CAFÉ EXPRESSO

Março 09 2011

 

 

 

 

 

Olho para trás. E faço uma retrospectiva. Santo Deus! Estou a olhar para o tecto com olhos de prece. A quantidade de pessoas a quem eu disse “amo-te”. E o ror de vezes que me disseram isto. Continuo a olhar para o tecto. Quer dizer, no momento anterior a este em que voltei a olhar para as teclas do computador. É que aqui não há milagres. Ou se reza ou se escreve. Mas afinal não há o grande amor da nossa vida? Talvez. Mas não está no meu passado. Isso eu garanto. Se estivesse, morava também no meu presente. É óbvio.

 

Vou abrir um parêntesis para lembrar que as coisas não se passavam assim nas peças estruturantes da nossa educação infantil, como a Bela Adormecida ou na Gata Borralheira, por exemplo. Em princípio, cada um de nós tinha direito a um único amor na vida e as formas de amar reduziam-se a uma única. A que correspondia à fórmula “e viveram felizes para sempre” depois de terem enfrentado diversidades imensas por causa de pessoas feias e invejosas. Neste contexto, andar a foder para a esquerda e para a direita não tinha lugar. Pois claro.

 

E já que aqui estou. Neste assunto dos contos de fadas, aproveito para recordar que, nesta literatura didáctica para o são desenvolvimento dos valores humanos, se defendia que pessoas feias e invejosas eram gente má. Os feios, sobretudo as feias a bem da verdade, invejavam os bonitos e por isso faziam-lhes as maiores maldades. Tentativas de homicídio inclusivamente. Refazendo a prosa. As feias eram invejosas por causa da beleza das bonitas. A inveja levava às más práticas. E assim as feias eram más porque faziam maldades em virtude de serem feias. Em resumo. Uma mulher feia era uma mulher má. Se fosse bonita seria sempre muito boa pessoa.

 

Também merece nota o facto de a beleza feminina andar sempre ligada à brancura da pele. Não tenho dúvidas do preconceito de índole racista que subjaz a este entendimento não expresso. Uma preta jamais poderia ser bonita. Logo era má. De qualquer forma, para os autores dos textos em questão as pretas não existiam nos “Reinos Mágicos”, pelo que, como disse, é um entendimento não expresso. Não admira que tivesse ficado confusa quando vi a Sara. Uma menina que apareceu lá na minha classe na escola primária. Era preta, embora não fosse. E eu até lhe disse para a confortar: “Ó Sara não fiques triste. Chamam-te preta, mas não é verdade. Tu és castanha”.

 

Acresce que a pele muito branca era atributo das princesas. Porque só havia duas classes sociais, para além do clero. Os nobres e os camponeses. A avaliar pelas vestimentas dos personagens das histórias de encantar a nossa infância, o “Reino Mágico” tinha existência na era da economia de subsistência onde toda a riqueza provinha do que a terra podia directamente dar. Dado que as princesas não faziam nada e as camponesas trabalhavam, como o próprio nome indica, no campo, umas eram muito brancas e as outras tinham a pele queimada pelo sol. É que, embora existissem praias, estas não eram consideradas. Com efeito, a ideia do turismo só apareceu muito mais tarde. Portanto, e posto isto, as camponesas também eram feias. Quer dizer, as mulheres pobres também eram más.

 

Agora apareceu o Shrek a tentar desfazer alguns destes mitos. Porém, para a maioria de nos, tarde demais. A beleza é importantíssima. E toda a gente queria pelo menos ser rico. O mais perto que se pode estar da condição de príncipe, imagina-se. Enfim, anda meio mundo frustrado à conta de uns quantos contos infantis perversos. Parêntesis fechado.

 

Claro que, apesar da educação, lá conseguimos admitir que ninguém precisa de ser especialmente bonito ou ter muito dinheiro para aspirar ao amor. A amar e a ser amado. Assim, apetece-me imediatamente dizer que já declarei amor a uns quantos coirões que nem ricos eram. E veja-se como sou ácida, caraças! Parece que se não fossem coirões, pobres, coirões pobres ou coirões ricos teria sido bafejada pelo Grande Amor. Eu que definitivamente não sou um coirão nem pobre. Uma pessoa cresce mas as coisas da infância realmente não nos largam. É demais!

 

E era disto que eu queria falar realmente. Não. Não queria chamar “coirões” às pessoas. Queria dizer que as tretas dos contos de encantar são tretas e que designadamente não há só um amor na vida que nos afecta. Um único amor para a vida. Do princípio ao fim da vida. Pela vida fora vamos amando. O amor da nossa vida não existe se colocamos a questão em termos de perfeição das coisas teoricamente perfeitas com tiques de afectados por tops e rankings.

 

Eu gostei de várias pessoas. Vivi um tempo com algumas. Achei que queria lá ficar para sempre e ser feliz até à morte. Vale a pena esta ilusão enquanto se está no filme. É para ser mais leve e intenso. Amando, amei mais umas pessoas do que outras. No fim do filme sai sempre chateada. Mesmo quando fui eu a tomar a decisão. É que criam-se ideias sobre as pessoas para que elas nos sirvam melhor os interesses. Depois lá verificamos que têm imensos defeitos e alguns que não conseguimos mesmo contornar. E é isto que realmente me chateia quando acabo. Perceber que afinal as pessoas são apenas comuns e têm coisas que eu não gosto. Sinto-me enganada. Logo ressentida. Um disparate.

 

As relações passadas sempre me fizeram sentir um receio actual. Aceitar que gostava hoje das pessoas que estiveram lá comigo ontem. Debati-me sempre contra isto. Uma parvoíce. Porque é verdade. Gosto de todas as pessoas com quem andei. Hoje gosto. E dizer isto é muito diferente de declarar que ainda gosto. Não. Já não gosto. Antes pelo contrário, gosto. É diferente. Que alívio. Tinha medo que não fosse.

 

Apesar de muitas daquelas pessoas nada terem a ver comigo e malgrado algumas não terem muito bom carácter, gosto de todas. Porquê? Porque um dia gostei de uma forma especial. Temperada de ilusão, bem sei. Mas foi especial o que acabou por se viver. Senão não me tinha iludido. E é isto que me faz gostar dessas pessoas hoje. Mesmo sendo verdade que não me apetece nada ir ao cinema com nenhuma delas. Mas gosto e vou continuar a gostar. De um modo que não gosto do Zé da esquina.

 

Posto isto é fácil perceber porque me magoa que ex-amores que foram amores no passado andem hoje a portar-se mal comigo. Tenho dito.

 

publicado por Cat2007 às 22:51
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que amores tão mauzões esses do passado. impossível viver sem eles. são mesmo insubstituíveis pq é impossível substituir o passado.
e de que nos adianta ao presente este passado?
ah e sabia que eu:
Sei de uma camponesa
Sem campo sem quintal ? 
Catarina a 9 de Março de 2011 às 23:41


Amores mauzões... Hum! Não são nada. São mauzinhos só. Pronto é deixar estar e não ligar. Eu quero é saber de amor no presente, na verdade.
Cat2007 a 10 de Março de 2011 às 00:10


Eu gosto de Carly Simon e até gosto desta musica... mas a versão que aqui puseste é um bocadinho esquizofrénica.... Se calhar é melhor vêr outra vez, para ter a certeza que não estou com problemas de percepção.
Vida a 10 de Março de 2011 às 10:36

Ainda bem que uma miuda tem sempre os amigos prontos a dar apoio técnico quando é preciso. NCR! Vou ver babes. Há várias versões disponíveis no YT. Thanks :)
Cat2007 a 10 de Março de 2011 às 10:51


Para desanuviar o dia, um bocado de cultura tripeira: http://www.youtube.com/watch?v=tXrzK9Xbzvg (http://www.youtube.com/watch?v=tXrzK9Xbzvg)
Vida a 10 de Março de 2011 às 12:28

Obrigada, babes. Vou ver logo. Aqui não tenho flashplayer. Olha compra a Sábado. Vais ter uma surpresa. Bjs
Cat2007 a 10 de Março de 2011 às 15:01


Não convém que ouças/vejas no trabalho, contem linguagem nortenha.
A sábado.... Porquê?
Vida a 10 de Março de 2011 às 16:42


Vê a capa. E depois percebes.
Cat2007 a 10 de Março de 2011 às 17:58


Continuo a ter um prazer imenso a ler os seus textos. Gosto mesmo de pessoas inteligentes!!!!....
Odete a 11 de Março de 2011 às 15:32

Pois eu acho que a Odete é até mais do que isso. Suspeito que é mesmo aquilo a que se costuma chamar uma óptima pessoa. Muito obrigada.
Cat2007 a 11 de Março de 2011 às 16:29

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