CAFÉ EXPRESSO

Março 01 2007

 

 

Há pessoas que querem manter-se sempre jovens. Assim, vão descuidando quaisquer responsabilidades de um adulto, deixando deliberadamente de assumi-las ou (não deliberadamente) de enfrentá-las. O que se passa é que tudo isto acontece por falta de desenvolvimento do senso moral. O sentido moral é o instrumento humano que propicia a superação de obstáculos íntimos ou externos. O Peter  não assume qualquer tipo de responsabilidade. É como se estivesse parado no tempo. O que, no caso dele, é mesmo verdade.

 

Também existe o "Complexo de Cinderela". Praga que atinge  mulheres e homens, embora, ao que parece, não de igual modo. Há menos homens Cinderelas do que mulheres. Faz todo o sentido. Entre outras coisas, os homens não têm os pés suficientemente delicados para aguentarem uns elegantes sapatinhos de cristal, salto 12 cm.

 

O "Complexo de Cinderela" consiste, basicamente, na mania que algumas (muitas) pessoas têm de procurar um grande amor, sendo que, tal amor, tem de ter, como objecto eleito, uma pessoa perfeita. Tal e qual! Uma pessoa perfeita. Claro que a perfeição de que aqui falamos,  é um conceito não científico,  objectivo, portanto. É a perfeição concebida pelas cabeças das Cinderelas, aquando das construções teóricas que desenvolvem durante a dedicada lavagem do chão da cozinha. Toda a gente sabe, as tarefas domésticas são extremamente relaxantes e dão muito tempo para pensar. O que é bom. 

 

Pelos vistos, todos temos um pouco a mania que somos Peter Pan. Ao mesmo tempo, todos procuramos o ser ideal para uma vida a dois, como a Cinderela. As diferenças (entre todos) é que uns somos mais assim que outros.  Com exclusão dos verdadeiramente manientos , dos patológicos, enfim, daqueles que deixam mesmo transpirar, por todos os poros da pele, estas desreguladas obsessões  e só se aguentam na base dos comprimidos hard , injecções, internamentos, choques eléctricos e lobotomias (as duas últimas técnicas já não se usam). Estes, são muito mais assim do que o resto da população. Não é deles que quero falar. Quero mesmo é deixá-los em paz.

 

A conversa é com os outros. Nós, portanto. Nós os consumidores activos ou potenciais de Xanax e antidepressivos. Todos nós, segundo as estatísticas (com excepção das pessoas que vivem no campo ou perto da praia). Nós queremos ser o Peter e somos, também, uma parva de uma Gata Borralheira, que há-de ser princesa, enquanto nós não. Já estou desconfiada de nós. Para começar, o Peter Pan é uma criança. Depois, não se percebe bem se é um rapaz ou uma rapariga (a despeito do nome). Dois obstáculos legais: Em Portugal só podem casar os cidadãos maiores de idade ou os menores, com mais de 16 anos, desde que devidamente emancipados pelos pais. O segundo entrave é que o casamento homossexual não é permitido. Ou melhor, só é legalmente viável o casamento entre pessoas de sexos diferentes. Então como é que o Peter Pan se vai casar se nem pais tem? E que idade tem o Pan ? Deve ter menos de 16 anos. Portanto, o problema dos pais nem se coloca. Como qualificar a Cinderela que habita dentro de nós? Um transexual, se se trata de uma Cinderela Pan? Mas, pode, no entanto, pertencer ao terceiro sexo. A Cinderela Pan. O Peter , só por si, já pertence.

 

Cinderela e Peter Pan vivem dentro de nós como um só. São um híbrido. Como se já não chegasse a própria hibridez do rapaz/menina. Fundidos, são ainda mais híbridos . Porque, então, temos, rapaz/rapariga/menino.  Como podemos nós andar bem?

 

Pessoalmente, estou-me nas tintas para a Cinderela . Andei a tomar, por enganos, comprimidos para a esquizofrenia e deixei de a ver e de a ouvir. Não sei se ela morreu dentro de mim. Sei que não a vejo e não a ouço. Agora, já posso reconhecer, com toda a tranquilidade: eu não sou uma pessoa perfeita.  O mais, fez o meu sentido de justiça. Fez-me pensar: então se eu não sou uma pessoa perfeita, como posso aspirar a conquistar alguém assim para mim? E também pude raciocinar nos seguintes termos: se eu não sou uma pessoa perfeita, como posso saber o que é a perfeição? Se eu não sei o que é a perfeição como vou reconhecê-la nos outros? E por fim pensei: a perfeição deve ser uma grande chatice. Logo não deve ser perfeita. Donde, não existe. Mesmo Deus, Nosso Senhor, tão perfeito, tão perfeito, e vai logo conceber umas criaturas como nós, capazes abrir buracos na Camada de Ozono. 

 

Já, agora, porque é que Deus é um homem? Imensa gente faz esta pergunta. Nos mais diversos locais. Pergunta-se a si mesmo no duche de manhã; no supermercado; no trânsito...Pergunta aos outros depois de fazer amor, durante um jogo de futebol, na praia... Já me perguntaram a mim. E nem me lembro em que situação foi. Deve ter sido no duche. Não faço ideia porque Deus, em imagem, é um homem. Mas, desconfio que é verdade. Se Deus tiver uma imagem, só pode ser a de um homem. Porquê? Não sei. Os extraterrestres também são sempre representados como humanóides. Pode ser pela mesma razão. E, mais, se os extraterrestres vêm do céu e se Nosso Senhor está no céu, então é porque são todos do sexo masculino.

 

Não vou discutir isto. Nunca fui ao Céu (quer dizer, já fui, mas não a este Céu de que estou a falar). Não tenho ideias nem argumentos. Não sei de nada. Apenas digo, ainda bem (ou não) que Deus e os Marcianos, em princípio,  não fazem sexo. Senão, eram todos gays. E, como se sabe, há quem não goste de gays. Onde ficava a fé das pessoas? O que faria o Paulo Portas aos domingos de manhã. É que deixava de haver igreja. O Colégio São João de Brito encerrava? O que diriamos ao Papa?

 

Será que Deus fala com os Marcianos e todos os extraterrestres, em geral? Porque nunca fala Deus connosco, os humanos? Será que não gosta de ser visto como  homem? Será que gostaria de pertencer ao terceiro sexo? Será que o Peter Pan é Deus? E a Cinderela , também tem alguma coisa de divino? Ao que parece, só terá se for homem ou pertencer ao terceiro sexo. Aposto que sim. Que, bem lá no fundo, a Cinderela é um homem.

 

Mas o Peter Pan não é homem. Já o disse. Em primeiro lugar, é um míudo. Depois, é um míudo/miuda-porém- não-transsexual. Peter Pan pode ser uma criatura do terceiro sexo. Já o disse. Agora, que isto que tenho vindo a escrever não tem qualquer lógica ou interesse, também é verdade.

Vamos ao que interessa. Como disse, acredito que me libertei da Cinderela . De modo que posso esquecê-la. Tenho pena de quem ainda anda com a mulher colada à parte de dentro das costas. Tenho a certeza que a criatura provoca umas dores terríveis nas costelas. E até pode conseguir partir alguma. Por mim, basta-me o Pan aos saltos. Saltos enormes que eu não consigo dar e que acontecem dentro de mim. É um inferno! 

 

Num determinado aspecto, sou tão irresponsável como o Peter Pan. Porém, não tenho o mesmo jeito que ele para a ginástica desportiva e para a esgrima. Igualmente, não tenho um batalhão de amigos que confiam em mim e me seguem para todo o lado, bem sabendo que eu sou naturalmente quem sou. Mais importante que tudo, não sou capaz de parar o tempo, ficando parada com outros dentro dele. Só sei ficar parada enquanto o tempo alheio a mim corre. Não tenho a velocidade do Peter para apanhar o tempo. É por isso que ele continua pequeno e ágil e eu estou para aqui uma adulta deprimente a lutar contra a adaptação com uma espada invisível. Eu queria lutar contra o Capitão Gancho.

 

Não acredito na maioria das coisas a que tenho de me adaptar. Se acreditasse, não gostava delas. Vou revelar um segredo. Acho melhor. Nunca fui irresponsável. Eu trabalho constantemente num processo de inadapatação muito consciente e responsável. Tenho muita pena de não ter  nada em comum com o Peter Pan . No entanto, sou capaz de parar o meu próprio tempo, de acordo com o ritmo que imponho. Mas o meu mundo é só meu. Tenho alguma pena.

publicado por Cat2007 às 12:25
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Reflexões interessantes!
Estava a pensar nisto de sermos imperfeitos e não podermos aspirar à perfeição dos outros... acho que concordo que não somos perfeitos e que por isso não é legítimo exigir isso dos outros, nem para eles nem para nós.
Mas talvez por sermos “imperfeitos” aspiremos em muitos momentos da nossa vida a que os outros o sejam, e isso é possível, basta imaginarmos os outros como sendo aquilo que nos gostaríamos de ser.
Afinal também não sei o que é isto de ser perfeito, será que é nunca nos enganarmos, sermos sempre cordiais, bem-dispostos, inteligentes, bonitos, sociáveis....? Será que seria isto a perfeição?
Porque não aceitarmos que somos perfeitos na nossa imperfeição? Não quero dizer com isto que somos completamente imperfeitos, quero dizer com isto que cada ser humano, por ser único, é perfeito. Cada árvore é perfeita, tendo mais ou menos ramos, mais ou menos folhas... será que um dia chuvoso e cinzento não pode ser perfeito? A perfeição, como sabemos depende dos critérios de cada um, os quais são influenciados pelo meio em que vivemos. Quem pode ditar o que é perfeito? Eu? Tu? Teríamos talvez milhões de definições de perfeição, tantas quantas as pessoas que vivem na Terra. Talvez só Deus possa saber o que é perfeito. Daí ter-nos “criado”, de acordo com os seus critérios de perfeição.
E já agora porque tem de haver perfeição? Qual é o problema de sermos “imperfeitos” (se é que o somos)? Porque exigimos tanto de nós? Saber aceitar as nossas “limitações” é provavelmente um sinal de perfeição.
Geralmente acredito que estamos aqui para nos melhorarmos a nós mesmos, mas isto que penso realmente pressupõe que somos imperfeitos... (esta reflexão está deixar-me confusa....).
Mas também se fossemos “perfeitos” segundo o critério seja de quem for, qual seria o sentido da vida? Não seriamos todos iguais? Porque Deus criaria seres que precisam de caminhar para se melhorarem a eles próprios? Será que Deus era um de nós que já lá chegou, foi pioneiro neste caminho?
Desculpem a presunção, mas talvez sejamos deuses em potência ou então a potência de Deus...
Não, os comprimidos que a Catarina tomou por engano não eram meus....  CQ
ccpcfq@hotmail.com a 3 de Março de 2007 às 01:10

CQ, em primeiro lugar, queria agradecer a delicadeza de teres comentado o texto. Se te interessou e te fez sentir vontade de dizer alguma coisa, foi mesmo bom teres dito. Para mim, quero dizer.
Por outro lado, não tenho dúvidas que és uma pessoa de grande inteligência e sensibilidade. Com efeito, compreendeste que o assunto, era apenas e só, a perfeição. Pese embora o anarquismo (propositado) da organização da estrutura interna.
Gostei da tua abordagem.
Se te apatecer posso ceder-te espaço para escrever aqui no blog.
Cat2007 a 4 de Março de 2007 às 13:17

Estou a passar pelo o mesmo criei um blog recentemente será o meu diario onde vou expressar os meus sentimentos e lutas contra o Peter que adoro e detesto gostava que fossem visitar e dar a vossa opinião


http://odiariodeumpeterpan.blogspot.com/
Anónimo a 24 de Abril de 2010 às 19:11

Ok. Está prometida a visita
Cat2007 a 25 de Abril de 2010 às 02:01

Obrigado...

Anónimo a 27 de Abril de 2010 às 13:33

De nada.
Cat2007 a 27 de Abril de 2010 às 14:02

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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