CAFÉ EXPRESSO

Outubro 15 2016

Teresa estava imóvel. Pequena, que não era, sentada naquele sofá enorme da sala grande a olhar para o telemóvel. Como se Madalena tivesse desparecido por ali. As lágrimas secaram totalmente assim que desligaram. A luz era ténue. Deixou-se cair para trás e largou o telemóvel no chão. Dobrou um braço sobre a cabeça e apontou os olhos para o teto. Ficou a ver as imagens da sua vida toda que passavam céleres naquele écran branco. Por isso parecia que ia morrer em poucos momentos. Fazia-se ali um balanço. Os resultados do mesmo, segundo a sua interpretação, indicavam que tinha errado muito. Subitamente ouviu as lyrics: I kinda thought that I'd be better off by myself/I've never been so wrong before/You made it impossible for me to ever/Love somebody else.

Clara: Mãe.

Teresa solevantou-se de um passo. Momentaneamente sentiu-se estrovinhada.

Teresa: Estavas aí? Puseste música.

Clara: Sim. Mãe. Porque não foi falar para o seu quarto? Era uma conversa íntima. É assim cá em casa. Foi a mãe que me ensinou.

Teresa: Não sei. Achei que não estavas. Não sei.

Clara: Acontece que eu ouvi tudo.

Teresa: A que propósito, menina?

Clara: A propósito de vir a caminho da sala quando a mãe lhe ligou. Podia ter voltado para trás. Mas queria muito saber como ia ser. Estive ali a torcer para que tudo corresse bem. Estava preocupada consigo. Perdoe-me.

Teresa: Não perdoo-o. Mas, já que ouviste, percebeste que foi o fim. Certo?

Clara: Não. Não percebi isso. Percebi que a Madalena joga muito duro. E que a mãe acreditou cegamente em tudo o que ela lhe disse. Eu vi como sofria. E as respostas que ia dando. Também chorei. Mãe. Não suporto vê-la sofrer tanto.

Teresa: Oh, querida! Para que te foste meter nisto? São os meus problemas. Eu sou adulta.

Clara: Não mãe. Ainda bem que ouvi. A mãe não está capaz de raciocinar. Está numa fase em que só sabe fazer autocritica. Está a enfraquecer-se assim. Eu sei que a mãe não tem um amigo com quem possa partilhar. Ninguém que a ajude a recompor-se. Eu sei que também sou culpada pelo seu estado atual. A mãe está extenuada. É preciso invertermos aqui os papéis. É preciso que eu cuide de si agora.

Teresa: Meu amor, não há nada que tu possas fazer. Mas agradeço-te.

Clara: Mãe. Não me escutou. Eu disse que a Madalena joga muito duro. É óbvio que não ouvi o que ela disse. Mas ouvi as suas concordâncias magoadas com o que ela ia dizendo do lado de lá. Desculpe mãe, mas a que propósito duas pessoas confessam que se amam para o resto da vida e vão separar-se? A conversa sobre o amor do passado, que morreu, não tem sentido nenhum. Se vocês se amam hoje, é porque aquele amor do passado as juntou de novo. A idade é outra mas o sentimento prolongou-se até hoje. Com o que se passou entre ambas no presente, foi dada continuidade ao amor. Até parece que morreu um amor e nasceu outro que nada tem a ver com o primeiro. Não há aqui dois sentimentos. Há apenas um. Que conversa fiada a da Madalena. Depois disseram que se não tivessem conhecido no passado, este amor do presente seria o amor das vossas vidas. Veja bem! Não acha que isto quer dizer que o amor ente ambas nunca morreu?

Teresa: Filha… como tu és lúcida! Estou a compreender. Estou a compreender que a Madalena tem medo de mim. Aliás, ela já mo disse. Ela tem medo, sim.

Clara: Mas não deve ser medo de passar pelo mesmo. É o trauma. Creio que ela lhe perdoou. Mas…

Teresa: Mas não é capaz de ir mais longe do que isto.

Clara: Ela também deve estar a sofrer um bocado, mãe.

Teresa: Mas desta vez vai ficar a sofrer. Não vou procura-la. Ela tem que fazer como eu fiz. Libertar-se dos fantasmas. Para isso é necessário ver se vale a pena ceder ao medo. Ou se o nosso amor é maior do que isso. Depois das coisas que ela me disse. Da decisão que ela tomou. De se separar de mim de vez, não vou procurá-la. Se ela tiver caráter, vai conseguir tirar-nos desta dor.

Clara: E se não tiver?

Teresa: Se não tiver, é porque foi um grande azar tê-la reencontrado.

Clara: Nem sei mais o que dizer. Temo por si. É só isso.

Teresa: Minha filha querida, já disseste muito mais do que era suposto. Estou muito orgulhosa de ti. E grata. Estás madura, querida.

Sorriu-lhe com ternura.

Teresa: Olha, e a Joana, já lhe ligaste?

Clara: Não. Estou aterrorizada.

Teresa: Mau!

Clara: Eu sou como a mãe. Ótima a resolver a vida dos outros. Desde o princípio com a Joana que estou habituada que seja ela a vir ter comigo.

Teresa: Era o que faltava que ela te procurasse. Mandaste-a embora.

Clara. Pois foi. E o pior é o que eu lhe disse. Já me lembro bem. Foi um monte de horrores.

Teresa: De que tipo?

Clara: Do tipo colocar tudo em causa. Os sentimentos, sobretudo.

Teresa: Passaste-te, portanto. Desculpa, querida. A culpa foi minha.

Clara: Não. A culpa foi minha. Eu é que sou responsável pela minha relação. Ela deve estar devastada.

Teresa: E tu como estás?

Clara: Eu? Sem apetite. Sem estímulos. Triste.

Teresa: Filha, está na hora de acabar com isso. Pelas duas. Vocês não merecem estar assim.

Clara: Nem sei que palavras vou usar quando ela me atender o telefone. Isto se atender.

Teresa: Vai atender e ficar feliz. A Joana não é uma miúda marcada. Não te procura porque é o correto a fazer. Tem que dar tempo à tua loucura. Mas estou certa que o que ela quer é que voltes para ela como eras antes.

Clara: Confio em si, mãe.

 

publicado por Cat2007 às 16:12
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Só topo que anseio que elas se vejam e que eu fique a ler um volume de alegria e felicidade entre as duas. A Madalena e a Teresa
Catarina a 15 de Outubro de 2016 às 17:07

Pois.
Cat2007 a 15 de Outubro de 2016 às 17:08

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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há "sinais" que não devemos negar :D
Se o tédio estiver instalado numa relação, então é...
o tédio pode estar na própria relação... ou não?
No entanto, de facto, não associei. Ninguém é infi...
achei graça foi associares a tua infidelidade ao t...
Já tinha saudades de ler o seu blogue.
Ok. Obrigada, querida.
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