CAFÉ EXPRESSO

Março 30 2011

 

Uma vez li num livro de autoajuda que “a vida não teria interesse nenhum se nos limitássemos a viver sentados numa cadeira de baloiço a comer sorvetes”.

 

Em primeiro lugar, foi o primeiro e único livro de autoajuda que li em toda a minha vida. No entanto, até concordei. Naquele momento. Presentemente apetecia-me estar numa metáfora parecida. Igual não, que eu não tenho grande simpatia por sorvetes. É que a grande actividade e os excitantes desafios diários são uma enorme chatice. Porque não existem no sentido cinematográfico dos termos. Estou entediada, portanto. Não deprimida, pois. Acontece-me muito.

 

Os livros de autoajuda não ajudam a espantar o tédio. Nem a resolver problema nenhum, de resto. São receitas mágicas que ninguém consegue concretizar. E muito menos os seus autores. Estes escrevem os livros e realizam-se financeiramente com as suas vendas.  

 

As pessoas não são repositórios de instruções de bem fazer, tendo em vista realizar feitos incríveis como atingir a felicidade, a riqueza e até a saúde. Gostava muito de conhecer alguém que tivesse tirado real proveito de um produto destes. Portanto, uma pessoa que tenha ficado feliz, rica ou muito mais saudável depois de ler e seguir escrupulosamente estes segredos amplamente divulgados. Por definição, um segredo revelado deixa de o ser e perde o valor.

 

Bom, por enquanto, o que vejo é que os livros vendem imenso e o mundo corre da mesma forma. O único livro de autoajuda que pode ajudar é aquele que cada um estiver disposto a escrever a si próprio. E nem é preciso propriamente escrever.

 

Surge-me um nome. Francesco Alberoni. O sociólogo italiano que se metia a falar da vida das pessoas em todas os aspectos da afectividade humana. Este homem escrevia livros de autoajuda disfarçados de análises sociológicas. Acredito que esta foi a única forma que encontrou para produzir Best Sellers. Sexo, amor, dinheiro e saúde. Os temas que vendem. Que o digam os astrólogos.

 

Há uns tempos atrás não se podia ver ninguém que não trouxesse convicta e orgulhosamente debaixo do braço o “Enamoramento e Amor”. Uma praga! Abri. Li o primeiro parágrafo. Devolvi. Autoajuda. Na devolução tive que disfarçar. “Muito interessante”. Menti. Não gosto de magoar as pessoas sem necessidade.

 

As banalidades. Vamos ver?

 

“O que é o enamoramento? É o estado nascente de um movimento colectivo a dois”. Sim?  

 

Pois. “O enamoramento não é um fenómeno quotidiano…antes pode ser inserido numa classe de fenómenos já conhecidos, os movimentos colectivos”. Como?

 

De facto, “não pode ser confundido com outros tipos de movimentos colectivos, como a reforma protestante, o movimento estudantil, o feminista … ou o movimento islâmico de Khomeini”. Ah, bom!

 

“Contudo, pertence ao mesmo género, é um caso especial de movimento colectivo… as forças que se libertam e que actuam são do mesmo tipo, muitas das experiências de solidariedade, alegria de viver, renovação, são análogas”. Mau!

 

“A diferença fundamental está no facto de os grandes movimentos colectivos serem constituídos por muitíssimas pessoas e estarem abertos ao ingresso de outras mais”. Bem me parecia.

 

“Contrariamente, o enamoramento, sendo embora um movimento colectivo, nasce apenas entre duas pessoas, e o seu horizonte de dependência, qualquer que seja o valor universal que possa desencadear, está vinculado ao facto de ser completo com duas únicas pessoas”.

 

Com este livro, andou tudo a aprender o que é o amor, o enamoramento e o sexo. As pessoas apaixonavam-se e depois iam lá ver se batia certo, talvez. Também costumavam olhar para as relações dos outros e falar delas com propriedade, não sei.

 

Mas o que é isto? Quem é que precisa de um livro para saber aquilo que sente? Pelo menos o que sente. Valha-me Deus!

 

Agora já estou menos entediada.

 

publicado por Cat2007 às 20:58
 O que é? |  O que é? | favorito
Tags:

desmontai as charlatanices porque isso é verdadeiro serviço público. gerações a averiguarem o amor por estas banalidades. temo que o próprio sentimento tenha sido contagiado pela mediocridade ou pela manifestação do banal básico-limitado. pessoalmente estou otimista
estamos perto do natal :)
Catarina a 30 de Março de 2011 às 23:20

Eu cá não estou optimista. Tenho mesmo a certeza que não fui contaminada. Por outro lado, é sempre uma honra fazer a minha parte de serviço público

Cat2007 a 31 de Março de 2011 às 00:01

e esse gato entediado? só à chapada
Catarina a 30 de Março de 2011 às 23:54

Este gatinho é um amor.
Cat2007 a 31 de Março de 2011 às 00:03

esse gato é dos que tem 1 a educação física.

(final de converseta, espero, não há mais nada a acrescentar sobre o gatucho)
Catarina a 31 de Março de 2011 às 12:20


Cat2007 a 31 de Março de 2011 às 13:55


concordo... bonito, mas profundamente irritante... pois... beleza não é tudo!
Tem toda a razão Catarina, só à estalada.
vida a 31 de Março de 2011 às 16:06


NCR! Bem recorda-me o meu. Um que eu já tive. Mas era muito mais amável para todos os gostos, o meu Gaga. Até porque era um tabby de pêlo curto. Um dia destes volto a meter aqui a foto dele
Cat2007 a 31 de Março de 2011 às 16:13

...mas o endereço deste blog é ele! se for ao sitemeter foram até agora umas 283, 178 homenagens a Gaga.
será que ele, ao contrário deste, era tipo para ter positiva a educação física? tipo saltos de um telhado para outro? salto gigante até ao cimo de um muro? pronto, será que era um ginasta, o tabby?
 
Catarina a 31 de Março de 2011 às 16:28


Não, coitado. Não era, não. Era só uma bolachinha querida
Cat2007 a 31 de Março de 2011 às 18:15

Acho que ando com vontade de voltar a ter um gato... já há mais de um ano... mas não um como este!
Mas definitivamente, um mimalho que gosta de colo, se baba com o mimo e que ande pendurada nos meus ombros, qdo lavo a louça... na realidade acho que estou com saudades da minha velha Iris...
Vida a 31 de Março de 2011 às 19:44

Olha, no teu lugar, não perdia mais tempo.

Não.... não dá.... não tenho vida para isso neste momento.
Bjs
Vida a 1 de Abril de 2011 às 16:35

É pena. Bjs

Porquê?!
Vida a 1 de Abril de 2011 às 20:16


Cat2007 a 2 de Abril de 2011 às 01:20

Não percebo porque é pena... nem sempre se pode ter tudo o que nos apetece... simultaneamente eu de facto não tenho vida para tratar decentemente de um bichinho agora... eu estou bem sem ele (embora de vez em qdo me lembre...) e ele seja quem for com certeza esta melhor sem um dono como eu, neste momento.
Vida a 2 de Abril de 2011 às 11:11


Pronto. Mas é pena quando não podemos ter. Sobretudo coisas que nos fazem bem. Não. Os gatos não são coisas. É só uma maneira de falar.
Cat2007 a 2 de Abril de 2011 às 13:11


Amar é encontrar no outro o espelho da nossa Alma, e nascer um sorriso interior que nos impulsiona a vida. Amar é viver.
Miguel Brito a 12 de Abril de 2011 às 18:19


Viver é ter sentidos e fazer sentido :)
Cat2007 a 13 de Abril de 2011 às 10:38


As vezes vive-se com sentidos sem fazer sentido, mas isso talvez seja sobreviver. A propria.
Alex a 14 de Abril de 2011 às 01:17

Sim :)
Cat2007 a 14 de Abril de 2011 às 12:26

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
pesquisar
 
stats
What I Am
comentários recentes
Com muita calma e paciência tudo se começa! 
Mas a questão é que, antes de se preocuparem com o...
yah, a quantidade de construções emocionais que nã...
Sabia que fazia anos, tinham me dito, mas no meio ...
há "sinais" que não devemos negar :D
Se o tédio estiver instalado numa relação, então é...
Posts mais comentados
140 comentários
122 comentários
122 comentários
106 comentários
82 comentários
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


Março 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11

15
16
17

20
21
22
23
24
25
26

27
29
31


blogs SAPO