CAFÉ EXPRESSO

Janeiro 06 2008

 

 

 

 

I

 

 

O povo é bom tipo.

 

O povo nunca é humanitário. O que há de mais fundamental da criatura do povo é a atenção estreita aos seus interesses, e a exclusão cuidadosa, praticada tanto quanto possível, dos interesses alheios.

 

Quando o povo perde a tradição, quer dizer que se quebrou o laço social, e quando se quebra o laço social, resulta que se quebra o laço social entre a minoria e o povo. E quando se quebra o laço entre a minoria e o povo, acabam a arte e a verdadeira ciência, cessam as agências principais, de cuja existência a civilização deriva.

 

Existir é renegar. Que sou hoje, vivendo hoje, senão a renegação do que fui ontem, de quem fui ontem? Existir é desmentir-se. Não há nada mais simbólico da vida do que aquelas notícias dos jornais que desmentem hoje o que o próprio jornal disse ontem.

 

Querer é não poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer. Creio que estes princípios são fundamentais.

 

II 

 

Tudo quanto de desagradável nos sucede na vida - figuras ridículas que fazemos, maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qualquer das virtudes - deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só têm que supor a nossa existência orgânica ou que preocupar-se com o que há de vital em nós.

 

Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.

 

Disse Horácio, falando do varão justo, que ficaria impávido ainda que em torno dele ruisse o mundo. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Ainda que em torno de nós rua o que fingimos que somos, porque coexistimos, devemos ficar impávidos - não porque sejamos justos, mas porque somos nós, e sermos nós é nada ter que ver com essas coisas externas que ruem, ainda que ruam sobre o que para elas somos.

 

A vida deve ser, para os melhores, um sonho que se recusa a confrontos.

  

Pois eu gostaria muito de ter escrito tudo o que antecede. Sucede que nada do que ali consta foi escrito por mim, mas por uma estátua. Esta:

 

 

Estátua de Fernando Pessoa no exterior d'A Brasileira.

publicado por Cat2007 às 16:24
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