CAFÉ EXPRESSO

Setembro 30 2016

Sexta-feira. Teresa pegou no telefone.

Teresa: Ainda estou no escritório. Vou sair tarde. Estou cheia de trabalho.

Madalena: Não faz mal. Também estou a trabalhar.

Teresa: Não faz mal?

Madalena: Não. Desde que passes a noite.

Teresa: Passo claro. Até já avisei a minha filha.

Madalena: Fizeste bem.

Teresa: Tiveste saudades minhas ontem à noite?

Madalena: Muitas.

Teresa: Eu também.

Madalena: Sabes, querida, eu gosto de ter saudades tuas. Gosto de ficar a pensar em ti. E, quando penso, o teu corpo vem até à palma da minha mão.

Madalena olhou para a sua mão nua, aberta e um pouco suada.

Teresa: E depois, querida?

Madalena: E depois o desejo espalha-se pelo meu corpo e agita-me.

Teresa: E tu fazes-te, querida?

Madalena riu-se.

Madalena: Às vezes. Outras vezes abraço-te e adormeço por embriaguez.

Calaram-se por uns instantes. As palavras agora ditas em silêncio ouviam-se através da pele. Respiravam profundamente.

Madalena: Tu és linda, mulher.

Os cantos da boca de Teresa arquearam.

Madalena: Teresa, tu és uma brasa de cair para o lado.

Teresa: E tu és podre de boa.

Madalena: Poder de boa, Teresa? Já não sou uma miúda para ser podre de boa.

Teresa: Tu deves ter tipos em fila atrás de ti.

Madalena: Não tenho nada.

Teresa: Tens, querida. Porém, quem te anda a comer sou eu.

Madalena riu-se.

Teresa: Achas que estou a falar como os homens? O que te pareço?

Madalena: Pareces-me muito excitante.

Madalena fechou o riso.

Madalena: Tu é que és boa. Muito boa. E eu gosto que sejas boa. E adoro ter uma mulher boa como tu. E talvez um dia te possa levar muitas vezes a passear para te exibir e comer quando quiser. Gostaste, querida?

Teresa: Gostei imenso.

Teresa respirou fundo.

Teresa: Sobretudo gostei da ideia de passear contigo muitas vezes. De teres dito que um dia gostavas de fazer isso. Adoraria ser exibida por ti e ser comida as vezes que quisesses. Mas tu não me amas para tanto. Porque foste dizer isso.

Madalena: Tu gostavas de ser exibida por mim?

Teresa: Quando digo que te amo, falo a sério. Só não me quero exibir com alguém que quer que tudo termine.

Madalena: Por vezes és obtusa, tu. E um bocadinho autista. Tu não percebes que eu não posso amar uma mulher que não quer viver ao meu lado?

Teresa: Estou confusa. Não podes amar mas amas. E queres que acabe porque eu não saio do armário?

Madalena. Até que enfim!

Teresa: Mas porque andaste a dizer que não me amavas?

Madalena: Porque não é justo que eu te ame. Não mereces. Quebraste-me há vinte anos atrás. E agora vens dizer que me amas mas só queres estar comigo às escondidas. Queres manter a tua imagem para o mundo. E eu não estou para aturar isso. Não confio em ti. Não te vejo capaz de reparar o que fizeste no passado. E só havia uma forma de o fazer: assumindo o nosso amor.

Teresa: O que sei é que sinto um amor enorme por ti. E que já não me imagino a viver sem ti. Vivi vinte anos numa perfeita loucura. Portanto, tenho que dar uma solução a isto.

Madalena: Queres dar uma solução a isto? Queres terminar?

Teresa: Olha, Madalena, tu também és um bocadinho obtusa. Mas eu respondo-te depois. Tenho umas coisas para tratar antes de te dizer. Por hoje, só quero fazer muito amor contigo.

Madalena: E como queres que eu faça amor contigo sem saber?

Teresa: Tens que confiar em mim. Por muito que te custe.

Madalena: Está bem. Vem cá ter.

Teresa: Chego um bocadinho tarde, meu amor.

Madalena: Eu espero.

Teresa esteve quase para lhe dizer o que tinha para tratar. Mas achou que Madalena não a compreenderia imediatamente. Não tinha disposição para argumentar com ela. Sentia-se vergada pela novidade que Madalena lhe trouxera. Em vez de se sentir feliz e, por isso, leve. Porque com este dado novo era preciso mudar de vida. Agora já fazia sentido falar com Clara. Era mesmo necessário. Seria o seu primeiro passo em direção a Madalena. “Vou contar-lhe tudo este fim-de-semana. Amanhã mesmo".

publicado por Cat2007 às 23:06
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Setembro 29 2016

Clara encetou uma reflexão.

Clara: Por exemplo, desde o início que ela me deu liberdade para pensar e agir. Porém, de acordo com um conjunto de princípios e de regras que são dela. Porque é minha mãe e os filhos devem seguir as linhas orientadoras dos pais.

Joana estava profundamente calada.

Clara: Ela é uma pessoa coerente. Esses princípios e regras são que melhor servem a sua forma de sentir e de pensar.

Joana mantinha-se calada. Porém, agora estava estupefacta com o que Clara lhe ia contando.

Clara: A questão é que me levou a crer que todos eles seriam tão bons para mim como são para ela. Em suma, a minha mãe educou-me como se fossemos iguais. Durante muito tempo convenceu-me. Até há pouco o meu maior objetivo era ser como ela. Alcançar aquele especial tom de azul. Lembras-te?

Joana: Sim. E já não é?

Clara: Não. O azul que eu quero está conquistado. É o teu. De resto, a cor é apenas uma coincidência. Tu és minha por isso tenho o teu azul. Que é completamente diferente do dela. Porque tem uma função muito distinta na minha vida.

Ofereceu a Joana um sorriso cândido.

Clara: O que sinto por ti extravasa, naturalmente, o universo particular das minhas relações com a minha mãe. Um universo que, até tu apareceres, era quase toda a minha vida.

Joana deu-lhe um beijo suave na boca. Ali mesmo no bar.

Clara: Não sei como ela reagirá à nossa relação. Não sei o que fará. Agora, quanto à mentira, não tenho dúvidas. Ela odeia a mentira. E nisso somos quase iguais. Embora ela seja bastante mais fundamentalista do que eu. Portanto, já vês, sinto-me muito desmoralizada. E estou com medo.

Joana: Medo dela?

Clara: Sim. Principalmente.

Joana: Querida, tu e a tua mãe vivem num estado anormal de sujeição relativamente à verdade. A verdade é um princípio. Uma linha orientadora de comportamentos.

Clara: Pois. É o que eu digo. A verdade é fundamental.

Joana: Querida, a verdade, enquanto princípio, ponto de partida para os nossos atos, deve ser respeitada. No entanto, não podemos olhar para ela com a submissão cega de quem é desprovido de sentido crítico e de bom senso. Sob pena de fazermos mais mal do que bem aos outros e a nós próprios. O facto de não teres contado imediatamente à tua mãe que namoras comigo não é um grande pecado. Nem chega a ser verdadeiramente uma mentira porque tu nunca quiseste manter a tua mãe na eterna ignorância. Se não fosse a necessidade que tens de resolver certas coisas na tua cabeça já lhe terias contado.

Clara: Com certeza. Mas eu contei-lhe uma série de mentirinhas que, todas juntas, significam que já lhe preguei uma grande mentira sobre a pessoa que eu sou.

Joana: Bem, estás mesmo decidida a contar-lhe já?

Clara: Sem dúvida.

Joana: Quando vais contar-lhe?

Clara: Neste fim-de-semana.

publicado por Cat2007 às 22:22
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Setembro 29 2016

Estavam sentadas no bar da faculdade. Joana tinha ido à aula de opção que Madalena lecionava.

Clara: Então, como foi a aula.

Joana: Foi interessante. A matéria é interessante. De resto no news, como sempre.

Clara: Mas ela não te pede para conversar?

Joana: Não. A única vez que conversámos sobre nós, foi aqui no bar. Já te contei.

Clara: Sim. Mas é uma mulher estranha. Que tu não tenhas nada para lhe dizer, eu compreendo. Estás comigo. No entanto. Ela podia querer dar mais alguma satisfação, saber de ti… não sei

Joana: Mas eu disse-lhe que andava contigo. Contei-te. Além disso, ela deixou-me por causa de outra. Por causa daquele amor antigo. Não te lembras?

Clara: Lembro. Mas achas que andam?

Joana: Não sei. Mas é provável. Não sei…

Clara: incomoda-te falar deste assunto.

Joana incomodava-se muito. Mas não pelas razões que Clara ponderava.

Joana: Não, amor. É que se trata de um não-assunto. O meu encanto por ela acabou por tua causa. Era uma idiotice o que eu sentia. Que coisa mais cliché. A aluna deslumbrada pela professora com o dobro da idade. Agora vejo como tudo isso é ridículo. Como eu me comportei de uma forma ridícula.

Clara: Sabes que eu tinha ciúmes dela, não sabes?

Joana: Sim. Mas pensavas que eram ciúmes de amiguinha.

Clara: Pois pensava. E tu pensavas o quê?

Joana: O quê o quê?

Clara: Sobre mim.

Joana: Bem, ciúmes não tinha. Porque tu não me apareceste com ninguém à frente. Mas tinha sempre muita vontade de estar ao pé de ti. Sentia saudades tuas. Claro que me questionei. Mas não encontrava respostas. Nem me atrevia a empreender sobre o assunto. Porque tu eras heterossexual, afinal de contas. Mas para que me estás a obrigar a dizer-te estas coisas outra vez?

Clara: Porque gosto de ouvir, querida. Mas agora, mudando de assunto, queria falar-te da minha mãe. Tenho que lhe contar de nós

Joana sentiu-se estremecer.

Joana: Outra vez… Não percebo porque estás a falar disso agora.

Clara: Porque ela sabe, Joana.

Joana: Ela sabe? Se ela soubesse…

Clara: Ela conhece-me. Disse-me que eu estou diferente. Ela só não parou para pensar. Mas conhece-me bem. Em pouco tempo vai chegar a conclusões.

Joana: Tenho impressão que te sentes culpada. E é por isso que dizes essas coisas.

Clara: Ela sabe de nós, querida. E quando ela perceber que sabe… Quando ela realizar que não lhe contei. Que andei a mentir-lhe… Ela jamais me perdoará.

À medida que se ouvia, Clara ficava mais convencida do que dizia. Os seus receios materializavam-se. A ansiedade aumentava. Ficou muito inquieta.

Joana: Amor, meu amor, escuta-me. As mães perdoam tudo às filhas. Tudo. Porque não as querem perder.

Clara: Tu não compreendes, amor. A minha mãe tem tantas qualidades. Tantas. Tu sabes. Só que a cabeça dela às vezes complica-se.

Tinha uma ponta de desespero na voz.

Joana: E como é que a cabeça dela se complica?

publicado por Cat2007 às 21:18
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Setembro 29 2016

 

Comecei a fumar com 16 anos (um horror, bem sei). No princípio, menos de meia dúzia de cigarros por dia. Assim, fumava tudo o que tinha para fumar na rua. Sem sentir qualquer tipo de necessidade quando estava em casa. Não obstante, andava sempre preocupada com, por exemplo, o cheiro da roupa e dos cabelos. Tinha medo de ser descoberta pelos meus pais. Sobretudo pelo meu pai. Um grande autoritário. Que às vezes me metia medo -  vem a propósito dizer que eu não sabia que o meu pai já tinha sido um fumador inveterado. E que tinha largado o tabaco há cerca de 10 anos. Na verdade, ele fumava cerca de três maços de cigarros por dia, sendo certo que eu nunca o vi fumar.

 

Bom, mas para o que importa, importa dizer que eu não me sentia bem com aquilo. Aquilo da marginalidade. A minha cabeça inconsciente não via onde estava o mal em fumar, pelo que não compreendia porque tinha de esconder. É verdade que sou transparente. E franca. Que detesto viver na mentira. E sobretudo não aguento ter de lidar diariamente com o medo. Assim, cheia de medo fui falar com o meu pai. “Pai, sabe que eu fumo? Não fumo muito mas fumo”. Ele não estava à espera de tamanha frontalidade. Se fosse ele a descobrir, seria o diabo. Porém, como era eu quem contava, ficou um tanto desarmado. “Não digas disparates. Não fumas nada”. E eu: “Fumo, fumo”. E ele: “Então deixas de fumar”. E eu, num atrevimento inusitado: “Mas eu gosto de fumar. Olhe, pai, eu fumo e estou a contar-lhe. É a única coisa que eu faço contra as regras do pai. Mas se me der autorização, é diferente. Deixa de ser contra as regras. Saiba que comigo pode sempre contar com a verdade. Nunca hei-de fazer nada nas suas costas”. Creio que ele aceitou porque já andava preocupado com a eventualidade de começarem a surgir namorados. Gostou, portanto, de saber que tinha uma filha que não lhe mentia.

 

Dois anos mais tarde. Aconteceu-me outra coisa que era contra as regras. Contra as regras de toda a gente. Por terror, por vergonha e por causa de uma certa confusão que se instalou em mim, não lhe contei. Acontece que ele descobriu. Era, de facto, contra as regras de toda a gente, porém, ele gostou da ideia. Eram regras que nunca lhe tinham ocorrido. Gostou da ideia. E disse-mo. Fiquei incrédula, a princípio. Envergonhadissima também. Mas, depois, com o tempo, começei a andar incomparavelmente mais leve.

 

Tudo isto a propósito de contar as coisas a quem nos importa.

publicado por Cat2007 às 15:35
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Setembro 28 2016

Quando Teresa chegou a casa, Clara já lá estava. Como sempre. Esperava por ela estendida no sofá. Via televisão. Como se não tivesse estado a tarde inteira com Joana. Teresa passara a noite com Madalena. Agora estava em casa para jantar com a filha e passarem o serão juntas.

Teresa: Olá, meu amor.

Clara: Olá mãe. Vem cedo para o que é costume.

Teresa: Queria estar contigo. Tenho saudades tuas.

Clara: Pois. Eu também. Mas a mãe agora resolveu passar as noites fora.

Teresa: Eu não passo as noites fora, Clara. Fico algumas noites fora.

Clara: Nunca a mãe passou tantas noites fora. Além disso, acho-a diferente.

Teresa alarmou-se

Teresa: Como assim, menina?

Clara: Anda diferente. Dá a impressão que está um bocado distraída.

Teresa. É curioso que digas isso. Porque diferente estás tu. Pareces um bocado apática. Além disso, deixaste de usar pijama.

Clara: Estou apática porque estou em época de frequências. Mato-me a estudar. E não deixei de usar pijama.

Teresa: Não? Então explica-me esses calções curtíssimos e essa camisola de alças. Estamos em pleno inverno.

Clara: A mãe sabe perfeitamente que não faz frio aqui em casa. Temos o ar condicionado.

Teresa: Mas porque deixaste de usar pijama? Desde pequenina que tu adoras vestir o teu pijaminha.

Clara: Está bem, mãe. Deixei de usar pijama. Porque já não sou pequenina. Aliás, sinto-me bastante mais crescida.

Teresa: Sim? E o que te fez crescer assim tão de repente?

Clara: A idade, mãe. As coisas acontecem com a idade.

Teresa: Não estejas a brincar comigo, menina.

Clara: Sabe bem que eu tenho demasiado respeito por si. Jamais brincaria consigo. Além disso, a mãe mudou de assunto. Quem começou por dizer que estava diferente fui eu. Até parece que disse alguma coisa grave.

Teresa: Deixa-te de imaginar coisas. Eu não estou nada diferente. Eu sou uma pessoa equilibrada e constante, tu sabes.

Clara: Sei. Mas creio que desta vez, como em vez nenhuma do passado, a mãe está seriamente apaixonada.

Teresa: O que sabes tu de paixões, garota? Que eu saiba, nunca te apaixonaste na vida. Só estudos e desporto…

Clara: A mãe não tem que me explicar nada. Eu compreendo que tenha um namorado. E fico contente por estar apaixonada. No mais, não quero saber quem é. Não é preciso. A menos que a mãe esteja tentada a fazer o inédito: assumir uma relação.

Teresa: Muito bem, é verdade. Estou apaixonada. Mas não me passa pela cabeça assumir nada. Por isso não vale a pena contar-te seja o que for.

Clara: Tenho alguma curiosidade, confesso. Mas respeito-a.

Teresa: E tu, quando arranjas um namorado? Está mais do que na altura.

Clara: Ora, a altura certa é quando acontece, como sabe.

Teresa: E nada acontece?

Clara: Só posso dizer-lhe que sou alheia ao que sucede.

Teresa pensou que Clara lhe dizia que ainda estava à espera de se apaixonar.

 

publicado por Cat2007 às 23:22
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Setembro 28 2016

Almoçavam em casa de Joana.

Joana: O que te perturba é que ainda não compreendeste devidamente o teu comportamento.

Clara: O meu comportamento?

Joana: Sim. Ainda não percebeste bem como te aconteceu isto. Isto de estares apaixonada por mim. Portanto, ainda não aceitaste.

Clara ficou indignada.

Clara: Não aceitei?

Joana: Não. Mas deixa lá, também eu ainda não aceitei muito bem. Mas, no meu caso, é a qualidade do sentimento.

Clara: Não me venhas outra vez com a estória de que isto pode ser muito e não ser nada. Porque, desta vez, eu não te perdoo.

Joana: Não. Ando a pensar nesta coisa de assumir. Como deves imaginar, todas as experiências que tive antes de ti, e com exceção da Madalena, passaram-se no Porto. Ora, no Porto não se assumem coisas destas. Pelo menos no sítio de onde eu venho. A minha família sabe porque eu contei. Mas fingimos todos que nada se passa. Dai que eles acharam uma boa ideia esta de eu vir estudar para Lisboa.

Clara: Sim. Eu já sei dessas coisas. Mas dizias que andas a pensar sobre assumir…

Joana: Pois. E peguei num dicionário para ver qual é o significado de lésbica.

Clara riu-se.

Clara: Que dicionário?

Joana: Uma porcaria qualquer que tenho aqui em casa.

Clara: E o que dizia?

Joana: lésbica: mulher homossexual.

Clara encolheu os ombros.

Joana: Daí que fui ver o significado de homossexual. Que quer dizer: atração e/ou comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo.

Clara: Portanto, não é preciso gostar de ti. Basta andar metida na cama contigo.

Joana: Acho que sim. Se não quisermos complicar muito as coisas.

Clara riu-se.

Clara: Querida, ora complica lá as coisas.

Joana tirou um pequeno dicionário debaixo do sofá.

Joana: Heterossexual: relativo à atração ou ao comportamento sexual entre duas pessoas de sexo diferente.

Clara: Noto que os heterossexuais são pessoas e que os homossexuais são indivíduos. E que mais?

Joana: Conclui-se que, se o ato e/ou a atração bastam para definir e diferenciar, é muito complicado ser alguma coisa.

Clara: Porque falta à noção pelo menos o conceito de permanência ou de regularidade e, principalmente, um razoável de sentimento.

Joana: Sim. É pelo que fazemos recorrentemente e, acima de tudo, pelo que sentimos que somos lésbicas.

Clara: Vendo as coisas assim, então, admito facilmente que sou lésbica. E terei mesmo orgulho em sê-lo. Orgulho em ti. Naquilo que tu és e me faz amar-te. E também por tu, que eu vejo tão especial, gostares de mim como gostas. Em suma, tenho orgulho em nós e no nosso amor.

Joana: Eu também tenho orgulho em nós.

Joana beijou-a devagar.

Joana; E mais, amor?

Clara: E mais? E mais a palavra lésbica… Detesto-a. Tenho de confessar.

Joana: Talvez seja pela conotação que socialmente lhe é dada. Que é maior, muito maior do que o seu significado.

Clara: Ou talvez porque, sendo um rótulo, choca. Choca que se rotulem as pessoas por causa daquilo que elas sentem. Eu, na verdade, não sei se gosto de mulheres. Porque te adoro. Não seria capaz de gostar de outra. De estar com outra.

Joana: Creio que uma pessoa, quando se apaixona a sério, deixa de ter orientação sexual.

publicado por Cat2007 às 22:19
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Setembro 27 2016

Teresa: Como podes estar tão certa disso? Eu vou para a cama contigo praticamente todos os dias. Sei coisas de ti. Coisas que tu sentes. Que tu não fazes questão nenhuma em esconder quando fazemos amor. Tu não estás comigo só pelo prazer.

Madalena: Claro que não. Estou contigo porque te desejo imenso. Olha para ti. És a mulher mais bonita que eu alguma vez conheci na vida.

Teresa: Ora, Madalena. Há muitas mulheres bonitas.

Madalena: Mas nenhuma tão bonita como tu.

Teresa: A beleza de alguém não é tanto o que se vê mas o que se sente. Eu acredito em ti. Achas que eu sou a mulher mais bonita que conheces mas…

Madalena: És a mulher mais bonita que eu já alguma vez vi.

Teresa: Ou isso. Mas, como ia a dizer, a beleza que dizes que eu tenho é sentida por ti.

Madalena: Pois é. E então?

Teresa: Então, estás apaixonada por mim.

Madalena: Ah! Isso é diferente. Claro que estou apaixonada por ti. Mas já não te amo.

Teresa: Mas eu amo-te.

Madalena: Mas eu não te amo porque tu, há vinte anos atrás, me deixaste partida. Nunca mais amei ninguém tão profundamente. Porque eu, apesar de só estar contigo há dois anos, amava-te profundamente. Por causa da entrega que foi total e sem reservas.

Teresa: Amavas-me como eu te amava. Mas era um amor que não tinha sido testado.

Madalena: E quando foi, tu deixaste-me. Já falámos sobre isso.

Teresa: Por causa dessa entrega eu, que te sufoquei dentro de mim, durante todo este tempo, libertei-te, libertei-me e percebo que continuo a amar-te.

Madalena: Mas eu, por causa do que me fizeste, deixei de te amar. Porque deixei de acreditar em ti e passei a duvidar de mim.

Teresa: Então como permitiste que eu me aproximasse tanto outra vez?

Madalena. Eu não queria. Mas tinha que acontecer. Só tu me fazes sentir assim. Era impossível dizer que não à vida.

Teresa: Faço-te sentir assim como?

Madalena: Tu disseste que sabes como me fazes sentir.

Teresa: Eu explico-te o que te faço sentir, dizendo o que tu me fazes sentir.

Madalena: Sim, bem sei que é a mesma coisa. E o que é que eu te faço sentir?

Teresa: Madalena, tu fazes-me sentir viva e feliz.

Madalena: Teresa, tu fazes-me sentir arrepios na espinha e tremores nas mãos. Tu desorientas-me os sentidos porque os sons, as imagens, a textura da tua pele, o teu cheiro e o teu sabor se misturam todos ao mesmo tempo. Então eu já não sei se o que vejo é o mesmo que toco. Se o teu gosto é igual ao teu cheiro… Contigo eu viajo para fora deste mundo e regresso como se nunca tivesse voltado. Ando na vida a sentir-me muito mais viva. Porém, isto não me faz feliz. Quero que passe.

Teresa: Porém, estás com medo. Diz antes assim, querida

Madalena: Agora és tu que me chamas querida no fim da frase?

Teresa: Sim. Porque me deixaste com tesão. Compreendes, querida?

Madalena: Mais tesão, querida?

Teresa: Com certeza, meu amor. Percebo que seria mais fácil para ti se eu não te chamasse, meu amor. Era melhor estar só apaixonada como tu estás. Acontece que eu sinto as duas coisas ao mesmo tempo. Amor e uma paixão desenfreada como a tua.

Madalena: Seria mais fácil porque eu quero que isto acabe.

Teresa: Tens medo de que essa paixão te leve ao amor outra vez.

Madalena: Teresa, francamente, Tu falas de amor mas estou certa de que não te ocorre partilhar a tua vida comigo. A tua homofobia é que me garante que esta minha paixão não vai resultar em amor nenhum.

Teresa: Já não me apetece ir a Sintra. Estamos em Cascais. Porque não fazemos um lanche ajantarado ao pé do mar?

Madalena: Está bem. Gosto de ver o mar enquanto olho para os teus olhos. Parece a mesma coisa. Vamos.

Teresa: Não penses que tentei evitar o assunto da minha homofobia, que é real. Apenas não me apetece falar disso agora. Porque estou confusa nessa matéria. Por outro lado, quero encetar uma manobra de engate sobre ti, querida.

Madalena: Estás a aprender comigo, querida.

publicado por Cat2007 às 19:53
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Setembro 27 2016

 

Estou a empreender sobre o amor. É verdade que o amor só vem depois da paixão? É necessário tempo para o amor surgir? Penso sobre as relações que acabam depois de a paixão terminar. E naquelas que se mantêm e onde parece que a paixão não termina (não me refiro, neste ponto, ao estado de paixão do tipo: “estamos a dar voltas seguidas na montanha russa”. Mas ao estado de apaixonado do tipo “continuo encantada”).

 

No entanto, a maior parte das relações começam na referida montanha russa (bem sei que nem todas. Porém, importa para o presente discurso partir do princípio de que são todas). E se a maior parte das relações começam na montanha russa, sempre há um momento em que a coisa há-de parar. É um facto. Depois deste facto, e simplificando, as relações acabam ou continuam. Parece que, a crer na vox pop, o amor começa aqui. No momento em que a relação faz a viragem do tipo “estamos a dar um passeio de barco no rio de margens lindíssimas”.

 

Posto o que fica dito, a questão que coloco agora é sobre o tempo. Quanto tempo é preciso andar na montanha russa? Há barcos disponíveis para passear no rio a partir de que época? Em suma, quanto tempo é preciso correr até que surja o amor? Não sei a resposta. Mas sei que há amores que surgem muito depressa e que se instalam nos espíritos das pessoas envolvidas para o resto da vida.

 

Então e o que fazer quando um amor deste género “para o resto da vida” é interrompido? Ou seja, quando as pessoas se afastam por coisas da vida. Ou melhor, quando a vida afasta as pessoas. Concretizando com exemplos, quando uma das pessoas se quer ir embora porque não tem força para sustentar esse tipo de amor. Nestes casos, é possível retomar a relação mais tarde? E muito mais tarde? E será que este tipo de amor morre ou não morre, aconteça o que acontecer. Para já, ficam as questões.

 

publicado por Cat2007 às 16:12
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Setembro 26 2016

Madalena: Não me apetece sair daqui. És tão quente. E lá fora faz tanto frio.

Teresa: Não temos que ir já. Mas temos mesmo que ir.

Madalena: E tem mesmo que ser a Sintra? É longe, querida.

Teresa: No meio daquela serra sente-se uma energia única. Positiva. Uma pessoa sente-se bem lá. Acalma os nervos.

Madalena: Por acaso, é verdade. Mas não me apetecia nada ir. Ficávamos aqui na cama e…

Teresa: Nem pensar. Levanta-te.

Teresa saltou da cama.

Madalena ficou irritada

Madalena: Olha lá, não vais aparecer o dia todo à tua filha? Passaste cá a noite. Não achas que ela vai estranhar, por acaso?

Teresa: Não vai estranhar porque pensa que arranjei um dos meus namorados do costume, já te expliquei isso.

Madalena: Um dos teus namorados do costume. Que horror!

Teresa: Seria um horror depois de estar contigo outra vez.

Madalena olhava pelo vidro para a rua relativamente calma. Distraída foi perguntando a Teresa o que queria ela, afinal.

Teresa: Quero dizer que te amo profundamente. Em contas certas, há vinte e dois anos que te amo. É disto e de tudo o que tem a ver com isto que te quero falar.

Madalena: E era preciso irmos para Sintra para me dizeres essas coisas? Querida, tu dizes-me todos os dias que me amas.

Teresa: Para que te estás a armar-te em insensível?

Madalena: Não sou insensível. Apenas não me comovo com as tuas declarações de amor.

Teresa: Eu sei que não és insensível. Todos os dias me dás provas do contrário. No entanto, é espantoso que nunca tenhas dito que me amas. Nem nos momentos mais loucos da nossa paixão, quando está nos meus braços e te perdes de ti… nem aí tu dizes “amo-te Teresa”. O que tu gostas é de dizer “querida”. Como se estivesses numa manobra de engate permanente.

Madalena: Porque tu és a minha querida. E sim, contigo estou numa manobra de engate permanente. Dá-me tesão. Compreendes?

Teresa: Estás a tentar enervar-me.

Madalena: Deixa lá. Vais acalmar quando estivermos envolvidas pela boa energia de Sintra.

Teresa: Agora merecias uma bofetada.

Madalena: Desculpa. Sei que estou a ser imbecil. Mas venho contrariada. O que queres?

Teresa: Quero que fales comigo como uma adulta.

Madalena: Eu sei bem o que tu queres. Queres ligar-nos à terra. Mas eu não quero. Estou bem como estou. Trabalho na tese durante o dia, estou contigo ao fim da tarde e muitas vezes passamos a noite juntas também. De permeio dou as minhas aulas. Não desejo mais nada. Está tudo perfeito.

Teresa: E ligar-nos à terra significa o quê, para ti?

Madalena: Significa que tu queres alterar as coisas. Não sei muito bem em que sentido. Mas queres.

Teresa: É preciso clarificar os sentimentos. Ninguém vive assim pra sempre.

Madalena: E quem te disse que eu te queria para sempre?

Teresa: Acaba já com esse teatro! Eu sei que me amas. Sei muito bem que me amas.

Madalena: Não, Teresa. Não te amo. Há vinte anos que não te amo.

 

publicado por Cat2007 às 20:26
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Setembro 26 2016

Passou o Natal e chegou janeiro. Joana regressou do Porto e Madalena de Bragança. Teresa e Clara emergiam também do recolhimento familiar em que tinham estado toda a semana passada e onde foram felizes como sempre na Alameda. Porque estavam sem elas e uma com a outra. Como outrora. A paixão e a mentira colaboram. Por vezes colaboram. E quando assim é as almas andam pesadas, os espíritos confundidos e os corpos ficam demasiado doridos e indolentes. Em janeiro é costume ter esperança de que alguma coisa vá acontecer. De que algo vá mudar para melhor. É sempre assim no começo de um novo ano. Joana compreendia bem que não poderiam viver assim. A fazer amor às tardes e a viver apenas de angústias antes e depois. Teresa reconhecia que não poderiam continuar só a fazer amor. Clara desejava que a mãe a compreendesse e aceitasse. Madalena ansiava pelo dia em que lhe fosse permitido desligar-se de Teresa.

Os reencontros sucederam como o que se aguardava. Embora mais furiosos ainda. Por causa dos afastamentos. As peles rolaram. E rodaram. E colaram. Por fim, as bocas sacrificadas afastaram-se só para respirar um bocadinho e deixar entrar a saudade.

Joana: Até amanhã, amor.

Clara: Até amanhã, meu amor

Madalena: Adeus, querida.

Teresa: Adeus, amor.

E os dias foram passando assim repetidos mas cheios de coisas novas. Como sempre. Tal qual tinha sucedido no ano velho. Costuma ser assim no ano novo. O tempo passa sem que se produzam grandes alterações nas vidas. A menos que se tomem decisões muito sérias.

Teresa: Amanhã é sábado. Quero ir passear contigo amanhã pela tarde. Vamos a Sintra.

Madalena: Vamos a Sintra fazer o quê?

Teresa: Passear de carro. Nunca fomos passear juntas. Tu só queres estar aqui.

Madalena: Sabes bem que eu estou aflita com a tese. E…

Madalena não queria outra vida com Teresa. Basicamente aterrorizava-se com a ideia de serem namoradas.

Teresa: Madalena, não me dês desculpas. Em vez de irmos para a cama amanhã à tarde vamos passear a Sintra.

Madalena: Mas eu prefiro ficar a fazer-te. Não me canso e sinto sempre falta. Tu não? Tu sim. Eu sei que sim. Tu também preferes ficar na cama comigo em vez de ir agora para Sintra.

Teresa: Não.

Madalena: Não? Estou a errar as fórmulas químicas, já vejo.

Teresa: Não. Quero mesmo falar contigo.

Madalena: Então, querias passear e afinal é para termos uma conversa? É assunto sério?

Teresa: Não te armes em parva. Chegou o momento de falarmos sobre nós em termos diferentes do que temos feito. Sem a sombra do passado.

Madalena: O passado está vivo.

Teresa: Não é para discutir esse assunto hoje. É amanhã. Quando formos a Sintra.

Madalena: Vai ser uma conversa igual a mil que já tivemos.

Teresa: Veremos.

publicado por Cat2007 às 19:01
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