CAFÉ EXPRESSO

Julho 12 2010

  

 

Madalena voltara-lhe na forma de mulher crescida. Acabada de regressar à sua vida, já lhe retomava o pulso e as emoções. “Madalena”. Voltava a dar por si controlando as pernas e os braços e as palavras. Para não ir até ela.  “São horas de ir para casa.”. O seu verdadeiro desejo era telefonar a Madalena para  lhe dizer que não tinha vontade de ir. Para casa. Marcou. Esperou.

 

Teresa: Estou a sair do escritório.

 

Escutou um breve e fundo silêncio do lado de lá da linha.

 

Madalena: Vem cá ter.

 

Teresa desligou. Madalena dissera-lhe que sim. Sentiu os ombros vergarem. Algo indefinível, mas enorme desprendeu-se do ar e assentou sobre si. Levou consigo este peso tremendo até junto dela.

 

Teresa: Olá.

Madalena: Vamos para a cama?

 

Teresa pôde imediatamente aliviar-se da carga que trazia. Mas não de toda. Os espaços onde as palavras ficaram ausentes, eram demasiados densos.

 

Entraram no quarto e despiram-se. Materialmente distantes e caladas. A parede despida, onde a cama baixa se encostava, estava iluminada pela lua redonda, expondo-se. Elas olharam para lá. No preciso instante em que apontaram o olhar, o filme começou. Sob a luz da lua, a parede branca reflectia nitidamente aquelas cores mudas, mas tão vivas. As imagens não tinham som. Para além das cores, que quase encandeavam, compreendiam-se os gestos perfeitos, completos. Não existiam palavras. E este filme que rodava, dizia-lhes que o tempo, quando quer, pode parar. Que os seus vinte anos não chegaram a passar. Os que tinham e os que correram. Apertaram as mãos para juntas darem um passo em frente. Na direcção do tempo colorido parado na parede branca, sobre a cama do quarto de Madalena. Mergulharam lá, afundando deliberadamente os corpos, que iam juntos. Confundiram a imagem com os braços e as pernas. A pele. Os fluidos. Os sorrisos inaudíveis. E, finalmente, suspiraram profusamente. Mas em silêncio.

 

E depois o tempo rolou, escapando-lhes, afinal. Deitaram-se. A lua mudara de posição. A luz despediu-se da parede e inclinou-se sobre a cama desfeita. O ar encheu-se dos sons ofegantes. O tempo rolou sobre elas, e era novo e presente.

 

Madalena: Estás a sentir?

 

Teresa murmurou qualquer coisa com sentido afirmativo.

 

Madalena: E a gostar, querida, estás a gostar?

 

Teresa não era capaz de responder. Não se concedia liberdade. Colou a boca à de Madalena e prendeu-lhe a língua. Para a calar. Madalena investiu, por isso, ainda mais sobre ela.

 

Madalena: Eu perguntei se estavas a gostar. Tens que me dizer!

Teresa: Querida, Meu Deus! Eu não vou aguentar ...cala essa boca...por favor!

Madalena: Sabes, já não me importa que...tu fujas, que morras...Não me importa porque...hoje... hoje posso morrer contigo...Diz-me, Teresa!

Teresa: Muito!

 

Madalena desceu com a boca até à zona molhada e quente do corpo dela. Aí, desfolhou em agitação as páginas do sonho, procurando por muito tempo um pequeno capítulo de um livro. Da libertação. Sem se cansar, sugava-lhe o corpo para lhe engolir a alma toda inteira. Não podia parar. Não, até ela se desfazer. Buscava a suprema felicidade de ficar com ela desfeita nos seus braços. A única forma de jamais a voltar a perder. E volatilizar-se nos braços dela. Para não pensar que tinha de fugir-lhe. Abriu as pernas para a boca de Teresa, que, de alguma maneira, manifestara o desejo de entrar. Ao abrir, sentiu o corpo que oferecia escorrer sobre o rosto dela. O tempo decidiu novamente parar por um pouco, ficando, desta vez, de fora do passado, presente ou futuro. Pelo momento em que as gargantas se abriram no centro da tremenda explosão que se deu.

 

Logo depois, o tempo prosseguiu no seu ritmo muito próprio.

  

 

publicado por Cat2007 às 20:01
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devia ter acrescentado... que tb eu gosto muitíssimo do que escreve e sobretudo da forma como escreve... é muito inteligente....primeiro, confesso, pareceu-me algo pretensiosa, mas depois vi que tem razão para o ser... é muito boa...a escrever :-) deve continuar... sempre que puder, virei lê-la.... não sou mais uma fâ, não precisa, já tem muitas...mas alguém que aprecia de facto um bom texto.... continue....
maria a 14 de Julho de 2010 às 21:24

Olá Maria

Obrigada.
Teno fãs???? Bom, fã não é o modo curto de dizer fanático? Creio que sim. E a ser assim, não me parece que tena fãs. Se me parecesse, não mereceria o respeito das pessoas. É o que me parece.
Cat2007 a 27 de Julho de 2010 às 00:57

Adorei, mais um, mais uma vez e pelos vistos o último...:-(...thanks...bju
Anónimo a 5 de Agosto de 2010 às 18:26

Esqueci-me de assinar...o anonimo, alías no feminino...é a Rita
Anónimo a 5 de Agosto de 2010 às 18:27

Lol. Fazes isto imensas vezeeesss!
Cat2007 a 6 de Agosto de 2010 às 10:15

Rita, babes,

No worries. Já te disse, vou reescrevendo capítulo por capítulo e vou-te dando para ler. Está prometido.
Cat2007 a 6 de Agosto de 2010 às 10:14

Adorei... Estou sem palavras. Confesso que se o livro já tivesse sido publicado devorava-o em poucas horas.
Gosto da forma como escreves, da intimidade que dás ao texto, da capacidade que tens, através das palavras, de envolver o leitor na história. A escolha das palavras certas nos momentos mais íntimos, não choca, não magoa (percebes?).
Enfim... quero ler mais :)
Beijos
Margarida a 21 de Agosto de 2010 às 21:02

Eu estou sem palavras, Margarida, não tu. É porque este comentário vem de quem vem. Ou seja, vem de quem sabe. Estou esmagada :). Sério. Obrigada. Que raio de incentivo para terminar isto, hem?
Cat2007 a 25 de Agosto de 2010 às 14:36

Termina o livro :) serei das primeiras na fila para comprar um exemplar e a pedir autógrafo. Corre atrás do sonho ;) bjs
Margarida a 25 de Agosto de 2010 às 19:58

Termino o livro... E a minha insegurança???????? Depois de terminado vou ficar cheia de medo. Provavelmente é por esta razão que ainda não terminei. :). Socorro!!!
Cat2007 a 26 de Agosto de 2010 às 11:05

...termina o livro please...antes que fique por aqui tudo vesgo  


e já agora com mais capítulos do ouro sobre azul...please 


     Big Kiss & hug
Tania a 19 de Maio de 2016 às 21:37

Na verdade, está quase terminado. Mas vai, como é óbvio, para a gaveta. Por outro lado, não sei se é apropriado meter mais capítulos aqui. De qualquer forma, obrigada pelo incentivo. Big kiss and hug para ti também.
Cat2007 a 20 de Maio de 2016 às 10:08

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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