CAFÉ EXPRESSO

Agosto 13 2012

 

 

 

Uma lésbica colocou no seu mural do Facebook uma fotografia de um homem e uma mulher perfeitos no estilo estilizado frozen Photoshop a preto e branco. Ele como que caia por cima dela e beijavam-se. Tudo sem paixão, como é típico nesta espécie de arte fotográfica corriqueirinha. A autora do post legendou a foto com um sintético mas comprometido “love it” (e se não fosse em inglês é que eu me admirava).  

 

A questão é: “love it” o quê e foi postado para que efeitos? 

 

Fiquei imediatamente com uma ideia mas para cabal esclarecimento fui ver murais de heterossexuais amigos. Homens e mulheres. Não havia. Nuns e noutros nada de homens a beijar homens ou mulheres a beijar mulheres.  Bom, de volta ao mural dela pensei: “Quem entra aqui há-de ter a certeza, se a ideia lhe ocorrer, que esta mulher é heterossexual. E esta fotografia ajuda. Mais, esta fotografia está aqui para isso”.

 

Sim. Uma vez que se trata de uma mulher adulta, estamos a falar de uma hipócrita. Porém, tão hipócrita como heterossexualista e, por consequência, homofóbica. Se não achasse bonito, não tinha postado. E se não fosse gay, o mais natural era não postar.

 

Independentemente da orientação, e sem nada ter a ver com ela, existe no ser humano a consciência ou a inconsciência do ser heterossexualista. Ser heterossexualista é guardar na memória o desiderato do processo de transmissão da cultura pela família e pela sociedade sobre o individuo, o qual com o processo de maturação pessoal só tende a consolidar-se. Um desiderato que se pode sintetizar na seguinte ideia: “a união física, emocional e romântica de duas pessoas de sexo diferente é que está bem. Por ser a mais correta no contexto social; por ser a que potencialmente melhor lhe serve a organização e por ser a que mais satisfaz as exigências da estética quando chamada (própria ou impropriamente) a este tema”.

 

Portanto, os heterossexuais são heterossexualista, os homossexuais também, e bem assim os bissexuais.  Todos nós, independentemente da orientação. E como tal, embora em diferentes graus (em função da inteligência, sensibilidade e maturidade), homofóbicos.

 

E se isto corre em geral bem para os heterossexuais e umas vezes melhor outras vezes pior para os bissexuais (que, naturalmente, acabam quase sempre a assumir a sério a suas relações com o sexo oposto), é capaz de ser quase trágico para os homossexuais, dado o evidente conflito.

 

Um conflito entre uma convicção involuntária na sua génese mas enraizada pelo tempo e a forma própria humana de ser de cada ser gay. Isto é um golpe na estabilidade e na autoestima. Com isto dá vontade de não ser homossexual. Daí a homofobia ser eventualmente maior nos gays do que nos heterossexuais. Porque só os gays sofrem direta e diariamente as dores emocionais e psicológicas deste conflito. E que eu saiba ninguém aceita pacificamente que tenha nascido para sofrer.

 

Sabe-se que, em geral e independentemente do tempo que leva a ir “levantar a carta aos correios” (que podem ser longos anos), o individuo dá conta da sua homossexualidade bastante cedo. Logo na infância ou, um pouco mais tarde, na adolescência. Não admira pois que surjam disfuncionalidades de vários tipos. Porque não é fácil para as pessoas. Especialmente se são “apanhadas” em estágios tão incipientes da sua formação emocional e mental.

 

Na verdade, até hoje, e malgrado os progressos políticos, legais e sociais alcançados, os gays (homens ou mulheres) ainda não lograram desembaraçar-se totalmente das ideias do ridículo, da hipocrisia e da automarginalização. Ou é o estereotipado que envergonha e/ou faz rir (até os próprios gays não estereotipados). Ou é o dissimulado que finge não ser o que é. Ou/e é o autoexcluído emocional que vive a sua intimidade em parques públicos à noite ou casas de banho de centros comerciais a qualquer hora do dia

 

No caso concreto, é a lésbica que "love it".

 

 

publicado por Cat2007 às 17:37
 O que é? |  O que é? | favorito
Tags:

Tu já me chamaste heterosexualista um dia, sendo eu claramente e sem sinal de duvidas lésbica e não me identificando de todo com o "love it". Não me considero heterosexualista, mas resolvi enviar-te o discurso de uma mulher heterosexual que acho que diz muito: http://www.youtube.com/watch?v=jZuIdQVEVY0&feature=youtu.be (http://www.youtube.com/watch?v=jZuIdQVEVY0&feature=youtu.be)
Bjocas
Sara a 13 de Agosto de 2012 às 22:46


Sara, se te chamei não foi por mal. O texto diz isso mesmo. Somos todos heterossexualistas. É da educação, como está no texto. Mas não te chamei hipócrita de certeza, como no exemplo dado.
Obrigada pelo video.
Cat2007 a 14 de Agosto de 2012 às 09:31


Sim. Hipocrita eu não sou e isso tu sabes bem.
Mas tb não referi o assunto por ter ficado minimamente ofendida... nós na altura discutimos o assunto degladiamo-nos e suponho que acabamos a rir... como aconteceu com muitas conversas que tivemos em que não concordavamos uma com a outra (pelo menos aparentemente).
REferi-o apenas porque o texto me fez voltar a essa nossa conversa.
Sara a 14 de Agosto de 2012 às 11:45

Sara, se me permites e uma vez que cat2007 não tem de momento flashplayer ou tempo, aproveitava para alargar o debate não forçosamente a mais pessoas mas no sentido de ir mais longe, penso que é o que este post faz. E não o faz por mim, por ela, por ti ou pela lésbica do mural do facebook que é dada apenas como ponto de partida. Vai mais longe para todos, independentemente da orientação sexual ou do credo religioso.

Eu tenho flashplayer e vi os 4.07 minutos do discurso da tal "mulher heterossexual" que sugeriste.
O discurso é absolutamente pacífico e não creio que alguém ouse discordar do que ela diz, ou se discorda tenta calar-se se tiver o minimo bom senso.

Este post reitera esse discurso indo mais longe. Porque será que há uma fotografia de duas mulheres de burqa? Porque será que à primeira vista pensamos, era o que faltava se, por exemplo, eu lésbica não podia pôr no mural do facebook uma fotografia Straigt. E mais, pensamos !ei! eu sou lésbica e assumidissima e não me sinto heterossexualista. E o post avança mais ainda. Primeiro a ideia de que o inferno(implícito no discurso da atriz) são os outros, aqueles que nos discriminam. Não são. O inferno começa sempre em nós(todos) e ser heterossexualista não é uma opção que se toma. É uma subtileza em pequenos atos e ditos quotidianos de nós todos que crescemos num modelo de sociedade heterossexalista, mesmo aqueles que são irmãos e irmãs de gays...como a atriz.

É muito mais do que a igualdade de direitos que está a qui em causa. Estamos todos nós com os nossos conflitos interiores. De quando damos 1 passo em frente e 2 atrás. De quando nos convencemos que somos suficientemente transparentes para criticar a burqa de outra mulher, ou de duas mulheres no caso da fotografia.

Há imenso para dizer sobre este post quando conseguimos sair do nosso "so private world" ainda que o levemos sempre em conta.

E agora uma confissão: neste blog há posts que eu considero despertadores de consciência. lamento sempre que outras(ou as mesmas) consciências não venham aqui para contrariar, argumentar, avançar e recuar até á zanga e ao riso e aquém e além da 1ª pessoa do singular.
Parecem-me sempre posts de fogo fátuo, uma chama que surge com a mesma rapidez com que se apaga e tb o digo à sua autora, claro está. E de certeza que nada disto tem a ver com um blog ter ou não ter audiência ou visitantes. 

tudo isto traduzido, resume-se a uma pergunta com um ar desanimado: mas Sara, deste post todo com direito a burqa e tudo, só deu para um video de 4.07 de uma mulher heterossexual? mas a gente já sabe que as mulheres heterossexuais amam gays, whats new? please please say more things, more more ;)

criei uma expetativa com este post. mais um fogo fátuo.(eu desiludida):



 
Catarina a 14 de Agosto de 2012 às 17:08

 Catarina, acabei de escrever um comentário enorme que esta m... deste programa fez desaparecer no mmomento em que a ia publicar!!!
Acho que ja nao tenho tenho capacidade para a reconstruir agora,..... mas se me voltar a reunir de força e vontade prometo faze-lo.
Bjinhos as duas
Sara a 15 de Agosto de 2012 às 03:26

Sei que muita gente vem a este bblog. E que quase ninguém comenta. Lembrando que aqui nem de papel somos e que, além do mais, cada um escolherá o nome que entender, digo que tenho pena que não se acenda a conversa,que não se diga o que se sente, que não discordem de mim, que não se digam coisas inteligentes e disparates. Tenho pena. Afinal temos tão poucos espaços de liberdade. Eu exerço aqui a minha. Por isso Sara, não me competindo para já entrar no debate entre ti e a Catarina, agradeço sempre que venhas aqui dizer eatamente o que entendes e te apetece. Muito obrigada então. E até breve, espero.
Cat2007 a 15 de Agosto de 2012 às 10:51

Devo-te confessar que esse "eatamente" do qual nunca tinha ouvido falar, me confundio... fui ao dicionário e tudo... entrei em pânico... nunca tinha ouvido falar em tal... querias dizer exactamente?
Sara a 15 de Agosto de 2012 às 12:28

1.

Catarina,


Tal como já referi, escrevi anteriormente um comentário que me foi apagado quando o ia publicar. Aqui vai em termos mais ou menos aproximados o que tinha escrito:


 


Respondendo ao repto que lançaste (repto agora escreve-se com p ou sem p… se for necessário posso sempre escrever reto – esta aparte não estava no comentário inicial) vou então expor o meu ponto de vista (não tinha escrito nada disto, mas tinha usado a palavrinha “repto”), não podendo no entanto deixar de me referir à minha conversa jurássica com a Cat2007, simplesmente por me ser mais fácil. Sou uma rapariga terra a terra que geralmente se baseia em experiencias pessoais (sejam ela vividas por mim, ou simplesmente observadas). Sou simples.


 


A Cat2007 na altura chamou-me heterosexualista, graças a atitudes minhas que estavam essencialmente ligadas com a minha família. Passo a explicar:
Apesar de eu ser uma lésbica perfeitamente assumida em quase todas as vertentes da minha vida, existem exceções que mantenho:


- Tios-avós com 90 anos ou mais: Pessoas que adoro com uma experiência de vida que respeito, apesar de muito diferente da minha, graças à época em que viveram. Gostam de mim como pessoa e eu não tenho pretensões a mudar as suas mentalidades. Respeito-os pelo que são e pelo que viveram na sua totalidade e sinto que como mais tenra que sou, devo ser eu a ter uma maior flexibilidade;


- Primos em segundo grau e tios com tendências políticas de direita: pelas mesmas razões acima descritas e porque não se discute com reacionários. Eu tenho um carinho imenso por eles e eles por mim. Respeito-os pelo que são e eles respeitam-me a mim (apesar do seu desconhecimento das minhas tendências sexuais);


- Situações laborais relacionadas com o meu próprio projeto: porque não tenho de ter etiquetas na testa e a minha vida privada não lhes diz respeito. Simultaneamente não estou na disposição de arriscar os suados sucessos milimétricos que tenho alcançado nessa área para combater a ignorância dos outros.


Basicamente vivo em sociedade com todas limitações que lhe são inerentes e tento gerir a coisa da melhor forma possível.


 


(Continua no comentario seguinte)


 



 
Sara a 15 de Agosto de 2012 às 05:34

2.

Mas existem situações no seio da dita comunidade gay que me incomodam muito mais:


- Aqueles que sabem que são, mas o sentem como uma doença ou adição a ser combatida com todas as suas forças;


- Aqueles que, por vergonha de admitirem as suas limitações, assumem a sua gayzisse não deixando de se sentir culpados e tentando camuflar a sua “anormalidade”. O exemplo apresentado pela Cat2007 demonstra essa situação. (a propósito disso lembro-me de uma conversa de metro com dois colegas (1 homem e 1 mulher, ambos gays) em que o rapaz dizia que a sua primeira experiência com um homem tinha sido de tal forma traumática que após o ato chorou (de tristeza) durante horas. Ela concordava e dizia que lhe tinha acontecido a mesma coisa a primeira vez que esteve com uma mulher. Eu olhava para eles como se fossem marcianos, e só pensava o quanto me parecia ridículo. Eu tinha-me sentido fantástica. Tinha-se feito luz. Era mesmo aquilo!)


- Aqueles que assumem publicamente a sua tendência, a sua relação, põe a etiqueta na testa e acenam com a bandeira, mas depois se tentam manter fiéis aos padrões sociais que conhecem, reproduzindo papéis de masculino e feminino estandardizados (o macho e a fémea, o ativo e o passivo, o dominante e o submisso, a sopeira e o canalizador).

Continua no comentario seguinte


Sara a 15 de Agosto de 2012 às 05:40

3.

Simultaneamente existe uma espécie de estigma de auto exclusão que me irrita profundamente. A tendência para se manterem em ghettos e se darem apenas com “iguais” (com exceção das próprias famílias) não me é querida e parece-me viciosa.
Consigo perceber que os indivíduos nas faixas etárias algures entre os 50 e os 90, graças à pressão social que se vivia nas suas juventudes, se fechassem em grupos de gente constituída apenas por outros com quem se “identificavam sexualmente” (lololololol), como forma de proteção. E compreendo que por força de hábito se tenham mantido assim, seguros, ao longo do tempo. Mas parece-me uma atitude desenquadrada, face aos dias de hoje (é claro que não me estou a referir a senhores que vivem em Freixo-de-espada-a-Cinta).


Também é compreensível que jovenzinhos que se estão a descobrir o façam. Mas parece-me que deveria ser apenas uma fase e não um hábito… ou um modus operandi hasteado ao longo da vida.


A verdade é que os nossos amigos devem ser escolhidos não pela sua tendência sexual mas pelo ser humano que são.


 


(agora acho que tinha qualquer coisa relativa ao vídeo que tinha postado… vamos lá ver se apanho o fia à meada… hmmm…. Ahhh já sei… tive de reler o teu comentário Catarina)


 


Postei o vídeo acima de tudo porque a grande maioria dos heterosexuais e muitos gays continuam a rotular a tendência não heterossexual de “alternativa”. Enquanto não nos sentirmos e agirmos como iguais que somos vamos continuar a ser uma simples imitação de uma sociedade que já não existe. O ser humano tem de perceber o quanto somos variados e o quanto isso é positivo.


 


(acho que me embrulhei um bocado mas estou certa de que me cascarão oportunamente)
(beijos madrugadores e cama comigo)


 


FIM



 
Sara a 15 de Agosto de 2012 às 05:41

Extraordinário. E Sara, imagina-me daí a aplaudir-te de pé. Agradeço-te o testemunho valioso e poderia até ser a chave de ouro para encerrar o post mas agora sou eu que me vejo forçada a responder ao teu repto.
(qualquer consoante que te seja urgente na voz e na palavra, escreve-a. As que não te ouvires dizer, mata. É uma sensação de ar fresco deitar algumas fora, para mim)

1-Nunca, jamais e em tempo algum eu defenderia um coming out forçado. Há mil milhões de detalhes e de razões para o nosso ritmo com os outros, na família e no trabalho. Se me leres alguma vez defender que alguém Tem de se assumir para lutar contra o heterossexualismo, chama o 112.

2-Não vejo a observação do exemplo inicial do post, "o mural da lésbica", como nenhum tipo de condenação, critica, penalização. Não passa de uma constatação de alguém que não consegue sair de um conflito interior e que insiste numa espécie de "auto-mutilação" involuntária. Podia tratar-se de alguém que vibra com a estética straight photoshop, de alguém bissexual. Não creio, basta-me que o post a dê como lésbica e que, já agora, nada daquilo seja pontual. Parece-me trágico mas não a condeno. Lamento e no entanto admito que todas aquelas fotografias, para ela, sejam o verdadeiro consolo para algo que ainda não conseguiu correr bem.

3-É a partir daqui que, parece-me, o post entra na origem do conflito interior de uma lésbica, de um gay, de uma mulher ou de um homem. Conflito perfeitamente legítimo e humano mas que vai criando camadas sobre a essência. Máscaras. Véus. Noqabs. Burqas.

4-Vou voltar isto para mim. Devo-te isso e àquela lésbica também.

5-Almoço diariamente numa mesa comprida de refeitório com vários colegas. Nos primeiros anos destes almoços ouvi longas histórias de peripécias com filhos, vi fotografias de férias, soube que um marido tinha encontrado algo mais barato no supermercado x. Ouvi tudo com um sorriso e em silêncio. Achava também que ninguém tinha nada a ver com a minha orientação sexual, logo não tinha nada para dar em troca. O meu terror, sem perceber porquê, era ir almoçar sozinha e apenas com outra pessoa. Aí o meu silêncio notava-se mais. as pessoas entregavam-me os seus segredos e afetos e eu nada tinha para dar em troca porque "ninguém tinha nada a ver com a minha orientação.".
A questão é que eu também não tenho nada a ver com a orientação dos outros, porque os ouços eu? Ou vamos descobrir que uma lésbica e um gay não têm qualquer necessidade de partilhar os seus afetos, mostrar fotografias, contar um episódio de morrer a rir no supermercado. Talvez até contem, mas omitem metade. Aquela em que a namorada, a amante , o romance era parte vital da piada. Confesso-te Sara que me demorei muito nesta dinãmica. Olho para trás e vejo-me como uma pessoa triste. Sei que alguns colegas me descreviam como sendo "reservada, discreta, misteriosa". Procura, Sara, um milimetro de felicidade ou alegria nessas palavras. Não creio que encontres.

6-Trabalho num meio aparentemente tolerante...a "alternativas"?
Pois, mas não é isso que precisamos. Que nos tolerem ou até que nos admirem por sermos raras. Não é isso que nos falta. Falta-nos tudo uma vez que a maior parte da nossa vida é passada em ambiente de trabalho...e com a família.

7-Lutar para que nada nos falte não é chegar a um megafone dos recursos humanos e gritar: sou lésbica. Tão pouco chamar um tio e uma tia a parte e anunciar: sou lésbica. Pode ser mas não tem de ser assim.

8-A mesma proximidade e alegria que ganhei em estar no trabalho desde que me deixei ir denunciando em pequenissimas coisa, é impagável. As minhas relações com os outros solidificaram-se, houve quem se afastasse(graças a deus), houve quem de repente tivesse medo de passar por mim( hetero?, nunca percebi), houve homens que ficaram fascinados, outros irritados, outros competitivos, outros grandes amigos e cúmplices...heteros.

(continuo no próximo tb)
Catarina a 15 de Agosto de 2012 às 13:13

Mas...

9-Não te estou a sugerir o mesmo. Só para te dizer que, para mim, não há nada mais confortável, seguro,forte e estrutural para a minha felicidade que ter o pai, a mãe, os irmãos, os amigos dos pais...de alguém que amo a acarinhar-me por amar a pessoa deles. E passa-te pela cabeça que se fazem aparições em jantares "Ei! Chegámos hiper lésbicas cool! Agora levem connosco pq também temos direito!". Isso nunca aconteceu.
O afeto não tem orientação sexual nem ideologia. Quando existe, ainda que seja entre duas mulheres, é sentido por todos, reacionários e menos reacionários.
Nessa altura será o maior reacionário do mundo a convidar-te para jantar na condição de levares...a pessoa que amas. Porque és muito mais divertida quando estás com ela e é sobretudo assim que te querem.
Na minha família vejo agora que não me revoltei enquanto houve resistência, adorava-os, mas também percebo a distância e a solidão familiar em que vivi. Não os "incomodei" com o meu lesbianismo mas naverdade tb não os deixei que me incomodassem a mim com nada. Adorava-os, sempre. No natal, nos aniversários, em jantares, em almoços. Não me partilhei com eles ou eles comigo. Partilhar é anunciar que somos lésbicas?
Não e se quiseres nunca, era o que faltava agora estarmos em família, o refúgio, só para termos discursos ativistas. Mas é puxar do nosso afeto e no caso de amares alguém é difícil contornar...alguém.

10-Acabei por regressar à família e a família por adorar quem me adorou. Mas, Sara, para alguns elementos foi tarde demais. E não eram reacionários. Que saudades tenho eu dessas pessoas e não me consigo perdoar não ter partilhado uma cara alegre em vez de outra "reservada e discreta". Sei que no limite era só isso que queriam.
O "Não me perdoei" é para te comunicar que tal como a lésbica do post, também terei, não já um conflito mas uma dor por aqui dentro. Há pessoas que me fazem falta e eu não me entreguei a tempo, porque não queria contrariar  ou impôr uma orientação a familiares que já estavam instaladas na sua velhice de ouro. Não foram elas que me rejeitaram. Fui eu. Nessa altura, aposto que a nossa blogger tb me chamaria heterossexualista, com razão.

11-Eu dou toda a importância à Família. Mas não é desde sempre. Nem sempre amei. Nem sempre fui amada. O tempo passa. Nós somos sempre o máximo e "reservadas, discretas, misteriosas". Uma burqa para a tristeza.
É o meu ponto de vista.

Welcome ao clube das simple girls, mesmo.
Agora, medalha de ouro para ti para uma lição que já não esqueço: apesar de haver reacionários que gostam de nós e nos querem ver felizes, "Não se discute com um reacionário."

(sabes que parte do meu natural envelhecimento se deve a  isso? por tudo e mais alguma coisa além da orientação, andar a teimar com reacionários)

Foi importante para mim não me limitar a um sorriso e ao silêncio enquanto te lia. Espero, desta vez, ter-te deixado algo em troca.

Obrigada Sara.

p.s vai fazendo Save ao que escreves for god sake! que nervos!   :)
Catarina a 15 de Agosto de 2012 às 13:23


Save... onde?... estava a escrever aqui.... tive de ir para o word para poder reescrever algo aproximado... continuo a achar que houve coisas que me escaparam, na segunda versão.
REspondo-te mais tarde.
Bjs
Anónimo a 15 de Agosto de 2012 às 13:56

O Save é quando e onde uma mulher quiser. Save passa então a força de expressão. Na vida e na net, há que fazer save e quem me dera que fosse possível fazer Undo tb...ou não.
vou agora ler o que se segue
Catarina a 15 de Agosto de 2012 às 15:45

Olé. 
Antes de mais nada o anónimo do sava era eu (como é obvio).

Já te li e não me posso furtar a duas ou três palavrinhas (tomando as devidas precauções para não voltar a perder o texto todo).

1. chamarei o 112
4. o dever não é para aqui chamado... apenas a vontade de o fazer e de partilhar. Eu sinto-o assim e preferiria que o fizesses sem ser por dever :P
5. 6. 7. e 8. Na realidade as excepções que nomeio acima são mesmo excepções. E com isto não estou a desculpar-me (porque não tenho porque o fazer), mas simplesmente a enquadrar-te.
Eu ja trabalhei em vários locais, com varias entidades estudei em algumas escolas e em todas elas o meu apresso pelo que é feminino era amplamente conhecido. Sempre discuti à mesa as minhas relações, os flirts, o sorriso nos olhos de fulana tal, o piropo de XPTO, a parvalhona armada em machona a dançar de braços e pernas abertas e as mãos nos bolsos. Nunca foi uma questão para mim e continua a não ser. Nunca deixei de andar de mão dada na rua sempre que assim o sentia , ou de dar o beijo de comprimento. Sempre me senti livre relativamente a isso. sempre fez parte do meu dia a dia (o sempre refere-se ai a partir dos meus 19 ou 20 anos).
No entanto coibo-me de beijar alguem a quem me apetece saltar em cima, qdo em frt ao edificio da entidade onde acabei de ter uma reunião formal com individuos que não conheço. Os motivos são vários:
- Não arriscar deitar por terra o trabalho que tive por um momento de irreflexão;
- A "relação" não estar definida de forma nenhuma e por isso ser simplesmente inconsciente dar um beijo, aparentemente inconsequente para as duas, numa situação que me pode ser danosa. 
Mas percebo exatamente do que falas. :)
9. Percebo do que falas e neste ponto acho que acima de tudo temos experiências diferentes.
Ja estive numa relação, em que apesar de a coisa não ser assumida familiarmente nunca foi escondida... no maximo omitida. Mas presente sempre que ambas o quisemos e desejamos. Isso foi à muito tempo, eu era muito nova e estava em processo.
De lá para cá não voltei a estar numa relação em que a seriedade e a honestidade da mesma proporcionasse a vontade de querer estar familiarmente com. A vontade de que falo não era unicamente ou principalmente minha. Apenas estive numa curta relação em que a vontade surgiu de ambas as partes, mas que a relação foi tão curta que as situações nunca poderam ser concretizadas dessa forma. Embora essa pessoa tivesse estado comigo em almoços com tios-avós de 90 anos e primos reacionários. Eu não escondo, no máximo omito. :P
Mas posso dizer que após o final dessa relação ficou claro para mim que não queria voltar a omitir a certas pessoas, nomeadamente à minha mãe e irmãs, e por isso conversei com a minha mãe sobre o assunto. Queria ter a certeza de que se acontecesse e qdo acontecesse eu simplesmente teria tudo preparado para fazer sem ter de temer.
Nos ultimos anos tenho-me dedicado a ermitagem, graças à minha tendencia natural para atrair gente descompensada e à minha falta de vontade de proseguir com esse genero de padroes. Portanto a vontade de alterar a situação, por inclusão de um novo membro familiar não me foi apresentada. :) Não houve ninguém a ser contornado... porque se houvesse alguém, acredito que não seria contornado (acho essa tua forma de expor esta situação fabulosa... se te conhecesse dava-te um abraço e um beijo por isto!!)
De lá para cá eu tenho estado sozinha.

continua...

Sara a 15 de Agosto de 2012 às 14:58

10. percebo... embora não possa dizer o mesmo.


11. percebo e já lá estive. concordo em absoluto.


E agora o que me baralha:


"Agora, medalha de ouro para ti para uma lição que já não esqueço: apesar de haver reacionários que gostam de nós e nos querem ver felizes, "Não se discute com um reacionário." sabes que parte do meu natural envelhecimento se deve a; isso? por tudo e mais alguma coisa além da orientação, andar a teimar com reacionários)"


Estas a concordar ou a discordar? podes explicar?


Ah, e eu só não discuto com reacionários familiares ou com quem eu acho que não vale a pena (por motivos diferentes. Tenho um donzinho para por dedos nas feridas.


Obrigada pela conversa. Muito bom!!! :)

Sara a 15 de Agosto de 2012 às 14:59

Para concordar e em absoluto. Mais, ainda agora te citei à mesa do almoço(estou a trabalhar) com vários colegas, alguns enquadram-se muito bem no conceito "reacionário". Todos os santos dias são discussões de morte sobre os temas todos desta vida. Chego sempre a casa meio cansada e só quando os reaças folgam ou eu folgo, é que me sobre energia para ainda dar uns ares energéticos por casa, além meia-noite.
Há 20 anos que ando nisto e percebo que nem eu nem eles mudámos assim tanto apesar de tanto debate. Estou liberta para lhes pôr o dedo e as mãos todas nas feridas e eles a mim, não são família e é mais fácil. Obviamente que nos fomos assimilando uns aos outros como numa Democracia...mas cada vez que estala um novo tema, parece que voltamos à estaca zero. Hoje o tema foi criminalidade, crise, xenofobia, imigração. A certa altura de berros, dei por mim a citar-te: "epá eu realmente sou uma totó. acabei de perceber isto na internet, toda a gente sabe que "não se discute com um reacionário". Desatou-se tudo a rir e a discussão parou...até à próxima, bem sei.

Não te respondi por dever ou obrigação. Simplesmente, o teu comment impeliu-me(força o instinto) a fazer o mesmo.

Quanto ao resto e levando em conta a diferença das nossas experiências, penso que ainda não é possível encontrar qualquer tipo de padrão numa relação entre duas mulheres. Vivemos até agora na clandestinidade, na "anormalidade", no "contra natura". A insegurança, a descompensação, o ceticismo, a dúvida são efeitos dessas causas. A relação entre duas mulheres(é disso que aqui falamos agora) é "Legal" há pouquissimo tempo e graças a muitas dores, sofrimentos, lutas e conversas públicas como esta nossa.
Não é fácil tirar grandes conclusões. Não é fácil falar sobre a lésbica do tipo a, b e c como uma mulher fala do homem a b e c. Nós passámos parte da vida a rotular a Clandestinidade. As heterossexuais rotularam em Liberdade e com os Direitos que são devidos a qualquer cidadão. Até conseguirmos traçar um padrão em relações lésbicas(estável,instável,compensadora ou descompensada)...temos um caminho longo de heterossexualismo (in) ou voluntário a percorrer e, quem sabe, em muitos casos para derrubar.
Não quero nem sinto vontade ou impulso de refletir em termos: das duas, quem é o homem e quem é a mulher? quem é ativo ou passivo? quem conduz mais o carro? quem é mais serena? quem é mais agitada? se calhar para ver se se detetam a diferença nos níveis de testosterona.
Penso que fugir ou libertar-nos disto não depende só de mim, ou de ti ou da Blogger.
É coletivo, é amplo e leva tempo...e pelo meio, muitos tiros no pé e a rejeitar outros porque, mesmo subtilmente ainda que com muito "pride", nos rejeitamos a Nós.
Desistir daquilo que nos fazia vibrar, uma mulher, porque raramente deu Certo e consolarmo-nos "envolvidas" nos braços de um homem, em fotografias estilizadas pelo mural do facebook a fora. A lésbica do post tem todo o direito disso e mais algum mas para mim e em mim...não não não, 3xnão. Arrepia-me. Sonhos desfeitos, fracasso, falhanço. Faz-me lembrar uma miúda adolescente que se contraria e auto-mutila e no entanto aposto que esta lésbica do post ficaria indignada comigo se lesse isto e mo negaria 3 vezes em nome do "faço o que muito bem me apetece e não devo satisfações a ninguém". Pois não, muito menos satisfações a ela própria.
As lésbicas, as mais assumidas e orgulhosas do mundo por gostarem de mulheres, as vaidosas, as lindas e as feias...são ou foram essa lésbica de mural também....talvez com mais pinta if you want e com mais ou menos demagogia assumida.
Este foi o post que eu li.
Claro que agarrado a tudo isto ainda vem a condição feminina, a visibilidade e a invisibilidade da mulher...hetero e homo. Mas isso são outros 500. Quem sabe um dia, não aterra em forma de post?

Obrigada Sara, once more :)
Catarina a 15 de Agosto de 2012 às 16:34

Uma pergunta parva: como controlas o tamanho do post? é que esta coisa diz faltam 4215 caracteres (neste caso e antes do numero) e lá vou eu controladinha... qdo de repente no final me obrigam a rever o post, fazer copy pastes e coisas afins. Percebo que como jornalista a tua fluencia a escrever, etc é muito superior à minha, e tb percebo que deves ter muito mais experiência de blogs da sapo do que eu... mas então explica-me lá... descontas um certo numeros de caracteres ao que eles anunciam?

EScreves fantasticamente... teria imenso para dizer, mas neste momento apetece-me mais sair de casa e ir apanhar sol. :D

Beijos e bom trabalho.
Sara a 15 de Agosto de 2012 às 17:07

Se o número de carateres, abaixo desta caixa, tiver o sinal negativo, menos (- 100), é pq já estaremos a pecar por 100. Enquanto o número for positivo, cabe na caixa. Também usei duas para um só comment que o poder de sintese não se compadece com testemunhos...de lésbicas. Tudo dentro da normalidade, está visto.

Já não chove. Pecado verdadeiro é desperdiçar isso.
Eu daqui só consigo ver o sol quando vou lá fora fumar um cigarro. Apesar de tudo, gosto mais de trabalhar a um feriado do que a um dia de semana. Hoje em dia sou adepta do sossego em  local de trabalho, que não existe à semana.

Mas inveja de todos aqueles que gozam feriados e comem pipocas, pelo que me apercebi, mantém-se.

Bom feriado Sara!
Catarina a 15 de Agosto de 2012 às 17:45

Deve-me ter escapado o sinal de negativo, está visto. Escrevo que me desunho e só vou verificar qdo ja estou avançada, na coisa. Obrigada pela explicação.
Sabes a coisa dos reacionários, continua-me na cabeça. Na minha familia eles abundam e são na sua maioria muito boas pessoas, bons corações e inclusivamente já os vi alterarem comportamentos qdo de repente se vêem confrontados com uma situação no seio familiar, que os obriga a reflectir sobre tudo o que antes tinha sido dito. E por consequência discurso impensavel de tão reacionário que era deixa de acontecer. Na minha familia assiti durante muitos anos este genero de situações acontecerem com os meus avós e tios avós e actualmente acontecem com os meus tios.
O que continuo a achar incrivel é que são de facto boas pessoas, bons corações e qdo confrontados com situações com aqueles que lhes são próximos os comportamentos e atitudes se alteram. Mas antes disso dizem coisas como: "isto agora está cheio de pretos", "Nós não somos racistas. Olha os homens que andam a fazer obras lá em casa, que até são educadissimos, a X prepara-lhes um lanchinho todos os dias e tudo", "duas pessoas do mesmo sexo juntas é antinatura", " Os gajos do PCP deviam ser todos fuzilados. Não suporto comunas!", etc.
E qdo se toca em politica a coisa ainda consegue subir de tom!!! Parece que à nascença lhes criaram um condicionamento referente a um certo número de temas. Qdo se toca no tema xpto, a campainha do pavlov toca e 3/4 do cerebro paralelizam. é uma lobotomia parcial!  devo dizer que ja conheci um senhor que tinha feito uma lobotomia e tb era um doce de pessoa! :D
Beijos a senhora que come pipocas.
Obrigada!  

PS: crise, criminalidade, xenofobia e imigração? Vão expulsar toda a gente do país? EStão nos a roubar emprego? Uma cambada de alcoolicos que deviam ter sido morto por afogamento, qdo vinham nos barquinhos para cá e coisas afins? Ou os argumentos ja evoluiram?
Sara a 15 de Agosto de 2012 às 21:32

Catarina,

Não queria dizer uma lobotomia parcial, mas sim temporária. Se não seriam lobotomias, mas sim remoções!

E entretanto acabei de descobrir que a lobotomia foi uma invenção portuguesa!!!!!!!

http://en.wikipedia.org/wiki/Lobotomy (http://en.wikipedia.org/wiki/Lobotomy)

Bejos.
Sara a 15 de Agosto de 2012 às 21:50

Catarinas,
Após reler o meu ultimo comentário de ontem só tenho uma coisa a dizer: ignorem por favor. Fiz curto circuito!!! Apagou tudo!!!

Hoje vim por aqui porque existe uma página de facebook que adoro e pensei que voç~es talvez podessem achar alguma piada: http://www.facebook.com/#!/LeBazardDeZazabelle (http://www.facebook.com/#!/LeBazardDeZazabelle)

Já conhecem?

Bjs
Sara a 16 de Agosto de 2012 às 13:20


Vou ver e depois digo. Thanks.
Cat2007 a 16 de Agosto de 2012 às 13:28

e eu acabei de ir lá dizer que "Gostei". Vou passar a ver com frequência.
falar em lobotomia é fundir circuitos? Olha, eu ía jurar que houve alturas da vida em que  andava indecisa entre fazer uma lobotomia aos reacionários ou às lésbicas descompensadas. Entretanto meti o projeto na gaveta.
Catarina a 16 de Agosto de 2012 às 16:53


Tanto uma coisa como outra é investimento a mais para os resultados obtidos!
Sara a 17 de Agosto de 2012 às 04:05

Só para dizer que já fui buscar as pipocas. E já agora que vou aplaudindo ambas. Muito obrigada.
Cat2007 a 15 de Agosto de 2012 às 13:29

ai ai help não é "Noquabs" é "Niqabs". (diferente de burqas)
Catarina a 15 de Agosto de 2012 às 13:37

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
pesquisar
 
stats
What I Am
comentários recentes
achei graça foi associares a tua infidelidade ao t...
Já tinha saudades de ler o seu blogue.
Ok. Obrigada, querida.
Tu também!Envio te o número por FCP para o caso de...
Muito obrigada, Bruno.
Gostei do post.Não os lia faz algum tempo, já tinh...
Também estás na terapia. Ainda bem. Mas podemos se...
Posts mais comentados
140 comentários
122 comentários
122 comentários
106 comentários
82 comentários
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


Agosto 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

12
14
18

19
20
21
22
23
24
25

26
28
29
30


blogs SAPO