CAFÉ EXPRESSO

Junho 30 2010

 

 

De certo modo, "Azul" é como eu. Um argumento inacabado. Sei como acaba a história. Sei como começa. Sei o que acontece pelo meio. Mas falta organizar a densidade das personalidades dos personagens. São complexos. É uma coisa sobre mulheres. É por isso. Claro. Mães e filhas e amantes. Não é uma história de lésbicas, mas os romances ali vividos tinham de o ser. Porque constatei que há algo de incontornavelmente incestuoso na relação mãe/filha. E nada o faria supor. Com efeito, até hoje nunca observei grande proximidade entre as mulheres. Entre as que geram e as que são geradas. Pode ser um equívoco meu, mas parece-me que as mães estão sempre mais próximas física e emocionalmente dos filhos do sexo masculino. Existe um não sei o quê de falta de à vontade, um distanciamento, uma espécie de fronteira que separa as mães das filhas. Ao ponto de se pensar que os rapazes são os preferidos.

 

Resolvi confrontar a minha mãe com esta questão: "Mãe, é verdade que sempre gostou mais dos manos do que de mim?". Ela ficou estupefacta. "NÃO!". Acreditei imediatamente nela. Por isso ficou-me na mente a imagem daquela barreira sem nome e sem forma que sempre nos separou.

 

A sensação é que caminhámos sempre lado a lado cheias de cuidado para não tocar nesse muro imaginário. Um elemento que nunca esteve presente na relação com o meu pai. Não questionei os meus irmãos sobre isso, mas será que com o pai a coisa corria para eles do mesmo modo? Quando questionar, poderei escrever sobre os homens e da relação pai/filho. Agora escrevo sobre mulheres. Só porque sou mulher.

 

Nunca medi a separação de que falo pelo número de beijos, abraços ou quaisquer outras demonstrações de afecto. Igualmente a falta de orgulho em mim nunca foi queixa que tivesse contra a minha mãe. Não é por isso que há uma fronteira que não se pisa. Talvez a questão esteja um pouco no modelo. As mães serão, em princípio, o modelo que as filhas devem seguir. Existe a enorme responsabilidade de orientar. E bem. As mulheres que não têm este tipo de relação de sangue vão juntas à casa-de-banho. Parecem demasiado próximas para a verdade da proximidade que realmente não têm. Eventualmente, é difícil para uma mulher ser mãe de outra porque tendo que ser o seu modelo, também está convencida de que tem de rivalizar. Estar contra. Desfazer. A imagem do homem dentro de casa é crucial. Tudo isto tem a ver com os papeis sociais destinados aos homens e às mulheres. Naturalmente, as relações das mães com as filhas são confusas. Não duvido da profundidade do amor que lhes subaz. Mas é mesmo isto que confunde. Parece que as mulheres não foram feitas para se amarem profundamente.

 

No "Azul" faço experiências. Criei uma mãe demasiado madura, que não tem uma relação de origem biológica com a filha, e já não tem marido. Construi uma mãe biológica jovem, que fica viúva ao fim de dois anos de casamento. A primeira mãe é heterossexual. A segunda mãe é filha da primeira, e é homossexual não praticante por ser heterossexualista e, para além disso, homofóbica. A filha desta é a Maria, e é homossexual.

 

Sem homens, abri um espaço para romper a barreira invisível onde não se pode tocar. As fronteiras entre estas mães e filhas foram violadas. Resultaram daqui relações quase incestuosas, demasiado intensas e com contornos um tanto trágicos. Fica-se muito próximo do ridículo. É difícil para as mulheres viverem sem pontos de referência masculinos. Mesmo as lésbicas precisam de homens. Nem que seja para compreenderem melhor porque gostam de mulheres.

 

A vida emocional de todas as pessoas corre muito próximo do ridículo. Todas as relações de amor começam pelo incesto. Há que enfrentar estes factos. Porque são factos.

 

O "Azul" não está pronto. Meti coisas nas bocas das pessoas erradas. Acresce que, enquanto narrador, não assumi as minhas responsabilidades, deixando os personagens falar quando não deviam. É por isso que não está bom. Ainda. De qualquer modo, há excertos do "Azul" onde eu não vou tocar. Como este que publiquei aqui. Talvez possa fazer o mesmo com mais um ou dois.

 

Ah, Azul! Pois... são os olhos de Teresa, do céu e do mar. Também os de Joana. Na verdade, a Ana é Joana. Decidi mudar. Fiz mal. A Maria. Nunca foi Maria. É Clara. Vai ficar Clara mesmo. Este argumento foi escrito em 2004. Não tenho culpa de me ter cruzado com Joanas e Claras depois disso. Além de que ninguém me garante que esteja livre de alguma Maria ou de uma Ana. Nomes são nomes quando pertencem a pessoas da vida real. Mas na ficção já não pode ser assim. Os nomes que eu esolhi respondiam a uma necessidade de dizer mais qualquer coisa. Ajustam-se ao que eu quero fazer com os personagens. Não podem por isso ser mudados.

 

 

publicado por Cat2007 às 16:38
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Ao contrario de ti eu provenho de uma familia de mulheres, de mães, irmãs, tias, avós (feminino).
Digo de mulheres em vários sentidos. Após os meus 10 anos de idade lá em casa só existiam mulheres/femeas: Mãe, Filhas, empregada, gata, piriquit(a)s. Qdo olho para a minha familia, verifico que a força, a coragem, a capacidade de lutar, a capacidade de aprender, mudar, tornar-se melhor está essencialmente nos elementos do sexo feminino (avó, tias) da minha familia materna.
Na minha familia Paterna os membros masculinos, frageis, sensiveis, e muitas vezes desiquilibrados foram controlados por uma força feminina, inconsciente mas poderosa. Uma força que os controlou, influenciou e influi na vida deles como mais ninguem conseguio. Nem eles proprios.
Para mim a mulher, é complicada, pouco obvia, representa um desafio. Simultaneamente é forte, adapta-se, muda.
Os homens... aqueles que escolhi para estarem presentes são amigos fieis e incansáveis.
Espraiei-me e baralhei-me.
Sara a 30 de Junho de 2010 às 23:57

Não sei se interessa muito a familia de onde se provèm para aquilo que eu quero dizer. Isso é só um ponto de partida. Depois é preciso observar muito bem tudo o que for possível. Não é fácil chegar a uma conclusão. Mas a minha frase aqui é: falta solidariedade feminina.

Percebo o que dizes.
A minha experiência de base (familiar) é outra, embora eu propria possa argumentar comprovando o que tu dizes, qdo falo em amizade.
Sara a 1 de Julho de 2010 às 09:11

Pois, a falta de solidariedade femenina é algo que parece que vem nos genes das mulheres. E é esse não sei quê invisivel que também separa as mães das filhas.

Eu sei a que te referes... embora não lhe chame solidariedade... no meu caso... é mais um não sei o quê indizivel.
No que toca a mulheres amigas.... a mulher é simplesmente menos ´.... não encontro a palavra certa... nenmhuma me agrada... a mulher é mais voluvel (parece-me bem) a determinados estados e a determinados detalhes.
O homem, não dá importancia ao detalhe, é de certa forma mais básico, mais simples o que também o torna mais confiavel como amigo. Dá mais valor ao todo, do que ao detalhe.
Nesse aspecto eu sou muito gaja. Totalmente dada aos detalhes. Mas não suporto a competição.
Sara a 1 de Julho de 2010 às 11:12

Pois a mim a coisa parece-me muito mais profunda e mais estruturada do ponto de vista socio-cultural e até político. Daí que passou praticamente para o nível do inconsciente.

Tu hoje estás do contra:

- "Pois, a falta de solidariedade femenina é algo que parece que vem nos genes das mulheres. "

- "Pois a mim a coisa parece-me muito mais profunda e mais estruturada do ponto de vista socio-cultural e até político"

Vou-te deixar sossegadinha. :)

Beijocas
Sara a 1 de Julho de 2010 às 12:48

Viste alguma contradição entre as duas afirmações? Eu não. São duas formas diferentres de dizer excatamente a mesma coisa. Uma mais metafóriaca outra pelo uso de uma linguagem menos codificada. :).

:P
Na realidade o conjunto de factores que leva a um determinado "acontecimento" é sempre multiplo, podendo ter origens socio-culturais, fisicas e/ou genéticas. Sendo muitas vezes impossivel dissocia-los.
Em cima estava apenas a dar largas ao meu senso comum. O que gheralmente me dá muito gozo.
bjocas
Sara a 1 de Julho de 2010 às 13:21

Sim, mas a genética que eu falava foi colocada em termos metafóricos, de facto. :)

não tinha percebido.
A lutar, com cachets, SPAs, IGAC e coisas afins... o que é muito bom sinal! ;)
Sara a 1 de Julho de 2010 às 14:28

Podes crer! Olha, e essa luta é mt mais importante. Te gosto!
Cat2007 a 1 de Julho de 2010 às 15:36

:D e acabei de ter uma reuniao relampago com Italia que me rendeu mais uns trabalhinhos, para apresentar em Novembro (com uma outra companhia) :D

Vira a Camisola! lolololol :D
Sara a 1 de Julho de 2010 às 22:33

Pois, já sei, bella!
Cat2007 a 1 de Julho de 2010 às 23:19

Grazie, Cara
Sara a 1 de Julho de 2010 às 23:26

Estou muito contente!!!!
Cat2007 a 2 de Julho de 2010 às 01:17

Porquê?
´:)
Por mim ou por ti (tens novidades?)
Sara a 2 de Julho de 2010 às 10:57

Por ti, mulher. As minhas novidades ainda não chegam para me sossegar. Socorro!
Cat2007 a 2 de Julho de 2010 às 12:04

:)
Mas andas bem diospostinha, na mesma e isso é que interessa.
bjocas
Sara a 2 de Julho de 2010 às 12:08

Isso... só eu é que sei como ando, babes.
Cat2007 a 2 de Julho de 2010 às 18:04

hmmmm
Sim Senhora Dra.
Bjocas
Sara a 2 de Julho de 2010 às 18:33

Olha Sara,
Os meus problemas interesssam a quem interessam. Ponto final.
Cat2007 a 3 de Julho de 2010 às 00:13

... que se passou, que eu não percebi?
Sara a 3 de Julho de 2010 às 09:25

O que se passou? Nada ainda. Continuo sem a certeza que preciso para descomprimir. Nada de especial, já vês. Nada que me impeça de andar sorridente e bem dispostinha.
Cat2007 a 3 de Julho de 2010 às 13:50

Cara Blogger, embalado pelo seu primeiro texto resolvi ler também o seguinte. Do qual também gostei. Enquadrei o anterior nessas explicações da autora. Mas os comentários deixam-me na dúvida: são as experiências, que menciona, em território proibido; ou um mal-disfarçado vazatório de feminismos reprimidos?
Pf queira esclarecer. É que, no segundo caso, como indiciam os comentários, nada tenho a fazer aqui como leitor.
Vitor Ramalho a 4 de Julho de 2010 às 17:13

Caro vitor,

Lool! Pois sobre o conteúdo que possa parecer mais cifrado dos comentários ao post, não posso ajudá-lo, dado que não são da minha autoria, como bem vê.
Se quiser centrar-se apenas nos trextos que eu publico, pode concluir tranquilamente que tem tudo o a fazer aqui como leitor. Se for essa a sua vontade, claro.
Obrigada.

Beijinhos.

Cara Blogger , quanto mais nao fosse pelo tom educado e atencioso das respostas merece concerteza o obséquio de novas leituras e visitas (ainda que esporádicas, pois, como calcula, são muitos os afazeres e tentações deste mundo virtual).
Respeitosamente.
Victor Ramalho a 5 de Julho de 2010 às 20:31

Caro Vitor ,

O que dizer? Se o seu interesse em vir aqui se prende apenas com a minha simpatia e educação, veja lá se não rouba demasiado tempo aos seus afazeres e preocupações quotidianas. No mais é sempre um prazer. :)
Cat2007 a 6 de Julho de 2010 às 09:55

Sou mulher e tb mãe, de 1 filha de 4 anos, somos as 2 muito, muito proximas. Depois de ler o k escreves-te e à medida que ela crescer, vou lutar sempre, para que com ela seja diferente, rompendo a tal barreira, deitando a baixo o muro imaginário, mostrando-lhe toda a minha solidriedade...Obrigada
Rita a 5 de Julho de 2010 às 10:29

Obrigada? Olha, não sei se há alguma coisa a agradeçer, querida. Por outro lado, sempre te digo, essa barreira histórica, quando se rompe, pode dar origem a situações, no mínimo, inesperadas. Pelo menos foi assim que eu acabei por concluir no Azul. O que pode até nem estar certo. Lool. Beijo mutio grande.
Cat2007 a 5 de Julho de 2010 às 10:45

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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Também não acredito nisso...se é que alguma vez ac...
Com muita calma e paciência tudo se começa! 
Mas a questão é que, antes de se preocuparem com o...
yah, a quantidade de construções emocionais que nã...
Sabia que fazia anos, tinham me dito, mas no meio ...
há "sinais" que não devemos negar :D
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