CAFÉ EXPRESSO

Novembro 13 2011

 


 

De um certo ponto de vista as pessoas são todas iguais. Eu também. Claro. Eu sou do grupo das pessoas que são todas iguais. Que são todas de um certo ponto de vista. Andei com A, vivi com C, cruzei-me com B. Fazer amor é determinante. Determina o princípio e o fim de uma relação. Se ela acaba formalmente é uma formalidade. O que importa é que, no que toca ao acabar, acaba mesmo. Ou seja, mesmo que as pessoas continuem a respirar o mesmo ar todos os dias dentro de um espaço comum. Há quem não se importe.

 

Até hoje importei-me sempre. Sou uma formalista. Por isso extermino formalidades. Aquelas que só servem para dar forma às coisas que não têm conteúdo nenhum. Isto é adulterar a função nobre da forma. Não compactuo com coisas destas. Fazer mal amor faz mal ao amor e por isso retira uma parte do conteúdo de uma relação. Como disse, uma parte decisiva. O amor saudável. Uma mesa com duas pernas é como fica parecida. A relação. Embora se possa sempre encostar a mesa à parede e segurá-la com parafusos. Apenas fica a parecer uma consola pouco elegante. Mas há muito quem lhe dê utilidade assim e aproveite para fingir que é uma mesa que continua a servir os mesmos propósitos. São os formalistas positivos. Pessoas que não são como eu. Uma formalista destrutiva.

 

De um certo ponto de vista as pessoas são todas iguais nas relações. Todas são formalistas. Umas positivas. Outras negativas. Vou suspeitando que as primeiras vivem um bocadinho melhor. Porque, enfim, a vida tem muitas coisas e é capaz de ser possível ir buscar a felicidade aos bens materiais, aos sucessos profissionais, aos produtos da nossa criatividade, à boa integração social e familiar, a quaisquer missões de solidariedade/caridade onde nos possamos empenhar ou à projeção na vida dos filhos que estão a crescer e poderão ser o êxito (?) que nós nunca fomos. É possível ser feliz assim. Com tudo isto. Com alguma destas coisas. Com nenhuma destas coisas mas com outras igualmente suscetíveis de contribuir para um contexto de conforto rotinado. Desde que não se vá dizer que a mesa é uma consola. Desde que não se discuta isto. Que faltam duas pernas à mesa. Desde que não se termine com uma relação que há muito já tinha orientado a mesa em direção à parede. É muito mais fácil levar a vida com alguém ao lado. E às vezes também precisamos de alguém com quem falar e vá connosco ao supermercado e ao médico.

 

A esmagadora maioria das pessoas entende as coisas assim. Por isso há muito mais formalistas positivos. As estatísticas dos divórcios e das separações não querem dizer nada sobre este facto. Toda a gente sabe que, em regra, as coisas terminam só por falta da estabilidade formal e apenas no momento em que há uma alternativa viável que acena de fora.

 

Fazer sexo mal é pretender obter alívio para o sistema nervoso. É imprimir uma certa agitação no corpo para chegar ao descanso. Consiste num processo que elimina várias etapas do processo e não é fazer amor por causa disto. Fazer amor é o processo. Quando vou ao indiano peço sempre a mesma coisa, que é o prato que eu mais gosto. Sei sempre tudo o que vai suceder. O gosto que vou ter e como me vou sentir no final. Nunca tenho surpresas. É este o processo de me alimentar num restaurante indiano. Não vou lá há séculos, como é evidente. Mas posso lá voltar sempre. É como a masturbação. Bom mas desinteressante.

 

A fantasia de existência de outro no processo da masturbação é decisiva para chegar ao resultado. Ao alívio do sistema nervoso. Quando se faz amor para atingir os mesmos resultados da masturbação pratica-se masturbação em conjunto com a vantagem de se poder fazer mais coisas que dão prazer e ainda dá para assistir às demonstrações íntimas alheias, com tudo o que isto tem de estimulante para os sentidos e para as emoções. A importância do toque e o valor da companhia são hipocritamente exagerados. Mesmo que se consubstanciem numa enorme necessidade dos afetos. Quem ama e faz as coisas assim não sabe fazer amor, pelo que não faz amor. Cria rotinas. Corta pernas à mesa.

 

Embora já tenha vivido outras contingências, em princípio, só vou para a cama com quem amo. E no dia em que as coisas me começam a parecer muito semelhantes a uma ida ao indiano, começo a ponderar que é melhor não voltar tão cedo. O resto é uma consequência. Eu sou uma formalista que honra a forma nos termos expostos. Porque 10 anos de terapia me convenceram que é muito melhor para mim não ser o contrário do que sou.

 

Obrigada doutor. Há pessoas insubstituíveis. Pelos vistos, continua a ser o meu único caso não familiar. Tenho que aceitar a sua morte, de acordo com o que aprendemos juntos. Mas não tenho que deixar de lamentar profundamente, como sabemos.


 

publicado por Cat2007 às 13:12
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Gostei ... é mesmo ... Parabéns ... Muito inteligente ... a forma !!!! ;)
carmen a 13 de Novembro de 2011 às 14:49

Muito obrigada, Carmen :)
Cat2007 a 13 de Novembro de 2011 às 15:22

pelo sim pelo não: não voltar ao indiano...mas não abdicar do cigarro ainda assim
Catarina a 14 de Novembro de 2011 às 05:36


É como disse, não vou lá há séculos.
Cat2007 a 14 de Novembro de 2011 às 10:23

ah mas lembra-me para deitar fora o caril também. who needs that!
Catarina a 14 de Novembro de 2011 às 11:04


Sabes, não tendo necessidade nenhuma de ir ao indiano, agora veio-me a disposição para uma chiken tikka massalla. Queres ir? Claro que o caril vai fora, então se é molho de natas!
Cat2007 a 14 de Novembro de 2011 às 15:48

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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