CAFÉ EXPRESSO

Outubro 11 2016

Clara virou os olhos em direção ao chão. Ficou a olhar para as pedrinhas no meio da terra. Mexeu-lhes.

Clara: Eu já não posso continuar. Aconteceram coisas.

Joana: Eu sei que aconteceram coisas. Mas o que aconteceu entre nós?

Tal como o rosto, a voz parecia molhada.

Clara: O que sabes tu?

Joana: A Madalena disse-me. A tua mãe revelou que…

Clara: A Madalena. A Madalena anda com a minha mãe desde que acabou contigo. Tu sabias. A minha mãe disse-me que tu sabias. Quem te contou? Foi também a Madalena?

Joana: Não, não. Eu vi a tua mãe a sair de casa dela. Ou melhor só soube que era tua mãe quando nos apresentaste.

Clara: Portanto, tu sabes da minha mãe desde o princípio. E nunca tiveste a decência de me contar.

Joana: Desculpa. Mas não é assim. Eu tive a decência de não te contar. Não podia meter-me entre ti e a tua mãe. Quem tinha o dever de contar era ela.

Clara: Mas quando eu andei aí doida a pensar em contar-lhe de nós… nem aí foste capaz de me ajudar. Se eu soubesse que ela era lésbica…

Joana: Se soubesses por mim, estarias a fazer-me isto igualmente. Mas talvez de uma forma ainda mais grave.

Clara: Não fales do que não sabes, Joana! Além do mais, tu e a minha mãe partilharam a mesma mulher. Que nojo!

Evidenciava toda a raiva que a consumia. Joana calou-se amedrontada. Clara fechou-se então num silêncio eterno. Joana deixou-se invadir pelas lágrimas que há muito lhe molhavam as faces. Conformava-se ali com o peso do mundo que lhe pressionava o corpo. Tinha aquele peso precisamente sobre o colo. Baixou os braços. Se fosse o caso, deixar-se-ia esmagar. Também não olhava Clara. Não queria. Desconhecia-a. Ao fim de um tempo que parecia horas passadas, Clara murmurou:

Clara: A minha mãe é lésbica. E isso é a única coisa que importa aqui.

Estas palavras murmuradas ajudaram Joana a subir. A emergir da ausência de lugar por onde andava a vaguear. Endireitou-se ligeiramente. Clara repetiu-se. Mas agora em tom claramente audível:

Clara: A minha mãe é lésbica de toda a vida.

Parou de dizer. Depois recomeçou no meio de uma gargalhada dolorosa.

Clara: Que disparate! Lésbica de toda a vida. Todas as lésbicas o são. Mesmo que não saibam desde sempre. Eu, por exemplo só soube quando te apertei a mão no cinema. Quem me dera ter podido não fazer isso. A minha mãe é lésbica Joana!

Aumentava o tom. Joana tinha os olhos muito abertos.

Clara: Mentiu-me a vida toda. Era isto que eu devia ter dito logo. A minha mãe é uma mentirosa de toda a vida. A mulher que diz odiar a mentira é a maior mentirosa que eu conheço. E é a minha mãe.

Repetiu a mesma gargalhada com o mesmo toque perfeito de dor.

Clara: Mas ela não acha que mentiu. Ela deixou de… como se diz isto… ela deixou de praticar desde que eu nasci.

Olhou para Joana sem bem a ver. E riu-se de novo.

Clara: Pois aí está. De acordo com a porcaria de definição do teu dicionário de merda, a minha mãe não é lésbica desde os vinte anos. Sendo que agora é de novo. E com a tua Madalena. Pois é. Ela teve uma Madalena na vida dela há vinte anos atrás. O único amor. Agora a mesma Madalena voltou. A tua Madalena. Segundo o teu dicionário, a minha mãe foi lésbica. Deixou de ser. E agora já é de novo. Porque recaiu nos braços da tua Madalena que é o amor da vida dela.

Apontou o olhar para Joana. Esta continuava com os olhos abertos e nem pestanejou no seu silêncio obstinado. Joana queria ouvir tudo. Perceber tudo muito bem. Não sairia dali sem isso.

Clara: Portanto, nos termos do teu dicionário, a minha mãe não mentiu, afinal. Mudou de vida. Omitiu uma parte do passado. Passou a ser outra mulher depois de eu nascer. Depois, durante os últimos anos, durante o tempo da minha estúpida vida ela não foi uma lésbica.

Clara repetia-se.

Clara: Por isso não mentiu a mim nem a ninguém. A seguir a Madalena reaparece e a minha mãe volta a ser lésbica. E é aí que me vem contar. Portanto, como me conta, não mente. Ela é honesta. Acho que foi isto que ela me quis dizer. Não sei. A minha cabeça está a explodira. Mas mente. Oh, se mente! O coração dela pertenceu sempre pertenceu à Madalena. A minha mãe é lésbica de toda a vida, Joana. E isto, este detalhe, é que ela se esqueceu de mencionar no passado. Disto é que não me informou. Enganou-me. E a culpa de tudo é minha. Porque ela se castrou por minha causa. Foi por mim que ela sofreu durante tanto tempo.

Voltou a rir-se. No entanto, o riso, os grossos lábios abertos, estava molhado por dois veios de lágrimas de grosso caudal. E o corpo tremia-lhe levemente.

Clara: E eu também sou lésbica. A minha mãe sacrificou-se para nada, já vês. Enfim, temos este problema na família. Esta praga. Isto entre mim e ti não é resultado de nenhum amor muito especial. Se não fosses tu, seria outra. Por isso o nosso amor, Joana, já não me parece tão belo. Porque… de facto, não é belo. É um sentimento apenas consequente de uma orientação que eu tenho. Poderia ter vivido as maravilhas que vivi contigo com outra que tivesse vindo antes de ti. O nosso amor assim é um acaso. Daqui a uns tempos, quando me curar de todas estas feridas, vou viver as mesmas sensações com quem vier. Nós, juntas, não somos melhor que ninguém. Aliás, tu já tinhas algum passado e muitas vertigens vividas. E eu não me posso esquecer que, além do mais, quando te conheci, tu estavas louca pela Madalena. A Madalena da minha mãe. E sofreste quando ela te trocou pela minha mãe. Não há-de ser mais nem menos do que sofrerás agora que tudo terminou entre nós.

Clara deixou-se cair para trás sobre um tronco de árvore áspero que lhe amparou as costas. E foi de imediato engolida por um choro trémulo e ofegante. Joana esfregou o rosto com uma mão para apanhar a água que ainda não tinha parado de correr. Inspirou profusamente, aspirando pelo nariz os restos de líquido salgado. Levantou-se.

Joana: Acho que não é preciso dizeres mais nada. É melhor não dizeres mais nada. Já percebi. Vou andando. Tenho mesmo que ir. Desculpa.

Deu o primeiro passo. Depois acelerou os movimentos em sentido contrário ao de Clara. Para se antecipar à nova vaga que se aprestava para lhe cobrir o corpo. Não desejava naufragar ali aos olhos de Clara. Que desaparecia, ela própria engolida pelo mar.

publicado por Cat2007 às 21:05
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Agonizante. Espero que o amor entre Clara e Joana tenha sido um acaso. Caso contrário, Clara acabou por reduzir-se a pó. A ela e à Joana. Assim como aconteceu com Teresa e Madalena.

The Gambler a 11 de Outubro de 2016 às 23:07

Ainda vamos ver o que acontecerá entre Madalena e Teresa.
Cat2007 a 12 de Outubro de 2016 às 00:35

É impossível falar com alguém que está a enlouquecer de dor. Acasos são todos os amores, felizes acasos. São tão jovens. E os adultos tão...graves.
Catarina a 12 de Outubro de 2016 às 00:30

Talvez por isso Joana pouco disse. Embora ela própria também estivesse em dor profunda (mas diferente). Por acaso, não acho que todos os amores sejam por acaso. No caso delas, não foi. A Clara não tem razão.
Cat2007 a 12 de Outubro de 2016 às 00:38

Não vejo como. Na origem de um amor tem de estar pelo menos 1 acaso. A mesma turma por exemplo? Claro que não estou a falar em "destinos" ou estou desde que os acasos o sejam. 
Catarina a 12 de Outubro de 2016 às 00:48

Creio que existem algumas pessoas que estão destinadas a encontrar-se, existindo assim amores muito especiais. Mais um vez, a Clara não tem razão.
Cat2007 a 12 de Outubro de 2016 às 00:50

A Clara diz loucuras cegas. De lucidez não há nada. São jovens. A Joana não consegue reagir. Enfim....isto é um martírio e devia ser penalizado pelas nações unidas se tivesse ganho a Helen Clark. 
Catarina a 12 de Outubro de 2016 às 01:07

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