CAFÉ EXPRESSO

Maio 16 2010

 

 

 

Todos nós vivenciámos experiências traumáticas na infância. É assim por definição. Mesmo os que de nós foram melhor protegidos e mais bem tratados. Sofrer pelo susto e pelo medo são elementos integrantes do conceito de vida infantil.

 

É fácil de compreender. Quem não tiver filhos pode sempre observar os filhos dos outros. Verificar a inocência e a dependência pela extrema fragilidade, que é absoluta. A calma, tranquilidade e a segurança das crianças, a sua lucidez particular, a sua felicidade, mesmo quando não têm muitas razões para a ter, existem naturalmente. Neste caso, é como se pudessem encontrar  a sua alegria em pedaços espalhada por labirintos. E encontram sempre. Um bocadinho aqui. Um bocadinho ali.

 
Mas os pais. As suas acções e reacções. Grande parte dos problemas infantis nascem, crescem e agudizam-se por culpa exclusiva dos pais. A agressão, o abandono, a displicência, a ignorância e, em suma, a incapacidade de saber amar. A incapacida de saber amar é muito importante aqui para o caso. Resulta inclusivamente, ou também, do excesso de amor (melhor, do excesso de zelo).
  
Ser mãe ou pai será a maior responsabilidade de um ser humano. E, eventualmente, ninguém pensa nisto com a devida seriedade. Ponho-me a pensar nas normas sobre o contrato de casamento. A união entre duas pessoas com vista a uma série de coisas, sendo a principal destas constituir família. Ou seja, e ainda que assim não seja, ter filhos. Procriar.
 
É muito católico isto. E se é católico é para ser bom, de acordo com as convicções católicas sobre o bem. É, de resto, igualmente, algo muito selvagem porque essencialmente instintivo. Podemos afirmar, até, que o espírito católico anda ligado à selvajaria, uma vez que a maior parte das suas regras têm raiz na organização dos indivíduos segundo o império das normas dos instintos primários. Desejo sexual, ordem natural e domínio.
  
Portanto, um casal sem filhos não o é verdadeiramente, segundo a bondade das convicções católicas. Por outro lado, é muito pouco católico não ter meios para alimentar, vestir e mandar as crianças para a escola. Embora subsista, sempre e em qualquer caso, a obrigação de procriar. Deus se encarregará de tudo aquilo que a incompetência ou a indignidade cristã dos pais não possa, mas deva. Digo que é muito pouco católico porque os católicos só toleram a pobreza nos monges.
 
Como em quase tudo, lucidez, generosidade, equilíbrio, e sorte são as palavras-chave.
  
Lucidez porque não basta a grande ajuda dada pelo instintivo amor mãe-filho/pai-filho. Na maior parte dos casos, é um amor sem reservas. Mas, também, na maior parte das situações, é um sentimento desordenado. O instinto de preservação da espécie que nos leva a desejar procriar. Se, por um lado, impulsiona o afecto visceral pela cria, por outro, tende a confundir a imaginação, provocando delírios de identidade espiritual com a pequena criatura. E culmina em projecções do ego dos pais sobre a identidade dos filhos. Dentro deste circunstancialismo, em princípio, o amor paternal desconhece o sentido da palavra liberdade. A lucidez está em admitir que ali está uma pessoa. Mesmo que seja uma pessoa muito pequenina, que não ande, não fale e não se saiba alimentar. Que não merece, por isso, muito respeito.
 
Mas pior do que isto, e trato agora da generosidade, é, ainda, o efeito tapa-buracos dos afectos. Buracos nos espíritos paternos e o amor pelos filhos a funcionar como uma espécie de massa de cimento milagrosa do espírito emocionalmente coxo dos pais. E aqui entra a generosidade que muitas pessoas não têm. Sobretudo as emocionalmente torcidas. Enfim, mas emocionalmente torcidos somos todos nós, porém, sem dúvida uns mais do que outros. Outros que vêm nos filhos o reflexo do seu ego ou/e os que os  confudem com estradas ou caminhos por onde pensam que corre o sentido da sua própria vida, que há muito não tem sentido próprio nenhum.
 
Em termos práticos, e quanto a este assunto, o equilíbrio é quase o mesmo que a generosidade. Aceitar o outro. Mesmo que o outro seja um filho. É tremendamente difícil por causa da identidade genética, do poder e do ego. É uma prova tremenda e um passo crucial no processo de crescimento de cada ser humano. Daí que a decisão de procriar tenha de ser uma decisão. Não uma obrigação. Não uma decorrência natural. Quem não pode, não tem. Até poder. Se puder. Equilíbrio.
 
 Há crianças que são agredidas. Há crianças que são violadas. Há crianças que são assassinadas. Há crianças que passam fome. Há crianças que estão sós. Há crianças que têm medo. Há crianças que choram. Há crianças felizes. Todas as crianças não percebem. Nada disto. Cada criança tem um mundo particular de alegrias, terrores, fome e sono onde o meio termo parece não existir. E as emoções alternam-se ciclicamente. Há crianças com sorte. Há crianças sem sorte nenhuma. Há crianças. Todas as crianças somos nós.
 
 
Nota: O texto acima foi escrito e publicado neste blogue há muito tempo. Republico-o agora porque hoje o conteúdo me faz todo o sentido.

  

publicado por Cat2007 às 02:16
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Outros que vêm nos filhos o reflexo do seu ego ou/e os que os confudem com estradas ou caminhos por onde pensam que corre o sentido da sua própria vida, que há muito não tem sentido próprio nenhum.

Em termos práticos, e quanto a este assunto, o equilíbrio é quase o mesmo que a generosidade. Aceitar o outro. Mesmo que o outro seja um filho. É tremendamente difícil por causa da identidade genética, do poder e do ego. É uma prova tremenda e um passo crucial no processo de crescimento de cada ser humano. Daí que a decisão de procriar tenha de ser uma decisão. Não uma obrigação. Não uma decorrência natural. Quem não pode, não tem. Até poder.

...
Raquel a 16 de Maio de 2010 às 10:31

Suponho que cncordas...
Cat2007 a 16 de Maio de 2010 às 14:53

Eu gosto desta: "Outros que vêm nos filhos o reflexo do seu ego ou/e os que os confudem com estradas ou caminhos por onde pensam que corre o sentido da sua própria vida, que há muito não tem sentido próprio nenhum".







Cat2007 a 16 de Maio de 2010 às 17:46

Concordo em pleno..
Raquel a 16 de Maio de 2010 às 18:43

:)
Cat2007 a 16 de Maio de 2010 às 19:19

Excelente post.
por onde começar? hmmm
Vou começar por aquilo em que concordo. É mais simples. Concordo com tudo o que dizes no que toca às crianças, no que toca à decisão de as ter ou não, nos motivos que levam a essas decisões. Está muitissimo bem exposto. Podemos discuti-lo mais ao detalhe em viva voz. Penso que seria mais adequado.
Em que discordo:
"É muito católico isto. E se é católico é para ser bom, de acordo com as convicções católicas sobre o bem. É, de resto, igualmente, algo muito selvagem porque essencialmente instintivo. Podemos afirmar, até, que o espírito católico anda ligado à selvajaria, uma vez que a maior parte das suas regras têm raiz na organização dos indivíduos segundo o império das normas dos instintos primários. Desejo sexual, ordem natural e domínio."
Não acho que seja selvagem. Acho que esta faceta da relegião católica é muito bem pensada e estruturada. não tem nada de instintivo. concordo que a igreja se utiliza do institinto sexual para dominar, para originar poder. Mas isto, não sem antes, dizer que sexo e prazer sao pecado. Que mulher não deve sentir prazer. Que as relações homosexuais são contra natura. Ai, de repente tem-se uma sociedade reprimida e sexualmente frustrada. Com mulheres a sentir que têm de cumprir a sua função de reproduzir (qtos mais catolicos, qtos mais carneiros no rebanho, mais poder) e homens com a testosterona à tona da pele (esta provado que os homens com actividade sexual mais irregular sao os que têm niveis superiores de testosterona)
Obviamente tem-se uma sociedade pronta a procriar como coelhos, sem pensarem, sem raciocinarem e montes de homens prontos para pinar com tudo o que apareça à frt e para a guerra. Isto não é nada instintivo e natural. É pensado, premeditado, manipulado e cruel.
Assim isto claramente não tem nada a ver com a ordem natural. Qdo liberto de pre conceitos e seguindo o seu instinto natural acontece a ordem natural, que na minha opinião é de facto natural e naturalmente equilibrada (pelo menos muito mais do que o acima descrito).
Sara a 16 de Maio de 2010 às 23:21

Tenho de me comentar a mim mesma....
Que caos!
Foi escrito de um folego, sem reler.... muito pior do que é meu normal!
Sara a 17 de Maio de 2010 às 04:25

Não está nada um caos. percebece-se muito bem. No worries

Gracie.
Acho que vou à croacia em Junho ou Julho e à Bosnia em Outubro....lolololololol
Sara a 17 de Maio de 2010 às 13:55

De nada carissima
Cat2007 a 18 de Maio de 2010 às 02:00

Pois vejo que temos que discutir pessoalmente a questão.

E eu a preparar-me para uma arreigada discussão onblog.... e tu não refutas nada do que eu disse?! ;)
Sara a 17 de Maio de 2010 às 13:53

Ao vivo é melhor. Lol

2 da manha num dia de semana?!?! :0
Sara a 18 de Maio de 2010 às 07:11

de manhã,que é como quem diz, depois das 12.30h. Ok?

De Cat2007 a 18 de Maio de 2010 às 01:56
Ao vivo é melhor. Lol

Isto é de madrugada senão seriam 13:56... Tótó
Sara a 18 de Maio de 2010 às 16:36

Ah! Sou um bocado distraída. :)

Um bocado....lolololol
Sara a 18 de Maio de 2010 às 21:27

A resposta ao teu email de ontem é: sim, com certeza! Leva a papelada no sábado.

Obrigada
Sara a 20 de Maio de 2010 às 07:03

De nada. Mas, dada a hora, talvez não seja boa ideia levares a papelada no sábado. Lol. Temos que ver outra altura.
Cat2007 a 20 de Maio de 2010 às 19:51

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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