CAFÉ EXPRESSO

Outubro 23 2016

Como era esperado, o jantar começou num silêncio desassossegado, onde se ouvia o barulho exaltado dos talheres a bater nas travessas e nos pratos coloridos. Comiam indiano. E bebiam vinho tinto. Por vezes, as bases dos copos batiam inadvertidamente nas ourelas dos pratos, denunciando também a inquietação ali aformalada. Sabia-se que aquele jantar não era uma mera circunstância. Não estavam ali para se conhecer melhor no âmbito de um simpático convívio onde a comida era boa e o vinho ajudava a descontrair. Não se esperavam atos indulgentes nem compassivas atitudes. Porque cada uma entendia que tinha fiúzas que deviam ser satisfeitas e nenhuma aceitava, por outro lado, que devia satisfações. Mas há medida que os segundos passavam, crescia a necessidade de interromper aquele silêncio. Só para o interromper. Assim, aquietaram-se as intenções primárias e foi em tom mudo que todas decidiram que se acolheriam umas às outras com a amabilidade devida, como determinam os mais básicos deveres de educação. Foi então que Teresa pôde falar.

Teresa: Clara já conheces a Madalena.

Podia ter encetado a conversa num outro ponto menos melindroso. No entanto, não lhe foi possível. Apesar de bem saber que a camada de “verniz” que envolvia a atmosfera era demasiado frágil, Teresa sentia-se segura e tinha pressa.

Clara: Só de vista da faculdade. Nunca conversámos.

Madalena: Sim. É verdade, nunca conversámos.

Clara: Mas eu já sei algumas coisas de si. E a Madalena também já deve saber algumas coisas de mim.

Sorriu para Madalena e o ar estremeceu um pouco.

Teresa: Então este jantar é bom para aprofundarmos conhecimentos. Eu, por exemplo, já conheço a Joana. Mas mal trocámos palavra. Gostava de a conhecer melhor.

Ouviram-se pequenos suspiros.

Joana: Eu também gostava muito de a conhecer melhor. Afinal é a mãe da Clara e…

Clara: E nós estamos apaixonadas.

Parecia que Clara não estava disposta a respeitar o ajuste inicial.

Joana baixou o tom de voz e dirigiu-se a Clara.

Joana: Querida, não é preciso começarmos isto logo com uma declaração de interesses.

Teresa: E porque não Joana? Creio que é por causa disso, por estar apaixonada pela minha filha, que veio com veio com ela cá a casa hoje. Segundo julgo saber, era até para me fazerem uma surpresa.

Joana: Eu peço desculpa por ter aparecido sem avisar.

Madalena: Ora, Joana. Não é preciso seres tão formal.

Teresa: A Joana é do Porto, não é?

Teresa infletiu. Porque fez alguma fé na possibilidade de se seguir ali um procedimento pacífico.

Joana: Sim. Mas não tenho intenções de voltar a viver no Porto.

Madalena: Por causa da Clara?

Clara: Como é evidente.

Clara largou os talheres e cruzou automaticamente os braços.

Teresa: A pergunta não era para ti, filha.

Clara: Sim. Tem razão mãe. Desculpe, Madalena.

Teresa: Creio que ambas vão chumbar este ano letivo.

Madalena: Sem dúvida.

Teresa: E o que pretendem fazer?

Clara: Namorar.

Teresa: Filha, por favor, a vida não é assim. O que me diz a Joana?

Joana: Nós vamos terminar o curso, arranjar emprego e depois, mais tarde, haveremos de ir viver juntas. Este ano foi diferente, mas nós somos boas alunas, como deve saber.

Teresa: Desculpe. Sei que a Clara é boa aluna. E acredito que a Joana também seja. Mas viver juntas…

Clara: A Joana é ótima aluna.

Madalena: É verdade.

Clara: Sim, viver juntas, mãe. Mais tarde. É o que fazem as pessoas que se amam.

Madalena: Também tive esse sonho quando era da vossa idade.

Clara desviou o olhar da mãe e centrou-se em Madalena.

Clara: Desculpe a pergunta, Madalena. Mas alguma vez esteve apaixonada pela Joana?

Clara estava farta de ver Madalena a bedelhar intermitentemente sobre a vida dela com Joana, tentando agora falar de si própria para se vitimizar, condenado Teresa. Não lho permitiria. Não às suas custas e de Joana. De resto, Estava ali para saber coisas de Madalena. E não haveria de terminar o jantar sem colocar todas as suas questões. Clara fez assim estalejar definitivamente aquela camada de verniz já crepitado que mal as ia sustentando. Foram invadidas por uma pequena corrente de ar frio.

Joana: Não. Não esteve.

Madalena: Não é bem assim, Joana. Estive encantada. Ela é linda e ótima pessoa.

Disse estas últimas palavras num sorriso franco e a olhar para Clara.

Clara: Uma ótima pessoa é alguém que não dá chatices.

Madalena: Noto alguma animosidade em si, Clara.

Clara: Desculpe, Madalena. Não queria passar a ideia de que estou a embirrar consigo. Porque, honestamente, não estou. A questão é que tenho uma certa necessidade de a conhecer melhor. De saber coisas de si. O último mês nesta casa foi horrível. Todas sofremos muito. A mãe, a Joana e eu. Quanto a si, não sei como passou. Gostava que nós as quatro aproveitássemos este jantar para falar com abertura. Acha que pode falar-me com abertura?

Madalena: Claro que posso. Pergunte-me o que quiser.

publicado por Cat2007 às 14:57
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Brincais? E as cenas do próximo capítulo? Continua por favor!
Catarina a 23 de Outubro de 2016 às 15:38

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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há "sinais" que não devemos negar :D
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