CAFÉ EXPRESSO

Julho 08 2010

Afinal vou colocar mais dois excertos. Não um. Dois. Não têm tratamento. Ficam por tratar. Aqui.

 

 

 

Naquela casa não se trancavam as portas. Durante tanto tempo, as chaves mantiveram-se operacionais dentro das respectivas fechaduras, porém, inoperantes. Eram de bronze aparente. De aspecto brilhante, pareciam quase escorregadias, Como se lhes tivessem passado um óleo, que não aplicaram realmente. Estavam escrupulosamente limpas. Como tudo na casa da Alameda. As chaves postas nas ranhuras de cerca de vinte portas já não eram nada em si mesmas. Por há muito terem perdido a sua utilidade própria, foram transformadas em partes integrantes das correspondentes fechaduras todas iguais. Deixou de ser importante individualizar cada um daqueles pequenos instrumentos, separá-los do conjunto de que faziam parte, onde apenas uma parte, a outra, funcionava. Apesar de permanecerem nas fechaduras, as chaves desapareceram porque lhes foi retirada a sua função primordial. Trancar portas. Destrancar portas. Trancar portas. destrancar portas… Assim, neste movimento de entrar. De sair. De proteger. De desamparar. De isolar. De libertar. De encobrir. De expor… 

  

Fora a mãe, D. Amélia, quem instituíra a regra. “Não quero portas trancadas nesta casa. Nunca precisei disso na vida”.  Entendia que uma porta, qualquer porta, uma vez fechada, encerrava uma mensagem muito clara: Não. De momento não. Não entrar. Não interromper. Não incomodar. Não importunar. Não pedir. Não dar. Não ouvir. Não falar. Não perguntar. Não saber. Não. Assim se devia ler o que está escrito numa porta fechada. Uma porta fechada com alguém do lado de dentro é, neste sentido, uma entrelinha. Não é preciso estar trancada. “Não deve estar trancada!”, sempre acentuou.Nunca confessara um outro porquê. O motivo maior das suas razões. Ou seja, o medo em princípio absurdo de ter de arrombar uma tragédia trancada. Se as chaves não rodassem os trincos para dentro das fechaduras, nada de verdadeiramente mau poderia acontecer por detrás das portas apenas fechadas. Era vítima da terrível sensação de pânico sintomático da fobia dos estalidos dos trincos a fechar. Assim, naquela casa os encontros entre mãe e filha davam-se essencialmente nas divisões comuns. Cada uma conhecia os passos da outra sem necessidade de os ver para saber. Ambas as vidas circulavam em redor de rotinas reciprocamente desassegredadas.

 

D. Amélia, era baixa e seca. Dava gosto ver como se vestia de tão bem que a si própria sabia ajustar as roupas. As saias pelo joelho, mas justas. Os conjuntos de malha sobre o tronco a delinear os seios pequenos e redondos. Os sapatos de saltos médios davam vista para os tornozelos torneados. Usava o cabelo penteado para trás da testa alta e larga, solto em ondas muito suaves de prata azul por detrás das pequenas orelhas perfeitas de lóbulos escondidos por duas  pérolas cor de pérola. Entreabria regularmente a boca arredondada pequena, mas bem medida. Tinha por hábito automatizado elevar o nariz curto, estreito, afilado, ligeiramente arrebitado na ponta. Possuía uma pele que permanecia sem dar mostras de grandes cansaços. Os olhos castanhos eram muito sérios, pois franziam, profundos por não se ver o fundo, expressivos quer de certezas, quer de interrogações, sorriam nem sempre, mas de vez em quando. Estes olhos carregavam três rugas profundas como golpes de navalha junto ao seus contornos. Precisamente três em cada. Talvez tal coerência de ser, tamanha harmonia para ver, tivesse sido previamente pensada por quem decide destas coisas. Talvez se tratasse do resultado de um jogo de compensações, onde a D. Amélia não foi, sequer, dada a oportunidade de perder.Tinha as mãos descarnadas de grossas veias azuis salientes, que possuíam a beleza da elegância gestual. Incompreensivelmente, os grossos anéis, moldados em materiais preciosos verdadeiros, não lhe quebravam os dedos. Antes lhe acompanhavam, suportando, a graça dos diversos manejares. 

 

Teresa tinha 15 anos quando a mãe lhe entrou inopinadamente no quarto. Primeiro, D. Amélia elevara os nós dos dedos da mão direita fechada. Batera com eles levemente na madeira lacada de branco. Envolveu o puxador com a outra mão e rodou. Antes de empurrar, sentiu a pele envolvida pelo calor dos materiais. Um calor que nascera do surpreendente aspecto de vida, não singular mas plural, pulsante no interior do quarto. Um calor que se espalhara por todas as suas proximidades e que, agora, lhe aquecia os percursos sinuosos do interior das suas próprias veias azuis.

 

Sim, bateu à porta com os nós dedos afectados pelos aros de ouro e prata. Mas fez tal gesto na passada. Ainda se imaginavam os sons dos ecos daquelas ligeiras batidas, e já os seus pés se encontravam quase um metro para dentro do quarto da filha.Não imaginava sinceramente nada do que iria assistir. Confrontada com tudo o que de material se apresentava sob os seus olhos espalhados por espaços muito bem determinados daquele quarto, desejou não ver. Pregou os olhos vagarosamente no chão, deixando-os ficar por lá, incapacitada. Durante aquela lenta e pesada fracção do tempo, foi-lhe concedido apenas o espaço para pensar Teresa, enquanto sua. Unia-as um amor fundamental para ambas. Não podia perder a filha. Esta era a maior imposição da sua vida. Teresa igualmente não podia perder aquela mãe. Cada sentimento individual transcendia palpavelmente a matéria, fluindo, por todos as saídas dos corpos, em direcção ao outro e fundiam-se ambos num encontro memorável, ligando cada uma destas criaturas eternamente.

 

Subitamente, D. Amélia interrompeu-se no pensar sobre a filha. E ponderou gravemente nas razões pelas quais acabara de quebrar um hábito tão fundamental como aquele que tinha instituído. O de nunca se transpor portas apenas fechadas por não estarem trancadas. Porém, realmente, não sabia. Considerou, então, que não sabia porque talvez não fosse possível saber. Certos eventos poderão ocorrer sem razão e com desígnio, motivados pelos resultados que impõem. Certos eventos são factos que simplesmente têm de acontecer, assumindo a sua existência a partir dos actos mais ilógicos e, por isso, menos previsíveis. Desta vez, como não sucedeu há muitos anos no passado, a porta do quarto não se encontrava trancada e, no entanto, a tragédia de novo lhe acontecia. No entanto, o pânico não a tomou porque não ouviu o estalido do trinco que fecha.

   

 

publicado por Cat2007 às 16:56
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Que curiosidade...cada vez mais quero ler mais e mais, adoro como escreves, adoro a historia sem a perceber bem...afinal esta é o principio, não tem a Clara nem a Joana, tem a Amelia e a Teresa...mas please tens de publicar mais, senão fico sem ar...bjus
Rita a 10 de Julho de 2010 às 00:48

Rita,
Em primeiro lugar, obrigada mais uma vez.
Não tem Clara nem Joana, o principio. O principio é Amélia e Teresa. Mãe heterosexual, que não é mãe biológica. Por isso teve a Teresa com 60 anos, e já viúva.
Por outro lado, o que queres que faça? mais excertos? Mas não estão bons, bsabe. Deixa ver.
Beijooo!
Cat2007 a 12 de Julho de 2010 às 16:19

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