Não sei. Sei que todos somos responsáveis pelas nossas avaliações, se não vivemos na Terra do Nunca.

 

As avaliações sobre a minha pessoa que valem são as minha próprias. Tenho a obrigação de, a partir de agora, fazer uma avaliação correcta do que sou. Tenho a obrigação de dar o meu melhor. Tenho a obrigação de assumir as minhas responsabilidades. Estas obrigações têm do lado contrário a minha autoestima. Não uma pessoa qualquer cujo único propósito é defender os seus próprios interesses. Pois não. Não quero ter nenhuma relação amorosa. Porquê? Porque só tenho vontade de fazer amor, como só eu sei. Com quem saiba fazer amor, como eu gosto. Há muitos anos que não encontro quem faça amor como eu gosto. E fiz tanto, nos últimos anos. Não. Não tenho culpa das dores de ninguém. Eu sou uma pessoa boa. Lamento informar.

 

Tudo está muito pouco literário. Pois. É natural. Estou aqui a tratar de outras coisas. De mim. Um actor quando chora a sério não representa bem o choro. Toda a gente sabe. Tenho impressão que não fui clara, ainda assim. Não. Não estou cheia de mim própria. Não. Eu sou uma mulher estupidamente inteligente.

 

publicado por Cat2007 às 13:37
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