CAFÉ EXPRESSO

Outubro 20 2016

Clara atravessou o largo corredor com a alma muda. Quando chegou ao pé de Joana ainda não conseguia falar.

Joana: Mas tu estás branca! O que aconteceu?

Clara: Olha, Joana, nem sei o que te dizer…

Joana: A tua mãe não me quer cá em casa.

Clara: Não, querida. Não é isso. Mas temos que sair. Temos que ir passar a noite a tua casa.

Joana: Ela também te mandou embora?

Clara: Joana, querida, acalma-te, por favor. Eu surpreendi-as na cama.

Joana: O quê? A quem?

Clara: A minha mãe está com a Madalena no quarto… na cama.

Joana: E tu viste…

Clara: Vi.

Joana: Que horror! Que vergonha inacreditável.

Clara: Pois é. E agora não sei o que fazer. Não tenho lata para falar com ela.

Joana: E ela não vai aparecer por aí agora?

Clara: Não. Aqui em casa não funciona assim. Se ela quiser falar comigo simplesmente bate à porta. Não vai abrir como eu, estúpida, fiz.

Joana: Não entendo muito bem esses rituais. Mas confesso que, agora, dão jeito. E também tinham dado muito jeito se tu os tivesses cumprido.

Clara: Pois. Mas não cumpri. E agora está criada esta situação extremamente constrangedora.

Joana: Mas não podemos ir embora assim sem mais nem menos. Tens que lhe dizer alguma coisa. Senão ela ainda morre de susto.

Clara: E o pior é que isso é verdade. Tenho que lá voltar e bater à porta e depois vou para a sala esperar por ela. Meu Deus, vai ser de fugir!

Joana: Então é melhor ires já. Quanto mais depressa fizeres a coisa, melhor.

Clara: Achas?

Joana: Acho, meu amor lindo.

Clara: Mas eu ainda estou em estado de choque. Vou tremer. Olha nem sei como lhe falar.

Joana puxou-a para si. E abraçou-a com firmeza.

Joana: Não te preocupes. Vai correr tudo bem. Eu estou aqui.

Clara soltou-se suavemente dela.

Clara: Vou lá, então.

Voltou a atravessar o corredor largo. Já não se ouvia música. Bateu à porta e retirou-se.

Madalena: Eu não acredito que isto me aconteceu outra vez nesta casa!

Teresa emitiu um riso nervoso.

Teresa: Que nos aconteceu, se fazes favor. Fomos surpreendidas a fazer amor pela minha mãe e agora pela minha filha. Não há pachorra para estas ironias da vida.

Madalena estava trémula.

Madalena: E agora, o que pretendes fazer?

Teresa: O que pretendo fazer, como assim? Eu não pretendo fazer nada, ora essa! Sou uma mulher adulta que já escolheu o seu destino. E ela sabe qual é.

Madalena: E disseste-lhe que o teu destino era comigo?

Teresa: Isso não. Porque tu ainda não aceitaste o meu pedido de namoro.

Madalena: Não sei como tens espírito para te pores com piadas.

Teresa: O que queres que faça? A miúda entrou aqui. Ninguém a mandou entrar. Viu o que não queria. E que eu também não queria, claro.

Madalena: É uma vergonha, Teresa. Como vais enfrentá-la agora?

Teresa: Enfrentá-la? O que vai nessa cabeça, mulher.

Madalena: Tu estás a sério, querida? Isto que aconteceu não tem consequências para nós?

Teresa: Madalena, mas afinal que idade é que tens? Porque haveria de ter? É só um pequeno constrangimento. Nada mais.

Madalena: Olha, estão a bater à porta.

Teresa: É ela a dizer que quer falar-me. Tenho que lá ir.

Madalena: Mas eu não. Eu não quero vê-la outra vez. Não agora.

Teresa: Mas tu estás mesmo tonta. A que propósito eu te levaria agora para falar com ela? Só se fosse para infernizar a cabeça da miúda que, convenhamos, deve estar morta de vergonha.

Madalena: Também eu estou morta de vergonha. Admira-me é que tu não estejas.

Teresa: Eu sinto algum embaraço. É natural. Mas morta de vergonha… é ridículo. Eu já venho querida.

Clara estava de pé à espera da mãe. Não se poderia sentar calmamente. Porque não estava calma. Quando a viu aproximar-se sentiu um pequeno disparo no coração. As faces ficaram afogueadas. Pousou os olhos no desenho do tapete. E deixou-os para lá ficar. Teresa caminhou na sua direção e deu-lhe um beijo. Clara, confusa, não conseguiu retribuir.

Teresa: Olá filha. Sejas bem aparecida. Tanto tempo fora de casa. Estava cheia de saudades tuas.

Clara: Mãe, desculpe. Eu não queria ferir a sua intimidade. Fiz muito mal em ter entrado no quarto. Mas estava com saudades e feliz. Não imaginava…

Teresa: Não imaginavas que a Madalena pudesse estar cá em casa.

Clara: Pois. E…

Teresa: E mais nada. Foi uma chatice tu teres aberto a porta do quarto. Peço-te que não repitas. Mas já és crescida. Claro que ninguém quer ver os pais em certas figuras, mas não serás certamente a primeira a quem isso acontece. Vamos. Esquece isso e recupera-te lá.

Clara sorriu, por fim.

Clara: Está bem, mãe.

Teresa: Muito bem. Assim é que se fala. Olha, ainda falta um bocadinho para a hora a hora de jantar. Vamos mandar vir qualquer coisa de fora e, mais logo, jantamos as três.

Clara: Mãe… é que a Joana também está cá em casa.

Teresa riu-se.

Teresa: A Joana? Santo Deus! Mas isto parece uma cena de manicómio. Porque não me avisaste que a ias trazer? Aliás, porque não me disseste que vinhas hoje para casa?

Clara: Mãe eu nunca precisei de dizer que vinha para casa. Depois, achei que podia fazer-lhe uma surpresa. A Joana veio para a mãe ver com os seus próprios olhos como estamos ótimas.

Teresa: Logo hoje que está cá a Madalena. Elas tiveram aquele caso… tu sabes. É capaz de ser constrangedor para elas.

Clara: Pois.

Teresa: Paciência. Seja o que Deus quiser. Hoje jantamos aqui as quatro. Agora vai fazer companhia à Joana. Quando forem horas, eu bato-te à porta.

Clara: E a mãe vai ter com a Madalena lá para dentro para o quarto?

Teresa: Então o que é isso, menina? Que falta de respeito é essa?

Clara: Desculpe, mãe. Ainda estou um bocadinho desnorteada.

Teresa sorriu e beijou-lhe a face.

publicado por Cat2007 às 21:04
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A juiza decidiu-se e como tal tudo se vai decidir. Realmente. Se Teresa saiu do seu próprio Inferno para lá já não se deixa voltar. Giro será ver a dinâmica do jantar. A certa altura a dor deixa de ter espaço. Já o teve. E a mãe mantém a autoridade. Não fosse a filha ficar convencida que tinha de amparar a mãe na saída de uma vida de mentira. Queria verdade? Teve-a quando abriu a porta do quarto. Isto sou eu a adorar ter lido. A certa altura já são tantas peripécias que parece o pátio das cantigas. Caminha para um final feliz? Já se deu para o peditório do Drama. Waiting for the next. Epah e a Madalena?
Catarina a 20 de Outubro de 2016 às 23:33

A Madalena é agora o caso mais complicado desta história.
Cat2007 a 21 de Outubro de 2016 às 09:43

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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