CAFÉ EXPRESSO

Novembro 25 2011

 

Se eu amasse alguém, hoje diria isso. Amo-te. Se eu amasse alguém talvez a pessoa que eu amasse tivesse que me bater por desespero, uma vez que poderia parecer que eu não mudo. Talvez me risse depois de uma agressão tão infantil. Olhos nos olhos. Talvez ela chorasse e tapasse a cara com as mãos e perguntasse ao abstrato: “Porque é que tenho que ser sempre eu a mudar?”. Talvez as lágrimas me caíssem ao mesmo tempo que o riso dado o toque que concerteza levaria na alma. E a abraçasse até lhe fazer doer sem conseguir. Talvez...

 
 

 

 

publicado por Cat2007 às 17:11
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Novembro 24 2011

 


 

O meu terapeuta esclareceu-me que, em pouco tempo, as putas têm a vida emocional destroçada de uma forma irreversível. Uma mulher que vende o corpo nestes termos nunca mais recupera das emoções. Talvez por isso, ou mesmo por isso, a menina quisesse à viva força “transar” comigo. Deve ter reparado no meu olhar uma forma de olhar para ela de que já não se lembrava. Olhou para o meu corpo com desejo porque não tinha os contornos masculinos próprios dos corpos que desde há algum tempo a vinham ferindo. Tive pena. Mas  e também por isso “não”.

 

Tenho impressão que o interesse dos portugueses em putas e ginásios, designadamente no Holmes Place, subiu em flecha. Não. Na verdade, não é só uma impressão. Vi no Sitemeter aqui do blog. Tenho portanto a minha estatística pessoal. Os posts (de longe) mais lidos são: HOLMES PLACE - Quem não foi ao engano... (http://ogatogaga.blogs.sapo.pt/59602.html) e PORQUE É QUE AS PUTAS NÃO BEIJAM E OS CLIENTES NÃO SE IMPORTAM (http://ogatogaga.blogs.sapo.pt/67752.html), sendo certo que, de há umas semanas para cá,  as putas estão com o triplo dos visitantes do Holmes. Bom, é uma estatística que vale o que vale. Para mim vale mais um motivo para pensar escrevendo. Pronto. Já agora, alguém se lembra que um dos maiores ícones do cinema porno se chamava John Holmes? Não falo nisto por nada. Só para partilhar um pouco de cultura geral. E porque me veio assim à cabeça.

 

Creio que é da crise. O pessoal tem de acabar com despesas fixas injustificadas. Pagar um ginásio sem lá ir. Tem de ser um dos casos. Sai dinheiro e não se vê beleza física nem a calma das endorfinas. O problema é que o HP não facilita nisto das despedidas dos sócios. Por isso o pessoal procura e procura a forma, o meio de se livrar da “cena”. Não será fácil, digo eu que já expliquei no post acima indicado o que me aconteceu por lá.

 

Por outro lado, tenho muita pena, mas não sei muito sobre os preços das putas. Penso que no “Elefante Branco” anda à volta dos 200 € por sessão. Mas não sei ao certo porque não sou puta nem nunca fui às putas. Porém, fui ao “trombinhas” algumas vezes. E, é verdade, também visitei o “Gellary” ou “Gallery”, já não sei. No entanto, acho que este último encerrou, tendo as funcionárias mudado para o primeiro.

 

Fui com a curiosidade sociológica dos arrogantes e o espirito de visitante do zoo. Pus-me logo a falar com uma menina para saber “coisas da vida”. Mas não perguntei o preço. Ou se perguntei não me lembro. Não me interessava. De qualquer forma, houve ali uma insistência. “Você não quer transar?”. E eu: “Não. Não, muito obrigada”. Acho que ela queria mesmo “transar”, independentemente de estar a tratar de “business”. A ver se juntava as duas coisas. Eu é que não queria. Sou uma moralista, ora essa! Sou uma moralista e tenho nojo, com todo o respeito.

 

Entretanto, uma das minhas amigas foi-se embora irritada porque achava aquilo tudo indecente. “O que é indecente, está tonta?”, consegui perguntar antes dela arrancar desabrida. “Estão a faltar ao respeito a estas pessoas. Isto é vir aqui para rir dos outros e tal…”.

 

Talvez tivesse razão. Mas deixei-me ficar a ouvir a puta. Como poderia eu ter um blog deste género sem ter alguma coisa para contar? No mais, eu interesso-me pelas pessoas, caramba! Sem ironias. Afinal de contas, talvez a minha amiga estivesse apenas a ser histérica. Sim é isso. Não tinha muita razão não. Até porque o espirito parolo com que entrei desvaneceu-se imediatamente no confronto com a realidade. Vi a humanidade mascarada pela make up a passear-se de minissaia e “tacones”. Vi a humanidade nas gravatas sentadas em sofás de imbecilidade. Vi os copos transparentes a tilintar, brilhando demais sob a impressão das luzes psicadélicas. E tudo me impressionou. Uma parte da vida que não faz parte da minha vida mas que é a vida de tantas pessoas. Na verdade, ser puta e cliente é uma condição da vida de pessoas. Quando deixamos de poder ignorar isto porque, por exemplo, fomos ao “Elefante” compreendemos finalmente que a vida também é isto e que por isso também nos diz respeito. A vida transcende largamente o “mundinho” que, iludidos, pensamos que construímos só para nós. Mais nada.

 

O meu terapeuta esclareceu-me que, em pouco tempo, as putas têm a vida emocional destroçada de uma forma irreversível. Uma mulher que vende o corpo nestes termos nunca mais recupera das emoções. Talvez por isso, ou mesmo por isso, a menina quisesse à viva força “transar” comigo. Deve ter reparado no meu olhar uma forma de olhar para ela de que já não se lembrava. Olhou para o meu corpo com desejo porque não tinha os contornos masculinos próprios dos corpos que desde há algum tempo a vinham ferindo. Tive pena. Mas e também por isso “não”.

 

Talvez as putas de rua estejam a prestar serviço a um preço acessível. Mas aqui é que eu já não tenho estórias para contar. Nunca me aproximei. Talvez por medo. Como abordar uma puta de rua se não se está a fazer um trabalho académico ou jornalístico? Mentir a dizer que é isso? Não sou capaz. Não quero ser capaz. É detestável mentir. É ainda mais detestável mentir a uma pessoa que tem de viver de mentiras. Não sei nada sobre as putas de rua. Apenas que a maioria se droga.

 

Parece de facto ilógico querer acabar com uma despesa num serviço supérfluo para ir fazer outra, talvez maior, noutro serviço supérfluo. Sabe-se que quando um fumador pensa em deixar de fumar o desejo de acender um cigarro é imediato. Porque uma sensação de angústia se alivia com uma impressão de prazer. A nicotina liberta endorfinas. Substâncias químicas de bem-estar. O exercício físico também. Liberta. Mas é doloroso no processo. O sexo igualmente. Mas dá prazer no processo. Na angustia da crise, as pessoas estão a precisar urgentemente de químicos. É assim o organismo humano. Dependente.

 

Penso que o “Fado falado” fala de putas. É dito por João Villaret. A “Emilia Cigarreira” não pode ser outra coisa, senão uma puta de Alfama. As meninas católicas decentes  dos meados do século XX em Portugal não iam para a cama com marinheiros nem lhes espetavam a navalha. É uma puta que ama e tem ciúmes. Poucas coisas existem que me emocionem mais do que esta peça escrita como foi e dita como está. Deixo aqui.  

 

 

 

publicado por Cat2007 às 20:57
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Novembro 22 2011

 

 

As pessoas não são apenas obesas mórbidas ou do slim type, conforme se requer na publicidade ou na moda - onde também se aceita, especialmente para os homens, o tipo musculado ou dito bem definido.

 

Em geral, e com excepção do que se passa nos Estados Unidos, designadamente no estado do Texas, onde larga percentagem da população tem as dimensões de um tanque de guerra, o tipo da generalidade das pessoas é average.

 

Os average podem dividir-se em subgrupos. Há uns average em forma. Outros um tanto moles de músculos. Mais uns quantos a caírem para o lado slim. E ainda alguns com meia dúzia de quilos a mais. São todos average. Estão também dentro desta categoria aqueles que são do género leitãozinho terno sempre em movimento e com a energia do cão lá de casa. O meu o pai, desde que aos cinquenta anos deixou de fumar 4 maços de cigarros por dia, ficou assim. 

 

Porém, sobre o ponto de referência average, e nunca sobre o slim, há gente com excesso de peso. Quero dizer há gente com mais de 10 kg a mais. Ou seja, pessoas que  sobre o average com  mais uns quilitos têm a distinta lata de se apresentarem aos outros com cerca de 15 sobre essa marca. Ora, se não há doença isto parece-me inadmissível! Quer dizer, a que propósito uma pessoa pára, come e estaciona nos +10+15 = 35 kg a mais? 

 

Do meu ponto de vista, isto é gente insuportável. Percebe-se perfeitamente a causa das coisas. Em primiro lugar, sempre a movimentarem-se pelos mínimos. Braços, pernas, dedos. Até o raio do pescoço! Só se apressam quando é para sair e ir comer qualquer coisinha rápido. No mais, olha-se para esta gente, e parece que estão na vida em permanente refastelanço.

 

Quando o contexto é o local de trabalho o princípio guia é: os outros que se "lixem" ou se adaptem. Pois então! Deus nos livre de precisar da colaboração destas criaturas do anti. E se não precisarmos, estar diariamente a olhar para isto é uma perfeita tortura. Olhar para e ouvir uma criatura que, se puder e as circunstâncias lho permitirem (o que quase sempre sucede), limita-se a mexer os olhos. Faz actividade física? Faz, sim. Passa o dia a mexer os olhos. E também  todos os músculos envolvidos na própria actividade de comer. Nada dos ombros para baixo.

 

Comer um pastelinho. Este pessoal adora estar sempre a comer um pastelinho. De 20 em 20 minutos se for possível venha um pastelinho! Vejo-os mexerem-se. Os músculos abaixo do pescoço, quero dizer. Há um estímulo, claro. Para ir o mais rápido possível e entrar no elevador. Descer um andar, comprar o pastelinho. Voltar as costas ao balcão dos pastelinhos em jeito de  quem está a fazer caixinha, envolvendo emocionalmente o pastelinho. Abrir a boca e devorá-lo pela metade. Entrar no elevador para subir um andar. Abrir a porta do elevador de mão vazias, olhos semi-esbugalhados, os últimos movimentos dos maxilares. Um respirar fundo à laia de suspiro.

 

De volta à cadeira. Trabalho para fazer. Muita desenvoltura mental. Para arranjar desculpas pelo trabalho que não está feito porque não apetece realmente fazer. São desculpas de cima para baixo. A culpa não é nunca do paquiderme é sempre de outra coisa qualquer. Não há recursos e aqui nós somos só um. Diz o animal de grande porte. Nós somos só um? Interrogo-me eu por breves instantes. Depois vejo que é verdade. A área ocupada corresponde à que utilizariam duas pessoas slim. Está correcto. Vivem dentro do bicho dois slims sufocados. É por isso que não se conseguem mexer.

 

Não sei porquê, mas acho que a culpa é do elevador.  Digo isto porque odeio andar de elevador. Tenho medo que pare quando eu estou lá dentro.

 

publicado por Cat2007 às 14:15
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Novembro 21 2011

 

 

 

 

Um homem que mudou de sexo obrigado na base da violência. Um rapaz todo excitadinho com as meninas que parecia ter grande apreço pelo membro mobilizador dos seus instintos mais primários - logo e depois da fome e da sede extremas, claro. Bom, ficou uma miúda giríssima tem de se dizer.

 

Entre outras coisas que aprecio nele, Pedro Almodovar é o rei do insólito. Um conjunto de freiras “agarradas” à heroína, o que seria? Um enfermeiro que engravida no hospital uma doente em coma, o que seria? Um homem marcadamente heterossexual assume a identidade do irmão transexual e farta-se de apanhar no “traseiro” para “subir na vida artística", o que seria? São os inabituais e inesperados passados de Almodovar de que me estou a lembrar agora. Mas creio que em qualquer um aqui não mencionado se verifica a existência do insólito.

 

Por outro lado, o toque de brilhantismo de Pedro vem também do facto de não ser um fazedor de filmes de ficção científica, de terror ou de outro qualquer género do fantástico ou da fantasia balofa que me convence em definitivo a não ir ao cinema.

 

E, para não fugir à regra, em “A pele que habito”, o realizador espanhol trouxe mais do mesmo do que a gente gosta, admitindo-se que haja quem não goste. Um homem que mudou de sexo obrigado na base da violência. Um rapaz todo excitadinho com as meninas que parecia ter grande apreço pelo membro mobilizador dos seus instintos mais primários - logo e depois da fome e da sede extremas, claro.

 

Bom, ficou uma miúda giríssima tem de se dizer.

 

Antes de sair para o rapto que havia de originar a mudança radicalíssima da sua vida, insistiu, creio que pela milésima vez, na possibilidade de “saltar para cima” da lésbica que trabalhava com ele na loja da mãe - dele. Não deu. Apanhou a “tampa” número “n” e lá foi convencido que um dia ainda havia de conseguir.

 

E com efeito… Regressado seis anos depois – porque não pôde fugir antes - provocou finalmente aquele “flash” na “gaja”. Os olhos dela brilhavam intensamente sobre os de… Norma. Que porém tratou logo de explicar quem era. Deu detalhes que só ele, a Norma, podia saber. A mãe e a outra não puderam contornar a verdade. Norma era ele. Pensavam que estava morto. A mãe ficou atordoada. A lésbica, talvez estúpida,  pareceu-me com cara de boas expectativas.

 

Bom, mas o sumário do insólito. Um homem perfeitamente confortável no âmbito da sua biologia e satisfeito com a sua orientação heterossexual é transformado em mulher – numa mulher muito bonita ainda por cima -, o que seria?

 

Seria aparentemente uma tipa a quem a maior parte dos homens gostaria de “saltar para cima” – assim como, por exemplo, ele outrora com a lésbica. Assim, a vida amorosa deste homem deverá concretizar-se em avanços com lésbicas ou les-curiosas e fugas e recuos relativamente aos homens atraídos.

 

De facto, não é mesmo a forma que demarca o conteúdo. Mas a essência. Como se tivesse nascido com o sexo errado, este tipo tem de operar. A ideia da necessidade de reverter o processo não chocará ninguém e parece ser o caminho mais certo. Presumo que não haverá muito quem discorde de mim. E quero crer que todos percebem onde quer Almodovar chegar com isto.  
 

Por outro lado, a Norma de Bellini, com libretto de Romani, também é uma obra sobre o insólito. Trata basicamente da dor de cotovelo e das coisas que as pessoas são capazes de fazer por causa disso. A trágica heroína começa por ameaçar matar os seus próprios filhos. Depois desiste mas lá acaba por conseguir um estratagema para morrer queimada com o seu amor. E em síntese, a outra ficou, embora não literalmente, “a arder”.

 

Acredito que Almodovar se ande a inspirar nestas coisas. Basta atender ao mais que o filme nos diz. Uma neura aqui, um homicídio ali, um processo de loucura acolá… É a Norma de Bellini num puzzle muito difícil de montar. Sobretudo porque também lá está a genuína Norma de Almodovar. Bravo! Bravo! (de pé).

 

publicado por Cat2007 às 16:20
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Novembro 15 2011

 

 

Ninguém é insubstituível. Que mentira! Informo que tentei substituir um cão, comprando outro da mesma raça e cor. E ficou provado que há cães insubstituíveis. Não tem nada a ver. Um cão com o outro. E o espaço por preencher que me alterou por dentro lá está para ficar. Talvez este ganhe o seu próprio espaço. Será então a partir desse momento que também ele se tornará insubstituível. E eu mudarei mais um bocado se o perder.

 

Pode-se chamar humanistas às pessoas que defendem a ideia estúpida dos seres poderem ser como que fungíveis - comparáveis as um pastel de bacalhau ou a uma torta de Azeitão? Desaparece um e há logo outro igual ali mesmo ao lado?

 

Ou chamemos-lhe apenas estúpidas e está bem assim? Para os estúpidos importa a humanidade como um todo e nunca o ser humano individual característico e único. Creio que assim é mais fácil viver e lidar com os problemas e as merdas que se vão fazendo. Sempre a pensar na humanidade. Nunca a pensar no indivíduo.

 

Claro que um desaparecimento não afecta as coisas. A Terra gira, os mercados agitam-se, os governantes projectam-se (em principio mal), os lugares de estacionamento não aumentam. É daqui que vem a frase. A tal. “Ninguém é insubstituível”. Certo. Aproveitemos então para cometer pecados e pecadilhos de frente e nas costas dos humanos individualmente considerados com quem nos vamos cruzando aqui e ali.

 

No auge do seu cinismo Staline dizia: “A morte de um homem é uma tragédia. A morte de mil é estatística”. Lá está. Um humanista. Não parece mas é. Na verdade, não é possível que numa guerra morra apenas um homem. Pelo menos numa guerra a sério. Staline queria justificar a guerra e não falava com a voz dos sentimentos que não tinha. Antes rezava de acordo com o que sabia do que ia vendo da vida das pessoas que via. A morte de um homem é uma tragédia para quem o ama. Mas, mais importante para o russo, a morte de um homem não podia suceder sem um motivo de Estado porque de outro modo é um atentado á ordem do Estado. Ora, Estado e bem comum são sinónimos neste contexto. Bem comum quer dizer o que é bom para todos e pode ser menos bom para um ou dois ou três, desde que sejam poucos de cada vez. E é como eu disse, Staline afinal era um humanista. Estava preocupado com todos.

 

Enfim, se pensarmos assim, no todo de todos que nos abate individualmente, podemos afirmar com propriedade que “ninguém é insubstituível”.

 

publicado por Cat2007 às 17:53
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Novembro 13 2011

 

É que eu gosto especialmente. Estava lá. Gosto da forma como se interpreta esta "Loucura". E mais coisas.

 

 

 

publicado por Cat2007 às 19:53
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Novembro 13 2011

 


 

De um certo ponto de vista as pessoas são todas iguais. Eu também. Claro. Eu sou do grupo das pessoas que são todas iguais. Que são todas de um certo ponto de vista. Andei com A, vivi com C, cruzei-me com B. Fazer amor é determinante. Determina o princípio e o fim de uma relação. Se ela acaba formalmente é uma formalidade. O que importa é que, no que toca ao acabar, acaba mesmo. Ou seja, mesmo que as pessoas continuem a respirar o mesmo ar todos os dias dentro de um espaço comum. Há quem não se importe.

 

Até hoje importei-me sempre. Sou uma formalista. Por isso extermino formalidades. Aquelas que só servem para dar forma às coisas que não têm conteúdo nenhum. Isto é adulterar a função nobre da forma. Não compactuo com coisas destas. Fazer mal amor faz mal ao amor e por isso retira uma parte do conteúdo de uma relação. Como disse, uma parte decisiva. O amor saudável. Uma mesa com duas pernas é como fica parecida. A relação. Embora se possa sempre encostar a mesa à parede e segurá-la com parafusos. Apenas fica a parecer uma consola pouco elegante. Mas há muito quem lhe dê utilidade assim e aproveite para fingir que é uma mesa que continua a servir os mesmos propósitos. São os formalistas positivos. Pessoas que não são como eu. Uma formalista destrutiva.

 

De um certo ponto de vista as pessoas são todas iguais nas relações. Todas são formalistas. Umas positivas. Outras negativas. Vou suspeitando que as primeiras vivem um bocadinho melhor. Porque, enfim, a vida tem muitas coisas e é capaz de ser possível ir buscar a felicidade aos bens materiais, aos sucessos profissionais, aos produtos da nossa criatividade, à boa integração social e familiar, a quaisquer missões de solidariedade/caridade onde nos possamos empenhar ou à projeção na vida dos filhos que estão a crescer e poderão ser o êxito (?) que nós nunca fomos. É possível ser feliz assim. Com tudo isto. Com alguma destas coisas. Com nenhuma destas coisas mas com outras igualmente suscetíveis de contribuir para um contexto de conforto rotinado. Desde que não se vá dizer que a mesa é uma consola. Desde que não se discuta isto. Que faltam duas pernas à mesa. Desde que não se termine com uma relação que há muito já tinha orientado a mesa em direção à parede. É muito mais fácil levar a vida com alguém ao lado. E às vezes também precisamos de alguém com quem falar e vá connosco ao supermercado e ao médico.

 

A esmagadora maioria das pessoas entende as coisas assim. Por isso há muito mais formalistas positivos. As estatísticas dos divórcios e das separações não querem dizer nada sobre este facto. Toda a gente sabe que, em regra, as coisas terminam só por falta da estabilidade formal e apenas no momento em que há uma alternativa viável que acena de fora.

 

Fazer sexo mal é pretender obter alívio para o sistema nervoso. É imprimir uma certa agitação no corpo para chegar ao descanso. Consiste num processo que elimina várias etapas do processo e não é fazer amor por causa disto. Fazer amor é o processo. Quando vou ao indiano peço sempre a mesma coisa, que é o prato que eu mais gosto. Sei sempre tudo o que vai suceder. O gosto que vou ter e como me vou sentir no final. Nunca tenho surpresas. É este o processo de me alimentar num restaurante indiano. Não vou lá há séculos, como é evidente. Mas posso lá voltar sempre. É como a masturbação. Bom mas desinteressante.

 

A fantasia de existência de outro no processo da masturbação é decisiva para chegar ao resultado. Ao alívio do sistema nervoso. Quando se faz amor para atingir os mesmos resultados da masturbação pratica-se masturbação em conjunto com a vantagem de se poder fazer mais coisas que dão prazer e ainda dá para assistir às demonstrações íntimas alheias, com tudo o que isto tem de estimulante para os sentidos e para as emoções. A importância do toque e o valor da companhia são hipocritamente exagerados. Mesmo que se consubstanciem numa enorme necessidade dos afetos. Quem ama e faz as coisas assim não sabe fazer amor, pelo que não faz amor. Cria rotinas. Corta pernas à mesa.

 

Embora já tenha vivido outras contingências, em princípio, só vou para a cama com quem amo. E no dia em que as coisas me começam a parecer muito semelhantes a uma ida ao indiano, começo a ponderar que é melhor não voltar tão cedo. O resto é uma consequência. Eu sou uma formalista que honra a forma nos termos expostos. Porque 10 anos de terapia me convenceram que é muito melhor para mim não ser o contrário do que sou.

 

Obrigada doutor. Há pessoas insubstituíveis. Pelos vistos, continua a ser o meu único caso não familiar. Tenho que aceitar a sua morte, de acordo com o que aprendemos juntos. Mas não tenho que deixar de lamentar profundamente, como sabemos.


 

publicado por Cat2007 às 13:12
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Novembro 08 2011

 

 

O meu terapeuta morreu…

 

Não sei o que estava a fazer às duas da madrugada do dia 2 de Novembro passado. Sei que no dia 3 estava a entrar no meu gabinete no momento em que pensava que a consulta do dia 5 ia ser uma maçada. Costumava ir a pé todas as semanas ao fim de um dia de trabalho. Cerca de 20 minutos. Era isso ou arriscar multas e/ou bloqueios do carro que já não estou para aguentar. De qualquer forma o meu carro está outra vez na Santogal. Passou-me pela cabeça telefonar a adiar. Como sempre desisti imediatamente. Estava cansada. Andamos com obras cá em casa. Mas a tendência para contornar aquilo que é bom para mim e descansar o corpo é um dos meus grandes pecados. Foi ele que me fez sentir isso sem dizer nada. Os nossos pecados levam-nos ao inferno na terra. Escolhi ir ter com ele no dia e hora marcada desde há dez anos. E entrei no gabinete com um suspiro. Foi o Zé que me ensinou a tomar as decisões que mais me favorecem.

 

Não sabia que ele era o “Zé”. Durante dez anos foi o “doutor”, para ele, ou o meu médico, para os outros. Era psiquiatra. Nunca faria uma terapia com um psicólogo. Peço desculpa. Era perto do meio-dia quando recebi um e-mail a dizer que a conta do carro passava dos 1.600 euros. Estava a começar a sentir as costas coladas à cadeira enquanto pensava que tinha pago um arranjo de 1700 em Julho. Começava então a refletir sobre o costume. “Este carro é um sorvedouro de dinheiro…” E o telemóvel tocou. “Olá Lina”. Disse-lhe e sorri para ela. Como se a minha cara se pudesse ver na conversa. Respondeu-me a sorrir também. Como se a cara dela se pudesse ver na conversa. O tom era precisamente o mesmo de sempre. Calei-me para ouvir. Como sempre, se era a Lina a ligar. “É por causa das suas consultas”. Imaginei que fosse. Por isso não me chegou a apreensão. “Vamos ter que cancelar”. Ou lá o que foi que ela disse. Chegou-me a apreensão. E um sentimento de culpa deslocado. O meu. “Mas o que é que eu fiz?” Pensava nisto enquanto ela continuava a falar. “Sabe, há coisas que acontecem…O doutor não vai poder…” Achei então que ele ia trabalhar para fora. “Aconteceu uma coisa muito triste e…” Devia estar doente, talvez. Imaginei. “Fizeram tudo o que era possível mas não conseguiram e o doutor faleceu”. O resto da conversa já não interessa. A imagem dele na sexta-feira anterior de jeans e casaco azul-escuro de malha, mexendo-se e falando vivo ocupou-me a cabeça. Como um ato espontâneo de negação. Quando voltámos a falar foi para tomar nota do lugar do velório. Chovia tanto! Fui lá. Antes de mais nada era fundamental saber se não havia ali um engano. Que não havia. Mas era preciso terminar aquela relação em vida. Vê-lo morto. Para continuar a relação com ele na minha vida. No sítio estava uma mulher jovem dobrada sobre o corpo. Devia ser o dele. Era o dele. Tantas lágrimas é demasiado líquido transparente e já não são lágrimas. Parecia que se estava a desfazer pelo rosto através do choro. E aí eu vi o amor. Naquele rosto que se desfazia para mostrar  isso mesmo. O amor. “Zé!” Não sabia dizer mais nada. Só “Zé!”. Alternava entre o desejo de o agredir e a necessidade extrema de proteção. Puxava-lhe os colarinhos da camisa ou deitava-se no peito dele. De vez em quando queria acordá-lo. Passava-lhe as pontas dos dedos pelos lábios grossos ou beijava-lhe levemente a boca. Assim como quem está a “provocar”. Eu estava do lado contrário do caixão a ver. As duas coisas. Queria ver-lhe a cara. A expressão. Não estava a conseguir por causa da brancura e da inércia do cadáver. Precisava de olhar para a cara dele de frente. Queria a expressão conhecida, familiar, confortável. Não conseguia porque ela estava ali. E também me puxava. Chorava com ela. Eu tão parada como ele. Mas eu quente e ele frio de certeza. Não estava frio na sala. Apenas uma humidade de pântano. Era a chuva e a igreja. Mais as lágrimas da mulher.

 

Ao fim de uma eternidade fui capaz de a chamar. Até lá não sabia como o fazer. Foi ele que me indicou. Antes. Durante os dez anos antes. Aprendi a saber como se faz. Seguir o que se sente e agir em conformidade. É só isso. Como se isso fosse fácil. Existem milhões de razões para não seguir os sentimentos. Quase nenhuma é verdadeiramente válida. Foi ele que me ensinou. “Como é que ele morreu?” Isto parecia-me o essencial. A Lina não sabia bem. Os olhos viraram-se para mim e ficaram num encolher de ombros enorme. Não sabia. Foi ataque cardíaco, na verdade. “Quando?”. Sim, foi às duas da manhã. Nem cinquenta anos tinha e não tinha historial. Morte súbita mais ou menos como uma partida de carnaval estupida, como são todas. “Ele estava sozinho?” Não, estava com ela. “É a mulher dele?” Sim. “Ele era meu médico… há dez anos.”

 

Não podemos saber nada da vida do terapeuta. Eu não sabia nada. Há uns meses perguntou-me se eu gostava dele. Eu respondi-lhe que não sabia. Se ele tivesse morrido antes de me perguntar poderia ter-lhe dito que sentia amor. Sem espinhas. Disse-lhe ali. Toquei-lhe com os dedos na face. Ela desculpou-o imediatamente. “Está muito frio.” Não estava. Gostei da sensação da pele e da barba feita. Não estava rígido. Baixei a boca até ao ouvido dele e disse-lhe: “Sabe doutor, eu gosto muito de si. Muito”. Disse sem falar. Porque ele estava morto. Assim era mais provável que me ouvisse. Também, não queria espalhar. Não gosto de falar em alta voz dos meus sentimentos mais caros. Claro que posso reconhecer que quem lá estava percebeu. Ou ela percebeu. Abraçou-me tanto tempo… Não estou nada habituada. Nunca me ponho a jeito. Ali fiquei em paz. No dia seguinte, durante o funeral, não lhe disse nada. Só lhe dei um beijo com significado. Acho que ela não tinha dormido. Penso como estará.

 

Enterraram-no e fiquei finamente convencida de que materialmente ele foi. Não me abandonou. E isto faz toda a diferença. Agora vive em mim. Depois do processo da morte em vida o que sinto é a memória viva que me traz a presença dele. Observo o rosto e os gestos. Ouço o que diz. Cada vez estou mais certa de que sou capaz de “resolver os meus problemas, de tomar conta de mim”. É capaz de ser verdade. O tratamento estava a acabar. Ele é que disse. Antes contou-me que gostava de mim. Afinal de contas uma psicoterapia é um tratamento médico que depende dos afetos. “Você acha que eu aceito qualquer pessoa?” Não podia. Escolhia as pessoas. Escolheu-me. Gostava de mim. O meu problema é que eu só acreditei totalmente quando a vi. A generosidade, a compreensão, o cuidado, a tranquilidade… tudo o que ele fazia e dizia no consultório não era técnica médica. Eu pensava que sim. Mas havia a técnica e o amor. Eu reconheci o amor quando a vi. A ela. Havia amor entre nós e ele não me abandonou. Talvez a morte dele me tenha curado de vez. Lembro-me do caixão e das flores no cemitério já no fim do fim. Pensava que precisava de falar com ele sobre os efeitos da morte do Zé.

 

publicado por Cat2007 às 20:17
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