CAFÉ EXPRESSO

Outubro 31 2016

Despiram-se com rapidez apenas aparentemente apartadas. Em seguida mergulharam nuas na cama. No ato, os corpos foram um de encontro ao outro. Abraçaram-se com força. Madalena falou-lhe ao ouvido.

Madalena: Meu amor. Quero-te para sempre, meu amor.

Teresa não disse nada. Apenas a apertou mais. Madalena alisou-lhe os cabelos com a mão de fora, destapando-lhe o rosto. Beijou-lhe as faces muito devagar.

Madalena: És tão bonita. Meu Deus!

Teresa segurou-lhe a cabeça com as duas mãos e prendeu o olhar no dela. Madalena ficou entontecida com o fulgir daqueles olhos, no momento, cor de prata como o mar quando é coberto pelo sol. Aproximaram as bocas indolentemente. O beijo assim paliado queimava os lábios antes do encontro. E depois foi uma labareda que se acendeu. Em desespero, as línguas molhadas tentaram sem esperança mas com vicejo apagar aquele fogo que se reacendia a cada suspiro. As bocas colaram-se porque derreteram sob aquele calor insuportável. Pararam por desazo. Não conseguiram aguentar tamanho fervor. A temperatura desceu um pouco. Com cuidados, separaram os lábios vagarosamente. Teresa pôde então falar.

Teresa: Não acredito que estás aqui assim. Minha. Toda e só minha. Finalmente.

Madalena: Há muito tempo que só sou tua. Desde sempre. Mas também não acredito que estás aqui. Habituei-me a amar-te na tua ausência. Nem sei se sei fazer melhor contigo do que o amor que faço contigo.

Teresa: Não há mais nem melhor a fazer. Faz amor comigo todos os dias. Cola-te a mim assim para sempre. Vamos buscar esses vinte anos de amor ausente e vivê-los hoje com raiva e ternura.

Madalena: Com paixão e loucura.

Teresa: Com fome e com sede.

Madalena: Nem há vinte anos isto foi assim, minha querida.

Teresa: Há vinte anos ainda tínhamos vergonhas.

Madalena: Hoje o mundo é nosso. E o mundo está dentro desta cama aqui e agora. E amanhã estará no meio da rua para onde formos passear de mãos dadas. Vens passear amanhã comigo de mãos dadas?

Teresa: Com certeza. Eu sou uma exibicionista. Gosto de te exibir, boa. Porque tu és boa. Toda a gente vai ter inveja de mim. Olha, já sei. Vamos para o Chiado. Almoçamos lá. Dás-me comida à boca com o teu garfo e beijas-me na boca de cada vez que eu engolir.

Madalena: E tu seguras a minha mão e agarras-me com força para eu não cair por causa das tonturas.

Teresa: Depois vamos andar a pé a comer gelados. Tu comes da minha boca e eu como da tua.

Madalena: É perfeito porque gostamos as duas de chocolate. Vamos comprar dois gelados de chocolate. Quero ser assim. Pouco imaginativa. Livre para ser pobre de espírito e poder elevar o meu espírito bem alto com o teu.

Teresa: Podemos ver montras e experimentar fatos-de-banho. Escolhemos logo uma meia dúzia para provar. No fim, não provamos nada. Só uma à outra dentro do provador.

Madalena: E não compramos nada?

Teresa: Compramos todos, se quiseres, meu amor.

Madalena: Toma um chocolate.

Teresa: Toma um beijo.

Madalena: Dá-me vinho.

Teresa: Bebe vinho.

Madalena: Amanhã estaremos no Chiado a refluir.

Teresa: Pois sim. Estaremos zonzas mas é de amor. E agoniadas de paixão.

Madalena: Bebe vinho, Teresa.

Teresa: Posso deitando umas gotas de vinho nas tuas mamas e chupar? Gostava de ir bebendo assim.

Falou-lhe ao ouvido em voz baixa.

Madalena: Teresa, tu és a mulher mais ordinária que eu alguma vez conheci.

Teresa: Tu nunca conheceste outra mulher.

Madalena: Que me amasse assim, não.

Teresa: Que te amasse. Ponto.

Teresa ia bebendo. A pele de Madalena ir arrepiando por partes. Abriu as pernas e enlaçou Teresa pela cintura.

Teresa: Tens umas belas pernas. E umas mamas deliciosas. Sabem a vinho de boa qualidade.

Madalena: Toma outro chocolate. Vem tirar-mo da boca.

Teresa pousou o vinho e atirou-se a ela, mordendo-lhe levemente a boca para lhe arrancar o chocolate pela metade. As mãos delas andavam perdidas pelos vários ângulos, dobras e linhas dos corpos confundidos. Até que se reorientaram. Madalena entrou nela. Teresa encaixou o golpe e respondeu com superioridade, arqueando o tronco para cima. Depois Madalena saiu rapidamente e voltou a entrar. Teresa deixou cair o corpo e voltou a subir. Estiveram neste movimento sincopado pelo tempo de uma eternidade. Dos cantos dos olhos de Teresa escorriam lágrimas que pingavam salgadas sobre o rosto de Madalena. Sobretudo, sentiam aquele sal nos beijos bravios que trocavam.

Teresa: És tão puta!

Madalena: Tu é que és. Tu é que estás a ser fodida.

Teresa: Machona. Machista.

Madalena: Sim. Só para te agradar. Mas não podemos contar a ninguém.

Teresa: Tu não és uma mulher respeitável.

Madalena: E tu és uma mulher que não se dá ao respeito.

Teresa: Deixa-me comer-te.

Madalena: Só se eu puder fazer ao mesmo tempo.

Teresa: Vem

O quarto ficou em silêncio. Apenas se ouviam os rumorejos típicos.

publicado por Cat2007 às 23:41
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Outubro 31 2016

 

Os fenómenos físicos são o nosso barómetro mais fiável. Ou seja,  o corpo é que sabe. Toda a gente sabe. Portanto, desconfio de afirmações como "o meu peito encheu-se de alegria". Não. Porque o peito está mais leve. Se está mais leve, não pode estar cheio, mas vazio ou a caminhar para isso.

 

A importância das coisas importantes da vida quanto vale no seu todo? Em que estado ficarão as nossas coisas importantes face à realidade espelhada no Orçamento do Estado? O que é importante? São as aquisições, as procissões, as exibições, as representações e as apresentações? O que me importa pode ser medido em função do PIB?

 

O que é importante para mim? faço esta pergunta a partir de um ponto em que me encontro descentrada de mim mesma. Pouco interessada nos meus interesses de consumo imediato. E lembro que dentro deste conceito de consumo imediato cabe o sexo, ou o amor, ou outro tipo de afecto ou lá o que se queira chamar aos fenómenos.

 

O que é importante para mim? Faço a pergunta a pensar exclusivamente em mim. É assim que funciona. Embora pareça estranho. O que é importante para mim é uma questão universal que para o ser efectivamente deve ser colocada por cada um de nós. Por todos nós. E assim se atinge a universalidade. Cada pessoa a perguntar: "o que é importante para mim?".

 

Está errado por princípio questionar sobre o que é importante para os outros. E também está errado pelos princípios. Quando queremos saber dos outros antes de saber de nós raramente estamos de boa fé. Sustento esta afirmação com o instinto de sobrevivência. Uma pulsão natural que nos leva sempre a fazer as coisas mais correctas à luz dos princípios. E parece até que moral e instinto nada têm a ver. Mas têm. Com efeito, existe uma Lei Natural que rege todas estas coisas. De forma que tudo se encaixa. Nenhum ser humano mal preservado tem capacidade ou qualidade para partilhar positivo. Só negativo. Por vezes, meio negativo e meio positivo. Mas o meio negativo e o meio positivo não existem. Só a dúvida. A dúvida sobre a bondade de alguma coisa faz dela automaticamente uma coisa má. O bom não é meio nem mais ou menos. É bom. Se não é bom é mau.

 

Por exemplo, uma casa mal construída será sempre uma má casa. Não é aceitável que se diga "é uma casa com um bom quintal, mas tem um mau telhado e uns péssimos esgotos. Embora, as paredes sejam muito sólidas. Assim, é uma casa mais ou menos boa". Ninguém quer uma casa mais ou menos boa. Mesmo que tenha uma grande área. O bom e o mau estão relacionados com a utilidade e a expectativa que as coisas podem dar às pessoas.

 

Quem quer dar o que não tem só pode estar a querer enganar os seus visados. As boas intenções são suportadas por capacidades sólidas. As boas intenções irritam qualquer um porque são mais um modo de tentar obter satisfações pessoais. Dar não pode ser um acto pensado nem com especificas motivações. Dar é uma pulsão natural do ser vivo que está bem. Dar a voz. Dar o olhar. Dar a pele. Dar o suor. Dar o ombro. Dar a mão. Dar o tempo. Dar por instinto. Não há outra forma efectiva e util de dar.

 

O que é importante para mim? O que me lava a angustia? O que me faz sorrir porque respiro na plena capacidade dos meus pulmões soltos? Sorrir a sério talvez seja a maior das dádivas. Pela boa energia que instala. O Orçamento do Estado tira-me a capacidade de sorrir? Em caso afirmativo, o caminho que tenho a percorrer ainda é longo. Se falo do Orçamento do Estado é porque nem por sombras é para aqui chamado mas está na ordem do dia. Procuro ser actual, portanto.

 

O consumo. O consumo engorda. Ponto final. As pessoas querem dar e receber coisas de consumo. Por aqui medem o nível da generosidade do mundo. E depois admiram-se que se vejam envolvidas numa teia de relações de interesses que em nada satisfaz as suas necessidades ou, quando satisfaz, cria outras piores. Coisas que ninguém estava à espera. O antidepressivos, por exemplo, são coisas que os seus actuais consumidores não estavam à espera de ter de consumir. O médico deu a receita. O doente pagou a consulta. O doente nunca pensou que um dia ficaria assim doente.

 

Na verdade, o nivel de consumo necessário também se mede pelos indicadores fornecidos pelo instinto de sobrevivência. Tudo o mais que precisamos são valores. Quem não percebe isto, não vive, inventa fantasias tão letais como as SCUTS.  O instinto de sobrevivência manda essencialmente adquirir valores. A justiça, a lealdade, a verdade, a honestidade, o esforço, o trabalho. Os valores encaminham-nos para a paz pessoal. A paz pessoal liberta-nos os pulmões para nos abrir o sorriso. De sorriso aberto podemos dar tudo o que temos. Porque tudo o que temos pode ser dado sempre e a todos sem nunca se gastar.

publicado por Cat2007 às 20:09
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Outubro 30 2016

 

Os amores do passado. Parece que está tudo morto. Noto que não tenho uma relação de amizade com uma única pessoa com quem estive. E já vivi com algumas. Coisas tão intensas. E agora parece que não aconteceu nada. Vinha aqui falar sobre isto porque me lembrei do tema. Mas afinal acho que é uma seca. Na verdade, não me interessa nem um bocadinho a vida de todas essas pessoas. Como também acho que  todas essas pessoas não se interessam pela minha vida. É a vida

 

Com efeito, a maior parte, não foram verdadeiramente histórias de amor. Não foram. Mas foram paixões. Algumas muito fortes. Não obstante, quando acaba a paixão é tudo terra queimada. E isso parece não ter importância nenhuma. Pois lá voltamos à estória de que não é possivel comer um bolo sem ao mesmo tempo o perder. Até a recordação dele se apaga rapidamente. Queremos outro quando nos der a vontde de comer.

 

O que fica são processos ou estágios de aprendizagem e de crescimento emocional.  É o nosso património. O que fica são as experiencias de desejos satisfeitos.  E de outros que não foram. Ficam-nos as nossas boas razões aprendidas para ter terminado casos. Ficam-nos as tampas que levámos com todas as respetivas consequências sobre o nosso ego. Tudo processos vividos no momento. Tudo degraus que subimos. Ficam-nos as experiências.

 

Mas não nos ficam as pessoas. Concordo com isto. Não acho que seja mais uma maldade da vida que é indiferente. As paixões consomem-se, consumindo-nos concomitantemente. No fim não há mais nada a fazer ou a dizer. É assim.

publicado por Cat2007 às 15:41
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Outubro 30 2016

Madalena escutou Teresa atentamente. Por isso poucas vezes se intrometera no discurso dela. No fim, tudo o que Teresa dissera encaixara-se-lhe no espírito.

Madalena: Eu não podia imaginar que fosse assim. Que não pudesses ir buscar conforto a lado nenhum. Pensei que podia ter atravessado essa crise horrível contigo e…

Teresa: Não podias porque, como te disse, eu não queria ir buscar amparo a lado nenhum se a Clara não tinha nada, ninguém, em quem se apoiar. E, digo-te mais, foi por eu estar triste e muito só que ela depois se pôde reaproximar. Na verdade, também estava preocupada comigo. A minha amizade com ela também nos ajudou a sair da desordem em que ficou a nossa relação. Mas o principal foi o amor que nos une. O que seria se viesse ter comigo e me visse saudável e tranquila? Como é que a nossa cumplicidade se restabeleceria?

Madalena: Compreendo.

Teresa: Tu não foste trocada pela minha filha, Madalena. Simplesmente há coisas que temos de fazer na vida. Só nós. Este foi um caso. Se outros houverem, tudo se passará da mesma maneira. As pessoas, as relações entre as pessoas, não podem constituir uma aniquilação do eu em prol do nós. Subsistirão sempre áreas, questões, problemas individuais.

Madalena: Mas tu anteviste a possibilidade de eu te deixar e conformaste-te com isso.

Teresa: Conjeturei isso porque tu ainda estás traumatizada com o abandono de há vinte anos atrás. Se me visses desaparecer como desapareci, entrarias em pânico e a tua reação imediata seria não me quereres mais. E foi assim que aconteceu. Eu liguei-te e tu disseste o que disseste. Puseste-me a andar. E eu acreditei que afinal o teu amor mudara. Se não fosse a Clara a explicar-me que não era nada disso eu teria ficado completamente descoroçoada.

Madalena: Então porque não me procuraste?

Teresa: Porque era a ti que competia fazê-lo depois da rábula que inventaste. E fizeste. Vieste ter comigo à Alameda. Hoje, hoje não, que já passa da uma, ontem de manhã.

Teresa calou-se por fim.

Teresa: Estou muito cansada.

Madalena: De mim?

Teresa: Das tuas dúvidas e das tuas indagações. Dos teus filmes. Como é que uma mulher que é amada como eu te amo na cama pode duvidar do que eu sinto? Nós não temos simplesmente sexo. Nós fazemos um amor intenso, profundo, cheio de cumplicidades e mistérios partilhados.

Madalena: Vais começar a discursar outra vez? Pensei que estivesses muito cansada.

Teresa: Tens razão. Não vou dizer mais nada. Ou melhor, não tenho mais nada para te explicar. Não sei se me compreendeste realmente. Não sei se, mesmo compreendendo, te manténs à defesa…

Madalena: Só sei que fiquei um mês a tentar perceber como haveria de sobreviver sem ti. E que isso me encheu de terror. Espero que, da próxima vez que tenhas de fazer alguma coisa, me avises que não vais chegar tão cedo. Só isso. Quero mais vinho.

Teresa: Eu também. E um café? Não queres mais um café?

Madalena: Com certeza. Necessito de espantar este cansaço.

Teresa: Então vamos para a cozinha fazer café. Trás o teu copo de vinho. Vou abrir uma garrafa.

Tomaram o café de um trago. E decidiram levar o vinho para o quarto. Vinho e chocolates.

publicado por Cat2007 às 15:27
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Outubro 30 2016

 

As reuniões propriamente ditas, nacionais ou internacionais, enervam-me um bocado. Em primeiro lugar, parece que são espécies degeneradas de clubes privados. Quem vai à reunião e quem não vai à reunião. Isto pode dizer muito ou mesmo tudo sobre o estatuto de uma pessoa dentro de um determinado contexto profissional. Assim, e em primeiro lugar, sucede muito conceberem-se reuniões só para tal efeito.

 

Depois, e por outro lado, estar numa reunião é uma grande oportunidade de expressar opiniões pessoais sobre o que está bem, o que está mal e o que há a fazer. Um momento inestimável de apresentação, representação e projecção. Uma necessidade vital na era do anonimato, da falta de consideração e da ambição individual e individualista.

 

No fim de cada reunião marca-se outra para o mais breve possível. Só pelo tempo suficiente para concretizar pequenas coisas que servem para alavancar a próxima. Nunca para terminar um projecto rapidamente. Ainda que seja possível.

 

É a subsistência de problemas ditos mais globais ou de estrutura que justifica a continuidade das reuniões. Nestas circunstâncias, trabalhar equivale mais ou menos a um “toca a reunir” que efectivamente não deixa uma pessoa fazer nada.

 

Claramente detesto viagens tendo em vista reuniões internacionais nos casos em que é viável a videoconferência. E são muitos. Definitivamente abomino a espécie de reuniões que decorrem nos termos que descrevi. E são muitas.

 

publicado por Cat2007 às 12:37
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Outubro 29 2016

Teresa preparava-se para explicar a Madalena algo que ela própria ainda não tinha dilucidado. Era tão experimentada em submergir sentimentos que, agora que era necessário falar deles, sentia dificuldades em ordenar as ideias.

Teresa: Nem sei por onde começar.

Madalena: Pois. Não te é fácil falar de emoções.

Teresa: Não é. Mas, por outro lado, tenho muita facilidade em perturbar, como sabes querida.

Sentia-se ligeiramente irritada com ela. Porque lhe seria tão difícil perceber o que se passou naquele mês? Tinha impressão que Madalena já só estava a teimar.

Teresa: Pois bem, vivi os últimos vinte anos com aquela miúda que é minha filha. Não vou agora estar a dizer a importância que ela tem na minha vida porque isso são coisas do senso comum. No entanto, quero relembrar que a nossa relação é próxima demais. E chegou ao ponto em que eu me revia nela e ela queria ser como eu. Por ser uma mulher sozinha, não achei isso mau. Eramos companheiras uma da outra. Foi assim que ela cresceu. Quando me declarou ser lésbica, eu descambei porque se tratava de um dado totalmente inesperado, desenquadrado, contraditório e negativo face à imagem que eu tinha dela.

Madalena: Face à pessoa que tu querias que ela fosse.

Teresa: Sim. Tem algum mal querer que os nossos filhos sejam melhores do que nós? Para mim ser melhor do que eu passava por muitas coisas e baseava-se também no facto de ela ser heterossexual. O que eu queria era que ela fosse forte, honesta, leal. Que tivesse bom caráter. Que tivesse tudo para ser feliz. Na altura em que ela me contou, eu, apesar de já estar contigo outra vez, ainda não acreditava em gays felizes. Depois, tudo aquilo me pareceu culpa minha por ser lésbica. Lembro que eu lhe ia contar de mim no exato dia em que ela resolveu contar primeiro. Mas ia contar como quem faz uma fuga para a frente. Não tinha certezas nenhumas do que queria. Apesar de bem saber que te amava.

Teresa ia bebendo vinho e fumando enquanto falava de pé no meio da saleta. Madalena estava agora sentada no cadeirão bege.

Teresa: Como sabes, quando finalmente expliquei à minha filha que era uma gay (infeliz), foi a vez dela de tombar. Porque para ela eu passei a ser uma pessoa muito diferente daquela que ela idealizara. Não por eu ser lésbica mas por ser mentirosa e homofóbica. Depois, com o choque, também foi pensar que era homossexual por causas hereditárias, o que alterou a sua imagem de si mesma e a noção que ela tinha do amor com a joana. Destemperou e foi acabar com a Joana. Tudo isto junto, levou-a à depressão.

Madalena: Obrigada por me enquadrares. Porém, eu já sabia disso tudo. E continuo a não ver motivo para me deixares de falar durante um mês.

Teresa: Tu prometeste boa vontade e paciência. Espero que cumpras.

Madalena: Desculpa.

Teresa: Quando cheguei um dia a casa para falar com ela, estava no quarto. Sempre que eu estava em casa, ela ia para o quarto num sinal manifesto de que não desejava falar comigo. O meu coração ia-se despedaçando a cada dia.

Madalena: E porque não foste ter com ela ao quarto?

Teresa: Porque não é assim que funciona entre nós. Se ela desejasse conversar, viria até aos espaços comuns. Fechada no quarto, ela passava-me uma mensagem muito clara que pedia para não ser incomodada porque estava perdida e que eu seria a última pessoa capaz de a ajudar a encontrar-se, uma vez que perdera a confiança total em mim. Encontrava-me então impossibilitada perante o facto de a minha filha estar a desmoralizar estruturalmente e a sofrer em consequência. E era tudo culpa minha. Não te quis atender o telefone porque não te queria ouvir. A tua voz, o prazer, o amor, as lembranças boas. Não podia. Por uma questão de solidariedade para com ela. Não queria que viesses aqui ou a outro lado qualquer consolar-me. Eu não merecia tal refrigério. Eu tinha atirado a miúda para o tormento com as minhas atitudes egoístas e irrefletidas. Só me restava esperar e rezar para que ela recobrasse por si. Ou, se não recuperasse, para a levar a qualquer lado onde pudesse ser ajudada. Eu era a pária. Não podia fazer nada porque, sublinho, ela não queria e por isso não deixava. Portanto, Madalena, eu estive um mês sem te dizer nada porque foi esse o tempo que a Clara demorou a perdoar-me e, consequentemente, a recuperar-se. Se fossem seis meses, seis meses seriam. Ela é a minha filha. E se o que tu sentes por mim é amor, e não só tesão, esperarias por mim o tempo que fosse necessário. Se é amor, então devias ter-me dado o benefício da dúvida e não pensar logo que eu te tinha abandonado. Tu és uma excelente pessoa, Madalena, mas ficas triste quando te centras só no teu umbigo.

publicado por Cat2007 às 21:45
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Outubro 28 2016

Em função da má reação de Madalena, Teresa infletiu nas suas intenções. Calou-se por isso. Ficou a olhar para ela, observando-a através do fumo do cigarro.

Madalena: Ainda bem que desististe de ir por esse caminho.

Teresa: Não me digas que não estás a sentir porque é mentira. Basta olhar para ti. Para o modo como te mexes. Para as tuas mãos trépidas. Para a tua boca trémula. Para os teus olhos cintilantes. Estou certa de que, por ti, resolvíamos tudo num instante e íamos lá para dentro.

Madalena: Não sejas vulgar, Teresa.

Teresa: Ora, Madalena, tu gostarias muito que eu disse aqui umas palavras mágicas que te soltassem dessas rageiras a que te amarraste.

Madalena: Eu não me prendi a calabre nenhum. Estou apenas situada no nosso ponto de discórdia. Por outro lado, a que propósito eu iria pensar em sexo neste momento?

Teresa: A propósito de me desejares como eu te desejo.

Madalena: Sim desejo-te. Mas não estou no mood, como é óbvio.

Teresa: Exato não estás no mood porque não queres sair do spot enquanto eu não te explicar porque te deixei outra vez.

Madalena: É isso.

Teresa: Então eu explico-te. Eu não te deixei. Desta vez, jamais me passou pela cabeça deixar-te.

Madalena: Não deixaste? Então o que significou aquele mês de ausência e o consequente facto de teres admitido a possibilidade de me perderes? Tu nem sequer me telefonarias se não fosse a tua filha a incitar-te.

Teresa: Se a minha filha não me tivesse convencido, eu própria tomaria a iniciativa não muito depois. Por outro lado, admiti a possibilidade de me deixares tu, e não o contrário. Agora, também é certo que, quando te liguei, tu convenceste-me que o nosso amor estava ultrapassado. E que, portanto, iriamos passar a ser amigas, quase como duas irmãs. Assim sendo, se houve aqui alguém que deixou alguém foste tu a mim e nunca eu a ti.

Madalena: Tu realmente adoras convencer as pessoas com palavras. Só palavras. Nada de atitudes. Na verdade, Há uma enorme diferença entre o que tu dizes e o que tu fazes.

Teresa: Estás com falta de argumentos agora, querida?

Madalena: Teresa, tu não te ponhas a espicaçar-me com esse teu cinismo habitual. É claro que eu não te deixei. Eu só reagi a um ato de abandono. Tu abandonaste-me e eu deixei-te em seguida.

Teresa: Ah! Então sempre me deixaste.

Madalena: Teresa não me faças perder a paciência!

Teresa: Desculpa, Madalena. Sinceramente, não tenho vontade nenhuma de te ver exaltada.

Madalena: Também não me quero irritar. Mas não tenho nada contra discutir. Assim possamos resolver alguma coisa. Agora, se te pões com ironias e insolências é muito provável que eu me vá enfurecer.

Teresa: Olha, tive uma ideia, queres um copo de vinho tinto?

Madalena: Quero, por favor. É bom para os nervos. Tu dás-me cabo dos nervos.

Teresa: Isso mesmo.

Sorriu-lhe com os olhos.

Teresa: Depois de me deixares, vieste ter comigo aqui à Alameda. Para mim, foi como se nunca me tivesses largado. O importante foi rever-te, ter-te de volta… Só ainda não percebi porque vieste a esta casa. Eu podia jurar que nunca mais voltarias aqui. Não depois do que se passou há vinte anos atrás. A causa das coisas foi aqui que se deu. Porque vieste à Alameda?

Madalena: Porque tinha de me pôr à prova. Confirmar se realmente o trauma do teu abandono de há vinte anos estava superado. Essa ferida estava gravada em imagem. E essa imagem era esta casa. Eu disse-te que te perdoei. Necessitava de vir aqui confirmar isso.

Teresa: Mas o que esperavas sentir aqui?

Madalena: Esperava sentir o que senti. Aninho por tu cá viveres. Mas tive medo de, em vez disso, experimentar alguma fina angústia. Seria sinal de que o meu perdão não era pleno e que subsistiam ressentimentos em mim, o que nos retiraria qualquer chance.

Teresa: Se tu não viesses procurar-me eu acabaria por ir atrás de ti. Mesmo arriscando a suprema humilhação de ser rejeitada.

Madalena: No fundo, eu sei que virias. Sentimos as mesmas coisas.

Sorriu-lhe com ternura.

Madalena: Agora já só me falta saber o que se passou para ficares um mês sem falar comigo. E isso tens que me explicar porque eu não vou correr o risco de tu me abandonares assim outra vez. Foi uma tortura o que passei durante esse mês.

Teresa: Está bem. Eu explico. Mas promete que vais ser atenta e paciente. E também que vais ter boa vontade.

Madalena: Prometo.

publicado por Cat2007 às 21:58
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Outubro 28 2016

Pois ser uma pessoa insatisfeita. Não significa que seja uma pessoa aborrecida, descontente ou desagradada. É mais uma coisa de insaciedade. Falta de enchimento, de satisfação. Quando obtenho uma coisa quero sempre mais e melhor. Se sou promovida para um determinado cargo, quero o outro cargo acima. Depois de comprar um carro bonito, passo a considerar que havia outros mais bonitos para comprar. Se escrevo um texto, penso sempre que poderia estar muito melhor.

 

 

Claro que a insatisfação leva muitas vezes à desconsideração do que se tem e do muito que se conquistou. E depois fica-se com a impressão de que se é um pobrezinho ou um incapaz. O que pode induzir comportamentos como a ingratidão ou sentimentos mais baixos sobre a autoestima. É preciso estar numa luta constante para não cair da insatisfação abaixo.

 

Por outro lado, a insaciedade, tonifica o espírito para a luta e para o aperfeiçoamento duradouro. No fim, obtêm-se muito melhores resultados do que no princípio.

 

Seja como for, a insaciedade deixa sempre a sensação desagradável de estômago vazio.

 

Só não sou insatisfeita no amor. Menos quando não é amor. Ou quando, sendo amor, existe uma falta de entendimento e de cumplicidade básicas. No amor, não quero trocar de pessoa. Mesmo que ache que a relação possa ter algo a melhorar (porque todas têm). No entanto, no amor, é melhor não melhorar muito porque pode estragar. Nada de perfeccionismos no amor.

publicado por Cat2007 às 14:15
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Outubro 27 2016

Apenas para dizer que cheguei tarde a casa porque hoje tive sessão de psicoterapia after work. Falámos muito sobre a minha mãe. De como ela era e da relação que nós tínhamos. Do amor profundo que eu tenho por ela. Por isso hoje não me apetece entrar por aqui adentro a explicar as razões de Teresa. Razões que estão intimamente ligadas à relação dela com a filha. Desde o meio do livro que eu escrevo os capítulos diariamente sem um esboço onde me possa apoiar. Não é muito fácil. Sinceramente não sei o que vai suceder entre a Teresa e a Madalena. Apenas sei que hoje não posso adiantar nada. Amanhã publico. Sem falta. Obrigada.

publicado por Cat2007 às 22:54
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Outubro 27 2016

 

 

 

Estava a pensar na letra da música do vídeo que publiquei acima. É sobre uma pessoa que quer sempre mais, não valorizando devidamente o que de bom tem. Não adianta. Não basta. Tem que ter. Estes são os princípios das frases que aparecem. Para além da melodia, que é muito bonita (passe a má qualidade do som), foi isto que me prendeu a atenção. Encaixei a mensagem na perfeição porque me diz respeito. Eu também sou assim. Uma insatisfeita.

 

Depois hei-de dizer alguma coisa sobre o que acontece aos insatisfeitos. De bom e de mau.

 

publicado por Cat2007 às 16:15
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