CAFÉ EXPRESSO

Outubro 15 2016

Evidentemente, Clara não fez o telefonema da sala. Foi para o quarto. Mas não ligou. Pôs-se a flanar pelo espaço. Pensava nas palavras que iria usar de entrada. Tinham de ser certeiras. Ou ela podia descampar de uma vez por todas. “E se ela gelou?”. Consumia-se. “Passou um mês. Uma eternidade.”. Parou de pensar. Agarrou o telemóvel com muita força. Decidiu mandar uma mensagem, afinal. “Posso ligar?”. Não se sentia corajosa para falar já. “A mãe disse que ela ia ficar feliz. Tenho de confiar na mãe”. Voltou a deambular pelo quarto com o telemóvel na mão. Naturalmente desejava que ela respondesse de imediato. “E se ela não responde?”. Passaram mais de quarenta minutos em que Clara esteve a andar de trás para a frente e da frente para trás. “Ela não me vai responder.”. Concluiu isto e saiu do quarto apressada. Mas levou consigo o telefone. Foi para a cozinha. Passou pela mãe. Teresa estava na sala a tentar ler. Não lhe contou nada no momento. Fez um chá para duas. Mas tomou o seu na cozinha. Depois dirigiu-se à sala para entregar o chá da mãe.

Teresa: Obrigada, filha.

Clara: Como está hoje, mãe?

Teresa: Com o peito menos pesado. Mas com muitas saudades dela.

Clara: E como são as suas saudades?

Perguntou com ingenuidade. O que queria saber era se as saudades da mãe era como as suas.

Teresa: Vamos lá a ver, filha. Nós temos que manter aqui o respeito. Não passámos a ser duas amigas confidentes. Eu sou a tua mãe. Quando muito, tu podes falar-me das tuas saudades.

As saudades de Teresa eram do tipo das que causam ardor na pele entre outras incríveis sensações pelo corpo. Na verdade, o desejo pulsava em Teresa. Era um inferno estar a viver com o desejo vivo não corporizado.

Clara: Desculpe mãe. Era isso que eu queria realmente. Falar-lhe das saudades que eu tenho da Joana.

Teresa: Então fala, querida.

Clara continuava a apertar o telefone.

Clara: Não estou a conseguir descansar nada. Durmo muito mal de noite. E durante o dia estou sempre ansiosa. Mandei-lhe uma mensagem há uma hora atrás e ela ainda não respondeu.

Teresa: Uma mensagem… estamos cobardes, portanto. Está bem. Mas ela pode não ter visto. O telefone não toca com mensagens. Ela pode estar distraída. Ou não estar ao pé do telefone.

Clara: Mas não acha que ela devia estar ansiosa à espera que eu lhe dissesse alguma coisa? A mãe é que disse que ela ia ficar muito feliz por eu a procurar.

Teresa: Neste momento já não está colada ao telefone. Passaram algumas semanas, não é?

Clara: talvez tempo a mais.

Teresa: tem paciência, filha. Se ela não te responder deves ligar-lhe. É preciso esclarecer as coisas.

Clara: Então a mãe já acha que as coisas podem não correr bem.

Teresa: Acho que existe essa possibilidade. Mas mantenho a minha opinião inicial. Ela quer-te de volta.

O telefone deu um sinal. “Podes.”.

Clara: Mãe olhe.

Mostrou-lhe.

Vou para o quarto. Reze por mim.

Clara: Joana.

Joana: Clara.

Clara: Não me respondias.

Joana: Estava lá fora na varanda a apanhar um bocadinho de sol e a ver o rio. Deixei o telefone na sala.

Clara: Mas da tua casa não se vê o rio.

Joana: O rio Douro.

Clara sentiu-se a cair por um abismo.

Joana: Estou no Porto.

Clara: Voltaste para o Porto?

Joana: Não sei. Quer dizer. Não. Mas adoeci. Precisava e apoio. Estava sozinha. Os meus pais cuidaram de mim.

Clara: Adoeceste? Porque não me ligaste? O que te aconteceu?

Joana: Comecei a sentir muitas tonturas e vontade de vomitar. Passava a vida a vomitar. Eles foram ai buscar-me. Deixei o carro em Lisboa.

Clara: Mas porque não me ligaste?

Joana: Porque tu também estavas doente. Era necessário que te curasses.

Clara: Pois estava. Perdoa-me.

Joana: Não está aqui em causa perdoar ou não.

Clara: Então o que está aqui em causa?

Joana: Inevitabilidades. A vida. Aconteceram coisas muto graves que abalaram toda a gente.

Clara: Sim. Pois foi.

Suspirou.

Clara: Vais ficar ai até quando?

Joana: Bem, eu já estou melhor há mais de uma semana. Apenas não estava com desejo de regressar a Lisboa. Mas agora que tu melhoraste…

Clara: Agora…

Joana: Agora tenho que explicar aqui em casa a razão pela qual, depois de amanhã, vou apanhar o comboio para Lisboa.

Clara: Tens a certeza?

Joana: Tenho. No Oriente às seis da tarde.

Desligaram.

Clara correu para a sala.

Clara: Mãe. O seu carro. Vai precisar do seu carro depois de amanhã a partir da tarde?

Teresa: Não vou se tu tiveres uma urgência. E parece que tens uma urgência.

Clara: A Joana vai voltar do Porto. Tenho de ir busca-la.

Teresa: Do Porto. Pois. Faz sentido.

publicado por Cat2007 às 23:36
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Clara reagiu na altura certa...ou então tinha mesmo de ser.
Gostei ;)
The Gambler a 16 de Outubro de 2016 às 00:12

Tinha mesmo de ser. Obrigada. ;)
Cat2007 a 16 de Outubro de 2016 às 13:05

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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