CAFÉ EXPRESSO

Novembro 08 2011

 

 

O meu terapeuta morreu…

 

Não sei o que estava a fazer às duas da madrugada do dia 2 de Novembro passado. Sei que no dia 3 estava a entrar no meu gabinete no momento em que pensava que a consulta do dia 5 ia ser uma maçada. Costumava ir a pé todas as semanas ao fim de um dia de trabalho. Cerca de 20 minutos. Era isso ou arriscar multas e/ou bloqueios do carro que já não estou para aguentar. De qualquer forma o meu carro está outra vez na Santogal. Passou-me pela cabeça telefonar a adiar. Como sempre desisti imediatamente. Estava cansada. Andamos com obras cá em casa. Mas a tendência para contornar aquilo que é bom para mim e descansar o corpo é um dos meus grandes pecados. Foi ele que me fez sentir isso sem dizer nada. Os nossos pecados levam-nos ao inferno na terra. Escolhi ir ter com ele no dia e hora marcada desde há dez anos. E entrei no gabinete com um suspiro. Foi o Zé que me ensinou a tomar as decisões que mais me favorecem.

 

Não sabia que ele era o “Zé”. Durante dez anos foi o “doutor”, para ele, ou o meu médico, para os outros. Era psiquiatra. Nunca faria uma terapia com um psicólogo. Peço desculpa. Era perto do meio-dia quando recebi um e-mail a dizer que a conta do carro passava dos 1.600 euros. Estava a começar a sentir as costas coladas à cadeira enquanto pensava que tinha pago um arranjo de 1700 em Julho. Começava então a refletir sobre o costume. “Este carro é um sorvedouro de dinheiro…” E o telemóvel tocou. “Olá Lina”. Disse-lhe e sorri para ela. Como se a minha cara se pudesse ver na conversa. Respondeu-me a sorrir também. Como se a cara dela se pudesse ver na conversa. O tom era precisamente o mesmo de sempre. Calei-me para ouvir. Como sempre, se era a Lina a ligar. “É por causa das suas consultas”. Imaginei que fosse. Por isso não me chegou a apreensão. “Vamos ter que cancelar”. Ou lá o que foi que ela disse. Chegou-me a apreensão. E um sentimento de culpa deslocado. O meu. “Mas o que é que eu fiz?” Pensava nisto enquanto ela continuava a falar. “Sabe, há coisas que acontecem…O doutor não vai poder…” Achei então que ele ia trabalhar para fora. “Aconteceu uma coisa muito triste e…” Devia estar doente, talvez. Imaginei. “Fizeram tudo o que era possível mas não conseguiram e o doutor faleceu”. O resto da conversa já não interessa. A imagem dele na sexta-feira anterior de jeans e casaco azul-escuro de malha, mexendo-se e falando vivo ocupou-me a cabeça. Como um ato espontâneo de negação. Quando voltámos a falar foi para tomar nota do lugar do velório. Chovia tanto! Fui lá. Antes de mais nada era fundamental saber se não havia ali um engano. Que não havia. Mas era preciso terminar aquela relação em vida. Vê-lo morto. Para continuar a relação com ele na minha vida. No sítio estava uma mulher jovem dobrada sobre o corpo. Devia ser o dele. Era o dele. Tantas lágrimas é demasiado líquido transparente e já não são lágrimas. Parecia que se estava a desfazer pelo rosto através do choro. E aí eu vi o amor. Naquele rosto que se desfazia para mostrar  isso mesmo. O amor. “Zé!” Não sabia dizer mais nada. Só “Zé!”. Alternava entre o desejo de o agredir e a necessidade extrema de proteção. Puxava-lhe os colarinhos da camisa ou deitava-se no peito dele. De vez em quando queria acordá-lo. Passava-lhe as pontas dos dedos pelos lábios grossos ou beijava-lhe levemente a boca. Assim como quem está a “provocar”. Eu estava do lado contrário do caixão a ver. As duas coisas. Queria ver-lhe a cara. A expressão. Não estava a conseguir por causa da brancura e da inércia do cadáver. Precisava de olhar para a cara dele de frente. Queria a expressão conhecida, familiar, confortável. Não conseguia porque ela estava ali. E também me puxava. Chorava com ela. Eu tão parada como ele. Mas eu quente e ele frio de certeza. Não estava frio na sala. Apenas uma humidade de pântano. Era a chuva e a igreja. Mais as lágrimas da mulher.

 

Ao fim de uma eternidade fui capaz de a chamar. Até lá não sabia como o fazer. Foi ele que me indicou. Antes. Durante os dez anos antes. Aprendi a saber como se faz. Seguir o que se sente e agir em conformidade. É só isso. Como se isso fosse fácil. Existem milhões de razões para não seguir os sentimentos. Quase nenhuma é verdadeiramente válida. Foi ele que me ensinou. “Como é que ele morreu?” Isto parecia-me o essencial. A Lina não sabia bem. Os olhos viraram-se para mim e ficaram num encolher de ombros enorme. Não sabia. Foi ataque cardíaco, na verdade. “Quando?”. Sim, foi às duas da manhã. Nem cinquenta anos tinha e não tinha historial. Morte súbita mais ou menos como uma partida de carnaval estupida, como são todas. “Ele estava sozinho?” Não, estava com ela. “É a mulher dele?” Sim. “Ele era meu médico… há dez anos.”

 

Não podemos saber nada da vida do terapeuta. Eu não sabia nada. Há uns meses perguntou-me se eu gostava dele. Eu respondi-lhe que não sabia. Se ele tivesse morrido antes de me perguntar poderia ter-lhe dito que sentia amor. Sem espinhas. Disse-lhe ali. Toquei-lhe com os dedos na face. Ela desculpou-o imediatamente. “Está muito frio.” Não estava. Gostei da sensação da pele e da barba feita. Não estava rígido. Baixei a boca até ao ouvido dele e disse-lhe: “Sabe doutor, eu gosto muito de si. Muito”. Disse sem falar. Porque ele estava morto. Assim era mais provável que me ouvisse. Também, não queria espalhar. Não gosto de falar em alta voz dos meus sentimentos mais caros. Claro que posso reconhecer que quem lá estava percebeu. Ou ela percebeu. Abraçou-me tanto tempo… Não estou nada habituada. Nunca me ponho a jeito. Ali fiquei em paz. No dia seguinte, durante o funeral, não lhe disse nada. Só lhe dei um beijo com significado. Acho que ela não tinha dormido. Penso como estará.

 

Enterraram-no e fiquei finamente convencida de que materialmente ele foi. Não me abandonou. E isto faz toda a diferença. Agora vive em mim. Depois do processo da morte em vida o que sinto é a memória viva que me traz a presença dele. Observo o rosto e os gestos. Ouço o que diz. Cada vez estou mais certa de que sou capaz de “resolver os meus problemas, de tomar conta de mim”. É capaz de ser verdade. O tratamento estava a acabar. Ele é que disse. Antes contou-me que gostava de mim. Afinal de contas uma psicoterapia é um tratamento médico que depende dos afetos. “Você acha que eu aceito qualquer pessoa?” Não podia. Escolhia as pessoas. Escolheu-me. Gostava de mim. O meu problema é que eu só acreditei totalmente quando a vi. A generosidade, a compreensão, o cuidado, a tranquilidade… tudo o que ele fazia e dizia no consultório não era técnica médica. Eu pensava que sim. Mas havia a técnica e o amor. Eu reconheci o amor quando a vi. A ela. Havia amor entre nós e ele não me abandonou. Talvez a morte dele me tenha curado de vez. Lembro-me do caixão e das flores no cemitério já no fim do fim. Pensava que precisava de falar com ele sobre os efeitos da morte do Zé.

 

publicado por Cat2007 às 20:17
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Já li. Pouco tenho a dizer também para não estragar o efeito importante do texto. Tomara que ele o lesse, o Zé.
Mas qual Zé? Recusei-me conhecê-lo de tal forma me parecia sagrada uma psicoterapia. Afinal fui conhecê-lo morto. Esta, agora mesmo, foi a terceira vez que chorei por ele, um perfeito desconhecido.
Que raio de Conto do Imprevisto, o médico morreu.
"Nunca es para siempre" mas vivem para sempre na nossa memória. Quem? os poetas? os escritotes? Não, o psicoterapeuta. O Zé.
Que merda esta que lhe foi acontecer.
Catarina a 8 de Novembro de 2011 às 21:08


Sim. Já tinhamos falado sobre isto não é? Por isso este texto não é novidade para ti. No mais, foi fundamental estares comigo, ires lá comigo.
Cat2007 a 8 de Novembro de 2011 às 21:17

conto continuar fundamental e contigo ah e vamos então a isto:
 "Não. A vida não continua, era o que faltava, o Zé morreu"
Catarina a 8 de Novembro de 2011 às 21:53

Sim. A vida continua, mas diferente e, também ao contrário do que se diz, sim há pessoas insubstituiveis. Tu, por exemplo.
Cat2007 a 8 de Novembro de 2011 às 21:57

por exemplo, Nós.

"é a mulher dele? sou. !ele é o meu médico!"
não devo ver uma cena destas nem na literatura latino-americana...no meio de uma choradeira. foi o velório mais intenso em que estive, o funeral mais estranho...incrédulo. mas a que propósito...como se as ambulâncias andassem a ter acidentes. sei que têm mas que raio de imprevistos serão estes? como é que se encaixa isto num dia? e a tua vontade de lhe perguntar tudo isto e mais alguma coisa, ao Zé. Também aposto que teria a resposta ou a interrogação no momento certo. Havemos de lá chegar.
Catarina a 8 de Novembro de 2011 às 22:45

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