CAFÉ EXPRESSO

Setembro 16 2016

 

A ideia de Joana perturbava Teresa. Era este o caso que Madalena tinha referido. Uma miúda. Era uma miúda. Riu-se com amargura. Tinham passado vinte anos. A idade daquela miúda certamente. E da sua filha, já agora. Não compreendia. Mas nestas matérias Teresa pouco compreendia das coisas. Vinte anos é muito tempo. Muitos pedaços de vida se lhe sobrepuseram e encaixaram neles. Nem todos muito bem. Decidiu que já não gostava de Madalena. E depois decidiu que era pouco mais do que uma idiota. Nos últimos dias vinha sendo acompanhada pela impressão de que o tempo que ficara para trás afinal parara. E que parte de si tinha ficado imobilizada dentro dele. Presa pelo tempo em que depois da dor não voltou a encontrar-se com a paixão. As suas emoções não tinham amadurecido com o corpo. Compreendia agora que dentro de si ficara preservada parte substancial das ilusões sobre o amor a que cortara deliberadamente a respiração.

Diogo fazia amor com ela conforme a regularidade imposta por um horário específico e que fora estabelecido pelos dois tacitamente. Teresa era assídua e pontual. Entregava-se pois por esse motivo. Por falta de um critério de maior valor. O corpo não se manifestava muito para além das fronteiras estritamente físicas, respondendo-lhe na exata medida em que as emoções deixavam. Mas o prazer com Diogo era prazer real. Ou seja, não se tratava da regular repetição de uma experiência deplorável. Embora fosse algumas vezes enfadonha. Porém Teresa tinha as devidas compensações nos momentos em que atravessava partes fundamentais da vida literalmente de mão dada com ele. Diogo personificava a respeitabilidade dela. E talvez nada disto parecesse tão tristemente exíguo se Teresa não tivesse visto já muito mais. A comparação é que dava contorno aos factos. Era a verdade reconhecida que tudo mudava. Isto independentemente de ter sido vigorosamente rejeitada. Deste modo, Teresa acreditava que em muitas circunstâncias da vida é útil desconhecer a verdade. Infelizmente para Teresa isso não foi possível.

A morte de Diogo foi uma tragédia muito sentida. E no entanto ironicamente feliz. Embora Teresa, por pudor, jamais se tenha permitido raciocinar nestes termos. Porém, o certo é que a morte dele lhe deixara intacta a respeitabilidade ao mesmo tempo que a libertara de todas as obrigações correspetivas. Assim, pelos vinte anos seguintes, foi uma mulher sem paixões e uma mãe apaixonada. Considerava-se compensada de tudo pela existência de Clara. O que viu na filha e o que recebia regularmente dela constituía tal compensação. Quanto à parte do seu mundo de dentro, àquela área exclusiva de privacidade de que falara a Madalena, fez como contara. Fechou-lhe as portas, deixando Madalena presa consigo lá dentro. E malgrado os apelos da dor, não voltou a mexer-lhe. Passou a tomar da filha e do trabalho, uma droga que preparou potente, as doses de compensação que lhe possibilitavam alhear-se do tanto de si que ficara trancado dentro daquelas portas fechadas.

Um dia disseram-lhe que Madalena voltara. Teresa não saberia dizer porque acreditou que tal regresso a forçaria a si própria a retroceder. A virar-se para aquela porta robusta e rodar a chave, destrancando-a. Mas fê-lo, de qualquer modo. Depois de rever Madalena passou a andar com o espirito muito leve. Com uma alegria pura. Sentiu-se então mais confiante e nenhum amor para trás ou para a frente de Madalena. Era o princípio de qualquer coisa de que não saberia falar. Porque era isso apenas uma linha de partida.

 

publicado por Cat2007 às 17:18
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É...realista. Uma escrita realista. Aprecio bastante se a ficção nos revela realidade. .
Catarina a 16 de Setembro de 2016 às 22:22

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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