CAFÉ EXPRESSO

Abril 01 2007


Estou convencido que o Ministério dos Negócios Estrangeiros não tem nada contra mim, mas sim contra os adidos culturais. Trata-se de um problema endémico, que parece dar razão à tese de que a diplomacia foi uma coisa inventada por Maeternick quando não havia telexes nem telefones. A diplomacia concorre, hoje, com o Museu de Figuras de Cera, em que a vitalidade dos adidos pode assumir carácter altamente perturbador. Neste antagonismo entre o que está vivo e o que está morto, entre o concreto e o abstracto, o adido cultural só é bem aceite se não fizer nada, contentando-se em espalhar sorrisos pelos 'cocktails'. Como não é esta a minha vocação, a verdade é que, extra-oficialmente, continuo a desempenhar as funções de adido cultural, com proveito para o País e sem nenhum dispêndio para o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

   

  

 



Faz dois dias que fui jantar com o António. Antes da mesa, de me sentar à mesa com ele, foi aquele abraço de amigos que não se encontravam há longos meses. Mas não parecia. Parecia que foi ontem. Já sentados, voltamos a dar outro abraço. Porque apetecia mesmo.
 
Ele é tão ou mais afectivo do que eu. Talvez mais porque é muito mais inteligente.  Aliás, ele é tão inteligente que parece  quase um débil mental.  De resto, comporta-se como  isso  mesmo (um débil mental)  em muitas situações.  Enfim,  acho eu. É que  isto  de o homem ter o hábito de dizer sempre  o que pensa quando é perguntado sobre algum assunto, alicerçando-se na verdade que lhe é incontornável só pode  ser  coisa  de atrasado  mental.
 
Exemplificando: em dada altura, estávamos à conversa e toca-lhe o telemóvel no bolso. Atendeu. Do outro lado da linha alguém terá dito alguma coisa. Vejo-o, então, com um ar muito sério, mas pacífico, a perguntar para o telefone: "mas um depoimento a dizer o quê?". Veio-me à ideia a possibilidade de haver algum problema. Esperei em crescente expectativa. "Com certeza que não.". O António dizia que não depunha. Categoricamente. "Porquê? Ora, porquê! Porque eu não conheço a senhora. E estou certo de que ela não me conhece a mim igualmente.". Agora estava levemente irritado. Talvez pela insistência do telefone. "Nunca fomos apresentados.  Pois fico muito  satisfeito pelo aniversário dela. Não tenho nada contra a senhora. Nem  ela  contra mim,  espero  eu... É como digo, não nos conhecemos." Estava impaciente. "Não. Não vou prestar um depoimento sobre o aniversário da rainha de Inglaterra. Tenha lá paciência". E livrou-se do "Expresso" desta forma. Desligou e desligou-se. Da questão do aniversário da rainha Isabel II.

Se este homem fosse um hipócrita seria director do Teatro Nacional de S.Carlos . Ou da Casa  de Música. Ou... enfim. Não vale a pena. Ele tem um problema de pele com os políticos. Todos. De direita. Esquerda. Centro. De baixo da mesa. Em cima do banco. Também é natural. Ele é um génio. E, que eu saiba, não existem génios desonestos. Existem génios do mal. Mas nunca ouvi falar em génios da pulhice e do cacique. Claro que estes podem ser sempre génios do cubo mágico. Porém não é disso que estou a falar.

A Maria João Pires não tem habilitações literárias para ensinar piano em nenhum Conservatório português. Nem ele, o António. Agora só os licenciados em Évora, na Nova e noutra faculdade qualquer é que podem ser professores nos Conservatórios e tal. Mas eles não sabem tocar instrumentos. Estes professores. Ao que se sabe, sabem alguma coisa de história da música. Não muito, também. O curso é de três anos. Depois ensinam nos conservatórios. Por exemplo, o curso superior de música da escola de Viena, ou melhor, um dos mais conceituados cursos de música da Europa e do Mundo, não é reconhecido em Portugal, enquanto habilitante para leccionações nos nossos Conservatórios.

A Maria João Pires mudou-se definitivamente para o Brasil. É feliz. Diz que não volta. Qualquer espaço cultural mundial abre as portas à Maria João Pires com devotos olhos brilhantes. No entanto, Portugal é um país tão pequeno que não tem espaço para a franziníssima Maria João Pires. Ela só cabe mesmo no espaço de estúdio da Deutch Gramophon (não sei se se escreve assim. Não sei alemão e não tenho nenhum disco desta editora para verificar). É que, para a DG só gravam mesmo os superiormente dotados universais. Como a Maria João Pires. Provavelmente, a maior parte dos portugueses não tem noções exactas sobre a pianista/concertista Maria João Pires. Quem é ela? Que importância tem no mundo? É ir pesquisar, que este blog também não é aqui nenhum espaço para o ensino básico.

O António ofereceu-me, no jantar, o último disco dele, gravado em Viena. Ao que parece, não se consegue comprá-lo cá. É a "Fábrica dos Sonhos". Toca a Orquestra Sinfónica de Viena, dirigida pelo António. Entram, também a Erika Pulhar e a Maria, a mais velha do António, nas narrações.

A Maria vive em Paris e não vem há quatro anos a Portugal, embora tenha estado recentemente na Letónia. Desde os dezassete anos dela que a perdemos para França. Como tanta gente, não estava bem certa se teríamos perdido assim algo de excepcional (como o pai, que não perdemos, sabe Deus porquê). Agora, que ela já fez 65 filmes (entre, americanos, franceses , australianos, espanhóis...) isso é verdade.
 
Não percebo o que vêm os realizadores estrangeiros nela. É que o último filme que vi foi o Adão e Eva. Não fora o António ir dando algumas notícias e até podíamos todos pensar que ela estava por aí a viver de expediente e a morar debaixo da ponte. Afinal, antes pelo contrário, é uma das mais respeitadas actrizes francesas da actualidade. Bravo!
publicado por Cat2007 às 14:35
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Nossa! Fiquei sem PC uma semana! Uma semana inteira offline.Ninguém merece... Achei que o mundo girava e eu ali paradinha sem inteirar-me de nada. As calotas polares derretendo e eu sem um update em minutos decente! TV é tão seculo XX...Anyway, vi que você também não atualizou seu blog desde antes de minha pane. Perda menor tive então. Beijos.
Lee a 10 de Abril de 2007 às 03:57

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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