CAFÉ EXPRESSO

Agosto 25 2010

 

 

 

Em nome das pessoas criativas cuja especial característica, a criatividade, deve ser preservada. Começo a pensar que os computadores deviam ser proibidos nos locais de trabalho uma vez atingidas as 3 horas  consecutivas de uso. Até ao fim do dia, as pessoas verdadeiramente criativas não estariam sequer autorizadas a olhar para o computador. O trabalho seria sempre suportado em papel. Para ler e analisar. Quanto à necessidade de escrever, todas as pessoas realmente criativas deviam ter uma secretária ou um secretário para o efeito. O efeito de escreverem no computador e olhar para o monitor com imensa atenção.

  

Para as pessoas mesmo criativas o computador deveria ser usado apenas em casa e sempre por motivos extra profissionais. Só para o exercício da criatividade. Isto para evitar riscos de desgaste. Nas pessoas criativas, evidentemente. Não digo que ser criativo é bom. Para o próprio ou para os outros. Não sei se é. Embora para mim seja. Mas a discussão também não é essa. Igualmente não sei se os produtos de algumas criatividades têm qualquer ponta de dignidade que valha a pena sublinhar. Apenas sei que me prejudica um bocado isto de estar sete hora por dia a admirar as coisas que correm pelo monitor do computador lá do trabalho. Prefiro este meu porque me  mostra coisas que são amigas da minha criatividade própria. O pior é que ao fim de um dia de trabalho quero olhar para tais coisas e custa-me. Portanto, proponho as reformas atrás indicadas.

  

Como as reformas que acabei de propor não têm qualquer chance de vir a ser adoptadas, algo tem que mudar. Ou seja, eu tenho que mudar. Na verdade, adaptar-me a estar mais horas em frente aos monitores. Fazer uma síntese entre este e o de lá. Não é fingir que é o mesmo. É apenas juntar 1 + 1 = a 10 horas de monitor por dia sem prejuízo da criatividade. Tenho então de arranjar mais recursos. Muito bem.

  

No trabalho sou do tipo quanto menos conversa melhor. Não gosto de ter coisas para fazer e levar um corte. Antes de qualquer acto vem um pensamento. Logo em seguida mais um. E mais outro. Entretanto, um conjunto certo de pensamentos, formando um sistema integrado, consolida-se. A partir daqui, podemos agir e fazer. Não quero ninguém a cortar o processo de formação dos meus sistemas mentais. Dá um trabalhão voltar atrás no meu processo intelectual. Que é fino e pormenorizado.

 

Actualmente não tenho pessoas ao meu lado, à minha frente ou atrás. No gabinete. Mas quando tenho, agradeço colegas de gabinete todo o dia calados em relação a mim. Agradeço também colegas de fora do gabinete que entram lá, dão os bons dias e não querem falar comigo. Só aceito com boa cara visitas de trabalho objectivas. Por exemplo, não quero saber dos problemas com as mulheres a dias, com os colégios das crianças e muito menos me interessa o que vai ser o jantar. Eu nunca sei qual vai ser o meu jantar. Talvez até  nem jante e prefira comer chocolate preto.

 

A propósito, no ano passado por esta altura, perdi cinco quilos numa semana. Não. Não estava doente. Só triste. Não estava com boa cara. Veja-se que a imagem é muito importante para nós. A imagem que de nós fazemos, claro. E a que os outros fazem, evidentemente. Tratam-se aqui de aspectos exteriores e interiores.  Será que a Cindy Crawford tem uma boa imagem de si mesma? Em princípio, todos (o resto das criaturas do mundo que sabem ler e não desconhecem que ela existe) temos muito boa imagem dela. O problema é que não dispomos dos dados todos. Também não queremos, com certeza.

 

A imagem exterior, aquela que só é fomentada positivamente por causa dos impactos a causar em terceiros, pode ficar reduzida a nada se toda a gente cegar. Sim, cegar à séria. Não quero dizer nada de especial com isto. Apenas que é verdade. No outro dia ouvi dizer que, num restaurante, serviram a um senhor uma salada feita com folhas de alface recuperadas do lixo da cozinha. O senhor comeu, tendo ficado bastante satisfeito. A imagem do seu prato agradou-lhe, o que teve influência no gosto sentido dos alimentos que ingeriu.

 

 

publicado por Cat2007 às 15:21
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Agosto 19 2010

  

    

 

 

 

Há pessoas que querem manter-se sempre jovens. Portanto, vão descuidando quaisquer responsabilidades de um adulto, deixando deliberadamente, ou não, de as assumir. E, por consequência, de as enfrentar. Tudo isto acontece basicamente por falta de desenvolvimento do senso moral. O sentido moral é o instrumento humano que propicia a superação de obstáculos íntimos ou externos (um código sólido de valores estruturais?). O Peter  Pan não assume qualquer tipo de responsabilidade. É como se estivesse parado no tempo. O que no caso dele é mesmo verdade. Exacto. Estou a falar do "Complexo de Peter Pan". E cheia de tecnicidades que não estou academicamente autorizada a utilizar, diga-se. Adiante.

 

Porque na minha óptica importa aqui ao caso, informo que também existe o "Complexo de Cinderela". Praga que atinge  mulheres e homens. Embora, ao que parece, não de igual modo. Há menos homens Cinderelas do que mulheres. O que faz todo o sentido. De facto, entre outras coisas, os homens não têm os pés suficientemente delicados para aguentarem uns elegantes sapatinhos de cristal, salto 12 cm. E os que aguentam  não têm os pés delicados igualmente.

 

Genericamente, o "Complexo de Cinderela" consiste na mania que algumas (muitas?) pessoas têm de procurar um grande amor. E tal amor tem de ter como objecto uma pessoa perfeita. Tal e qual. Uma pessoa perfeita! Claro que esta perfeição é um conceito subjectivo. É a perfeição concebida pelas cabeças das Cinderelas aquando das construções teóricas que desenvolvem durante a dedicada lavagem do chão da cozinha. Toda a gente sabe que as tarefas domésticas são extremamente relaxantes e dão muito tempo para pensar. O que é bom. 

 

Eventualmente, todos temos um pouco a mania que somos Peter Pan. Enquanto que, ao mesmo tempo, todos procuramos o ser ideal para uma vida a dois, como a Cinderela. As diferenças (entre todos) é que uns somos mais assim que outros.  Com exclusão dos verdadeiramente manientos, dos patológicos... Enfim, daqueles que deixam mesmo transpirar por todos os poros da pele estas desreguladas obsessões  e só se aguentam na base dos comprimidos hard, injecções, internamentos, choques eléctricos e lobotomias (as duas últimas técnicas já não se usam). Estes, são muito mais assim do que o resto da população. Não é deles que quero falar, como é evidente. A conversa é com os outros. Nós, portanto. Nós os consumidores activos ou potenciais de Xanax e anti-depressivos. Todos nós que entramos nesta estatística. Nós queremos ser o Peter. E somos também uma parva de uma Gata Borralheira que há-de ser princesa, enquanto nós não.

 

Já estou desconfiada de nós. Para começar, o Peter Pan é uma criança. Depois, e a despeito do nome, não se percebe bem se é um rapaz ou uma rapariga. Verifico um obstáculos legal. Em Portugal só podem casar os cidadãos maiores de idade ou os menores, com mais de 16 anos, desde que devidamente emancipados pelos pais. Então como é que o Peter Pan se vai casar se nem pais tem? E que idade tem o Pan? É sub-16 certamente, pelo que o problema da autorização dos pais nem se coloca. Por outro lado, como qualificar a Cinderela que habita dentro de nós? Um transexual, se se trata de uma Cinderela Pan ? Mas pode, no entanto, pertencer ao terceiro sexo. Já o Peter, só por si (por ser como é), já pertence.

 

Cinderela e Peter Pan vivem dentro de nós como um só. São um híbrido. Como se já não chegasse a própria hibridez do rapaz/menina. Fundidos são ainda mais híbridos. Porque então temos rapaz/rapariga/menino. Como podemos nós andar bem?

 

Pessolamente, estou-me nas tintas para a Cinderela. Andei a tomar por enganos comprimidos para a esquizófrenia (contra a credulidade informo que estou a brincar, ok?) e deixei de a ver e de a ouvir (contra a incredulidade informo que esta parte é verdade, ok?). Não sei se ela morreu dentro de mim. Sei que não a vejo e não a ouço. Agora já posso reconhecer com toda a tranquilidade: eu não sou uma pessoa perfeita.  O mais fez o meu sentido de justiça. Fez-me pensar: então se eu não sou uma pessoa perfeita, como posso aspirar a conquistar alguém assim para mim? E também pude raciocinar nos seguintes termos: se eu não sou uma pessoa perfeita, como posso saber o que é a perfeição? Se eu não sei o que é a perfeição como vou reconhecê-la nos outros? E por fim pensei: a perfeição deve ser uma grande chatice. Logo não pode ser perfeita. Donde, não existe. Mesmo Deus, Nosso Senhor, tão perfeito, tão perfeito e vai logo conceber umas criaturas como nós, capazes abrir buracos na Camada de Ozono. 

 

Já agora, porque é que Deus é um homem? Imensa gente faz esta pergunta a si mesma nos mais diversos locais. No duche de manhã. No supermercado. No trânsito. No... Igualmente, pergunta aos outros. Depois de fazer amor. Durante um jogo de futebol. Na praia. Em... Já me perguntaram. E nem me lembro em que situação foi. 

 

Não faço ideia porque Deus em imagem é um homem. Mas desconfio que é verdade. Se Deus tiver uma imagem, só pode ser a de um homem. Porquê? Não sei. Os extraterrestres também são sempre representados como humanóides. Pode ser pela mesma razão. E mais, se os extra-terrestres vêm do céu e se Nosso Senhor está no céu, então é porque são todos do sexo masculino. Não vou discutir isto. Nunca fui ao Céu. Quer dizer, já fui, mas não a este Céu de que estou a falar. Não tenho ideias nem argumentos. Não sei de nada. Apenas digo ainda bem que Deus e os Marcianos, em princípio,  não fazem sexo. Senão eram todos gays. E, como se sabe, há quem não goste de gays. Onde ficava a fé das pessoas? O que faria o Paulo Portas aos domingos de manhã. É que deixava de haver igreja. O Colégio São João de Brito encerrava? O que diriamos ao Papa? Será que Deus fala com os Marcianos e todos os extraterrestres, em geral? Porque nunca fala Deus connosco, os humanos? Será que não gosta de ser visto como  homem?

 

Será que Deus gostaria de pertencer ao terceiro sexo? Será que o Peter Pan é Deus? E a Cinderela também tem alguma coisa de divino? Ao que parece, só terá se for homem ou pertencer ao terceiro sexo. Aposto que sim. Que, bem lá no fundo, a Cinderela é um homem. Mas o Peter Pan não é homem. Já o disse. Em primeiro lugar, é um míudo. Depois é um míudo/miuda-porém- não-transsexual. Peter Pan pode ser uma criatura do terceiro sexo. Já o disse. Agora, que isto que tenho vindo a escrever não tem qualquer lógica ou interesse, também é verdade.

 

Vamos ao que interessa. Como disse, acredito que me libertei da Cinderela. De modo que posso esquecê-la. Tenho pena de quem ainda anda com a mulher colada à parte de dentro das costas. Tenho a certeza que a criatura provoca umas dores terríveis nas costelas. E até pode conseguir partir alguma. Por mim, basta-me o Pan aos saltos. Saltos enormes que eu não consigo dar, mas que acontecem dentro de mim. É um inferno! 

 

Num determinado aspecto, sou tão irresponsável como o Peter Pan. Porém, não tenho o mesmo jeito que ele para a ginástica desportiva e para a esgrima. Igualmente não tenho um batalhão de amigos que confiam em mim e me seguem para todo o lado, bem sabendo que eu sou naturalmente quem sou. Mais importante que tudo, não sou capaz de parar o tempo e ficar parada com outros dentro dele. Só sei ficar parada enquanto o tempo alheio a mim corre. Não tenho a velocidade do Peter para apanhar o tempo. É por isso que ele continua pequeno e ágil e eu estou para aqui uma adulta deprimente a lutar contra a adaptação com uma espada invisível. Eu queria lutar contra o Capitão Gancho. Não acredito na maioria das coisas a que tenho de me adaptar. Se acreditasse, não gostava delas.

 

Vou revelar um segredo. Acho melhor. Nunca fui irresponsável. Eu trabalho constantemente num processo de inadapatação muito consciente e responsável. Tenho muita pena de não ter  muito em comum com o Peter Pan. No entanto, sou capaz de parar o meu próprio tempo de acordo com o ritmo que imponho. Mas o meu mundo é só meu. Tenho alguma pena de não viver na "Terra do Nunca".

 

publicado por Cat2007 às 13:36
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Agosto 18 2010

 

 

 

 

É verdade. Na verdade, vou falar de verdade na verdade.

 

Verdade na verdade quer dizer a verdade objectiva dentro da verdade subjectiva. Bem, na verdade, vou falar de ambas as verdades. A verdade de cada um e a verdade factual. Enfim, posso ainda acrescentar a verdade que só Deus sabe. Mas esta talvez seja mesmo a factual. É que mesmo as intenções são factos. A dificuldade está em prová-las. Portanto, a verdade dos factos é tão divina como a verdade de Deus. 

 

É difícil controlar o labor interpretativo. Certamente qualquer objecto carece de interpretação. Como compreendê-lo sem o instrumentalizar desta forma? Porém, é necessário parametrizar, limitando. Senão, todos falamos e a língua é outra.

 

Na maioria das vezes, e dentro de uma mesma conversa, uma esponja nunca é só uma esponja. Pode ser um objecto de absorção, um ser vivo, amarela ou de outras cores, tingida, para o banho ou para a louça, objecto de um homicídio por sufocação, detestada, amada, ignorada (SIM, HÁ QUEM NUTRA SENTIMENTOS POR ESPONJAS!). Mas nunca é só uma esponja. Portanto, não existe objectividade na interpretação. Logo, não há interpretações perfeitas porque certas.

 

As pessoas não têm o divino poder de se controlar e evitar olhar para o próprio umbigo. É por esta razão que a falar é que a gente se desentende. Qualquer conversa suscita pontos de discórdia. Mesmo quando estes são inconfessáveis ou não são confessados. Aliás, qualquer conversa deve terminar quando a discussão já a substituiu. O ideal será retomar vinte minutos depois, quando todos estiverem mais calmos. Qualquer manual de inteligência emocional dirá isto. De qualquer modo, não sei se estes livros existem.

 

Num discurso circular adianto o percurso e afirmo, perante os mesmo acontecimentos a minha verdade é diferente da tua verdade. Isto é absolutamente verdade. De resto, a minha mentira também é diferente da tua, como adiante se demonstrará.

 

A verdade sobre os mesmos factos pode resultar em factos diferentes, de acordo com as posições, observações e concepções pessoais que se interpõem. E, como se vê, continuo a circular. 

 

Já ouvi dizer que "cada pessoa é um mundo". É capaz de ser verdade. Porém, na verdade, não me parece que a generalidade das pessoas gostem disso. Creio que temem a solidão. As pessoas não gostam de ser um mundo individual. Acham que isso significa isolamento. Na verdade o que se quer é ser especial. Quando se está com esta vontade mais latente, esta vontade de se ser especial, quer-se ser um mundo. Mas isso, isso é a fingir. As pessoas só querem ser vistas como especiais. Não querem realmente sê-lo. Ser especial é ser diferente. A democracia e a igualdade imanentes não suportam a diferença. Aqui ninguém quer ser especial porque aqui ninguém quer ser diferente. Custa muito. É por isso que ninguém se esforça para ser melhor. Antes, faz-se sempre um esforço para parecer melhor, especial e diferente com o aconchegante pensamento que envolve, e que é o seguinte: "graças a Deus que sou igual a toda a gente". 

 

A minha verdade é aquilo em que eu acredito. A minha mentira é aquilo que eu sei que não pode ser verdade mas digo que sim, que é. Posso dizê-lo a mim mesma. E acreditar acreditando que a minha mentira é verdade. Neste caso, trata-se de uma resultante da diferença entre o saber e o sentir. Aquele espaço que fica para percorrer entre o que se sabe e o que se sente sobre uma mesma coisa porque se começa ao contrário. Ou seja, primeiro pensa-se e depois sente-se. O melhor seria, evidentemente, sentir e a seguir pensar. Neste ponto, não faço a apologia do comportamento fundamentalista do tipo irracional-descontrolado-expontâneo. Faço um apelo à autenticidade, Logo, à transparência nos comportamentos. Desejo espaços de liberdade de dizer em paz. Campos de troca com respeito próprio e meta-pessoal.

 

e eu traisse alguém (trair, trair no sentido novelístico da palavra, não dizia. Porque há sempre uma razão para um comportamento. Devemos perceber porque fazemos aquilo que não nos parece bem. Se somos do género de exercer a auto-punição com categoria e empenho, ninguém será capaz de nos punir mais e melhor. Se somos do género radicalmente oposto ou seja do tipo canalha sem vergonha, a crítica e o ressentimento dos outros só nos atingem enquanto nos faz sons incomodativos nos ouvidos.

 

No mais, existe um lado solidário que os que mentem com coragem são capazes de exercer, enquanto que os canalhas sinceros esmagam as suas vítimas com  a verdade. Na verdade, não é preciso magoar as pessoas. Na verdade, há verdades que não acrescentam nada, além de muita dor para o receptor e um certo alívio para o emissor.

 

publicado por Cat2007 às 13:38
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Agosto 06 2010
 
 
Todos nós temos as nossas inseguranças. Esta frase é mais batida do que um capacho. Não sei se não lhe devíamos bater menos. É que manifesta tanta verdade, que talvez não mereça ser assim tratada. Isto se estamos de acordo sobre a bondade da verdade. Podemos não estar. Pode haver quem considere a verdade uma coisa má. Ás vezes, eu acho que sim. E não falo na perspectiva do mentiroso, mas do outro. Seja como for, eventualmente, é de se guardar algum respeito, alguma deferência, às coisas certeiras. Porque tudo aquilo que é capaz de se afinar perfeitamente com um alvo tem qualidade superior. Superior à média de grande parte do que somos e fazemos.
 
Pensava no antónimo de inseguro. É seguro. Então, e um sinónimo de inseguro? É solto? Cambaleante? Trémulo? Desconfiado? Duvidoso? Frágil? Medroso? Novo rico? Agressivo? Malcriado? Nervoso? Escondido? Descapotável? Encarnado? Doente? Velho? Apático? Criança? Paixão? Vivo? Então um sinónimo de seguro? Preso? Firme? Certo? Consciente? Forte? Corajoso? Velho rico? Compassivo? Benevolente? Compreensivo? Declarado? Com capota? Preto? Saudável? Adulto? Amor? Morto? Não. Estes sinónimos e antónimos não ajudam na definição. O que eu queria era saber o que é ser inseguro. Concretamente, o que é uma pessoa insegura.
 
Todos nós temos as nossas inseguranças. Foi o que comecei por dizer. Portanto, não existem pessoas sem inseguranças. Pelo menos uma. Só uma. Não há ninguém que não tenha. Depois de muito reflectir, cheguei à conclusão que a insegurança não está directamente ligada ao medo. Pelo menos, não nasce daí. Na verdade, o medo  é, num primeiro nível, uma reacção normal ligada ao instinto de sobrevivência. A insegurança, por seu lado, tem mais a ver com uma certa necessidade de afirmação. Quanto mais a pessoa deseja ser aceite e/ou amada, mais insegura ela é ou se torna.  E, agora, já é fácil perceber que todos temos as nossas inseguranças, mas uns mais do que outros.
 
A ideia aqui não é dar uma explicação técnica para a qual não estou habilitada. A ideia aqui é mesmo ir dizendo umas coisas sem assumir responsabilidades. Sou demasiado insegura para me pôr a estudar o assunto e fazer uma exposição condigna. Tenho medo de não fazer a coisa bem feita. Eu disse tenho medo? Mas, então... Parece que sempre há uma relação entre o medo e a insegurança. Bom, também não disse que não havia. Trata-se de uma relação de sentido ao contrário. Ou seja, não é o medo que provoca a insegurança, mas a insegurança que provoca o medo. Quer dizer, se eu tenho medo de gays ou aranhas, sou fóbica (com todas as respectivas consequências), não insegura. Se eu não arrisco uma determinada atitude desconhecida aos meus padrões habituais mentais ou comportamentais,  sou insegura porque temo os juízos alheios.
 
Eventualmente, pior do que temer as valorações alheias é mesmo não aguentar com a crítica interna. É que dos outros podemos sempre fugir, já de nós próprios...  Então, de onde virá a crítica interna ou auto-critica sem comiserações? Qual a raíz do mal que impede o amor-próprio e só deixa ficar alguma simpatia própria? Eu creio que pode ser o relacionamento, de alguma forma estranho, com os pais na infância. É que, se analisarmos bem, os pais são culpados de tudo. Basta serem os responsáveis pelo inicio desta nossa tortuosa existência na terra.
 
Ao que acresce o aditivo poderoso que é a nossa educação judaico-cristã (parte dela também da responsabilidade dos pais, está claro). Velho e Novo Testamentos. As contradições fundamentais entre ambos, só por si, podem enlouquecer qualquer seguidor mais convicto. Porém, o pior é a materialização dos Evangelhos pelos padres na missa dominical (ou de sábado, para quem não pode). Desde muito pequena que eu sei que sou culpada. Culpada! De quê? Basicamente de tudo. Sobretudo da morte de Jesus Cristo. Desde muito cedo que me sinto uma assassina de um santo. Do Salvador, digo. Tenho tentado, em vão, lembrar-me do que aconteceu. Como se passaram as coisas. Ajudei a prendê-lO, denunciei-O, chicoteei-O? Preguei-Lhe as mãos? Não me lembro. E devia lembrar-me, já que sou culpada da sua morte. Mas não é fácil. Foi há mais de dois mil anos. O que terei feito eu a Cristo há dois mil anos?
 
Em resumo, estamos todos cá para pagar os nossos pecados. Desde que nascemos que é assim. O próprio acto de nascer já é um pecado. Não percebo como a Igreja Católica não é a favor, mas contra o aborto. Só não digo que isto é um contra-senso porque sou demasiado imperfeita aos olhos de Deus para conhecer das revelações. Só o Papa sabe a resposta. Porque ele é o Santo Padre.
 
Peço, portanto, desculpa. Sou culpada. Peço desculpa. Prometo sentir-me sempre insegura porque a culpa é minha. Não interessa de quê. Sou tecnicamente culpada de tudo. Serei sempre insegura e pedirei sempre desculpa. Porque, quando morrer, quero ir para o Céu.
publicado por Cat2007 às 16:04
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Agosto 04 2010

 

 

 

 

Certamente por ser canhota, nunca simpatizei com a esquerda política. Percebo as dificuldades. É como se o lado esquerdo das coisas fosse sempre trapalhão. Já viram algum canhoto a recortar? É deprimente.

 

Bom, na verdade, o meu pai, sempre interessado pela política, é um homem de direita. Tão de direita, que, por vezes, temo que caia pela borda fora. Ora, ele, sempre falou imenso. Despropositado e com um encanto que só ele sabe ter, fazia discursos políticos por todos os cantos e recantos da realidade espacial que se lhe defrontava. Também havia sempre umas pessoas a ouvir. A maior parte delas subjugadas pelo vigor e pela convicção de um discurso cansativamente rígido.

 

Fui influenciada. Como é óbvio. E depois de alguns anos de subjugação, a limpeza ao cérebro estava feita. Juntando isto com o desejo de ser destra (para ter uma vida mais fácil), conclui que era do PSD. Confesso-o envergonhada. Enfim, mas isto foi numa altura da vida em que eu acreditava que, para além de ser do Benfica, tinha de ser de mais alguma coisa.

 

Actualmente, compreendo que, apesar de não ser fácil, é muito bom não ser de nada e continuar a ser do Benfica. Sofrer por boas causas. Foi então que me tornei sócia do Glorioso.

 

publicado por Cat2007 às 18:12
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"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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