CAFÉ EXPRESSO

Setembro 23 2016

Há já algum tempo que Joana esperava por ela à porta do prédio da Alameda. Finalmente, Clara mandou uma mensagem. “Desculpa não ter dito nada. Amo-te.”. Joana respondeu-lhe: “Estou à porta da tua casa. Desce. Também te amo.”.

Joana: Vamos ver o mar?

Clara: Sim.

Joana levou- a para cima do mar. Ali a seguir ao Estoril. Perto de onde morava. Sentaram-se em frente a duas chávenas grandes de café. Bebiam de luvas. Estava frio. Mas não chovia. O céu estava muito limpo. E o sol de quase inverno empalidecia o mar.

Clara: Tenho que contar à minha mãe.

Joana: Tens mesmo?

Clara: Sem dúvida.

Silenciou-se por alguns instantes. Depois retomou.

Clara: Quando percebi que te queria tive em consideração a impossibilidade de te ter por sermos duas mulheres.

As palavras saiam-lhe em perfeita sintonia com os pensamentos. Assim se explica uma certa imprecisão do seu discurso.

Joana: Que impossibilidade? A que tu inventarias fugindo? Não te iludas. Não me pareces capaz dessas provações.

Clara: Porque não?

Joana: Porque tu és muito maior do que isso.

Clara: O que sabes tu?

Joana: Tudo o que tenho de saber.

Clara: Sempre soubeste que isto ia acontecer?

Joana: Não sei. Quando te falei pela primeira vez, foi como se te conhecesse de toda a vida. Em pouco tempo, tornou-se evidente para mim que o espaço entre nós gradualmente se encurtava. O espaço físico que separava o meu corpo do teu. Confesso que cheguei a pensar nisso mas de uma forma fugaz porque me era proibido raciocinar nesses termos. Depois, havia também a Madalena, que me mantinha distraída de ti.

Clara: Sim. A Madalena. Ainda não falámos da Madalena. Mas não falámos porque eu te sinto como sinto. Estou cheia de certezas em relação a ti.

Joana prosseguiu.

Joana: E um dia, sem eu esperar, a tua mão deslizou sobre a minha, apertando. Foi esse o momento. Tudo se conciliou em mim imediatamente. Foi esse o instante em que tudo me pareceu absolutamente certo.

Clara: Mas depois eu fugi de ti.

Joana: E eu não te segui. Porque tu fugiste. Importou-me, portanto, dar razão à tua atitude. Convenci-me de que, depois de termos revelado tudo uma à outra, o mais importante para mim era não te perder. Deixar de te ver, de estar ao pé de ti. Tive medo de que isso acontecesse se fosse em direção a ti sem muitos cuidados.

Clara não respondeu porque perdeu os olhos no mar dos olhos dela. O cheiro forte da maresia invadiu-lhe o pensamento. O espírito encheu-se de recordações sobre o que acontecera naquela noite depois do cinema. A febre. Os sonhos violentos. A manhã seguinte. Lembrou-se de como lhe explodira o coração. E das lágrimas vermelhas que se soltaram, manchando-lhe o rosto de sangue.

Clara: Eu sofri muito. E no fim estava decidia a nada. Queria simplesmente afastar-me de ti. Ao contrário de ti, não me bastava sentir. Por isso desejava não sentir nada.

Joana: Tu iludiste-te mais do que eu.

Clara: Sim. E agora, como te sentes agora?

Joana: Sinto que o que está a acontecer entre nós é muito forte, Talvez forte de mais. É uma coisa muito violenta. Eu fico sem capacidade de raciocinar. Parece que estou com uma pedrada. Como posso eu chegar a conclusões num estado destes?

Clara: Podes. Tenho a certeza que podes. Diz-me.

Joana: Olha, eu tenho muito medo. Não sei onde isto nos vai levar.

Clara: O que queres dizer?

Joana: Que pode parecer muito. E não ser nada. Uma alucinação. Uma viagem. Não sei.

Subitamente Joana passou a ouvir-se, pelo que decidiu rapidamente calar a voz pouco firme. Calou-se, pois, de imediato. Deu também conta que termia um pouco das mãos. As suas últimas palavras encerravam perfeitas imprecisões. Mentiras mesmo. “Pode parecer muito e não ser nada”. Tentava afastar-se de si. Comandar apenas com a cabeça. Via bem que as mentiras que dizia agrediam cruelmente Clara. Talvez estivesse a fazer-lhe isto para a fazer pagar a angústia da manhã. Até agora, ainda não tinha ouvido qualquer justificação. Mas começava a arrepender-se. Já desejava ardentemente que ela dissesse qualquer coisa. Porém, Clara emudecera. Apenas a fitava. Foi assim por uns instantes longos para Joana. Depois, como se estivesse a acordar, levantou-se lentamente e virou-lhe as costas. Fiou de frente para o mar. Joana preparou o coração para ouvir. E Clara por fim falou.

Clara: Não há nada pior do que a falta de coragem e a mentira. Não há nada pior.

publicado por Cat2007 às 20:40
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Setembro 23 2016

 

A manhã já ia a meio e Clara não aparecia. Ligou-lhe por diversas vezes e deixou-lhe mensagens sem fim. Não respondia. Há muito que a angústia lhe perfurava o peito. O estômago revoltava-se. Principiava a sentir náuseas e as consequentes dores de cabeça. Dirigiu-se ao bar para tomar uma água com gás.

Madalena: Olá.

Joana estava demasiado absorvida para ouvir.

Madalena: Joana. Olá…

Finalmente Joana virou-se para o som e abriu melhor os olhos.

Joana: Olá, Madalena. Como vais?

Madalena: Estou ótima. Ainda bem que te apanho aqui fora das aulas. Nunca mais falámos a sós. E eu precisava de falar contigo a sós. Tenho andado preocupada contigo.

Joana: Preocupada comigo. Porquê?

Joana conseguia perfeitamente antecipar as preocupações de Madalena.

Joana: Está bem. É capaz de ser bom falarmos um bocadinho a sós. Mas hoje não. Não estou muito bem-disposta. Vou para aquela mesa. Se quiseres, podes sentar-te ao pé de mim. Gosto sempre da tua companhia. Mas conversar, não.

Madalena: Está bem.

Sentaram-se.

Madalena: De qualquer forma, eu só queria saber se tu estás bem depois do que aconteceu entre nós.

Joana: Madalena, eu estou bem. Nem sequer estou magoada contigo. Mas, como te disse, não estou muito bem-disposta para falar.

Madalena: O que se passa estás doente?

Joana: Dói-me a cabeça.

Madalena: Queres uma Aspirina?

Joana: Obrigada.

Madalena: Como disse estou preocupada contigo. Com o que aconteceu. A forma rude como te deixei.

Joana: Estás a ser insistente. Mas está bem, eu respondo-te. Está tudo ultrapassado. Claro que foste fria e egoísta. Claro que o meu ego se amachucou. Mas é tudo natural. Tu nunca me enganaste. E eu também não estava apaixonada por ti. Apenas te desejava.

Madalena: E já não desejas?

Joana: Conheci outra pessoa. De repente, tudo se alterou em mim. A minha estória contigo já não me importa.

Madalena: Nem a rejeição?

Joana: Madalena, eu não tenho essa cabeça. Quero lá saber da rejeição. Levei uma tampa. Está dada. Não haveria de ficar presa a ti por causa de uma parvoíce dessas.

Agora Madalena sentia a sua vaidade atingida. Nunca desejara que Joana sofresse. Mas também nunca imaginou que pudesse ser tão facilmente descartada.

Madalena: Fico muito contente por ti. Mas não deixa de ser verdade que me estás a dar uma pancadinha no ego.

Joana: Olha, não tem nada a ver contigo. Continuo a pensar que és muito atraente. Mas é o meu novo amor. Sim. É um amor.  Não tenho espaço para mais nada. Se ela não tivesse surgido, talvez eu ainda estivesse a pensar em ti como uma jovem idiota que também sou. Mas isso agora já não faz sentido nenhum.

Madalena foi sincera.

Madalena: Estou aliviada. Gosto muito de ti.

Joana: Eu também gosto muito de ti.

Madalena: Mas conta-me. Quem é ela? É aqui da faculdade? Como foi que aconteceu?

Joana: É da minha turma. Na verdade, tu sabes quem é. Aconteceu tudo de uma forma muito inesperada. Nem sei explicar-te. Mas, para o que importa, estou completamente apaixonada por ela.

Madalena sentiu o corpo a gelar por partes.

Madalena: Eu sei quem é?

Joana: Sim. É a Clara, aquela colega de turma. Falei-te dela.

Madalena: Sem dúvida.

De facto, não havia dúvida. E agora?

Joana: E tu. Como estás com o teu amor antigo?

Madalena: Como?

Joana: Sim, com aquela mulher do teu passado com quem foste para a cama.

Madalena: Estou como tu, muito apaixonada. Mas não estou como tu. Não a amo.

Madalena ia respondendo sem dar muita atenção ao que dizia. Tinha os pensamentos tomados por Teresa. “Como vai ser isto agora?”

Joana: Acho isso estranho.

Madalena: É porque ainda és muito jovem. Não ligues.

Joana: tenho de ir.

Madalena: Eu também. Ela está à tua espera?

Joana: Olha, eu é que tenho estado à espera dela toda a manhã. Só que ela não aparece nem me diz nada. Portanto, tenho que ir à procura dela. Beijinhos.

Joana afastou-se enquanto Madalena ficou quedada cheia de frio. “E se a Teresa já lhe contou? E se a miúda for como a mãe, e resolveu contar primeiro?”. Fechou as golas do casaco para se tentar reconfortar. “Não. Não aconteceu nada disso. Mas aconteceu qualquer coisa para a miúda ter faltado às aulas. Enfim não sei”. Em relação a Teresa, Madalena sabia bem era de química. Previa alterações químicas.  

 

publicado por Cat2007 às 19:18
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Setembro 23 2016

 

Isto por aqui tem andado um bocado parado. Se considerarmos que os capítulos publicados não dizem respeito às minhas atividades. Sim, porque este blog respeita essencialmente às minhas atividades.

 

Por outro lado, confesso que a ideia de publicar os capítulos do livro (eu chamo-lhe livro mas pode ser por mera pretensão) me está a assoberbar agora. É que agora tenho que escrever muita coisa de raiz, sendo coerente e tentando manter o estilo. Porque a coisa ainda só vai a meio. Na verdade, até aqui limitei-me a fazer copy & paste daquilo que já estava escrito. Neste momento, tenho muito feito, inclusive o fim da história. Mas precisa de ser tratado. Estou assim obrigada a proceder diariamente a tal tratamento. E é então por isso que não falo das minhas outras atividades. Por falta de tempo.

 

No, entanto, hoje pode ser aqui. Aqui do trabalho. Consegui fazer (acabando agora) um parecer (para o ministro) num dia e meio. Que era para ser feito em cinco dias. Andava quase em pânico. Com o prazo de cinco dias. Achava que era curto. E, portanto, como andava em pânico, fui gastando o prazo sem fazer nada. Porém, como disse, fiz num dia e meio. Claro que não ficou como eu gostaria. Mas para o que importa, o parecer foi validado sem objeções. Estou francamente aliviada. E com tempo.

 

No fundo, o que estive a dizer era para chegar aqui. Ao tempo de que agora disponho para escrever qualquer coisita. Não que o trabalho tenha acabado. O trabalho nunca acaba. Mas posso remeter os assuntos para segunda-feira.

 

Gostaria agora de falar do tempo. Em minha opinião, o tempo está o ideal porque já posso vestir os meus blazers. Com o calor que estava não se podia praticamente andar vestida. Por isso, embora não gostando particularmente (por não estar habituada), acabei por aderir aos vestidos. Agora já estou habituada, podendo dizer que já gosto de vestidos. É claro que se o feedback tivesse sido negativo, seria uma única vez que me vestiria assim. Tem que se compreender que eu era insegura quanto aos vestidos.

 

Nesta linha de raciocínio, vale a pena reconhecer que dependo do alheio. Não me importo muito com o que dizem. Mas preocupo-me com o que verdadeiramente as outras pessoas (com quem me cruzo e interajo) pensam. Os outros. Creio que, no que diz respeito aos raciocínios não exteriorizados, as pessoas são muito mais honestas do que quando falam. Disse honestas mas posso corrigir para sinceras (porque há gente que é intelectualmente desonesta).

 

No entanto, não me importo que alguém não goste sinceramente de mim. Ou dos meus vestidos. O que importa é a sinceridade em detrimento de jogos jogados só para chatear. E a este propósito, vem a propósito dizer que também não faço questão que me massagem o ego. De uma forma falsa ou sincera. Não importa. As pessoas que fazem essas coisas aos outros querem sempre qualquer coisa em troca. E eu gosto de dar. Mas não me posso espalhar, perdendo-me de mim e dos meus interesses e necessidades. É de sublinhar que as pessoas que nos alimentam o ego, não o fazem, pensando em nós mas nelas próprias. Como sabemos.

 

publicado por Cat2007 às 14:48
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