CAFÉ EXPRESSO

Junho 19 2012

 

 

 

Morreu o Miguel Portas, o Bernardo Sassetti, o Quim. E morreu a minha mãe. Por esta ordem cronológica. Se não fosse a cronologia diria apenas: morreu a minha mãe. Se não fosse o cancro diria apenas: morreu o Bernardo Sassetti - os demais estariam vivos. E eu não estava assim.

 

Mas falo de todos por causa da morte que têm em comum e a proximidade do acontecimento entre todos. Na verdade, falo de todos para não me focar na pessoa que me importa. A presença que me desapareceu. Porque só me faz sentido falar dela. Ou ficar em silêncio a falar dela. Mesmo assim, temo as palavras que uso. Além de que não tenho muitas palavras para usar.

 

Talvez isto não seja boa ideia. A minha mãe era a minha mãe. Figura não pública cuja morte só interessa a quem a sente e a quem pouco sente mas também foi ao velório e ao funeral. Não sei se é correto escrever este texto. Também não importa, fica entre o escrito e o por escrever. É melhor assim. O Quim também era um desconhecido. Era pai. Morreu sozinho em casa. Tinha bom coração e uns olhos azuis muito bonitos. Tenho muita pena.

 

Não vou dizer muitas coisas. Não posso. Apenas sublinhava as seguintes palavras: solidão e indiferença.

 

Neste último mês (foi quando se soube da doença) habituei-me a correr pelo dia para chegar ao hospital sempre e cada vez mais cedo para sair sempre e cada vez mais tarde. Todos os dias aquém e além da hora da visita - da uma às sete. Eu e o meu irmão das onze às nove. Depois o meu pai - que só soube quando não foi possivel a ninguém esconder mais. Sei que se eu não podia estar o dia todo, corria, acelerava, angustiava. Quando chegava sentia-me feliz. A solidão própria de quem está num processo de luta física contra a morte e está a perder passava-lhe um bocadinho. Creio que então era substituída pela dor de quem sente que está a abandonar os que ama e não pode. Num dia desses de corrida aconteceu que a Sara Tavares cantou "eu sei". E eu chorei muito e compreendi o que a minha mãe queria dizer.

 

No dia 2 de junho estava morta de manhã. Cheguei para a visita. O cancro chegou, instalou-se e varreu-a num ápice. Quando foi a hora de sair junto da sua cama no hospital disse-lhe o que lhe dizia todos os dias e era verdade: “mãe eu já venho”.

 

 

publicado por Cat2007 às 17:15
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fizeste bem em escrever o texto. foi correto.
Catarina a 19 de Junho de 2012 às 17:51

Também foi um bocadinho um alívio. Porém... não queria ofendê-la. Nem à minha família. Acho que consegui. Se tu dizes.
Cat2007 a 19 de Junho de 2012 às 17:53

sim concordo, se eu o digo é o suficiente. não é possível alguém da tua família ficar melindrado com o texto: nem o marido nem os filhos e nem eu.
o texto é bonito e triste e o texto é forte como toi.
Catarina a 19 de Junho de 2012 às 18:00


Obrigada. O que importa mesmo é que o desaparecimento dela não se torne numa mera banalidade porque resolvi dar-lhe aqui publicidade. Espero que não. <3
Cat2007 a 19 de Junho de 2012 às 18:06

caramba tás mesmo traumatizada com as cenas mediáticas. não há banalidade numa única virgula deste texto  e em nenhuma hipótese terrena. e nem que fosse por ser sobre a tua mãe e tu e ela, dificilmente daria para ser banal. não deu aliás.
Catarina a 19 de Junho de 2012 às 18:13

Pois! Thank you.
Cat2007 a 19 de Junho de 2012 às 19:23


Há muito tempo que não vinha ao seu blog e verifico no seu último post que perdeu a sua mãe.

Só posso desejar-lhe tudo de bom para si!

Eduardo
jeduardo13 a 20 de Junho de 2012 às 14:14

Muito obrigada, Eduardo.
Cat2007 a 20 de Junho de 2012 às 14:55

Beijinhos Sis, gosto muito de ti e penso muitas vezes em ti...continuas a escrever tão bem!
A dor de alguem que nos é querido nunca nos abandona mas as recordações também não...
beijinhos

 
Rita a 22 de Junho de 2012 às 15:12

E depois da dor fica um vazio com que temos que aprender a lidar. Beijinho, sis. Thank you.
Cat2007 a 22 de Junho de 2012 às 17:40

Só agora vi .... Um beijinho.
Sara a 26 de Junho de 2012 às 14:23


Obrigada, miuda. :)
Cat2007 a 26 de Junho de 2012 às 14:52

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