CAFÉ EXPRESSO

Outubro 10 2016

Há vários dias que não se viam nem se falavam. E que Joana lhe ligava insistentemente. Silêncio. Joana alimentava a esperança de ela aparecer na faculdade. Mas nunca mais a viu lá. Ligou-lhe mais uma vez. O telefone mantinha-se mudo. Decidiu esperar um pouco. Esperou até ao limiar da agonia. Como sempre. Ligou-lhe de novo. Como sempre. Estava desligado. Como sempre. Trancou a angústia no peito durante mais um longo tempo de espera. Com o coração a bater na garganta marcou o número de casa dela. O telefone tocou vezes sem conta. Parou. Como sempre. Joana desligara. Como sempre. Olhou em volta à procura do que fazer. Como sempre. Mas desta vez tomou uma decisão diferente. Não ia esperar mais passivamente. Correu para o carro. E acelerou. Arranjou lugar perto do prédio. Saltou do carro e quase correu. Tocou à porta de baixo. Abriram de imediato. Subiu. Quando chegou a porta de casa estava escancarada.

Joana: Madalena, tu sabes o que aconteceu.

Madalena apresentava-se em roupão. Estava pálida e tinha os olhos cansados.

Madalena: O que se passa, Joana?

Joana: A Clara desapareceu-me. Não a vejo há vários dias. Hoje não apareceu na faculdade outra vez. O telefone tem estado sempre desligado.

Madalena falava devagar e sem ânimo.

Madalena: A Teresa contou-lhe tudo. Sobre mim e ela. Foi dizer à filha que é lésbica. E disse-lhe que tu sabias. Lamento muito, Joana. Também não vejo a Teresa há muitos dias. Não sei nada de uma ou de outra. Lamento.

Joana não foi capaz de dizer nada. Gelou totalmente na alma. O gelo queimou-a. Sentiu muitas dores. As lágrimas corriam-lhe soltas. Mas a garganta estava presa. Fugiu dali. Foi para casa. Naquele dia não iria ficar à porta de Clara à espera que ela aparecesse. Ou a mãe. Chegou a ponderar abordar Teresa. Chegou a casa e ao quarto. Caiu na cama vestida. Continuou a sofrer lenta e prolongadamente. Acabou por fechar os olhos. E dormiu porque o corpo cedeu. Sonhou vividamente. Onde estava Clara? Na manhã seguinte abriu os olhos vagos. Voltou a fechá-los com toda a força. O seu desejo era continuar a dormir até o telefone tocar. Obteve um sono novamente tumultuado. Sonhava como se estivesse viva. E cansava-se como se estivesse acordada. Mas ainda assim Joana não queria acordar.

Clara ligou finalmente o telefone e marcou. Joana ouviu a voz dela rouca. O coração ficou minúsculo. Falou rouca também.

Clara: Joana, vem buscar-me agora, por favor.

Joana: Vou agora.

Encontram-se à luz do sol nas escadas do Técnico.

Joana: Onde estiveste?

Clara: Joana, temos que falar muito a sério.

Joana: Claro que temos que falar. Fala.

O medo galgava-lhe os membros rígidos. No entanto, pensava que Clara lhe telefonara. Isso podia ser um sinal de que alguma coisa boa ainda viesse a suceder.

Clara: Aqui não. Vamos para um lugar sossegado.

Joana: Para minha casa?

Clara: Não!

A voz soara-lhe quase como um grito.

Clara: Não, não. Para tua casa é melhor não. Desculpa.

Joana: Está bem. Vamos para onde quiseres.

Joana só não queria contraria-la.

Joana: Para onde queres ir, então?

Perguntou em voz trémula.

Clara: Vamos para o Parque Eduardo VII.

Durante o percurso, Clara manteve o rosto colado no vidro da porta do carro. Assim impediu o diálogo que não desejava. Nada tinha a dizer para além do que importava e não podia dizer já. Sentia o espírito cheio como um balão demasiado cheio. Joana compreendeu na perfeição esta energia. Manteve-se sempre calada. Muito concentrada no trânsito que não via. Chegaram. Saíram do carro e caminharam lado a lado alguns minutos. Sentaram-se no chão. Do estrito ponto de vista do movimento dos corpos, tudo se passava de um modo quase semelhante ao de sempre. A diferença residia no ânimo. Estavam perto do Pavilhão Carlos Lopes embora embrenhadas no arvoredo mais abaixo. A vegetação expirava a típica frescura e fornecia a sombra necessária. Clara, para não se perturbar com a imagem de joana, olhava em frente.

Clara: Joana, temos de terminar tudo.

Clara proferiu as palavras em frente. Na direção apontada pelos seus olhos. Ouviu um profundo silêncio. Virou-se contrariada para ela. Joana fixava-a com uma seriedade de pedra. E não disse nada. Após alguns segundos eternos, Joana manifestou-se finalmente através das vagas que transbordaram dos seus mares azuis. A tensão marcava os movimentos trémulos da garganta. E não dizia nada.

publicado por Cat2007 às 20:37
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Isto é tão verosímil e ao mesmo tempo tão patético quando visto de fora. O pavilhão Carlos Lopes sempre me pareceu um deserto de pedra. Se calhar é por ter havido uma cena destas. Ou mais.
Catarina a 10 de Outubro de 2016 às 21:08

Patético quer dizer triste. A cena é triste. O pavilhão também é. Agora, o arvoredo mais abaixo e maravilhoso.
Cat2007 a 10 de Outubro de 2016 às 21:10

Sim com sol. Para quando esse passeio luminoso?
Catarina a 10 de Outubro de 2016 às 21:18

quando quiseres
Cat2007 a 10 de Outubro de 2016 às 21:19

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