CAFÉ EXPRESSO

Março 05 2007

 

 

Antes de mais, o corpo serve para pensar a seguir a sentir pelo processo de absorver. Escrevi sobre o complexo de Peter Pan e Cinderela. Basicamente sobre a perfeição. Abri o Pessoa e lá estava. "Adoramos a perfeição porque não a podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivessemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito". Temos que aceitar que este homem já disse tudo o que havia para dizer.

 

Não me senti ridícula por não ser original e criativa. Para isso era precisa muita sobranceria. Falta-me. Felizmente. Talvez por não desejar nada. Não ter nenhum objectivo na escrita, para além de mexer as mãos e os olhos e os elementos dentro de mim enquanto escrevo.  

 

Gostei muito de escrever o que escrevi. Sem ter dito nada de novo. Sem qualquer assomo de criatividade. Gosto da minha desorganização. Porque é minha. O Pessoa é tão admiravelmente sintético.

 

Preciso desta actividade. Construi este espaço para mim. Não faço textos. Num certo sentido. Construo frases cujo sentido é o meu. Não existe uma estrutura projectada. Um plano pré-determinado. Não espero que gostem de mim pelo que escrevo. Para isso era preciso que me lessem mais do que escrevo.

 

Sei de amigos que vêm aqui visitar-me. Por saber, aconchega-me a presença deles. Porém, se um dia me faltarem, eu vou continuar aqui. Não vejo outra alternativa. Não tenho mais nenhum sítio onde colocar as palavras sobre assuntos que invento sem a capcidade de acrescentar nada na vida de ninguém. Tenho pena porque o que importa é a gente que se  situa para além de nós. A vida não tem sentido sem os outros.

 

Já compreendo que não é saudável ver as pessoas gostarem de coisas minhas que eu não gosto. Percebo que é muito importante aceitar-me. Não tenho de ser melhor do que aquilo que não sou. O desejo de excelência não deve afectar-me. Se um dia fizer bem que muita gente possa aproveitar.

 

O assunto comigo talvez seja fazer as pazes próprias. Se é que eu ando aborrecida comigo. O que pode até não ser verdade. Não gostava de ser outra pessoa. Olho em volta e não vejo ninguém, admirando tanta gente que é capaz do que eu não sou. Gosto de muita gente mas não quero ser diferente de mim mesma. Não posso. Se um dia mudar para melhor, é porque não mudei. Entrei apenas num outro nível de síntese.

 

Gostava de ter a boca um bocadinho maior, mas, para já, vou ficar com a que tenho. Se um dia fizer uma estética para aumentar a boca, não vou deixar que esta que agora trago desapareça. Isto é que é entrar num outro nível de síntese. Fundamentalmente, a mudança faz-se a subir degraus emocionais. Não. Não é a cabeça que muda. Mudam as emoções. E, na verdade, não mudam. Sintetizam-se com a apreensão da novidade que nada tem de novo.  Que nos chega e se ajeita dentro de nós num processo pacífico de aceitação dos efeitos do tempo na vida.

 

Tenho pena do que deixei para trás. Mas não há outra alternativa. Temos que deixar para trás tudo o que fica para trás porque o tempo nos empurra. O passado não tem existência material. É só memória. Não podemos mexer na memória. Nem com a falta dela. Esquecer não é perder. A sintese já ocorreu e muitos degrau nos suportaram. No futuro, que também não existe, seremos outros. A memória patrimonial somos nós em cada momento crucial da nossa própria história. No presente feito de todos os dias da nossa vida.

 

Segundo Thomas Mann, a alma é a energia da vida e o espírito é a forma interna que a vida assume, ao passo que o corpo consiste na configuração material da nossa existência ("José e os seus irmãos"). Escusamos de andar a fingir que o corpo é secundário. Como gostamos de mentir. Melhor, como o equívoco nos seduz! O corpo é uma espécie de pórtico. Nada pode atingir o espírito sem passar por ele. O espírito é cego, surdo, mudo e não tem nervos.

 

Gosto de chocolate preto, de coca cola zero e de cigarros. Gosto de ler e de escrever. Gosto de fazer amor. Gosto de qualquer manifestação de ternura com as mãos. Gosto de musica. Gosto de conversar. Preciso muito do meu corpo. Agradeço-lhe tudo o que me dá. Espero morrer quando o meu corpo estiver demasiado cansado e a minha alma estiver farta de me suportar o espírito já feito de uma certa forma inalterável.

publicado por Cat2007 às 12:13
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Excelente, deve ser 1 pessoa muito bonita, de corpo e alma...
Vitoria a 18 de Maio de 2010 às 10:49

Muito obrigada. Mas não serei. E não estou com falsas modéstias. Sou uma pessoa como as outras. Mas, muito obrigada, mais uma vez
Cat2007 a 18 de Maio de 2010 às 14:18

A memória patrimonial somos nós em cada momento crucial da nossa própria história. No resente feito de todos os dias da nossa vida.
Raquel a 31 de Julho de 2010 às 03:47

Poderia explicar isto melhor, mas...
Cat2007 a 2 de Agosto de 2010 às 10:28

Raquel, é verdade. O passado apenas existe enquanto parte do património da nossa memória emocional. É por isso que o passado é presente no sentido em que se entranhou na nossa forma de sentir actual, contribuindo assim para a contrucão do edifício inacabado que somos nos. Love you
Cat a 2 de Agosto de 2010 às 01:11

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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