CAFÉ EXPRESSO

Março 15 2007

 

 

É verdade. Na verdade, vou falar de verdade na verdade. Verdade na verdade quer dizer a verdade objectiva dentro da verdade subjectiva. Bem, well (como nos livros e peças anglo-saxónicas, e que aparece sempre nas traduções - o que ninguém compreende. Do género, "bem, está um dia de sol extraordinário"), mas como dizia, bem, na verdade, vou falar de ambas as verdades. A verdade de cada um e a verdade factual (posso, ainda, acrescentar a verdade que só Deus sabe. Mas esta talvez seja mesmo a factual. É que mesmo as intenções são factos. A dificuldade está em prová-las).

 

Portanto, a verdade dos factos é tão divina como a verdade de Deus. É que é  difícil controlar o labor interpretativo. Certamente, qualquer objecto carece de interpretação. Como compreendê-lo sem o instrumentalizar desta forma? Porém, é necessário parametrizar, limitando. Senão, não dá. Todos falamos e a língua é outra.

 

O problema é que, na maioria das vezes, e dentro de uma mesma conversa, uma esponja nunca é só uma esponja. Pode ser um objecto de absorção, um ser vivo, amarela ou de outras cores, tingida, para o banho ou para a louça, objecto de um homicídio por sufocação, detestada, amada, ignorada (SIM, HÁ QUEM NUTRA SENTIMENTOS POR ESPONJAS!). Mas nunca é só uma esponja. Não existe objectividade na interpretação. Logo, não há interpretações perfeitas porque certas. As pessoas não têm o divino poder de se controlar e evitar olhar para o próprio umbigo. É por esta razão que a falar é que a gente se desentende. Qualquer conversa suscita pontos de discórdia. Mesmo quando estes são inconfessáveis ou não são confessados. Aliás, qualquer conversa deve terminar quando a discussão já a substituiu. O ideal será retomar vinte minutos depois, quando todos estiverem mais calmos (qualquer manual de inteligência emocional dirá isto - de qualquer modo, não sei se estes livros existem).

 

Perante os mesmo acontecimentos, a minha verdade é diferente da tua verdade. Isto é absolutamente verdade. De resto, a minha mentira, também é diferente da tua, como adiante se demonstrará.

 

Pois a verdade sobre os mesmos factos pode resultar em factos diferentes, de acordo com as posições, observações e concepções  pessoais que se interpõem. Já ouvi dizer que "cada pessoa é um mundo". É capaz de ser verdade. Porém, na verdade, não me parece que a generalidade das pessoas gostem disso. Creio que temem a solidão. As pessoas que não gostam de ser um mundo individual. Acham que significa isolamento. O que se quer é ser-se especial. Quando se está com esta vontade mais latente, esta vontade de se ser especial, quer-se ser um mundo. Mas isso, isso é a fingir. As pessoas só querem ser vistas como especiais. Não querem realmente sê-lo. Ser especial é ser diferente. A democracia e a igualdade imanentes não suportam a diferença . Aqui ninguém quer ser especial porque aqui ninguém quer ser diferente. Custa muito. É por isso que ninguém se esforça para ser melhor. Antes, faz-se sempre um esforço para parecer melhor, especial e diferente , com o aconchegante pensamento que envolve: "graças a Deus que sou igual a toda a gente". Pois. À custa de tanto querer, bem se consegue.

 

A minha verdade é aquilo em que eu acredito. A minha mentira é aquilo que eu sei que não pode ser, mas digo que sim. Que é. posso dizê-lo a mim mesma. E acreditar, acreditando que a minha mentira é verdade. Trata-se de uma resultante da diferença entre o saber e o sentir. Aquele espaço que fica para percorrer entre o que se sabe e o que se sente sobre uma mesma coisa. Porque se começa ao contrário. Primeiro pensa-se e depois sente-se. O melhor seria, evidentemente, sentir e a seguir pensar. Não faço a apologia do comportamento fundamentalista do tipo irracional-descontrolado-expontâneo. Faço um apelo à autenticidade, Logo, à transparência nos comportamentos. Desejo espaços de liberdade de dizer em paz. Campos de troca com respeito próprio e meta-pessoal.

 

Se eu traisse alguém, trair, trair no sentido novelístico da palavra, não dizia. Porque há sempre uma razão para um comportamento.

 

Devemos perceber porque fazemos aquilo que não nos parece bem. Se somos do género de exercer a autopunição com categoria e empenho, ninguém será capaz de nos punir mais e melhor. Se somos do género radicalmente oposto, ou seja do tipo canalha sem vergonha, a crítica e o ressentimento dos outros só nos atingem enquanto nos faz sons incomodativos nos ouvidos. No mais, existe um lado solidário que os que mentem com coragem são capazes de exercer, enquanto que os canalhas sinceros esmagam as suas vítimas com a a verdade. Na verdade, não é preciso magoar as pessoas. Na verdade, há verdades que não acrescentam nada, além de muita dor para o receptor e um certo alívio para o emissor.

 

publicado por Cat2007 às 14:26
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"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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