CAFÉ EXPRESSO

Outubro 23 2016

Joana: O que significa para si estar encantada?

Madalena: Para mim, é estar seduzida com alegria.

Clara: Pelo físico, neste caso?

Madalena: Sim.

Clara: E chegam-lhe relações estritamente físicas?

Madalena: Sim. Chegam-me. A si não, não é? É natural na sua idade.

Clara: Sim. Na minha idade as pessoas são sempre menos cínicas.

Madalena: É verdade. Aliás, a idade também foi uma das razões porque me envolvi com a Joana. Com ela vivi a pequena ilusão de regressar à juventude. Não que eu não me sinta e não seja uma mulher jovem. Acontece é que voltei um pouco aos meus vinte anos. Uma fase da minha vida em que as minhas emoções estavam bem arrumadas e eram puras.

Clara: Estou a ver. Mas não esteja sempre a puxar o assunto para o lado da minha mãe. Não é sobre ela que estamos a falar agora.

Madalena: Eu, quando falo de mim, acabo sempre por chegar à sua mãe.

Teresa: E tiveste, durante estes últimos vinte anos, muitos regressos ao passado assim do mesmo género?

Madalena: Não. A Joana foi o meu único caso com uma pessoa mais nova.

Joana: E como se sente uma mulher quando usa sexualmente outra? Foi disso que se tratou, afinal. Não foi?

Madalena: Que disparate! Claro que não. Entre nós não existia uma paixão devoradora. Mas havia atração de parte a parte. Foi uma relação curta. Mas, ficámos boas amigas. E isso é que é importante.

Joana: É verdade.

Clara: Uma paixão devoradora como a que sente pela minha mãe, Madalena?

Madalena: Clara, desculpe. Mas está a interrogar-me. Não sei se me sinto muito confortável com o tom que está a usar.

Clara: Não tem que responder, se não quiser.

Madalena: Não. Eu respondo. Já lhe disse. Respondo porque quero. Sabe, eu também acho importante que fique esclarecida sobre o que se passa entre mim e sua mãe.

Clara: Noto alguma animosidade em si?

Madalena ficou visivelmente irritada. Olhou para Teresa.

Madalena: Agora que fez essa pergunta, sou obrigada a responder-lhe que sim.

Teresa: Filha, estás a ser rude na forma como colocas as questões. E de facto, isto aqui não é um interrogatório. Além do mais, não tens autorização para ser descarada.

Clara: Desculpem. Eu só quero que esta conversa corra bem. Para o bem de todas nós. Mas cada vez que me ocorre uma questão…

Madalena: Fica enervada. Deixe lá. Com a maturidade virá a calma.

Joana: Madalena!

Clara: Deixe lá. Com a maturidade há-de chegar o bom senso.

Teresa: Isto não está a correr nada bem. E, portanto…

Madalena: Portanto, nada. Há que continuar. E pode ser a discutir. Não me incomoda e até prefiro

Clara: Pode ser a discutir sim. Porque, tenho que lhe dizer, a Madalena irrita-me profundamente.

Madalena: Ai sim? E porquê, se nem me conhece? Tem ciúmes da Joana?

Clara: De facto, fala como se tivesse muito pouca idade. E ainda se atreve a dizer que eu não sou suficientemente madura. E não serei. Mas fique sabendo que eu nunca tive ciúmes da Joana. Não depois de estar apaixonada por ela. Quando compreendi que gostava da Joana, já vocês tinham terminado. Terminado por causa do seu grande amor da vida que era precisamente a minha mãe. Ora, que grande ironia.

Joana: Acho que é melhor termos calma.

Teresa: Deixe, Joana. Elas que se entendam.

Madalena: Ora, Teresa. Deixa de ser paternalista. Entendemo-nos se for caso disso. Senão for, não nos entenderemos mesmo.

Clara: Pois é isso mesmo. Sabe o que eu acho? Acho que a Madalena está ressentida comigo. Porque eu simbolizo o seu abandono de há vinte anos atrás. A minha mãe deixou-a e não voltou mais para si porque eu nasci.

Madalena: A menina está a fazer aqui psicologia de almanaque.

Teresa: Desculpa, Madalena mas eu acho que não está. De facto, a Clara é o carpo que nasceu na sequência da nossa separação. Por isso, e como ela diz, simboliza a nossa rotura.

Clara: Carpo, mãe?

Teresa: Fruto, filha.

Madalena: Sim. Simboliza. Mas o meu ressentimento vai todo para ti.

Teresa: Pensei que me tinhas perdoado e que já não havia ressentimento. Tivemos longas conversas sobre isso.

Joana: Eu creio que a Madalena ainda se agarra a essas ideias apenas para se proteger.

Madalena: E eu creio que duas miúdas não podem dar-me lições. Era o que faltava. Nem tu, Teresa. Esta é a minha área neste amor. A da dor. Só eu é que sei como foi passar por esta dor. Mas, Clara, eu respondo-lhe à pergunta que fez lá atrás. Sim. Sinto uma paixão devoradora pela sua mãe. Precisa que eu lhe explique o que isso é?

publicado por Cat2007 às 15:40
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