CAFÉ EXPRESSO

Setembro 11 2011

“A declaração de nulidade de um casamento em que um dos cônjuges é homossexual depende do "grau" em que se encontra, disse hoje o presidente da Associação Portuguesa de Canonistas (APC).” 

 

 

 

 

Vou comentar detalhadamente algo que não merece objectivamente quaisquer comentários. Há dias assim em que nos apetece considerar sobre a estupidez, desenvolvendo para tanto um esforço estúpido. Vamos lá então. Saiu no Diário de Notícias de ontem e pode ler-se em http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1987302.

 

A APC “… é uma associação privada de fiéis, com personalidade jurídica canónica e civil, que cultiva e promove o estudo e a aplicação do Direito Canónico.” Esta organização “(…) foi fundada numa reunião de 40 canonistas de todo o país, realizada em Fátima, em 23 de Fevereiro de 1990.”, nos termos do que vem esclarecido em http://www.portal.ecclesia.pt/instituicao/pub/60/seccao.aspjornalid=60&seccaoid=582.

 

Portanto, o que está aqui em causa é a possibilidade de anulação do casamento católico. Pode parecer que não. Mas é importante deixar isto claro, dado que a Igreja Católica não tem descansado um segundo sobre a matéria do casamento civil e, actualmente sobretudo, do casamento civil homossexual. Assim como que a defender o direito institucional de se meter na cama dos indivíduos. De qualquer forma, a culpa é também muito de quem tem dado confiança para o efeito às instituições e representantes católicos. Lembro a este propósito e a título de exemplo que, no período prévio à aprovação do diploma sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, um dos debates mais importantes que aconteceram na televisão contou com a presença de um padre. Refiro-me ao que sucedeu no programa “Prós e Contras” do Canal 1, apresentado pela Fátima Campos Ferreira. Ainda gostava de saber de quem foi a ideia. Da apresentadora, da produção ou foi mesmo o senhor padre quem ligou a pedir para ir?

 

Mas, voltando ao princípio, se o que está em causa é o casamento católico, não temos nada a ver com isso. Nós os outros, os que não têm nada a ver com isso. A Igreja tem direito a reflectir e a exprimir para dentro. Regras, princípios, forma de organização, programas de acção, celebrações, sacramentos, nulidades e anulações de procedimentos, etc. O que entender. Na casa da Igreja entram os que de lá são e os que são convidados a entrar. É assim em todas as casas. E esta era a primeira razão que justificava um não comentário às considerações da APC ao “graus de homossexualidade” para efeitos da anulação do casamento católico.

 

Por outro lado, já a Dolly Parton dizia que era a favor do casamento (civil) homossexual porque achava que os orientados nestes termos também deviam sofrer, nunca se referindo a cerimónias comoventes passadas dentro de uma qualquer igreja. Percebo. Queria ela dizer que o casamento é uma coisa muito séria, sendo ainda certo que os efeitos civis que se misturam com as questões pessoais das duas pessoas que resolvem envolver-se a tal nível é que realmente contam. E o que eu acho, para além de concordar, é o que disse. O casamento católico é um ritual cerimonioso que não significa praticamente nada à medida que a prática do casamento se vai desenvolvendo ao longo da vivência de duas pessoas no tempo. Duas pessoas que casaram na igreja e que podem até ter chorado comovidas perante as imagens e alegorias que decoram o templo ao som das palavras de um padre e dos cânticos encomendados. As estatísticas dizem que é provável que se divorciem. No entanto, o divórcio não está previsto no Direito Canónico, mas no Civil. Quer dizer, talvez os católicos não merecessem o direito ao divórcio, devendo eventualmente contentar-se com a anulação.  

 

E pronto. Já chegámos ao tema da anulação do casamento católico. A anulação baseada no “grau de homossexualidade mais grave”. Um tema que não merece comentários, como comecei por dizer. Vou então tentar comentar, portanto.

 

"A orientação que temos é que deve ser feita uma perícia psiquiátrica" para aferir se se trata "de uma homossexualidade prevalente ou exclusiva, ou algo de acidental", precisa o cónego Joaquim da Assunção Ferreira, que coordenou o VII Encontro Nacional sobre Causas Matrimoniais, que terminou hoje em Fátima.

 

Não sei o que significa "A orientação que temos é que deve ser feita uma perícia psiquiátrica". Talvez o cónego Joaquim se tenha pronunciado mal ou seja gralha do jornalista. Creio que se percebe a ideia. Fazer uma perícia psiquiátrica à orientação sexual das pessoas casadas pela Igreja. Bom, se estas pessoas não tiverem nada contra, não vejo porque não. Agora tenho dúvidas sobre a exequibilidade técnica do procedimento. Este tipo de “perícia” existe? Ponto. Está bem. Existe se é um exame psicológico cujos resultados devem poder demonstrar se uma pessoa é homossexual ou não. Claro que isto depende da boa vontade do examinado. É que se não depende, nunca ouvi falar em análises ao sangue para o efeito. No mais, “homossexualidade acidental” é uma coisa que deve ter a ver com um acidente. Um dia alguém, inadvertidamente, está a fazer “coisas” com uma pessoa do mesmo sexo. Depois do facto, tenta ser mais cuidadoso para não ter mais acidentes. É isto? Não sei. Vou ver o resto para perceber também os demais conceitos envolvidos.

 

Joaquim da Assunção Ferreira explica que há uma escala e que os últimos "graus" tornam a pessoa em causa "incapaz de realizar funções conjugais". Em causa estão os "graus" em que as pessoas são "predominantemente homossexuais, os só acidentalmente heterossexuais e os exclusivamente homossexuais".

 

Pois os graus. Nunca tinha ouvido falar. Eu uma psicoanalisada. Não percebo. Sei que há heterossexuais e homossexuais e que os bissexuais são aquelas pessoas que levam mais algum tempo que as demais a definir-se emocionalmente na matéria (sim, esta parte dos bissexuais é polémica, I know). Assim, as “predominâncias” do cónego nada têm a ver com orientação mas com a possibilidade que todos têm de, na prática, praticarem a sua sexualidade como decidirem. Ou seja, a orientação não depende da vontade, já a sua prática sim.

 

Pelo contrário, os "exclusivamente heterossexuais, só acidentalmente homossexuais, predominantemente heterossexuais" e os que são "igualmente uma e outra coisa" podem ser considerados como aptos para "desempenhar perfeitamente os papéis e os fins do matrimónio".

 

Portanto era o que eu estava a dizer acima. Que o cónego parece não viver neste mundo. Apto para "desempenhar perfeitamente os papéis e os fins do matrimónio" está qualquer um. Como está o próprio cónego Joaquim. Tudo depende da disposição. Que o diga um querido amigo gay que viveu 4 anos com uma mulher, tendo sido, nesse período, totalmente “casto” no que aos homens respeita. Revelou-me que aquilo era um gozo. Sexual, quero dizer. De qualquer modo, aproveito para dizer que me parece um tanto redutora esta visão dos “papeis” e dos “fins do matrimónio”. Afinal as coisas não se resumem todas ao sexo, caramba! E os padres parecem não ser capazes de falar de outros assuntos, Santo Deus!

 

Afinal, "a pessoa pode não ser um heterossexual puro, mas, se algumas tendências pouco significativas existirem, esse matrimónio certamente que se manterá", desde que o indivíduo assuma que "a obrigação dele é viver em castidade [homossexual] e corrigir", argumenta o cónego, que é também vigário Judicial do Tribunal Diocesano de Lamego.

 

O presidente da APC opina que "há a possibilidade em medicina de correção, mas não tem sido muito eficaz" porque "a natureza é muito forte", acrescentando que "o psiquiatra pode medir-lhe o grau [de homossexualidade] e receitar algo [medicamentos] que lhe permita recusar essa tendência que o próprio mostre vontade de eliminar".

 

Chegada aqui, já só vale a pena pensar na “medicina de correcção” e nos “medicamentos” para tratar o problema da orientação homossexual de grau elevado onde a “natureza” se impõe de uma forma muito acentuada à vontade da pessoa que quer actuar pelo lado do bem. Bom então o que é tenho a dizer é que… Zzzzzzzz!!!!

 

publicado por Cat2007 às 18:47
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Muito bom!
SAra a 11 de Setembro de 2011 às 20:09

Muito obrigada
Cat2007 a 11 de Setembro de 2011 às 20:59


Sara a 11 de Setembro de 2011 às 21:26

nada a acrescentar ou a comentar senão dizer que vejo este post como mais uma deixa para:

"Enough of this Freedom of Religion Crap"
Catarina a 11 de Setembro de 2011 às 21:34

Não sou homofóbica, mas tal não significa repudiar, por completo, a possibilidade desta orientação ter causas, sejam elas reversíveis ou não. Já muito longe das áreas religiosas, sabia, por exemplo, que os homossexuais não podem ser psicanalistas? É proibido. Porque será?
Joana a 11 de Setembro de 2011 às 22:32

Se me permite Joana, duvido sempre de um comentário que começa por "não sou homofóbica". O que diz logo a seguir confirma a minha desconfiança. A homossexualidade tem causas? A heterossexualidade também? E então? Qual é a pertinência da questão? E a heterossexualidade será então reversível, imagino.
Deixo-lhe sobretudo a minha estupfação perante semelhante notícia: os homossexuais não podem ser o quê????? Não creio que a própria Joana acredite no que diz mas por via das dúvidas, sabia que não só podem como são "psicanalistas"? Onde diabo foi desenterrar essa, credo? Era uma anedota, espero.
Catarina a 11 de Setembro de 2011 às 22:53

Comecei por dizer que não sou homofóbica porque sabia que o que disse de seguida poderia ser mal entendido e interpretado como discriminação.
 A heterossexualidade também tem causas, obviamente. Psicanálise tem como uma das bases a teoria do complexo de Édipo, que, como sabe, passa por uma fase de identificação...
 Não considero a homossexualidade uma doença nem uma fraqueza. Na verdade, tenho bastantes amigos gays(e desculpe se este comentário também a faz duvidar...)
 Não disse sequer que concordava com a questão de os homossexuais não poderem ser psicanalistas. Também fiquei estupefacta  com um vídeo que vi há tempos de um psicólogo ou psicanalista gay que reivindicava exactamente esse direito de não ser discriminado pelos colegas e pela psicanálise em si. Um vídeo recente que mostra bem que a questão de homossexualidade está longe de ser resolvida no século XXI mesmo até pela psicanálise. Ele era gay, sentia na pele a descriminação, talvez. Mas quais são as razões da outra parte? será discriminação? Ou algo mais que nos pode remeter para a questão edípica?  É claro que não foi a partir deste vídeo que soube que a homossexualidade e psicanálise não andavam de mãos dadas, é apenas um exemplo.
 Como disse que fazia sessões de psicanálise achei interessante fazer esse reparo. Pelos vistos, não sabia, mas olhe...não é mesmo uma anedota.
E lamento mesmo que desconfie por ter começado o comentário com um "não sou homofóbica", eu cá desconfio sempre de quem acha que eu sou...
Joana a 12 de Setembro de 2011 às 00:12

Joana vamos lá ver antes que eu fique profundamente heterofóbica, já estive mais longe e tenho por hábito reconhecer as minhas fobias e tratá-las o mais rapidamente possível.
O que está a relatar baseia-se em quê? Apresente o video, a notícia, o artigo,a prova se quiser.
Mesmo assim, saiba Joana que os youtubes estão cheios de videos com disparates ou simplesmente com casos pontuais, com exceções. O facto de haver um "gay psicanalista" com problemas de discriminação no trabalho não significa de todo que haja qualquer interdição a um gay a poder fazer psicanálise. E estar a dizer-lhe isto já é entrar num absurdo. A orientação sexual, tal como ser gordo, pode provocar muita chatice mas não interdita nada. Isso está consagrado na Constituição. Quanto ao caso de discriminação de que fala, como esse deve haver infinitos. Eu percebo que consultar um nutricionista Obeso possa ser visto quase como uma incompatibilidade, não é. Agora um gay não poder fazer psicanálise por causa de complexos de édipos e afins, penso que só se for pelo simples facto de o tipo ser um simples incompetente e não por ser gay. Tente perceber o complexo de édipo para além da historieta que lhe contaram. Era o que faltava se uma orientação sexual impedia de abordar fosse o que fosse nem que fosse preciso citar édipos e eletras. Já agora de que raio de psicanálise está a falar, de que ano? A psicanálise evoluiu sabia?
Olhe noutro dia vi um blog onde um "psiquiatra" dizia que a homossexualidade podia ser curada e que um dos sinais de gayzice é o Síndrome da Perna Irrequieta. Concluo que os gays tremem das pernas ou concluo que o psiquiatra é um anormal? Lembro-lhe que o disparate de que nos fala para além de ser absurdo deixa irremediavelmente de ter credibilidade por não ser sustentado por documentação nenhuma. Percebo que não o seja, ela não existe. Ninguém nega que haja casos de discriminação mas não estão tipificados na lei. Confesso-lhe que fico quase em estado de vergonha alheia quando leio os seus comentários. Imagine que eu concluia que o disparate tinha a ver com a probabilidade da Joana ser heterossexual, outro disparate não lhe parece?
Catarina a 12 de Setembro de 2011 às 11:47

leia-se: "casos de discriminação são proibidos por lei" em vez de  casos de discriminação  "não estão tipificados na lei"
Catarina a 12 de Setembro de 2011 às 11:51

Obrigada pelos 5 minutos de gargalhada Catarina!!!! lololol :D
A da perna perna irrequieta é fantastica!!!
estive a reflectir sobre o assunto... Eu sou gay e tenho perna irrequieta?!!! Será que é um sinal?! Se eu conseguir controlar a perna irrequieta será que consigo fazer com que o meu grau de homosexualidade diminua? Será que encontrei a cura?!?! :D;
lololololololololol :D lololololololol
Actualmente ando a fazer um tratamento de auto controle. O de não me irritar com a ignorancia dos outros... é um gasto de energia absurdo e desnecessário. Não vale o esforço. Tenho tido alguns resultados à custa de muito trabalho, mais ainda tenho muito caminho para andar... :) 
Sara a 12 de Setembro de 2011 às 13:39

o contrário Sara, o contrário. A ideia é mantê-la irrequieta sempre que possível para não termos surpresas
vamos treinando: perna sempre a mexer, sem parar!
Catarina a 12 de Setembro de 2011 às 13:58


Lololololololololololol
Sara a 12 de Setembro de 2011 às 14:06

Pois Joana. Eu ia responder a todas as suas colocações. Porém, a Catarina adiantou-se e deixou-me sem muito para acrescentar. De qualquer modo, sempre adianto que não me interessa se as pessoas são homofóbicas, tolerantes, intolerantes ou indiferentes. Cada um com os seus dramas. Que é como quem diz com os seus botões. Desde que não ofensiva uma opinião honesta é válida. E aqui é que a coisa se complica. Aceito a sua opinião como honesta até ao ponto em que afirma: "sabia, por exemplo, que os homossexuais não podem ser psicanalistas? É proibido." Pois não sabia não. Não sabia que os terapeutas são todos psicanalistas e não podem ser gays, se era isto que queria dizer.Se não era isto que queria dizer, não sabia que os terapeutas que usam o método da psicanálise não podiam ser gays. Aliás, eu própria tenho uma amiga psicóloga que utiliza precisamente o método da psicanálise e é gay. Espero que não seja uma fora da lei. Aliás, sei que não é. Poderia provar o que diz? É que eu sou jurista e nunca soube de tal proibição. Uma proibição que não pode existir, dada a sua natureza absurda e além do mais inexequivel por razões óbvias. Mas e já agora, é proibido pelo direito civil ou é mesmo matéria penal e as pessoas podem ser presas e tudo? Well...
Cat2007 a 11 de Setembro de 2011 às 23:08


Joana, fica então esclarecido que não é proibido o exercício da profissão por psiquiatras e psicólogos gays no âmbito de quaisquer terapias. Muito obrigada.
Cat2007 a 12 de Setembro de 2011 às 11:23


Loololololololol
Em que se baseia para fazer tal afirmação? (qualquer uma das que fez)
Sara a 12 de Setembro de 2011 às 00:13

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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