CAFÉ EXPRESSO

Junho 07 2008

 

A baixa auto-estima é uma tragédia que afecta imensa gente. A busca de afecto é incessante. O lema é "gostem de mim, por favor!". Todos. Se alguém não gostar é o caos. Mesmo que esse alguém seja ninguém especial. Daí vem o medo da rejeição. Assim, medo e necessidade são os sentimentos dominantes que enredam o individuo numa malha de solidão. De afastamento das pessoas e do mundo.

 

Lembrei-me, há uns dias, que se podem resolver os problemas de baixa auto-estima através da acção. Pequenas acções. Grandes esforços, é certo. Mas agir. Agir. Agir. Fazer. Fazer. Fazer. Esquecer o eu. Meter a cara (como os brasileiros têm expressões que dão tanto jeito ao expressar!). Esquecer o eu. Mesmo que o ego doa.  A alma ameace esfumar-se. Cair abaixo do abismo do optimismo. Mesmo com o evidente medo. Abrir o peito. Jogar tudo. Jogar o medo. A morrer de medo. E agir. Agir. Mesmo com medo. E afogar o medo. A morrer de medo. Mas agir virado, concentrado no mundo. Nas outras pessoas. Fazer um esforço pelos outros. Esquecer o eu. Agir. Não esperar. Esperar apenas o reflexo dos actos.

 

Pois a ideia é essa: o resultado do reflexo dos actos próprios. Se é verdade que a necessidade é do afecto dos outros, mais certo é ainda que falta muito afecto próprio. Se é correcto que se sente muito a falta de aceitação por terceiros, o maior drama é a aceitação pessoal pelo próprio. É por isso que eu digo que o segredo está no agir. Os actos, ao contrário dos pensamentos, produzem os seus efeitos no mundo exterior. Os pensamentos são invisíveis. Ao contrário, o resultado dos actos é apreensível como o que se vê a partir do reflexo de um espelho. O indivíduo tem de agir para ser ver a partir de fora. Ver as coisas apreciáveis que é capaz de concretizar através de um reflexo de fora para dentro. O ser actua no mundo. O mundo reflecte o acto que apenas deste modo é visível para o próprio. A auto consideração sobe, assim, gradativamente com o agir. O maior obstáculo à vida de quem não tem amor próprio é o vício de ver sempre tudo de dentro para fora, quando o ponto de vista correcto é aquele cujo percurso ocorre de fora para dentro. É preciso perceber, repito, que o individuo luta pela aceitação e estima de si por si mesmo.

 

 A propósito de tudo isto lembrei-me também do tema "quando uma relação acaba". Quando uma relação acaba, na maioria dos casos há sempre alguém que fica mais magoado. É aquele que não queria que a relação acabasse. Quando uma relação acaba porque um deixou de gostar primeiro do que o outro, este fica pior do que o primeiro. Quando uma relação acaba, acabam-se as rotinas viciantes, os hábitos agradáveis, as habitualidades desagradáveis e tudo o que demais compõe uma realidade conjuntural. O fim de tudo isto representa uma mudança. Quem não tomou a decisão não está preparado para a mudança. Daí a aflição. Mas pior é a rejeição. Que não é exactamente uma rejeição, mas é vista assim. Quem é deixado sente-se afectado em toda a sua pessoa. Como se prestasse pouco. Como se valesse menos enquanto pessoa. O que é totalmente falso. O amor romântico ou a paixão não têm essa capacidade de fazer. De desfazer uma pessoa. O amor romântico ou a paixão terminam por razões que pouco têm a ver com a qualidade de cada um dos indivíduos.

 

publicado por Cat2007 às 23:50
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Eu, com certeza, teria muito a falar sobre esse tema. However, minha cabeça tem estado em constante "fluxo da consciência" e me sinto totalmente incapaz de dar direção a meu pensamento long enough pra falar o que quero. Direi uma coisa só: O medo é uma merda. Paralizante. Mas não adianta. Não nasci para ousadia ou pra ser um personagem Shakespereano. Vou vivendo meus conflitos internos com a "grandeza" de alguém (ou um ninguém?) em uma peça de Tchekov, que eu, à proposito, acho bem chatinho.
lee a 8 de Junho de 2008 às 03:53

Que pena essa semi-paralizia mental. Logo neste assunto que é a tua cara!!!!!!!!!
Cat2007 a 8 de Junho de 2008 às 12:24

Prometo voltar a ele tão logo consiga ordenar meus pensamentos, ok? Eu sei que esse tópico tem a minha cara. Infelizmente. ;=P
lee a 8 de Junho de 2008 às 16:27

Vou ficar à espera. E já agora... então e aquele convite de escrever aqui? Também vou ficar à espera.
Cat2007 a 9 de Junho de 2008 às 16:52

Algumas pessoas com baixa auto-estima têm anorexia da alma. Isso faz com que elas se vejam de forma distorcida e diferente da forma como as pessoas a sua volta as vêem. Outros não. Outros se vêem além (ou aquém) do que mostram aos outros e justamente por serem conscientes do que representam em seu meio, evitam se expor e por conseguinte, evitam à rejeição. Embora a maioria associe a baixa auto-estima à aparecência física, o pior tipo de sentimento de inferioridade é considerar-se inferior moral e espiritualmente. Para esses a velhice e a morte não colocam as coisas nos devidos lugares. E eles sabem que a longa espera à decreptude é no fim das contas muito breve, e não termina alí. Não posso divagar sobre o amor. Creio que tendo, como quase todos, a pensar que alguem com baixa auto-estima não ame com entrega com medo de logo perder, mas pode ocorrer justamente o contrário. Na impossibilidade de amar a si mesmo, poderíamos amar ao outro e negociar o sentimento de posse com filosofias ilusórias de um amor maior, desapegado, ainda que saibamos que o desapego é apenas uma estratégia para superar a perda.
Sorry. Achei que estava preparada pra dissertar melhor mas ainda não consigo organizar-me de modo a traduzir verbalmente o que penso/sinto, que não difere tanto assim. Emotividade racional. Já tem algum livro de auto-ajuda sobre o tema?
lee a 24 de Junho de 2008 às 13:40

Anorexia da alma, hem? Gostei da sintese, embora o anorético se veja sempre maior do que é, enquanto o auto-mal-amado se veja, em regra, pior do que é. Isto claro se não pensarmos no narcisico. Por isso a síntese, ou melhor, a imagemque usaste é óptima.

Creio que o sentimento de inferioridade tem, em qualquer caso, a sua génese no contexto emocional, por isso não consigo concluir como tu.

Sobre o amor, estás errada! LOL! Beijo
Cat2007 a 25 de Junho de 2008 às 19:26

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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